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terça-feira, 21 de abril de 2026

O cura da aldeia

O cura da aldeia (janeiro de 1837- março de 1845)

Volume XIV: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Rural (lido entre 21 de fevereiro de 2026 e )

Personagens: Jerônimo Batista Salviat, Sra. Salviat (nascida Champagnac), Verônica, irmã Marta, Pedro Graslin, Grossetête, padre Dutheil, Visconde de Grandville, Pingret, sr. e sra. Des Vanneaulx, Joana Malassis, João Francisco Tascheron, padre de Grancour, Gabriel de Rastignac, padre Bonnet, Úrsula, Denise Tascheron, Luís Maria Tascheron, Maurício Champion, Jerônimo Colorat, Farrabesche, Catarina Curieux, Benjamin, Gregório Gérard, Fresquin, Ruffin, Roubaud, Horácio Bianchon.

Padre Bonnet e Verônica

A história se passa entre 1792 e 1840

Em Limoges, o velho comerciante de sucata da região de Auvergne, Sauviat, e sua esposa têm uma filha, Verônica, a quem criam como uma cristã devota. Silenciosa e apaixonada, Verônica casa-se com o banqueiro riquíssimo Graslin. Ela se torna a mulher mais perfeita de Limoges, respeitada por sua inteligência e virtude. Ninguém, exceto sua mãe, sabe que ela se tornou amante de um jovem operário empregado por seu pai, Tascheron, que a ama apaixonadamente. Ambos desejam fugir e viver seu amor abertamente. Eles planejam um roubo contra um velho avarento, solitário e desprezado. O assalto dá errado: o velho avarento e sua criada são mortos. Verônica não viu nada, mas compreendeu tudo. Descoberto, Tascheron é condenado e torturado; mas ninguém suspeita do motivo que transformou um jovem gentil e honesto, o filho caçula de uma família camponesa irrepreensível, em um assassino. Veronique esconde seu tormento; ela está grávida. Seu filho nasce no mesmo dia em que seu jovem amante sofre a tortura. Viúva do velho Graslin, Verônica se condena a expiar o assassinato no qual esteve secretamente envolvida. Ela se instala em Montégnac, a aldeia pobre onde os Tascheron viviam. Para se redimir, ela drenará as encostas áridas de Montégnac e garantirá, por meio de imensas obras públicas, a prosperidade dos camponeses pobres que habitam a aldeia. Ela confia no Padre Bonnet, um santo, que transformou os habitantes desta paróquia e que acompanhou o jovem Tascheron até o pé do cadafalso. Sob sua orientação, ela reúne o apoio dos mais experientes, constrói uma represa, canaliza as águas que erodiam o solo e transforma uma região desolada em uma bela paisagem. Esse ato de reparação, que ela oferece secretamente ao seu amado, é uma expiação perante os homens, mas ainda não perante Deus. Seu olhar fixo no túmulo do seu jovem amante, a quem tanto desejava ver, é, para o padre que a guia, uma persistência no pecado. As impiedosas penitências que ela se impõe são insuficientes para apagar aculpa de seus atos. Ela compreende, graças ao Padre Bonnet, que ainda é pecadora na forma de seu arrependimento, e que esse arrependimento só é cristão se for oferecido somente a Deus, em perfeito arrependimento e completo esquecimento das paixões terrenas. É a essa conclusão que o bondoso apóstolo da aldeia consegue conduzi-la. Ela morre confessando publicamente sua cumplicidade e rasgando, diante dos olhos de todos, o manto de virtude sob o qual era venerada, apresentando-se como a pecadora que é, ainda buscando perdão. 

A confissão de Verônica

Esse resumo foi parcialmente copiado e traduzido  do prefácio do 21º volume de La Comédie Humaine, publicado pela France Loisirs em 1987. 

Sem conhecer um pouco da história do texto, estranhamos que o personagem que lhe dá o título, o padre Bonnet, só apareça na página 78 da edição da Globo! Na verdade, o padre é um personagem secundário, como vários outros. Originalmente, a história seria a das boas ações do padre Bonnet transformando  uma população perversa, atrasada e sem fé, propensa a delitos e até mesmo a crimes, em pessoas religiosas e trabalhadoras. Isso através da fé católica. Nosso mestre considerou que essa história teria muito pouco apelo comercial. Despois de muitas modificações, a história se transforma na expiação do pecado de Verônica através de sua dedicação aos camponeses de Montégnac. 

O que achei mais interessante é o que não está no texto. O fato de Balzac não ter descrito o romance de Verônica com Tascheron deixou o romance muito mais interessante. Sabemos que sua mãe, a velha Salviat, sabia de tudo. Adivinhamos que o filho de Verônica não é de Graslin, mas de Tascheron. Há um momento em que Verônica sustenta que a desconhecida amante do criminoso seria uma moça solteira e não casada, tentando convencer o promotor a afastar a premeditação e a consequente pena de morte. Há os sapatos elegantes que Tascheron usava no dia do crime.

A confissão pública de Verônica logo antes de morrer é uma cena bonita e tocante, mesmo para quem não é religioso. Mas considero que o texto teria mais impacto sem a confissão. Deixando a dúvida: era Verônica mesmo o motivo do crime de Tascheron  ou isso era fantasia da leitora? 

Fonte do resumo: https://www.balzac-analyse.com/tome-xxi-le-cure-de-village/

sábado, 22 de novembro de 2025

O Médico Rural

O Médico Rural (outubro de 1832-julho de 1833)

Volume XIII: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Rural

Personagens: Dr. Benassis, Pedro José Genestas (Capitão Pedro Bluteau), Jacquotte (cozinheira), Tamboreau, Nicolle, sra. Pelletier, Gondrin (militar), Goguelat (militar), Moreau, Gasnier, Vigneau (carreteiro), sra. Vigneau, Fosseause, Jacques, tia Colas, Butifier, Dufau (juiz de paz), Tonnelet (tabelião), Cambon, padre Janvier, Adriano Genestas. 

A história se passa em 1829. 

Esse romance, se é que podemos chamá-lo assim, é muito diferente dos outros da Comédia Humana. Pouca ação, menos descrições que o habitual. Parece uma série de cenas justapostas, costuradas umas nas outras. O comandante militar Genestas, veterano do Império, chega a uma aldeia perto da cidade de Grenoble procurando um médico. Encontra nosso médico rural, Dr. Benassis, que lhe conta (e lhe mostra) como em dez anos transformou uma aldeia miserável numa pequena cidade rica e próspera. Após alguns dias de convivência, Benassis confidencia a Genestas o motivo pelo qual dedicou a vida a fazer o bem aos aldeões, tornando-se prefeito do local. Ele perdera sua grande paixão, Evelina, moça de uma austera família jansenista, quando sua família descobriu que na juventude ele abandonara uma mulher, Ágata, com um filho. Perdeu também a criança. Depois Genestas lhe revela o real motivo de sua visita. Durante a campanha da Rússia, adotou um menino, Adriano, filho do soldado Renard com Judite, moça judia polonesa. Genestas havia se apaixonado por ela, mas ela ficou com Renard. Acabou falecendo, deixando Adriano com Genestas. O jovem, então com 16 anos, estava doente, e o veterano desejava confiar-lhe a Benassis. Oito meses depois, Adriano se recuperou e Benassis faleceu. 

