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sexta-feira, 24 de junho de 2011

Crônica da vida de uma mulher

Crônica da vida de uma mulher. Arthur Schnitzler. Rio de Janeiro: Editora Record, 2008. Tradução de Marcelo Backes.

Lido entre 11 e 19 de maio de 2011.

Crônica da vida de uma mulher foi o último trabalho publicado por Arthur Schnitzler, em 1928, três anos antes de sua morte. Teve uma primeira edição de 30 mil exemplares, algo extraordinário para a época.
Narra a história de Therese Fabiani dos 16 até os 40 anos. Therese era filha de um militar e de uma mulher de ascendência nobre.  Morava com os pais e o irmão mais velho, Karl, em Viena. Com a aposentadoria do pai, foram residir em Salzburgo. Lá o pai revelou os primeiros sinais de loucura, um tema que aparece em quase todos os trabalhos de Schnitzler. Sua internação em uma instituição psiquiátrica precipitou a desagregação da vida de Therese que é, afinal, o tema do romance. O irmão deixou a casa e foi residir em Viena. Therese iniciou então um inocente namoro com um colega de Karl, Alfred Nüllheim. Sua mãe, contudo, a encorajava a aceitar a corte do velho conde Benkheim que poderia proporcionar melhores condições à família. Therese repeliu a ideia. Logo, Alfred foi para Viena para estudar medicina prometendo casar-se com Therese depois da formatura. Nesse meio tempo, ela estava flertando com o tenente coronel Max. Perdeu a virgindade com ele e tornou-se sua amante. Saía de casa e retornava de madrugada ou na manhã seguinte, sendo que sua mãe era completamente indiferente a esse comportamento. Alfred acabou descobrindo e rompeu com Therese. Ela terminou o romance com Max e foi morar sozinha em Viena, onde pretendia trabalhar como preceptora. A mãe, que passou a se dedicar a escrever romances populares, não manifestou nada quando da quase fuga da filha. 
Em Viena, Therese começou sua vida errante de preceptora, de casa em casa. Vivia completamente sozinha. Às vezes se aproximava de uma criada ou governanta de uma família próxima da de seus empregadores. Conheceu um homem, músico e pintor, chamado Kasimir Tobisch. Tornaram-se amantes e Therese engravidou. Pensou diversas vezes em abortar, mas não teve coragem. Tobisch, ao saber da gravidez, desapareceu. Teve o filho, um menino, na pensão da senhorita Nebling. Pensou em matar o filho na hora em que ele nasceu. Therese conseguiu uma família de camponeses em Enzbach, próximo a Viena, para cuidar do menino. 
Ela voltou então à sua vida de preceptora. Em algumas casas passava mais tempo, em outras ficava poucos dias. Às vezes se afeiçoava às crianças, às vezes não. Testemunhava dramas familiares e histórias felizes. Quando tinha folga, visitava o pequeno Franz que crescia com a família Leutner. De tempos em tempos, envolvia-se com um homem. Em geral, entregava-se logo e o relacionamento não durava muito. De um de seus amantes, o Conselheiro Ministerial Bing, engravidou. Fez um aborto sem que ele soubesse. Reencontrou Alfred, agora médico psiquiatra. Depois um tempo, tornaram-se amantes. O relacionamento acabou e Alfred casou com outra moça. 
Visitava, de vez em quando, a mãe e o irmão. O irmão era médico, mas seu interesse maior era a política. Estava engajado em uma partido nacionalista e antissemita. Em uma das casas em que trabalhou, se afeiçoou muito ao menino Robert, a ponto de sentir  culpada por não sentir o mesmo pelo filho. Se apaixonou por um jovem estudante chamado Richard, que lhe foi apresentado pela amiga Sylvie. O rapaz se suicidou. 
Franz, à medida em que crescia, apresentava um comportamento difícil. Therese acabou alugando um apartamento para morar com o menino e dar aulas particulares. Mas o menino, depois de alguns meses, não foi mais à escola. Passou a roubar-lhe dinheiro e a desaparecer de casa, até que um dia foi embora e não retornou mais. Entre as suas alunas, Therese se afeiçoou a Thilda. A moça a convidou para a sua casa e seu pai, o senhor Wohlschein, um abastado comerciante, pediu Therese em casamento. Thilda casou e foi morar na Holanda. Wohlschein faleceu subitamente. 
Franz tornou-se um marginal. Era preso, saía de prisão, voltava a ser preso. Aparecia na casa de Therese ou mandava amigos até lá para pedir dinheiro. Muitas vezes a ameaçava. Numa das vezes chamou-a de prostituta e cobrou dela sua condição de filho bastardo. Em uma ocasião, querendo dinheiro e diante da negativa de Therese a atacou e a matou. Ela, antes de morrer disse a Alfred, que foi chamado, que o filho não era culpado, pois ela quase o matara quando ele nasceu. 
A história de Therese me lembrou os quadros de Edward Hopper, especialmente The Hotel Room. É uma história sobre a solidão da vida contemporânea urbana. Durante milênios, os homens viveram em comunidades nas quais se relacionavam com as mesmas pessoas, familiares e vizinhos, por toda a vida. Os laços eram quase eternos. As cidades mudaram esse panorama, mas não muito até o século XIX. A disseminação da prestação de serviços criou esse mundo de laços fugidios ao qual estamos acostumados e que Schnitzler retratou de forma tão precisa em Crônica da vida de uma mulher. A vida de preceptora e de professora particular de Therese é essa vida estranha em que há uma enorme proximidade e intimidade com alguém e, algum tempo depois, essa pessoa desaparece para sempre. Quem trabalha em uma empresa ou repartição pública conhece isso muito bem. Não sei se Schnitzler desejou mostrar isso, mas foi o que mais me chamou atenção.
The Hotel Room - Edward Hopper
O autor, sem dúvida, quis explorar o tema da culpa. Therese se sentia culpada pelo nascimento bastardo do filho, por ter desejado a sua morte, por tê-lo deixado aos cuidados dos Leutner, por deixar, muitas vezes de visitá-lo para ficar com seus amantes, por amá-lo menos do que amou alguns de seus pupilos. E é essa culpa que ela expia com sua morte pelas mãos de Franz. Mas todas as mães, mesmo as mais exemplares, se sentem culpadas. Therese não leva em consideração que ela teve Franz, quando poderia tê-lo abortado, trabalhava para mantê-lo com uma família decente, levou ele para morar com ele quando pode, tolerou seus roubos e indisciplinas enquanto pode.
Marcelo Backes, o tradutor, sugere que a história de Therese poderia ser uma alegoria da decadência do Império Austro-Húngaro. Afinal, no início ela parecia ter um futuro promissor. Seu pai era militar, sua mãe era educada e ela teve a perspectiva de casar-se com o médico Alfred. E uma série de reveses a levam à decadência e morte. É uma possibilidade.
A narrativa, como todas de Schnitzler, é primorosa. Sem ter exatamente uma ação principal a desenvolver, o autor prende a atenção do leitor até o final.

