segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A Paz Conjugal (julho de 1829)

Personagens: conde e condessa de Gondreville, coronel Montcornet, Barão Marcial de La Roche Hugon, conde e condessa de Soulanges, condessa de Lansac, senhora Vaudremont.

A história se passa em 1809.

A Paz Conjugal começa com um retrato delicioso do período do Império. “Nunca, no dizer dos contemporâneos, Paris vira festas mais belas do que as que precederam e se seguiram ao casamento desse soberano com uma arquiduquesa da casa da Áustria; nunca, nos mais faustosos dias da antiga monarquia, tantas cabeças coroadas se reuniram nas margens do Sena, e nunca a aristocracia francesa fora tão rica, nem tão brilhante como então. Os diamantes profusamente prodigados nos adornos, os bordados a ouro e prata dos uniformes contrastavam tão bem com a indigência republicana que se tinha a impressão de ver as riquezas do globo a rolar nos salões de Paris.Uma embriaguez geral como que se havia apoderado desse império de um dia”. A breve descrição revela o sentimento de efemeridade de quem viveu a época, bem como os costumes, através de tiradas como essa: “De um primeiro a um quinto Boletim do Grande Exército, uma mulher podia ser sucessivamente amante, esposa, mãe e viúva”.
Em seguida, estamos em um baile. E lá, Balzac dá início a uma complexa e bem articulada trama. No baile em casa dos Gondreville, o conde de Soulanges cortejava a senhora Vaudremont. A senhora Vaudremont, ao que tudo indica preferia Marcial. Marcial, por sua vez, observava uma bela desconhecida, enquanto ostentava um rico brilhante no dedo. Apostou com o coronel Montcornet que conseguiria dançar com a beldade. Afinal, conseguiu. A mulher, então, o provocou, pedindo que Marcial desse a ela o caro brilhante que exibia. Ele lhe deu a joia. Ela então revelou ser a condessa de Soulanges, cujo marido havia roubado o brilhante, que era dela, para dar a senhora Vaudremont que, por sua vez, o dera a Marcial. Enquanto isso, a condessa de Landsac, velha dama que armara tudo, explicava a trama à irritada senhora Vaudremont. Foi reestabelecida, então, a paz conjugal.
Colocar tudo isso em um texto claro e bem escrito não é tarefa nada fácil. Essa pequena joia, nas palavras de Paulo Rónai, nos mostra a enorme habilidade de Balzac como narrador. É mais um obra-prima que ficou desconhecida pela prodigalidade de Balzac em criar bons textos.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Uma Dupla Família (fevereiro de 1830 - janeiro de 1842)

Personagens: Carolina Crochard (senhorita Bellefeuille), sra. Crochard, Rogério (conde Granville), Carlos e Eugênia (filhos de Caroina e Rogério), Francisca (empregada da sra. Crochard), Angélica Bontemps, padre Fontanon, Horácio Bianchon, condessa da Vandenesse, sua irmã, visconde de Granville e Eugênio (filhos de Rogério e Angélica), Solvet (sedutor de Carolina).

A história se passa entre 1805 e 1833.

A história começa em 1815, quando Rogério, um cavalheiro, ao circular pela Rua do Torniquete de Sâo Joâo no Marais, observava diariamente uma jovem e bela costureira que trabalhava dia e noite ao lado da mãe. Rogério acabou travando conhecimento com Carolina. A narrativa pula para setembro de 1816, quando encontramos Rogério e Carolina morando juntos na Rua Taitbout. Após uma descrição da nova vida da moça, vamos para 1822, quando encontramos o casal, no mesmo endereço, com dois filhos, Carlos e Eugênia, ainda bebê. Carolina recebeu a notícia de que sua mãe, a senhora Crochard, estava doente. Foi vê-la e a velha disse-lhe que tomasse cuidado, pois revelara ao padre Fontanon, que havia sido chamado por sua enfermeira, o nome de seu benfeitor, no caso, Rogério. A história passa então para 1805, quando assistimos ao sr. de Granville fazendo a corte à Angèlica Bontemps, em Bayeux. Aproximou-se da moça, em virtude de sua fortuna, mas gostou dela e se casaram. Angélica era exageradamente devota. Rezava, assistia a diversas missas, fazia novenas. Recusava-se a ter uma vida social, julgando que ir a bailes e jantares era indecente. Era aconselhada pelo Padre Fontanon. Granville, após alumas discussões, resignou-se e o casamento transformou-se numa união de aparências. “A história didática desse lar infeliz não ofereceu, durante os quinze anos decorridos entre 1806 e 1821, nenhuma cena digna de ser referida. A sra. Granville permaneceu exatamente a mesma, a partir do momento em que perdeu o coração do marido, como fora nos tempos em que se dizia feliz “. Em 1822, o padre Fontanon contou à Angélica que Granville vivia com uma concubina e tinha com ela dois filhos. Angélica foi então à rua Taitbout e surpreendeu Eugênio-Granville com Carolina. Ocorreu então uma grande discussão entre Angélica e Rogério.
Passamos enfim para 1833, quando econtramos um Rogério envelhecido indo espiar, na Rua de Gaillon, a janela de Carolina. Lá encontrou Horácio Bianchon, o médico da Comédia Humana. Ele relatou a Bianchon que Carolina, nove anos antes, fora seduzida por Solvet. Havia dissipado sua fortuna e vivia com os filhos na miséria para sustentar o amante.
O interessante nessa história é a narrativa. Duas narrativas independentes convergem para a mesma cena. É claro que sabemos que Rogério é casado (embora de forma inverossímil, Carolina só fique sabendo em 1822) e, no início do segundo relato, já percebemos que Granville é Rogério. Balzac usa aqui, novamente, a descrição para evocar o caráter e o modo de vida das personagens. A probreza de Carolina e da mãe; o conforto burguês de sua nova vida; a austeridade e devoção de Angélica. Descobrimos tudo isso com a descrição dos cômodos e do mobiliário. O desfecho é o ponto fraco da novela. Para evocar o fracasso de Granville na busca da felicidade, Balzac não precisava criar um sedutor para Carolina. A sedução de Carolina e sua decadência dão à obra um acento moralista, que não é característico da maioria dos textos de Balzac. Mas não é a primeira (nem a última) trama bem feita com resolução apressada que vemos na Comédia Humana.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Do que eu falo quando eu falo de corrida