Jacquotte e Benassis

Reproduzo a comentadora da edição da Pléiade, Rose Fortassier, citada na introdução de Paulo Rónai:

romance quase sem ação, feito de pedaços e fatias, que contém a monografia de uma aldeia em vias de desenvolvimento, o dia de um médico rural, a confissão de dois amores infelizes, um tratado de economia e política, um relato ingênuo de uma gesta napoleônica, a história de uma jovem aldeã nervosa e poética, a de um jovem soldado, a de um homem de bem que resgada as dissipações da mocidade parisiense (e há muito mais). Um romance aparentado com o conto filosófico, o manifesto político, a epopeia, a poesia (RONAI, 1992. p. 291).

Entendemos melhor sabendo de dois fatos da vida de Balzac contemporâneos à escrita do livro. Sua decepção por ter sido rejeitado pela sra. de Castries. O primeiro relato da desilusão  amorosa de Benassis seria um relato desse evento, depois substituído pelo conto austero que foi publicado. E a aproximação de Balzac do partido Legitimista e o projeto de se candidatar a deputado. 

Dois outros fatos importantes. Os personagens de O médico rural não aparecem em nenhum outro livro da Comédia Humana. E as passagens sobre as guerras napoleônicas eram fragmentos de um romance não escrito que se chamaria A Batalha. 

RONAI, Paulo. Introdução. A Comédia Humana. São Paulo: Globo, 1992, p. 287-291. 


sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Os Camponeses

Os Camponeses  (1855 - póstumo)

Volume XIII; Estudos de Costumes: Cenas da Vida Rural (lido entre 18 de junho de 2023 e 22 de novembro de 2025)

Personagens: srta. Laguerre, Conde de Montcornet, Virgínia de Montcornet (née de Troisville), Emílio Blondet, Francisco (criado de quarto), tio Fourchon (sitiante de Ronquerolles), Mosquito, subprefeito de La-Ville-aux-Fayes, Dr, Gourdon (médico), Francisco Gaubertin (administrador das Aigues no tempo da srta. Laguerre, filho de ex-bailio de Soulanges, foi maire de Blangy), Isaura Gaubertin (née Mouchon), Carlos (escudeiro), padre Brossette, Francisco Tonsard (dono do Grand-I-Vert), srta. Couchet/Soudry (criada de quarto da srta. Laguerre, casou com Soudry ), Soudry (cabo de gendarmetia, furriel de artilharia), Vermiguel (rabequista de Soulanges, porteiro de prefeitura), filha do sitiante de Ronquerolles (que casou com Tonsard), Catarina e Maria Tonsard, velha mãe de Tonsard, Brunet (oficial de justiça de Soulanges), Bonnébaulf, Justino Michaud (guarda geral), Olímpia Michaud, Vatel, dr. Guerbert (juiz de instrução), Adolfo Sibilet (administrator das Aigues, filho mais velho do escrivão do tribunal de La-Ville-aux-Fayes, primo de Gaubertin), Niseron (avô de Genoveva/Pechina), Lupin (tabelião, filho  de intendente de Soulanges), Geni (filha mais velha de Gaubertin), Leclerc (banqueiro, pretendente de Geni), Elisa Gaubertin (filha mais nova de Gaubertin), Claudio Gaubertin (filho de Galbertin, substituto do procurador régio na sede do departamento), Gendrin (cunhado de Gaubertin, presidente do tribunal de La-Ville-aux-Fayes), conde de Soulanges, Sarcus (juiz de paz de Soulanges), sr. Vermut (farmacêutico de Soulanges, irmão mais velho da srta. Sarcus), Adelina Sibiliet (filha dos Sarcus), Courtcuisse (guarda das Aigues), sr. Gourdon (irmão do médico), Guerbet (coletor de Soulanges), Gravelot (comerciantes de madeira de Paris), Groison (suboficial da guarda imperial, guarda campestre em Blangy), Valdoyer (guarda campestre demitido), Langlumé (locatário do moinho do conde), Steingel, Vatel e Galhardo (guardas), Mouchon mais velho (administrador dos Ronquerolles, pai de duas filhas, uma casou com Gendrin e outra com Gaubertin filho), Mouchon segundo (posteiro de Couches, filha casou com granjeiro Guebert), Mouchon mais jovem (padre), Filha mais velha de Sibilet (casou com o professor Hervé), sr. Vigor (posteiro de La-Ville-aux-Fayes), Plisssoud (oficial de justiça), Urbano (antigo soldado empregado de Soudry), Amaury Lupin (filho de Lupin), sra. Lupin, Gregório (antigo beneditino, maire de Blangy), sra. Rigou, Anita (criada de Rigou), João  Tonsard (criado de Rigou e filho mais novo de Tonsar)

A história se passa entre 1823 e 1837. 

A lista de personagens não é exaustiva. Em um certo ponto me perdi com filhos que casam com outros filhos, que são primos de outros personagens... 


                                                Gaubertin, Rigou e Soudry: a "mediocracia" de La-Ville-aux-Fayes 

Os camponeses é um romance incompleto. A primeira parte foi publicada em folhetim em 1844 e foi republicada em 1855, juntamente com a segunda parte, cinco anos após a morte de Balzac. Como o romance estava adiantado, a publicação ficou coerente, ao contrário de Os Pequenos Burgueses e O Deputado de Arcis. Mas Paulo Rónai nos conta que o livro, de acordo com o plano de Balzac, deveria ter o dobro da extensão atual. 

Rónai nos fala da diferença de ritmo entre as duas partes do romance: "enquanto a primeira é uma vagarosa exposição épica, fazendo prever uma narrativa complexa e cheia de episódios, a segunda é um rápido suceder-se de incidentes bruscos, apenas esboçados e, ás vezes, surpreendentes". Ele caracteriza a primeira parte como um romance social no sentido mais amplo da palavra, e a segunda como uma narrativa romanesca do tipo tradicional (BALZAC, 1992, p. 17). 

Um ex-general, filho de um tapeceiro parisiense, que ficou famoso por suas façanhas na Batalha de Essling, feito conde de Montcornet por Napoleão, adquiriu o Château des Aigues e as terras que o cercavam na Borgonha, perto da pequena (imaginária) subprefeitura de La Ville-aux-Fayes. Apaixonado pela velha aristocracia (casou-se com uma "de Troisville" e sonhava ser par da França), o conde gostaria, para agradar a sua esposa, de se reconectar com os esplendores de antes da Revolução, reinando sobre um grande e  próspero domínio com sua autoridade militar.