sábado, 11 de junho de 2011

O retorno de Casanova

O retorno de Casanova. Arthur Schnitzler. São Paulo: Cia das Letras, 1988. tradução de Günther H. Wetzel.

Novela curta de Arthur Schnizler publicada em 1918, cria, ficcionalmente, um episódio da vida do aventureiro italiano Giovanni Jacobo Casanova (1725-1798).
Aos cinquenta e três anos, Casanova, empobrecido e esquecido, resolveu retornar à sua cidade natal, Veneza, de onde fora banido vinte e cinco anos antes, por ser uma opositor político da república. De passagem por Mântua, reencontrou um velho conhecido, Olivo. Vários anos antes, Casanova ajudou Olivo a casar-se com sua amada, Amalia, dando-lhes uma soma em dinheiro. Em retribuição, Amalia passou uma noite com ele. Em Mântua, Olivo convidou Casanova a conhecer sua próspera propriedade e suas três filhas. Casanova, esperando ansioso uma resposta do Conselho Supremo de Veneza, autorizando seu retorno, declinou do convite. Mudou de ideia, todavia, quando Olivo mencionou uma sobrinha órfã que morava com ele, Marcolina. Casanova partiu com Olivo. Lá chegando, encontraram as três filhas, Maria, Nanetta e Teresina, de oito, dez e treze anos, respectivamente, e Amalia. E encontraram a jovem Marcolina, a quem Casanova decidiu conquistar.
Amalia, por sua, vez, num momento oportuno, expressou seu desejo de voltar a dormir com o sedutor. Descobrimos, então, que a mãe da senhora Olivo também fora amante de Casanova. Mas ele só queria Marcolina.
Marcolina era uma moça de inteligência ímpar que dedicava seu tempo ao estudo da matemática e da filosofia. Discutiu com Casanova uma polêmica que tinha ele com Voltaire. À noite, reuniu-se um grupo em casa de Olivo para conhecer o ilustre convidado e jogar: o marquês e a marquesa Celsi, os irmãos Ricardi, o abade Rossi e o tenente Lorenzi. Casanova logo intuiu que Marcolina e Lorenzi tinham um relacionamento.
Ao final da noite, Casanova falou a Amalia que desejava possuir sua sobrinha. Ela respondeu que Marcolina jamais se entregaria a nenhum homem, que já recusara vários pedidos de casamento. Durante a madrugada, Casanova, insone, surpreendeu Lorenzi saindo dos aposentos de Marcolina.
No dia seguinte, Casanova recebeu uma carta de Bragandino, do Conselho de Veneza. Ele propunha que Casanova retornasse e servisse de espião para o Conselho mediante uma vultosa quantia
À noite, Lorenzi, que ao que tudo indicava era amante da marquesa, perdeu uma grande quantia para o marquês no jogo e deveria pagar até a manhã seguinte. Casanova propôs um negócio a Lorenzi: ele lhe daria o dinheiro e em troca ele deixaria ele - Casanova - dormir com Marcolina em seu lugar, sem que ela percebesse. Lorenzi aceitou. Durante a madrugada, foi feito o embuste. Mas Casanova dormiu e acordou com o olhar de nojo e desprezo de uma horrorizada Marcolina. Ele fugiu, praticamente nu e encontrou Lorenzi que o desafiou para um duelo. Querendo ficar em igualdade de condições, o tenente também se despiu, revelando seu corpo jovem e perfeito. Casanova matou Lorenzi e fugiu para Veneza, aparentemente aceitando a oferta do Conselho Supremo.