Os meus dois passatempos preferidos são ler e correr. Por isso foi uma bela surpresa descobrir esse Do que eu falo quando eu falo de corrida do escritor japonês Haruki Murakami.
Eu já sabia que corrida tem tudo a ver com leitura. Uma hora a sós comigo mesma, uma reta pela frente. É a hora em que penso no que leio, em que relaciono autores diferentes, em que planejo como vou passar a minha experiência de leitora para os outros. No ano retrasado, a Nike lançou uma campanha publicitária para promover seus tênis de corrida: Don't think. Run.Houve reclamações de corredores de todo o mundo. Quem corre sabe que essa é a hora para pensar.
Murakami, famoso no Japão e com livros traduzidos para 38 idiomas, ensina que corrida tem tudo a ver com literatura. Ele relaciona diretamente a sua atividade de escritor com a de corredor de longa distância. Como, após escrever uma novela e ter algum sucesso, abandonou sua rotina noturna de dono de um bar de jazz em Tóquio, e passou a dividir seus dias entre as ruas e o computador. Ele acentua como a atividade de escritor depende de disciplina. E como essa disciplina é semelhante à necessária para correr uma prova. "A maior parte do que sei sobre escrever, aprendi correndo todos os dias. São lições práticas, físicas. Até onde posso me forçar? Quanto descanso é apropriado - e quanto é demais? Até onde posso levar alguma coisa e ainda assim mantê-la decente e consistente? Quando uma coisa se torna tacanha e inflexível? Quanta consciência do mundo exterior devo ter, e quanto devo me concentrar em meu próprio mundo interior? Em que medida devo ter confiança em minhas capacidades, e quando devo começar a duvidar de mim mesmo? Sei que se eu não tivesse me tornado um corredor de longa distância, quando me tornei romancista minha obra seria vastamente diferente. Quão diferente? Difícil dizer. Mas alguma coisa definitivamente teria sido diferente."
Na verdade, correr, ler e escrever são atividades solitárias. Murakami, assim como eu, nunca gostou de esportes de equipe. Há em todo o mundo (diversos em Porto Alegre), grupos de corrida. Para mim isso é quase um contrasenso. Um dos maiores atrativo da corrida é a solidão. "Sou o tipo de sujeito que gosta de estar sozinho consigo mesmo. Para dizer de um modo mais agradável, sou o tipo de pessoa que não acha um sofrimento ficar só."
Murakami dá uma explicação interessante para a sua necessidade de levar uma vida saudável. Ele diz que a atividade literária é insalubre: "Quando paramos para escrever um romance, quando usamos a escrita para criar uma história, queiramos ou não, um tipo de toxina que jaz nas profundezas de toda a humanidade sobre à superfície. Todo o escritor precisa ficar cara a cara com essa toxina e, consciente do perigo envolvido, descobrir um jeito de lidar com ela, pois de outro modo, nenhuma atividade criativa no sentido real pode ter lugar." Assim, para encarar atividade tão insalubre, ele julga necessário ser o mais saudável possível. Correr uma hora por dia, participar de uma maratona por ano, ter uma alimentação equilibrada é uma forma de se manter são para encarar os demônios da criação.
A par das comparações entre escrever e correr, o livro traz ótimas dicas para quem corre. E com certeza me levará à obra literária de Murakami.
O título vem de uma coletânea de contos do americano Raymond Carver, traduzida para o japonês por Murakami: What We Talk About When We Talk About Love.
A única coisa que não dá para entender é por que a tradução é feita do inglês e não do original em japonês. Não é possível que um país como o Brasil, com tantos japoneses, não disponha de bons tradutores desse idioma.