Montcornet verá toda a sociedade rural unir-se secretamente contra ele, desde os burgueses rurais que são ainda mais vorazes que os burgueses das grandes cidades, até aos arrendatários mais miseráveis, que nunca param de lhe roubar descaradamente. Ao final, o Conde foi derrotado. O guarda Michaud, o único fiel a ele, foi assassinado. O assassino estava protegido pela lei do silêncio. O próprio conde foi ameaçado de morte. Ele vendeu Les Aigues, que seria dividida e o castelo, demolido.

Adaptei esse resumo da Wikipedia em francês de Les Paysans. Os vilões, pelo lado dos camponeses são os Tonsard, a burguesia rural é representada por Gaubertin e pelo avarento Rigou, com todos que os cercam. 

Balzac nos diz no começo da narrativa: 

"Não, o drama aqui não é restrito à vida privada, agita-se mais alto ou mais baixo do que ela. Não esperem paixão; nem por isso a verdade será menos dramática. De resto, o historiador jamais deve esquecer que a sua missão consiste em dar a cada um a sua parte: o rico e o desgraçado são iguais perante a sua pena; para ele o camponês tem a grandeza de suas misérias, como o rico, a pequenez de seus ridículos. Enfim, o rico tem paixões e o camponês, apenas necessidades: esse é, pois, duplamente pobre; e, se do ponto de vista político suas agressões devem ser reprimidas implacavelmente, do ponto de vista humano e religioso ele é sagrado" (BALZAC, 1992, p. 38). 

Balzac nos apresenta uma luta de classes, razão pela qual era um dos escritores favoritos de Engels e Marx. Aliás, Rónai nos diz que talvez seja a primeira obra literária na qual aparece, em 1844, o termo "comunismo": "a audácia com que o Comunismo, essa lógica viva da Democracia, ataca a Sociedade na ordem moral anuncia que a partir de agora o Sansão popular, tornando-se prudente, solapa as colunas sociais no porão em vez de sacudi-las no festim" (BALZAC, 1992, p. 104). Há muitas citações como essa. E interessantíssimas análises da Revolução Francesa, como as padre Brossette ( "A Revolução Francesa foi a vingança dos derrotados", p. 91). 

Os vencedores dessa luta, contudo, não são os mais pobres, são os seus exploradores imediatos: camponeses enriquecidos, taverneiros, usurários rurais, burgueses rurais, funcionários públicos corruptos. 

Todavia, é uma leitura muito complexa. O excesso de personagens, que muitas vezes aparecem e, somente várias páginas depois, são caracterizados, as ligações familiares entre eles, torna a história de difícil compreensão. Já li Guerra e Paz e Vida e Destino, não me assusto com obras com muitos personagens. Mas aqui, me perdi. Balzac exagerou. Creio que o plano da Comédia Humana exigia dele uma apreensão da realidade que, muitas vezes, resultava em confusão. 


A  imagem foi retirada de https://www.cosmovisions.com/textPaysans.htm 

 Acesso em 3 de novembro de 2023

BALZAC, Honore de. A Comédia Humana. Vol. XIII. São Paulo: Globo, 1992. 


domingo, 18 de junho de 2023

Uma Paixão no Deserto

Uma Paixão no Deserto (dezembro de 1830)

Volume XII: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Política, Cenas da Vida Militar. 

Personagens: narrador, senhora, sr. Martin (domador de leões), soldado provençal.

A história se passa provavelmente em 1830. A história relatada pelo narrador ocorreu entre 1798 e 1799 no Egito. É o segundo livro de Cenas da Vida Militar. 

Antes de mais nada, não deixe de ler esse conto que possui apenas 15 páginas. Um soldado provençal, que participa das guerras napoleônicas no Egito, é feito prisioneiro por berberes. Aproveita uma oportunidade e foge. A sobrevivência no deserto é pouco provável até o encontro do militar com a sua "paixão". Paulo Rónai diz, propriamente, que "o conto inspira medo, ou antes, uma sensação indefinida de curiosidade e mal estar". De fato, é com ansiedade que lemos esse texto curto. 

Aqui Balzac está longe de seu familiar universo urbano e se sai muito bem. Segundo Rónai, alguns consideram seu melhor conto. Para quem ler e se interessar recomendo o ótimo trabalho de Maria Braga Barbosa: Uma paixão no deserto: o conto de Balzac como metáfora do choque de cultura no colonialismo. A autora apresenta o encontro do soldado com a pantera como uma metáfora do choque de culturas na colonização. Mas não precisamos ver nenhuma metáfora. É uma boa história por si. 

A imagem é do pintor e ilustrador Paul Jouve (1878-1973) que ilustrou uma edição do conto em 1949. 


sábado, 17 de junho de 2023

A Bretanha em 1799

A Bretanha em 1799 (agosto de 1827 ou 1829?)

Volume XII: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Política, Cenas da Vida Militar. 

Personagens: Comandante Hulot, Gérard (ajudante), Capitão Merle, Pé de Poeira (Pedro), Subtenente Lebrun, Pé Bonito (João Falcon), padre Gudin, Gars-Maruqês de Montauran, Furta Pão (Cibot), Coupiou (condutor), Jacques Pinaud (Orgemont de Fougères), Francine, Maria Natália de Verneuil, Corentin, Sra. do Gua, Barão de Guénic, major Brigaut, Conde de Bauvan, Furta Pão, Barbette, Galopa  Caneca, Cavaleiro do Vissard (Rifoel).

A história se passa em 1799. É o primeiro livro de Cenas da Vida Militar. 