O tema aqui explorado por Schnizler é a velhice e suas consequências: a perda do vigor, da beleza física, da atratividade ao sexo oposto. O Casanova de Schnizler não é absolutamente um homem repulsivo. Ele é amante de sua hospedeira em Mântua, é desejado ardentemente por Amalia e, em uma cena, ao mesmo tempo ousada e natural, deflora a filha mais velha de Olivo, Teresina, de treze anos. Mas é a juventude, a mulher jovem que ele quer e que não se encontra mais em condições de conquistar. Em dois momentos ele se olha no espelho e vê que que aquele homem, balofo e flácido, não tem como competir com Lorenzi, no auge de sua beleza e de seu vigor físico. E isso é algo inexorável, insolúvel.
O único ponto da história que não é ficcional é o fato de que Casanova foi sondado para atuar como espião pela república de Veneza. O resto é criação de Schnizler.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Senhorita Else


Senhorita Else. Arthur Schnizler. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. Tradução de Marijane Lisboa.

Senhorita Else é uma curta novela de Arthur Schinizler publicada em 1924 em monólogo interior.
Else é uma jovem vienense de dezenove anos, filha de um renomado advogado, que é viciado em jogo e vive afundado em dívidas. Ela está em um hotel em São Martino, na Itália, com a abastada tia Emma e seu primo Paul. No hotel também estão a senhora Cissy Mohr, uma mulher casada que está tendo um caso com Paul, e o senhor Dorsday, um velho conhecido do pai de Else.
Else recebe então uma carta de Viena na qual sua mãe, desesperada, revela que, caso seu pai não pague uma quantia de trinta mil florins, em poucos dias, será recolhido à prisão. A mãe sugere que, sabendo que o senhor Dorsday se encontra no mesmo hotel de Else, a moça peça a quantia a ele. Else hesita, mas acaba fazendo o pedido. Dorsday, então, propõe uma troca: ele manda o dinheiro ao credor de seu pai em troca de vê-la nua em seu quarto ou em uma clareira no bosque. A jovem, cada vez mais confusa, começa a pensar em suicídio, já que possui várias cápsulas do remédio veronal em seu quarto. Nesse meio tempo, chega um telegrama da mãe informando que a dívida passou para cinquenta florins. Else se despe, veste um casaco por cima e se dirige à sala de música do hotel, onde há diversos hóspedes, entre eles um jovem com quem vinha flertando e Dorsday. Ela despe o casaco e desmaia. Seu primo Paul, que é médico, a leva para o quarto. Lá, em um momento de distração de Paul e de Cissy, Else toma o veronal e morre.
Os temas são os tradicionais de Schniztler: hipocrisia, desejo e morte. A mãe de Else, quando faz o pedido, sabe que Dorsday pedirá uma contrapartida à filha. A vergonha da prisão é menor do que o comércio da moça. Else, por sua vez, fica enojada com o pedido do velho, mas também envaidecida. O tempo todo se compara com Cissy, a amante do Paul, percebendo ser mais atraente. E sente óbvio prazer em se despir e sair despida debaixo do casaco. E a morte está presente desde o início. Desde que recebe a carta, Else pensa na morte do pai e em sua morte como solução para o problema. O interessante é que mesmo que a narrativa se encaminhe para o óbvio - Else fala o tempo todo que quer morrer, chega a imaginar o próprio velório, sonha com a morte, fala no veronal repetidas vezes - nos surpreendemos com o desfecho, graças à habilidade de Schniztler.
Para quem se interessa por estilos narrativos, Senhorita Else é um ótimo exemplo de monólogo interior.

domingo, 15 de maio de 2011

O Caminho para a liberdade


O Caminho para a liberdade. Arthur Schnitzler. Editora Record. 2011. tradução: Marcelo Backes.