A Vendeta (janeiro de 1830)

Personagens: Bartolomeu di Piombo, Elisa di Piombo, Ginevra di Piombo, Napoleão Bonaparte, Luciano Bonaparte, Servin, senhora Servin, Amélia Therion, Mathilde Roguin, Laura, Luigi Porta, senhor Roguin (notário).

A história se passa entre 1800 e 1819.
A Vendeta possui como pano de fundo a Córsega e suas rígidas tradições. A história é de um amor impossível entre filhos de famílias inimigas. E entre os personagens estão o próprio Napoleão, Luciano Bonaparte, Murat, Lannes e Jean Rapp.
Ginevra Piombo apaixonou-se por um jovem que se escondia no ateliê de pintura que ela frequentava. Luigi estava se escondendo por ter participado de uma rebelião bonapartista. Ginevra então descobriu que Luigi, além de ser bonapartista como seu pai, era, como ela, da Córsega. Depois de muita insistência, a moça convenceu o severo Bartolomeu di Piombo a receber o namorado. Bartolomeu descobriu, horrorizado, que Luigi era o único sobrevivente da família Porta, cujos membros assassinara em 1800 em uma vendeta. Ginevra teimou com pai e casou-se com Luigi sem seu consentimento. Após um curto período de felicidade, o casal sucumbiu à miséria. Bartolomeu, embora muito rico, não perdoava a traição da filha. Em 1819, Ginevra e Luigi tiveram um bebê. No final, quando o pai resolveu aceitar a filha de volta, era tarde: Ginevra, o bebê e Luigi morreram.
Balzac esteve na Córsega em 1836, depois, portanto, de escrever esse conto. Além da vendeta entre as famílias, ele destaca a rigidez do pai, que não perdoou a filha nem na iminência de sua morte e a camaradagem entre os conterrâneos, ilustrada nas cena do encontro de Bartolomeu com os Bonaparte.
Nessa história de personagens não franceses, o mais balzaqueano é o ambiente do ateliê de Servin, para onde as famílias abastadas enviavam as moças para que aprendessem arte num ambiente de respeito. Balzac deixa claro que o objetivo do ateliê era ensinar noções de arte suficientes para que a donzela fizesse boa figura num salão: “chegava mesmo a recusar as moças que queriam ser artistas e às quais teria sido preciso subministrar certos conhecimentos sem os quais não há talento possível em pintura”. Eis um ambiente típico de Balzac, onde a nobreza decadente e a burguesia próspera se defrontavam entre uma pincelada e outra.
Meu trecho favorito, contudo, é a abertura. A chegada às Tulherias da família corsa, com aquele toque de suspense que Balzac consegue dar a uma descrição comum. E depois o encontro de Bartolomeu com o mais famoso dos corsos