Maria conhece o Gars e Sra. de Gua
A Bretanha em 1799 ou Les Chouans foi o primeiro livro assinado por Balzac. Segundo Paulo Rónai foi quando, pela primeira vez se manifestaram as características do escritor Balzacc como o cuidado em corrigir o livro e a superioridade com que tratou seu editor, Henri de Latouche. É um romance histórico à moda de Walter Scott, em voga na época com o acréscimo de uma intriga amorosa. 
A história diz respeito à denominada Chouannerie, uma revolta de camponeses ocorrida na região da Bretanha contra a Revolução Francesa. Eles usavam táticas de guerrilha e imitavam o grito da coruja (chouin no dialeto bretão). De acordo com a Enciclopédia Britânica, a motivação era menos a devoção à monarquia do que o ressentimento pela interferência da república com o modo de vida dos Chouans, como o fim do contrabando em função da abolição da gabela (imposto sobre o sal), medidas contra o clero e a conscrição obrigatória . 
Acompanhamos um grupo de conscritos bretões escoltados pelo comandante Hulot, conhecido nosso de A Prima Bete. Eles são atacados pelos Chouans. Um líder vendeano, um jovem nobre alcunhado de Gars, o Marquês de Montauran, vem do exterior para unir a Vendeia e a Bretanha. Para detê-lo, José Fouché (1759-1810), que já aparecera em Um Caso Tenebroso , através do nosso já conhecido Corentin (Um Caso Tenebroso, Esplendores e Misérias das Cortesãs) envia uma bela sedutora, Maria de Verneuil. O Gars e Maria se apaixonam no primeiro encontro. Um armadilha de Corentin, porém, faz com que Maria denuncie seu amado. Ela descobre a trama, mas é tarde demais. Eles se casam e morrem juntos na manhã seguinte. 
Como bem destaca Rónai, há muito da primeira fase de Balzac, a qual ele renegou, nesse romance. A história de amor é um tanto mirabolante, há fugas, esconderijos, tesouros. Os personagens são fracos e esquemáticos (segundo críticos, isso pode ser em função de alterações posteriores do romance para se encaixar na Comédia Humana). Mas há também muito de Balzac aí. A história não é real, mas o escritor pesquisou, de modo a nos dar incríveis descrições da paisagem da Bretanha, das casas e do modo de vida dos Chouans. A missa rezada pelo padre Gudin no bosque e o assassinato de Galopa Caneca pelos seus companheiros por uma suposta traição são momentos superiores da obra. 
Aliás, a traição perpassa toda a história. Azuis (republicanos) e Brancos (contrarrevolucionários) se acusam mutualmente de traidores, do rei, no primeiro caso, e da pátria, no segundo. E Maria e Montauran passam por várias possibilidades de traírem um ao outro. No final, acreditando que Montauran a trai com De Gua, Maria o trai, entregando-o aos Azuis. 
Eu confesso que esperava mais, muito em função da fama de A Bretanha em 1799. Minha leitura foi demorada, sem aquela pressa que tenho, aquele não conseguir largar o livro. Sinal de que estou mal acostumada com o meu historiador de costumes!
 


A imagem é de E. Toudouze — Honoré de Balzac, The Chouans. Philadelphia: George Barrie & Son, 1897

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Z. Marcas

Z. Marcas (1840)

Volume XII: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Política, Cenas da Vida Militar. 

Personagens: Carlos Rabourdin (narrador, estudante de direito), Justo (estudante de medicina), Zeferino Marcas. 

A história se passa entre 1836 e janeiro de 1838

Paulo Rónai, na introdução desse conto, utiliza a acertada definição de Guyon, em Le Cathécisme Social: "mistura estranha de confidência pessoal, confissão de importância e sátira violenta contra o governo burguês, egoísta e gerontocrata da da Monarquia de Julho". Z. Marcas conta as desventuras de um estrategista político, um autêntico "homem de Estado", traído por políticos medíocres que ele ajudou a colocar no poder. 

Pierre Jean David (David D´Angers), 1843

A história é contada por Carlos Rebourdin, filho de Xavier Rebourdin, de Os funcionários. Carlos e seu colega de quarto, Justo, eram vizinhos de Marcas em uma pensão de estudantes na rue Corneille. Ajudando a mitigar a penúria de Marcas, os jovens escutam suas histórias e passam a admirá-lo. O auxiliam em uma última empreitada que não dá certo e resulta na morte do herói aos 35 anos. 

Rónai aponta o problema do texto. Balzac se identifica com o personagem. Assim Balzac descreve Marcas: "Seus cabelos assemelhavam-se a uma juba, seu nariz era curto, achatado, largo e fendido na ponta, como o de um leão. Tinha a fronte dividida por um sulco profundo, dividida em dois lobos potentes, como a de um leão" (BALZAC, 1991, p. 324). E esses eram seus hábitos: "Trabalhava durante metade da noite. Depois de ter dormido de seis a dez horas, levantava-se paras recomeçar, e escrevia até as três horas. Saía então para ir levar as suas cópias entes do jantar e ia comer na rue Michel-le-Comte, à casa Mizerai, à razão de nove sous por refeição. Voltava depois para deitar-se às seis horas" (BALZAC, 1991, p. 326). É Balzac falando dele mesmo. O problema é que o que é evidente para o autor não o é para o leitor. Onde Balzac vê grandeza e inteligência, nós leitores vemos ambição e vaidade. O texto é grandiloquente e chato. 

Vale a pena destacar ainda que Z. Marcas é uma crítica mordaz da Monarquia de Julho e da sociedade francesa permeada pelo dinheiro: "(...) o Estado, assaltado pelos mais insignificantes postos da magistratura, acabou exigindo dos solicitantes certa fortuna. (...) Hoje o talento precisa  a sorte que faz triunfar a incapacidade; mais ainda, se descura das aviltantes condições que dão êxito à mediocridade rastejante, jamais triunfará" (BALZAC, 1991, p. 322). Mas Balzac mostra isso muito bem em diversos textos. Aqui faz um libelo que está aquém de sua grandeza. 




sexta-feira, 8 de julho de 2022

O deputado de Arcis

O deputado de Arcis (1847)

Volume XII: Estudo de Costumes: Cenas da Vida Política, Cenas da Vida Militar

Personagens: sra. Marion, coronel Giguet, Simão Guiget, Grévin (tabelião), Philéas Beauvisage (genro de Grévin), Severina Beauvisage (née Grévin), Varlet filho (médico), Cecília Beauvisage, Francisco Keller (genro do Conde de Gondreville, Malin), Carlos Keller (filho de Francisco), Marechala de Carigliano (filha de Malin), Aquiles Pigoult (tabelião, sucessor de Grévin), Poupard (hospedeiro), João Violette, Antonino Goulard (subprefeito), Olivério Vinet (procurador substituto), Frederico Marest (procurador do Rei), sr. Martener (juiz), sr. Mollot (escrivão), sra. Mollot, srta. Ernestina Mollot, Juliano, Gontardo, Anniette, Paraíso, Marquesa d´Espard, Cavaleiro d`Espard, De Rastignac, Condessa de Rastignac (filha de Delfina de Nuncingen), Máximo de Trailles. 

A história se passa em 1839

O deputado de Arcis é um livro inacabado. Tem somente a primeira parte, A Eleição. Mas, ao contrário de Os pequenos burgueses, lamentamos muito não ter a continuação da história. É o mesmo ambiente e personagens de Um caso tenebroso, 33 anos depois do caso judicial dos Cinq-Cygne. Paulo Rónai nos diz na introdução que que O deputado de Arcis alarga a complexa perspectiva de Um caso tenebroso e "aprofunda em nós a sensação do histórico". 