Lido entre 15 de 29 de abril de 2011.

A melhor definição para O caminho para a liberdade de Arthur Schnitzler foi dada pelo tradutor Marcelo Backes: um antirromance de formação.
O protagonista, barão Georg von Wergenthin perdeu a mãe aos 18 anos e o pai, recentemente, aos trinta e poucos. Vive em Viena com seu irmão Felician. É compositor de música erudita e pretende tornar-se regente de orquestra. Recém terminou um romance com uma moça que é apenas citada . Frequenta diversas casas: a dos Ehrenberg, onde flerta com Else e Sissy e a dos Rosner, onde paquera Anna. Também frequenta os irmãos Leo e Therese Golowski: ele, sionista; ela, ativista política. Também mostra interesse por Therese. Georg torna-se amigo do escritor Henrich Bermann. O pai de Heinrich fora um político judeu importante, mas se encontrava em um sanatório com problemas mentais.
A história se passa entre o fim de setembro de 1898 e fim de outubro de 1899. Os únicos não judeus citados são o protagonista, os Rosner e Sissy.
Georg torna-se então amante de Anna. Ela engravida. Eles viajam um tempo juntos. Depois ele a instala em uma casa nos arredores de Viena, onde ela fica aos cuidados da senhora Golowski. Ele continua sua vida despreocupada na cidade, enquanto a criança cresce na barriga de Anna. Ele a visita diariamente, mas só se instala na casa pouco antes do bebê nascer. Depois de um parto longo e difícil, o menino nasce morto.
Georg recebe então uma proposta para ser regente em uma orquestra em uma pequena cidade na Alemanha. Incentivado por Anna, ele vai. Quando retorna para uma visita, o relacionamento termina, ou termina de terminar.
Eis um antirromance de formação. Num romance de formação, o protagonista começa em lugar e termina em outro. Penso em dois, um clássico, Os Anos de Aprendizagem de William Meister, e em uma contemporâneo, Invisible, de Paul Auster. O herói de Schnitzler não vai a lugar algum. Ele circula entre casas, restaurantes, teatros. Tem ideias para composições que nunca se concretizam. Torna-se amante de Anna, não por amor, afinidade ou atração, mas por que ela deu a ele oportunidade. Poderia ter sido Else, Sissy ou Therese. Encara a gravidez da moça com leviandade: todos esperam, Anna mais do que todos, a proposta de casamento e Georg, quando pensa no assunto, deixa a decisão para depois. A morte de filho - é digna de nota a beleza da cena em que Goorg vê o bebê morto - não mudou Georg em nada. Ele recebeu a decisão de Anna de deixá-lo com alívio, der Weg ins Frei.
Georg é um doutor Gräsler - o médico das termas - mais jovem.
A questão do judaísmo no Império Austro-Húngaro permeia toda a narrativa. Schnizler era amigo de Theodor Herzl, fundador do sionismo moderno que em 1897, num congresso em Basileia, na Suiça, postulou a criação de um Estado judeu na Palestina. Em um trecho há uma grande discussão entre Leo Golowski e Bermann, no qual o primeiro defende a migração para a Palestina e o segundo, a assimilação. Há uma passagem premonitória quando Leo exclama “Hum, mas e quando as fogueiras medievais voltarem a ser acesas?”. Ao que Heinrich responde: “Nesse caso, e me comprometo solenemente a isso, vou seguir exatamente o que o senhor indicar”. E Georg completa: “Oh, mas esses tempos jamais voltarão”.
O contexto político, com os alemães-nacionalistas e sociais-democratas também aparece no livro, embora de forma mais sutil.
Convém lembrar ainda as recorrências de Schnitzler. A loucura, representada pelo pai de Bermann, as narrativas dos sonhos, o personagem médico, as ruas de Viena. Os nomes Therese, Sissy, Else. Há também utilização de episódios auto-biográficos. O principal é a perda do filho. Em 1887, Schnizler teve um relacionamento com a cantora Marie Reinhard. Ela engravidou e a criança nasceu morta nos arredores de Viena.
Finalmente, para quem se interessa em construção da narrativa, Arthur Schnitzler é um narrador primoroso. Narra com aquela naturalidade que nos faz esquecer que estamos diante de ficção. E é ótimo na construção de diálogos.