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sussurros


Estamos familiarizados com os horrores e atrocidades nazistas. Sessenta e cinco anos se passaram desde o final da Segunda Guerra Mundial. Mesmo assim, todos os anos há filmes, livros, documentários, exposições - no momento há uma grande exposição no Museu Histórico Alemão em Berlim intitulada “Hitler e os Alemães” - alusivos aos horrores do holocausto. Os nazistas documentaram muito bem os seus feitos e, desde a sua derrota em 1945, estudiosos de diversas nacionalidades se dedicaram a estudar o Terceiro Reich sob os mais diversos aspectos. Mais contundente, todavia, foi a publicação de relatos de sobreviventes de campos de concentração. Há milhares de relatos. Me marcaram especialmente os do italiano Primo Levi, É isso um homem?, Afogados e Sobreviventes e o belíssimo A Trégua, no qual conta seu retorno de Auschwitz para a Itália.
Nossa familiaridade com o que ocorreu na Alemanha durante a guerra contrasta com o desconhecimento a respeito da União Soviética. A União Soviética foi a maior responsável pela vitória dos aliados. No cinema vemos sempre o heroísmo norte-americano. Mas quando eles chegaram à Europa em junho de 1944, os soviéticos encaravam os nazistas desde junho de 1941, com seu território invadido, cidades sitiadas e tudo que isso envolve. Sabemos que foram vinte milhões de mortos, um número tão grande que soa vazio. Poderiam ser trinta, quarenta, oitenta milhões.
Esse panorama está mudando. Com o final da União Soviética, em 1991, e a abertura dos arquivos do governo e da polícia política novas fontes históricas foram disponibilizadas para estudo.
Sussurros, do historiador britânico Orlando Figes, trabalha com um tipo muito especial de fonte: arquivos privados, raros num estado policial, e relatos orais. O tema está no subtítulo: a vida privada na Rússia de Stalin. “O livro explora como as famílias reagiam às várias pressões do regime soviético. Como preservavam tradições e crenças e as transmitiam aos filhos se seus valores conflitavam com os objetivos públicos e com a moral do sistema soviético inculcados na geração mais nova por meio de escolas e de instituições como a Komsomol [instituição de jovens comunistas? Como viver em um sistema regido pelo terror que afetava os relacionamentos íntimos? O que as pessoas pensavam quando um marido ou uma esposa, um pai ou uma mãe eram presos de repente como ‘inimigos do povo’ ? Na condição de cidadãos soviéticos leais, como resolviam na própria mente o conflito entre confiar nas pessoas que amavam e acreditar no governo que temiam? Como poderiam os sentimentos e as emoções humanas ter qualquer tipo de força no vácuo moral do regime stalinista? Quais foram as estratégias de sobrevivência, os silêncios, as mentiras, as amizades e as traições, as concessões e acomodações morais que moldaram milhões de vidas?”.
Assim, acompanhamos as histórias de diversas pessoas, desde 1917, até a década de 1990: Antonina Golovina, Konstantin Simonov, a família Laskin, Elizaveta Drabkina, Inna Gaisser e muitos outtros.
No primeiro capítulo “Crianças de 1917 (1917-1928)” nossos personagens reais ainda estão na primeira infância. O autor mostra como a ideia bolchevique a respeito da família modificou a vida de milhões de pessoas. A ideia inicial era de que a família burguesa era um obstáculo ao comunismo e devia ser substituída por uma família social na qual os pais, ao invés de se ocuparem somente dos seus filhos, se ocupassem de todas as crianças. Daí a modificação do espaço privado, com as famílias ocupando quartos voltados para o corredor (o sistema de corredor) e partilhando banheiros e cozinhas (lógico que isso não valia para os altos quadros do partido, que mantinham suas casas e apartamentos e até possuíam “dachas” de verão).
Os ativistas do partido, tanto homens, quanto mulheres levavam a sério a ideia de dedicar-se totalmente à causa, deixando a vida privada em segundo plano. As crianças eram tratadas como pequenos adultos e não recebiam atenção dos pais (não podemos esquecer que no ocidente, até o final do século XVIII, as crianças eram tratadas como pequenos adultos e que, até o século XX, as famílias abastadas pouco se ocupavam dos filhos, deixando-os aos cuidados de babás, governantas e colégios internos). Os bolcheviques, com frequência, abandonavam mulheres (e maridos) e filhos para cumprir as exigências partidárias.
Algo interessante, que irá mudar após com a ascensão da União Soviética como potência industrial, é o asceticismo em relação à decoração doméstica e a aparência pessoal. Mesmo quem tinha condições de possuir mais bens materiais, era encorajado a viver muito modestamente e a se envergonhar de qualquer manifestação de riqueza (isso mudou completamente na era Stálin). O segundo capitulo, “A gande ruptura (1928-1932)”, explora as consequências da chegada de Stalin ao poder. A grande ruptura foi fim da NEP - Nova Política Econômica - implantada por Lênin, que incentivava a economia de mercado para promover a recuperação da guerra civil, e a adoção dos Planos Quinquenais, a partir de 1928. Foi o período da coletivização forçada e da perseguição aos kulacks.