Philléas Beauvisage

Na parte que conhecemos o protagonista é Simão Giguet, sobrinho da sra. Marion, viúva de Marion, recebedor geral, irmão do Marion que foi testa de ferro de Malin no passado. Simão decide apresentar-se como candidato de oposição nas eleições à Câmara nacional. O posto era, desde 1816, de Francisco Keller, genro do Conde de Gondreville, nosso conhecido Malin. Keller, nomeado par de França, desejava transmitir ao filho Carlos, sua sucessão eleitoral. Mas "eleger o jovem comandante Keller, em 1839, depois de ter eleito o pai durante vinte anos, revelava uma verdadeira servidão eleitoral, contra a qual se revoltava o orgulho de vários burgueses enriquecidos, que julgavam valer tanto como um sr. Malin, Conde de Gondreville, e como os banqueiros Keller irmãos, e os Cinq-Cygne, e até mesmo o rei dos franceses!" (BALZAC, 1991, p. 230). Esse foi o contexto da candidatura de Simão Giguet. 

Há inclusive a insinuação de que Gondreville, aqui com 80 anos, proporia um "filho da terra" como candidato, que cederia seu lugar à Carlos Keller. Há a insinuação de que esse candidato laranja poderia ser Philéas Beauvisage, genro do tabelião Grévin, e filho do granjeiro de Bellache, de Um caso tenebroso. Simão desejava também a mão de Cecília Beauvisage, filha de Philéas (ou filha de um  Visconde de Chargeboeuf que era subprefeito em Arcis na época do seu nascimento). Herdeira rica, faria o sonho da mãe, Severina, de morar em Paris e frequentar à alta sociedade. Mas a jovem, ou melhor, sua família, tinha em vista Carlos Keller para noivo. 

Mas eis que chegou a notícia de que Carlos Keller morreu em guerra na África. Aparentemente o caminho estava livre para Simão. Mas eis que chegou à cidade um nobre desconhecido. "Não há cidade pequena na França na qual, num momento dado, não se represente o drama ou a comédia do forasteiro. Muitas vezes este é um aventureiro que faz vítimas e se vai, levando a reputação de uma mulher ou o dinheiro de uma família" (BALZAC, 1991, p. 276). Não há como não recordar de O Inspetor Geral de Gógol...

O desconhecido não era ninguém menos do que Máximo de Trailles, conhecido dândi, colecionador de mulheres e financeiramente arruinado. Ele vai para Arcis para se candidatar a deputado e garantir a candidatura para a Monarquia de Julho. A decisão foi tomada em Paris, no salão da Marquesa d´Espard, dois meses antes da reunião que abre o romance, que lançou a candidatura de Simão. Sabemos que Máximo manteve conversas com Gondreville e com os Cinq-Cygne, arqui-inimigos em função do caso judicial do passado. E que seus modos finos e a sua equipagem despertaram o interesse de Cecília. Contudo, Balzac parou aqui. 

A trama é tipicamente balzaquiana, com as descrições de ambientes e dos aspectos físicos e psicológicos. O diferencial de O Deputado de Arcis é o proveito que Balzac tira da sua "invenção", de mostrar o passado ou o futuro das sua personagens. O recurso que, em alguns romances, fica um pouco artificial, aqui é utilizado de forma brilhante. Os desfechos iluminam as histórias pregressas. A amizade de Grévin e Malin, a ascensão do filho do granjeiro Beauvisage, o  ministro  De Rastignac, o jovem que olhou Paris do alto da colina do Père-Lachaise no enterro do Pai Goriot

O desfecho seria o sucesso de Máximo de Trailles nas eleições e no coração de Cecília? É o que parece. Mas não esqueçamos que, muitas vezes, Balzac nos surpreende no final. 

BALZAC, Honore de. A Comédia Humana. vol. XII. São Paulo: Globo, 1991. 

Não encontrei a fonte da imagem. O texto é da parte III do romance: "Ele vivia sorrindo a todos. (...) Seus lábios abonecados triam sorrido em um enterro" (BALZAC, 1991, p. 236). 

domingo, 15 de maio de 2022

Um caso tenebroso

Um caso tenebroso (janeiro de 1841)

Volume XII: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Política, Cenas da Vida Militar

Personagens: Michu, Marta Michu, mãe de Marta, Francisco Michu, Gaucher (criado de Michu), Mariana (criada de Michu), Marion, Malin (conselheiro de Estado, Conde de Gondreville), Grévin (tabelião em Arcis), Corentin, Peyrade, Violette (granjeiro), Lourença de Cinq-Cygne, Paulo Maria e Maria Paulo Simeuse, sr. e sra. d´Hauteserre, Catarina, Gontardo, padre Goujet, srta. Goujet, Durieu (cozinheiro), Goulard (maire), Roberto d´Hauteserre, Adriano d´Hauteserre (Marquês de Cinq-Cygne), José Fouché, Marquês de Chargeboeuf, Beauvisage (granjeiro de Bellache), juiz Lechesneau, Pigoult  (juiz de paz), Bordin (procurador), sr. de Grandville (advogado), príncipe Talleyrand, Marcehal Duroc, Napoleão Bonaparte, Berta de Cinq-Cygne, Paulo de Cinq-Cygne, Princesa de Cadigan, Marquesa d´Espard, De Marsay, De Rastignac, Jorge de Maufrigneuse.

A história se passa entre 1803 e 1833. 

No Castelo de Cinq-Cygne

Neste romance, que Paulo Rónai acertadamente caracteriza como magnífico e opulento, temos uma amostra do que Balzac teria feito se tivesse vivido mais. Um caso tenebroso é uma história que se passa no período do Consulado (10 de novembro de 1799 a 18 de maio de 1804). Não por acaso, ele está, na Comédia Humana, após Um episódio do Terror ambientado na época da Revolução. Balzac nos deixou títulos não escritos como Os soldados da República, Os Franceses no Egito e Moscou. Sofrimento para o leitor balzaquiano não poder ler essas histórias!

Um caso tenebroso compõe a pré-história da Restauração e da Monarquia de Julho. Segundo Rónai, a história interessava a Balzac como repositório dos germes da época em que ele vivia. Lá ele buscava explicações para o que via e o que retratava.

Em setembro de 1800, o senador Dominique Clément de Ris foi raptado em seu castelo em Beauvais por um bando de ladrões. Dezenove dias depois foi libertado sem ter sofrido nenhum dano. José Fouché, Talleyrand e Clément de Ris haviam tramado um golpe contra Bonaparte, caso ele não fosse bem-sucedido na Itália. Com a vitória de Marengo, Fouché mandou seus homens resgatarem documentos comprometedores no castelo de Beauvais, que, por cautela, raptaram o senador. Porém, Napoleão ordenou a investigação e a punição dos culpados. Fouché fez com que um grupo de jovens realistas, desafetos seus, fossem acusados e executados. Balzac conhecia bem a história, pois o senador fora protetor de seu pai, Bernard-François Balssa.