Quando estudei a revolução russa na faculdade de história, aprendi que os kulacks eram camponeses ricos, ou seja, fazendeiros, que não queriam abrir mão da propriedade privada e que, portanto, se opunham aos comunistas. Agora aprendi que tudo isso era bem menos racional. Kulacks eram camponeses que possuíam quase qualquer coisa. Alguns tinham pequenas faixas de terra e, graças ao trabalho familiar, obtinham algum conforto material. Outros tinham apenas uma vaca ou alguns instrumentos de trabalho agrícola. Outros não tinham nada. O governo enviava uma ordem para que, em determinada vila, dez famílias kulacks fossem expropriadas e enviadas para campos de trabalho. Se não havia nenhuma família que possuísse propriedade no local, eles sorteavam entre as famílias quais as dez que seriam deportadas.
As terras e os bens que eram confiscados iram para as fazendas coletivas, os kolkozes. Foi um dos maiores fracassos do sistema comunista. É simples entender. Os agricultores mais qualificados eram justamente os kulacks, que foram enviados para gulags. Sobraram os que nada entendiam de agricultura e que pouco trabalhavam. Além disso, os camponeses, acostumados por séculos com o trabalho nas suas porções de terra como referência, não conseguiam estabelecer nenhuma ligação com uma terra que não lhes pertencia, que não tinha sido trabalhada pelos seus pais, pelos seus avôs. A produtividade dos kolkozes era ínfima perto das das pequenas propriedades. .
Os filhos de kulacks receberam uma marca que lhes acompanhou até a velhice. O rótulo de filhos de “inimigos do povo”. Assim, eles eram humilhados publicamente nas escolas, impedidos de participar de associações de jovens como os “pioneiros” e o Komsomol, e tinham sua matrícula vedada nas melhores universidades e escolas técnicas. Por uma reação psicológica, muitos destes jovens tornaram-se comunistas exemplares. Queriam provar para as autoridades e para eles mesmos que eles tinham valor. .
Outro aspecto sinistro desse período era o encorajamento que o Estado às delações. Um jovem chamado Pavlik Morozov tornou-se um herói nacional por ter denunciado o seu próprio pai como kulack. Milhares de crianças cresceram temendo serem punidas por não delatarem seus pais. E milhares de pais viviam com medo dos filhos.
“A busca da felicidade (1932-1936)” mostra como um sistema desse tipo não se sustenta somente com coerção. Consenso é fundamental. Na década de 1930, a União Soviética começava a colher os frutos da industrialização acelerada. Os russos passaram a ter acesso a alguns bens de consumo e as grandes cidades, como Moscou, tornaram-se vitrines da prosperidade comunista. Nesse período, foi construído o luxuoso metrô de Moscou. Do ponto de vista social, um novo guio emergiu: os “vydvizhentsy”, técnicos formados durante o primeiro plano quinquenal, que tornaram-se o principal apoio do regime stalinista. Esse grupo, ao contrário da maioria do povo soviético, vivia muito bem. Tinha acesso a apartamentos particulares, carros e casas de veraneio. O asceticismo dos primeiros anos foi abandonado. As mulheres voltaram ao lar.
Em “o Grande Medo (1937-1938)” conhecemos a parte mais negra da história da Rússia de Stalin: os expurgos. Já conhecia algo sobre os expurgos de grandes figuras do partido comunista, alguns companheiros de Lênin. Aqui conhecemos o expurgo do soviético comum. Milhares de pessoas passaram a dormir com a mala pronta, esperando que viessem prendê-las. Milhares foram presos sem terem feito absolutamente nada. Alguns eram comunistas exemplares. Qualquer denúncia, mesmo que francamente falsa, levava à prisão. Na melhor das hipóteses, o prisioneiro era enviado a um campo de trabalho na Sibéria. Na pior, era fuzilado, sem direito a julgamento. Muitos ficaram sabendo somente na década de 1990 que seus pais, mães ou maridos havia sido fuzilados.
Os expurgos passaram a ser fundamentais para a economia soviética. O crescimento previsto pelos planos quinquenais só era possível com o trabalho escravo. Milhares de prisioneiros eram enviados para abrir estradas, trabalhar em minas, construir barragens em lugares inabitáveis, com temperaturas de 30 graus abaixo de zero. Muitos eram largados nesses locais sem comida, roupas, nada. Tinham que cavar buracos no chão. Morriam aos milhares.
Havia informantes em toda a parte. Nos apartamentos comunais era perigoso falar, pois a proximidade eliminava a privacidade. As crianças eram ensinadas a ficar de boca fechada. Muitos pais não revelavam aos filhos suas ideias, com medo de prejudicá-los. Quem tinha crenças religiosas, escondia os ícones nas gavetas. Muitos vizinhos faziam denúncias falsas para ficar com os móveis ou quarto do denunciado.
“Resquícios do Terror (1938-1941)” relata a desestruturação das famílias pelos expurgos. Quando um homem era preso, sua esposa era enviada para um campo especial para esposas de traidores. Os filhos, se menores, eram encaminhados para orfanatos. Em geral, separados, pois era uma política de Estado separar as famílias. Muitas pessoas nunca mais viram seus pais, filhos, irmãos. Nas famílias, existia uma grande angústia, pois, em geral, as pessoas acreditavam que quem fora preso havia feito algo errado. Muitos dos presos julgavam que houvera algum engano. Muitos escreviam para Stalin relatando que houvera um equívoco e esperavam que o grande homem desfizesse a injustiça. A maioria só soube muitos anos depois que sua família fora vítima de uma injustiça.
“Espere por mim (1941-1945)” conta os sacrifícios da União Soviética durante a Guerra. Um período de imensas perdas e sofrimentos, mas que, paradoxalmente, é lembrado por muitos soviéticos como um período de ouro. Em razão do esforço de guerra, houve uma desestalinização forçada, já que o Estado não podia exercer vigilância nesse período. Da mesma forma, a lealdade do povo era fundamental, pois havia uma invasão estrangeira. O afrouxamento dos controles criou mais liberdade e até o renascimento do mercado, com pequenas plantações e feiras nas cidades.
O trabalho escravo nos gulags foi fundamental para o esforço de guerra. Muito interessante é que os prisioneiros se sentiam orgulhosos por estarem participando da vitória da União Soviética.
Espere por mim foi um poema de Konstatin Simonov que tornou-o famoso no período da Segunda Guerra.
“Stalinistas Comuns (1945-1953)” narra as dificuldades do pós-guerra. O afrouxamento do controle durante às guerra produziu ondas de descontentamentos. O controle da economia retornou com força total. Houve novas prisões e expurgos. E, para apoiar tudo isso, consolidava-se a criação de uma nova classe média educada baseada na ampliação da educação superior nos anos 1940 e 1950. Essa nova bruguesia era recompensada por empregos seguros, bem pagos e por alguns luxos, como apartamento privados e bens de consumo. “ A capacidade profissional começava a tomar o lugar dos valores proletários nos princípios dominantes da elite soviética. “
Esse capítulo comenta também uma enorme campanha antijudaica que iniciou em 1948. Os judeus eram denominados “cosmopolitas”. Tudo começou com a perseguição de intelectuais. Mas isso ressuscitou o antissemitismo que era secular na Rússia. Os judeus passaram a ser acusados de serem aliados do recém formado Estado de Israel e dos Estados Unidos. “Entre 1948 e 1953, milhares de judeus soviéticos foram presos, demitidos do trabalho, expulsos das universidades ou tirados à força de casa. No entanto, nunca eram informados (e isso jamais era mencionado na papelada) de que a razão para esses atos tinha a ver com suas origens étnicas”. Muitos desses judeus eram assimilados e mal se reconheciam como judeus. Tinham uma identidade soviética urbana e não obedeciam tradições religiosas judaicas.
O irônico é foi justamente a perseguição dos judeus (a conspiração de médicos, que eram, em grande parte judeus), que impediu que Stalin fosse socorrido quando teve um derrame no inicio de março de 1953. O medo de que alguém fosse acusado de espião ou traidor fez com que o Czar Vermelho ficasse cinco dias inconsciente e sem atendimento, até falecer em 5 de março de 1953. O capítulo “Retorno (1953-1956)” conta basicamente o retorno dos soviéticos do campo de trabalho. A alegria do retorno esbarrou na realidade. Muitos homens retornaram casados com outras mulheres. Muitos encontraram suas mulheres casadas com outros homens. As crianças que idealizaram por anos uma mãe amorosa ou um pai amigo encontraram, já adultos, desconhecidos destruídos por anos de trabalho em condições subumanas. Muitos não conseguiram sequer deixar os campos, pois já não sabiam mais como ter uma vida normal. E ocorria com os egressos dos gulags o mesmo que ocorrera com os sobreviventes dos campos de concetração nazistas: a impossibilidade de comunicar aos outros a sua experiência.
“Memória (1956-2006)” dedica-se ao que sobrou desde que Khrushchev revelou, em 1956, os crimes de Stalin (dos quais, aliás, ele participou ativamente). Muitos somente então tiveram certeza da inocência de seus parentes, de que não foram vítimas de nenhum erro. De que, ao contrário do que julgavam, Stalin não era um homem bom que fora enganado por aliados mal intencionados (embora alguns tenham falecido na década de 1990 ou 2000 pensando isso). Nesse capítulo, o mais interessante é a reavaliação de Simonov sobre a sua vida e sua atuação como intelectual orgânico do stalinismo.
Há muito mais. São mais de 800 páginas. E, ao contrário dos números impessoais que estudamos na escola ou na universidade, lá estão os nomes e eles próprios nos olhando das fotografias. É um belo trabalho de pesquisa.
O nome
Sussurros vem do hábito de sussurrar que os soviéticos aprenderam a cultivar nesses anos. “ A língua russa possui duas palavras para um ‘sussurrador - uma para quem sussurra por temer ser ouvido (shepchushchii) e outra para a pessoa que informa ou sussurra pelas costas das pessoas para as autoridades (sheptun). A origem da distinção está no idioma da época de Stalin, quando toda a sociedade soviética era formada por um tipo ou outro de sussurrador”.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Alberto Savarus (maio de 1842)