No romance o senador Clément de Ris é Malin. Os acusados são os gêmeos Simeuse, os irmãos Roberto e Adriano d´Hautserre, e o empregado Michu. Eles, de fato, haviam conspirado contra Napoleão, mas, com o perdão do Cônsul, retornaram à França e, juntamente com o sr. e a sra, d´Hautserre e Lourença de Cinq-Cygne, torciam contra o futuro imperador, mas sem agir. A trama, que contou com a participação dos nossos conhecidos Corentin e Peyrade foi muito bem executada, de modo que os acusados, mesmo com a excelente defesa do advogado Grandville, foram condenados. Os nobres tiveram a pena convertida em ingresso no serviço militar e Michu foi condenado à guilhotina. Paulo Maria, noivo de Lourença, Maria Paulo e Roberto D´Hautserre morreram nas guerras napoleônicas. Uma melancólica Lourença casou com Adriano e teve dois filhos, Paulo e Berta. 

Lourença e Napoleão

Fazia algum tempo que não lia Balzac com tanta ansiedade, sem conseguir parar! Muito interessante os matizes que o autor apresenta dentro do espectro político pós-revolucionário. Temos realistas que se disfarçaram de jacobinos para sobreviver e prosperar, radicais que se acomodaram, realistas que aguardavam a volta do Antigo Regime, conspiradores, conformados, indiferentes - os nossos isentões - enfim - e em um quadro móvel. Com respeito ao Império, vários matizes de atitudes, especialmente da nobreza, da luta armada até a colaboração. Dá para entender por que Balzac recuou no tempo para melhor entender a Restauração.  

Temos uma amostra da justiça durante o Consulado, um sistema inquisitorial no qual "o diretor do júri era, ao mesmo atempo agente da polícia judiciária, procurador do Rei, juiz de instrução e corte real" (BALZAC, 1991, p. 155). Balzac critica o júri com o mesmo argumento que já vi membros do Ministério Público utilizarem: "Por isso, é bem possível que os juízes ofereçam aos acusados mais garantias que os jurados. O magistrado não se fia senão nas leis da razão, ao passo que o jurado se deixa impelir pelas vagas do sentimento" (BALZAC, 1991, p. 155). "A inocência nada mais tem por si do que o raciocínio; e o raciocínio que pode impressionar os juízes é muitas vezes impotente sobre o espírito prevenido dos jurados" (BALZAC, 1991 ,p. 172). 

Então, o próprio Napoleão Bonaparte entra na Comédia Humana. É uma cena curta, mas magnífica. Em 13 de outubro de 1806, no vale do rio Saale, em Jena na Prússia, Lourença consegue alcançar o Imperador para pedir clemência, na véspera de uma das maiores vitórias do Imperador. Lembremos que Balzac dizia que queria "conseguir com a pena o que ele [Napoleão] realizou com a espada", admiração que não impede que nosso autor o retrate de forma complexa. 
Mas "uma vez conhecido o julgamento, acontecimentos políticos da mais alta importância abafaram a lembrança desse processo em que não mais se falou. A sociedade é como o oceano, após um desastre retoma o seu nível e seu ritmo e apaga os vestígios pelo movimento de seus devoradores interesses" (BALZAC, 1991, p. 195). 

É no capítulo final, contudo, que Balzac se revela genial. Aqui, escrevendo ficção, ele nos dá uma lição do que é fazer história. História é uma versão do passado baseada em testemunhos que podem ser escritos, orais ou materiais. O passado não existe por si e é impossível apreendê-lo, pois os testemunhos, por mais numerosos que sejam (veja-se tudo que as redes sociais deixarão para os historiadores do futuro), são limitados. Em 1833, no salão da Princesa de Cadigan, De Marsay ao ver a Marquesa de Cinq-Cygne, Lourença, deixar o salão com a chegada do Conde de Gondreville, Malin, que também se retira, desvenda o mistério, revelando a conspiração de Fouché, Talleyrand e Malin. A narração, todavia, não é exata, "mesmo depois de todas as explicações, permanecem uns cantos obscuros, recurso engenhoso do romancista para fazer sentir a inextricabilidade da história, cujos acontecimentos nunca podem ser integralmente esclarecidos" (RÓNAI, 1991, p. 38). 
É um final que produz um efeito de real assombroso, com um recurso bem diferente do descrito por Roland Barthes. Leiam, por favor!

Fontes da imagens: 

Pierre Vidal — Honoré de Balzac, A Dark Affair. Philadelphia: George Barrie & Son, 1897. 

BALZAC, Honoré. A comédia humana. Volume XII. São Paulo: Globo, 1991. 
RÒNAI, Paulo. Introdução - um caso tenebroso. In: A comédia humana. Volume XII. São Paulo: Globo, 1991. 

domingo, 19 de dezembro de 2021

Os comediantes sem o saberem

Os comediantes sem o saberem (novembro de 1845)

Volume XI: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Parisiense

Personagens: Léon de Lora (Mistigris de Uma estreia na vida), Silvestre Palfox-Castel-Gazonal, Bixiou, Claúdio Vignon, Massol, Carabina (Serafina Sinet), Teodoro Gaillard (gerente de jornal), Suzana Gaillard, Fromenteau (cobrador de dívidas), Vital (fabricante de chapéus, sucessor de Finot, sra. Nourrison (espécie de "banco" para mulheres, Jacqueline Collin de  Esplendores e Misérias das Cortesãs),, sra. Mahuchet (sapateira de mulheres), Revenouillet (porteiro), Vavinet (usurário), Ridal, Jenny Cadine, Marius V (Mougin, cabeleireiro), Régulo (auxiliar de Marius), Dubourdieu (pintor, fourierista), sra. Fontaine (cartomante), Publícola Masson (pedicuro, republicano radical), Conde de Rastignac, Máximo de Trailles, Canalis, Giraud. Du Tillet, Nuncigen, Du Bruel, Málaga. 
Vital e Gazonal

A história se passa em 1845. 

Os Comediantes sem os saberem é uma viagem de descoberta a Paris, na qual o pintor León de Lora e cartunista Bixiou apresentam à cidade ao primo de Lora, Gazonal. O primo, da região dos Pirineus orientais, dirige uma manufatura de tecido na província. Está em Paris em razão de um processo contra a prefeitura de sua cidade que foi transferido à jurisdição do Conselho de Estado. Está desesperançado quando procura Léon. 

Pois León de Lora e Bixiou, sabendo que quem preside a sessão onde se encontra o processo é Massol e o que o relator é Cláudio Vignon, prometem que a decisão será favorável a Gazonal, desde que eles compareçam a uma festa logo mais à noite na casa da cortesã Carabina. Mas até lá, eles querem apresentar Parais a Gazonal. 