Personagens: Baronesa de Watteville (Clotilde), barão de Watteville, Abade de Grancey, Amadeu de Soulas, Babylas (criado de Amadeu), Rosália de Watteville, Alberto Savaron, Duquesa de Argaiolo, Jerônimo, Marieta, Leopoldo.

A história se passa entre 1834 e 1841.

Alberto Savarus é um romance um tanto confuso de Balzac. Contribui para a confusão, além das idas e vindas do enredo, a existência de um romance dentro do romance. O personagem Alberto Savaron é romancista e sua novela, Ambicioso por Amor, é transcrita na íntegra por Balzac.
Alberto Savaron chegou a Besançon, no Franco Condado, com o objetivo de eleger-se deputado. Há onze anos, ele está apaixonado pela Duquesa de Argaiolo, italiana casada, que aguarda a morte do duque para desposar Alberto. Resolveu tentar a deputação depois de diversas empresas malogradas. Alberto atraiu, então, a atenção de Rosália de Watteville. A senhorita de Watteville descobriu que Alberto publicara uma novela em uma revista e convenceu seu pai a assiná-la. Assim, leu Ambicioso por Amor, novela de A. S.

Ambicioso por amor.
Personagens: Leopoldo, Rodolfo, casal Safter, Fanny Lovelace- Francesca Colonna- princesa Gandolphini, pai de Fanny-esposo de Francesca-princípe Gandolphini, Tito, Gina..A história se passa entre 1823 e 1830.
Rodolfo, indo excursionar na Suíça com o amigo Leopoldo, apaixonou-se por uma desconhecida que assumiu três identidades, Fanny Lovelace, Francesca Colonna e princesa Gandolphini. No final, os namorados esperavam a morte do príncipe Gandolphini para se casarem.

Rosalia apaixonou-se perdidamente por Alberto e, aproveitando o namoro de sua criada com Jerônimo, criado de Alberto, passou a interceptar cartas de Alberto para a Duquesa Argaiolo e as respostas. A duquesa, ao ficar viúva, recebeu, então, uma falsa carta de Alberto (escrita por Rosália), na qual ele declarava que iria se casar com a senhorita Watteville. A duquesa, magoada, casou-se com o duque de Rethoré. Alberto, arrasado, tornou-se monge. Rosália se indispôs com a mãe ao recusar o casamento com Amadeu. A senhora de Watteville, ao ficar viúva, desposou Amadeu, com quem teve mais dois filhos. Rosália, em 1838, foi a Paris e revelou à duquesa de Rethoré a trama que destruiu seu romance com Alberto. Em 1841, sofreu um terrível acidente: estava em um vapor cuja caldeira explodiu e perdeu um braço e uma perna.
O resumo da história já é suficiente para que se perceba que não estamos diante do melhor de Balzac.
Aqui Balzac, sempre tão indiferente a qualquer tipo de maniqueísmo - vemos em seus romances os bons sofrerem e, muitas vezes, os maus prosperarem - pune Rosália no último parágrafo, com um acidente totalmente artificial. Seria tão mais balzaqueano ver Rosália casada com um Alberto feliz e ignorante da trama que o levou ao matrimônio!
Pois, a diferença, apontada por Paulo Rónai e perceptível por qualquer um que conhece um pouco a biografia de Balzac é que Alberto é um alter ego de Balzac. Advogado. Vários anos de empresas malogradas. Três anos perdidos em Paris. Romancista (contudo, tivemos uma amostra medíocre do seu talento como o enfadonho Ambicioso por Amor). “(...) o senhor Savaron apareceu de robe-de-chambre de merinó preto, com um cordão encarnado, chinelos encarnados, um colete de flanela encarnado (...)”. “(...) uma cabeça soberba; cabelos negros, já entremeados com fios brancos, cabelos como os de São Pedro e dos São Paulo dos nossos quadros, com caracóis bastos e luzídios, cabelos duros como crinas, pescoço branco e redondo como o de uma mulher, uma fronte magnífica dividida pelo sulco poderoso que os grandes projetos, os grandes pensamentos, as fortes meditações imprimem na fronte dos grandes homens (...)”. Como se não bastasse, Savaron namora uma estrangeira com quem troca cartas e aguarda a morte do seu marido para desposá-la. Alberto Savarus. mostra, de certa forma, o poder da ficção. Balzac cria um personagem totalmente insosso com as suas características. Em nenhum momento o consideramos interessante como o narrador nos diz que ele é. Em compensação, Rosália, sua criação, é uma das deliciosas vilãs de Balzac. É ela que mantém nosso interesse pelo romance.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Uma Estreia na Vida (fevereiro de 1842)

Volume II: Estudos de Costumes – Cenas da Vida Privada (lido entre 5 e 27 de outubro de 2009)

Um Estreia na Vida (fevereiro de 1842)

Personagens: Pierrotin, sr. Moreau (intendente de Presles), sra. Moreau (Estela), conde de Sérisy, Léger (granjeiro), sr. Clapard, sra. Clapard, Oscar Clapard (Husson), Jorge Marset (ajudante do sra. Crottat - notário), José Bridau (falso Shinner), Mistigris (Leão de Lora), sr. e sra Raybert (novos intendentes), Grindot (arquiteto), Jacques Moreau (filho de Moreau), sr. Cardot (tio de Oscar), Camusot (genro de Cardot), sr. Desroches (advogado), Godeschal (aprendiz de Desroches), Marieta (irmã de Godeschal), F. Marset (irmão de Jorge).

A história se passa entre 1822 até “bem depois de 1835”.

Uma Estreia na Vida é uma pequena obra prima. Pequena porque curta. Obra prima, pois nela Balzac empregou toda a sua habilidade. Aqui ele é, como se denominava, um “historiador de costumes”, narrando, em 1842, para a posteridade a França das diligências que morrera com a chegada da estrada de ferro. E é também o hábil contador de histórias, quando extrai de um episódio cômico, que poderia se esgotar em si mesmo, toda a história de uma vida.
Em 1822, o conde de Sérisy, desconfiado de que seu intendente, Moreau, estava lhe roubando, apanhou, incógnito, o coucou de Pierrotin em Paris rumo a Presles. No carro, estavam os pintores José Bridau, que se fazia passar pelo famoso e já nosso conhecido Schinner; seu ajudante, Mistigris (que fazia trocadilhos o tempo inteiro); Jorge Marset, simples aprendiz de notário que se fazia passar por nobre militar cheio de honrarias; e nosso herói, Oscar Husson. Oscar, protegido de Moreau, sentindo-se inferiorizado pela aparente grandeza de seus companheiros de viagem, passou a revelar segredos do conde que conhecia pelas indiscrições de Moreau, que era amante de sua mãe, a senhora Clapard. As fofocas diziam respeito à relação do conde com a sua esposa. O nobre, furioso, despediu Moreau, e Oscar perdeu seu protetor. A senhora Clapard pediu, então, ajuda ao tio Cardot, ancião que aparentava austeridade, mas que, na verdade, era um pândego e amante de dançarinas. Cardot obteve posição para Oscar no escritório de Desroches e passou a custear-lhe a faculdade de Direito. Sob a proteção do sério Godeschal, tudo ia bem para o jovem Oscar. Até que ingressou no escritório o irmão de Jorge Marset, e Oscar o reencontrou. Depois de uma comemoração, Oscar perdeu dinheiro do patrão no jogo e, embriagado, adormeceu, deixando de cumprir um compromisso do escritório. Desroches não perdoou e Oscar foi despedido. Restou a ele o serviço militar. Moreau melhorou a situação de seu protegido, conseguindo que ele ficasse sob às ordens do filho do conde de Sérisy. Em uma batalha na África, Oscar salvou a vida do jovem de Sérisy e perdeu um braço.
Anos depois, os mesmos personagens se encontraram em um carro rumo a Presles. José Bridau, já pintor famoso; Pierrotin, empresário rico; Léger, também rico; Jorge Marset, decadente; e Oscar, um circunspecto burguês que acabou casando com a senhorita Pierrotin. Descobrimos também que o senhor de Canalis, pretendente de Modesta Mignon, desposou a filha de Moreau.
O que faz de Uma Estreia na Vida uma história tão deliciosa? Muitas coisas, mas julgo que a principal é o toque de vida real dos persongens. Oscar é um herói que, a princípio, não provoca nenhuma empatia. A gafe que compromete seu futuro é fruto de sua vaidade e mediocridade. Tempos depois, cai na armadilha de Jorge e, novamente, desperdiça uma oportunidade. O que se espera, a partir daí, é a decadência. Contudo, ele se torna um ótimo militar, com caráter suficiente para arriscar a vida e salvar o filho do homem que o prejudicou. E assim são as pessoas reais, capazes do tolo e do sublime, capazes de cometerem erros e de os corrigirem. No princípio, estranhamos um herói tão infantil e antipático. Contudo, eis nós leitores, algumas páginas depois, lamentando as suas desventuras e torcendo por ele.
Os outros personagens também são deliciosamente reais. Moreau, que rouba descaradamente o patrão, não mede esforços para ajudar o filho da amante. A senhora Clapard cega, como todas as mães, à nulidade do filho. Desroches, justo e reto advogado, que acaba sendo injusto com o jovem herói. O tio Cardot, que salva Oscar por amor à sua dançarina. Como diz Rónai, “em cada um deles encontraremos essa incoerência orgânica que é a prova mais inequívoca da vida real”.
Em Uma Estreia na Vida Balzac utilizou uma experiência pessoal que irá aparecer em outros romances: sua vivência forense. A partir de novembro de 1816, Balzac passou a frequentar aulas de direito na Sorbonne. Porém, naquela época, não era na faculdade que se aprendia ciência jurídica, mas na posição de aprendiz em um escritório de advocacia ou tabelionato. Entre 1816 e abril de 1818, ele trabalhou no escritório de Guillonet-Merville, que ele viria a homenagear com o personagem Derville. Entre 1818 e meados de 1819, Balzac trabalhou para o tabelião Victor Passez. É esse o ambiente que ele descreve no escritório de Desroches. A vida de um aprendiz forense era muito diferente da dos estagiários de hoje em dia. Era uma vida monástica. Eles moravam no emprego, onde também se alimentavam e eram vigiados pelo patrão. Havia uma rígida hierarquia - primeiro, segundo, terceiro ajudante, primeiro, segundo, terceiro escriturário - e ascender nela era uma questão de mérito. Também há relatos das pilhérias e brincadeiras, como os jantares consignados em ata, em um dos quais nosso herói se perdeu. Aqui, mais um oportunidade para conhecer Balzac “historiador de costumes”.