Então desfilam pelas páginas da Comédia Humana vários tipos pitorescos: Fromenteau, que cobra dívidas de todas as formas possíveis, Vital, fabricante de chapéus, a sra. Nourrison, que socorre com dinheiro as mulheres necessitadas,  Revenouillet, o porteiro que agencia dinheiro, Vavinet, o usurário elegante, Marius, o cabeleireiro empreendedor, Dubourdieu, o artista fourierista, a sinistra cartomante Fontaine, com sua galinha preta e seu sapo Astarot, o pedicuro Masson, defensor do terror revolucionário. 

No final, utilizando caminhos não administrativos ou judicias, Gazonal ganha seu processo. 

É um texto rápido, uma espécie de galeria de personagens. Repetindo Paulo Rónai na Introdução, é em Os Comediantes sem o Saberem que Balzac dá, na voz de Bixiou, sua famosa definição de Paris: "um instrumento que é preciso saber tocar". Os cicerones dão uma lição de como "tocar" Paris a Gazonal. Nós que nos divertimos. 


Sra, de Nourrison

Imagens: Oeuvres illustrées de Balzac, 1851-1853. https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k116911k/f232.item Acesso em 19 de dezembro de 2021. 

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Os funcionários

Os funcionários (julho de 1836)

Volume XI: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Parisiense

Personagens: Xavier Rabourdin, Celestina Rabourdin (née Leprince), Clemente Chardin des Lupleaux, Atanásio João Francisco Miguel de La Billardière (barão Flamet de La Billardière) , sr. Saillard, sra. Saillard (née Bidaut), Isidoro Baudoyer, Isabel Baudoyer (née Saillard), sr. e sra. Badouyer (pais de Isisdoro), Padre Gaudron, Martinho Falleix, srta. Baudoyer, sr. Sorbier (tabelião, predecessor de Cardot), Gigonnet (agiota), Werbrust, Gobseck, sr. Mitral (tio de Isidoro, irmão da mãe dele), Sebastião de La Roche (extranumerário), sra. de La Roche (mãe de Sebastião), Du Bruel (autor teatral, também conhecido como Cursy, amante de Túlia que era também amante do duque de Rhétoré, subchefe), Benjamin de La Billardière, Ernesto de La Brière (secretário particular do ministro), Antônio (contínuo das repartições), Lourenço (contínuo dos dois chefes, sobrinho de Antônio), Gabriel (contínuo do diretor, sobrinho de Antônio), sr. Dutocq (oficial de gabinete da repartição de Rabourdin, sucessor do sr. Poiret). José Godard (subchefe de Rabourdin, primo de Mitral pelo lado materno, aspirante à mão da srta. Baudoyer,) Phellion (escriturário do gabinete de Rabourdin, dois filhos, uma filha e esposa leciona piano no internato das srtas. La Grave, ele também leciona história e geografia no internato), Adolfo Vimeaux (amanuense que gastava para se vestir bem), Bixiou (desenhista, da divisão Baudoyer), Augusto João Francisco Minard (amanuense), sra. Minard (Zélia Lorain), Colleville (primeiro oficial da repartição Baudoyer, primeiro clarinete da ópera cômica, fã de anagramas), Flávia Minoret (esposa de Colleville), Thuillier (primeiro oficial da repartição Rabourdin), srta. Thuillier (irmã de Thuillier), Chazelle, Paulmier, Poiret Jr. (irmão de Poiret sênior, organizava a coleção de jornais e escriturava livros em duas casas comerciais, tinha um diário), Fleury (ex capitão de regimento no período napoleônico, tinha opiniões de centro esquerda, fugia dos credores), Desroys (discreto, republicano em segredo), Marquesa d' Espard, ministro e esposa do ministro, um deputado, sr, Clergeau. 

A história se passa entre  1820 e 1825. 

A enorme lista de personagens já mostra como esse romance, pouco conhecido e comentado, é desafiador para o leitor de Balzac. No início, já cito o meu "guia", Paulo Rónai, que na introdução de "Os Funcionários" repete, ao comentar a ausência do título em textos e críticas: "E no entanto, trata-se de autêntica obra-prima que por si só bastaria a gravar o nome do autor na história das letras francesas: Balzac é assim, muitas vezes prejudicado pela sua própria riqueza: alguns livros seus de uma perfeição poderosa relegam ao desconhecimento outros, talvez não isentos de defeitos mas decerto cheios de belezas" (RÓNAI, 1991, p. 99).  

Conta-se a história e Xavier Rabourdin, chefe de gabinete em um importante ministério, que teve sua promoção a chefe de divisão preterida pelo sr. de La Billardière, "homem incapaz". Rabourdin, raríssimo homem de Estado, dedicou-se a planejar uma reforma do sistema administrativo francês. Reforma detalhada por Balzac, que envolvia a redução dos ministérios a três, e a diminuição do número de funcionários para cinco mil, com o aumento de seus salários. Entendemos que a burocracia é filha do governo constitucional pois os ministros "obrigados a obedecer aos príncipes ou às Câmaras, que lhe impõem a admissão de novos empregados, e forçados a conservar os que têm, (...) diminuíam os salários e aumentavam o número de empregos, pensando que, quanto mais gente fosse empregada pelo governo, mais este seria forte" (BALZAC, 1991, p. 114). Balzac chama esse sistema de ministerialismo, com o funcionário se comportando com o governo "como uma cortesã com um amante velho. Dava-lhe trabalho correspondente ao dinheiro que recebia" (BALZAC, 1991, p. 114). 

O funcionário público "ocupado unicamente em se manter, em receber seus ordenados e alcançar sua aposentadoria, (...) achava que tudo era permitido para alcançar esse resultado. Esse estado de coisas acarretava o servilismo do funcionário, engendrava intrigas perpétuas no seio dos ministérios, onde os empregados pobres lutavam contra uma aristocracia degenerada que vinha pastar nas terras comunais da burguesia, exigindo postos para seus filhos arruinados. (...) Não restavam ou não vinham senão preguiçosos, incapazes ou tolos. Assim, se estabelecia lentamente a mediocridade da administração francesa" (p. 116). Rabourdin foi além, planejando também uma reforma das finanças, com a taxação do consumo em massa em vez da propriedade, com a receita do imposto vindo de uma única lista composta de diversos artigos. 

Discordo muito do romancista inglês, Arnold Bennett, citado na Introdução por Rónai  quando diz que "o começo de Os Funcionários é terrível" e "aí a gente vê que Balzac não entendia do assunto." Talvez por ser historiadora, achei o começo do romance muito interessante (lembremos que Balzac se dizia "historiador de costumes"). Ele expõe o fortalecimento da burocracia no contexto da formação de uma democracia liberal. Ao lado da nascente soberania nacional persiste a soberania monárquica, e  a aristocracia decadente disputa espaço e dinheiro com a nova burguesia. Mas além de historiadora, sou servidora pública. E é grande a atualidade das discussões de Balzac sobre o dia a dia do serviço público. Nos "funcionários" apresentados na segunda parte do romance (do elenco de funcionários poderiam sair inúmeras obras, incrível a prolificidade de Balzac!), reconhecemos muitas figuras das nossas repartições: o preguiçoso, o apadrinhado, o fofoqueiro, o certinho, o piadista, estão todos lá. 

A trama ocorre a partir da morte de La Billardière e a vacância de seu cargo. Rabourdin era o candidato natural. Mas no seu caminho se encontra o medíocre Isidoro Baudoyer, o outro chefe de gabinete. Ao lado de Baudoyer, está o clero, com poder restaurado pela ascensão de Carlos X, os agiotas, que manipulam as dívidas do secretário-geral Des Lupleaux, e vários funcionários desejosos de um chefe que mantivesse tudo como estava. A "fritura" de Rabourdin ocorreu a partir da divulgação de seu relatório para a reforma, no qual, além do número de funcionários que seriam demitidos, havia apreciação do desempenho de vários, inclusive de Des Lupleaux.  Mas havia ainda uma esperança para a promoção de Rabourdin: a paixão do secretário-geral, "remanescente de um homem bonito", por Celestina Rabourdin. "Os primeiros cabelos brancos trazem consigo as últimas paixões, as mais violentas, por estarem a cavaleiro de uma potência que se vai e de uma fraqueza que se inicia" (BALZAC, 1991, p. 148). Mas Celestina, mulher superior (o primeiro título  de "Os Funcionários" era "A mulher superior") e ambiciosa, por quem o responsável marido gastava mais do que ganhava, se manteve virtuosa, não concedendo seus favores a Des Lupleaux, o que selou o destino de Rabourdin. 

O final infeliz, tipicamente balzaquiano, ocorre com a promoção de Baudoyer a chefe de divisão e a demissão voluntária de Rabourdin. 

Impressionantes os diálogos da parte do romance que se passa na repartição, que é toda dialogada. Rónai nos diz que são superiores a todos os diálogos das peças que Balzac escreveu e que não deram certo. Dariam um bela e engraçada peça de teatro, no estilo de "O Inspetor Geral" de Gogol. 

Em "Os funcionários" Balzac nos presenteia com o quadro de nascimento da burocracia estatal contemporânea e dos ajustes sociais feitos pela chegada do capitalismo no final do século XVIII. Mas, para além da análise histórica, é um livro divertido. Torcemos por Rabourdin, mesmo sabendo que ele perderá no final, como quase todos os "bons" do mundo balzaquiano. 


Imagem retirada de: Alcide Théophile Robaudi. Honoré de Balzac, The Civil Service. Philadelphia: Gebbie Publishing Co., 1899. 
https://fr.wikipedia.org/wiki/Les_Employ%C3%A9s_ou_la_Femme_sup%C3%A9rieure. Acesso em 14 de dezembro de 2021. 




terça-feira, 30 de março de 2021

Gaudissart II

 Gaudissart II (novembro de 1844)


Volume XI: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Parisiense

Personagens: gerente de loja (Gaudissart II), Du Ronceret, Bixiou, uma inglesa.

Quando comecei a escrever esse post, cometi um ato falho que resume esse curtíssimo texto (Balzac o chama de "pequeno vaudeville") . Em vez de "estudos de costumes", escrevi "estudos de consumo". Gaudissard II é sobre isso: a sociedade de consumo que se estabeleceu na França no século XIX com centro em Paris. 

O texto mostra as manobras dos caixeiros e vendedores, alguns donos de lojas muito ricos, para vender seus produtos a uma clientela variada, predominantemente de mulheres (embora muitos homens, Balzac inclusive, sejam muito consumistas). Eles são sucessores do nosso já conhecido Ilustre Gaudissart. Portanto, todos são Gaudissart II. 

Um desses Gaudissart consegue vender um xale, que vale muito menos do que o cobrado,  a uma reclacitrante inglesa, utilizando a psicologia típica dos vendedores. 

Referência da ilustração. Honoré de Balzac. Gaudissart II. Philadelphia: Gebbie Publishing Co., 1899.

Um príncipe da boêmia

Um príncipe da boêmia (1839-1845)

Volume XI: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense

Personagens principais: sra. de Baudraye (Diná Piédefer), Marquesa de Rochefide (Beatriz), Nathan, Carlos Eduardo Rusticoli (Conde de la Palférine), Claudina du Bruel  (Túlia),  Du Bruel (De Cursy), Bianchon, Lousteau. 

A história se passa entre 1834 e 1837. 

Paulo Rónai nos diz, na introdução de Um príncipe da boêmia, que a história é confusa e a leitura, árdua. Pois, discordo. Achei a leitura muito agradável. Se sabemos que se trata da história do romance do Conde de la Palférine com Claudina/Túlia contada por Nathan à Marquesa de Rochefide e escrita pela sra. de Baudraye, não há confusão (!). 

Lembremos que  a sra. de Baudraye é Diná Piédefer, a Musa do Departamento. Ela está em Paris vivendo com Estevão Lousteau em dificuldades financeiras. E pede a Nathan que lhe dê algum trabalho literário. O resultado é Um Príncipe da boêmia. E a amante de Nathan, Marquesa de Rochefide, é Beatriz

Conhecemos a história de amor não correspondido de Claudina pelo nobre empobrecido Carlos Eduardo Rusticoli, De la Palférine. Famoso pelos chistes e por não pagar dívidas, Carlos Eduardo torna-se amante de Claudina. Ela é a mais dedicada das mulheres: faz todas as vontades do amante, aparece nos horários por ele determinados, escreve longas cartas de amor. Tudo o que ela houve do amado é "És uma boa rapariga". Então sabemos que Claudina é a dançarina Túlia, que se aposentou dos palcos em 1829 para tornar-se a senhora Du Bruel. Du Bruel é o nome verdadeiro do dramaturgo De Cursy. Depois de vários anos trabalhando com Túlia no teatro, a desposou. O casamento não foi anunciado. Túlia rompeu sua ligações mundanas e se reinventou como uma burguesa casada e respeitável. Então, Túlia/Claudina apaixonou-se pelo frívolo Carlos Eduardo De la Palférine. Cansado da amante, apesar dela se submeter a todos os seus caprichos, o rapaz colocou uma condição: "Deves ter uma carruagem, lacaios, uma libré". Pois a obstinada Claudina cumpriu as condições em três anos. No final, ela se apresenta a Carlos Eduardo com tudo o que ele demandou. O desenlace: o interesse da Marquesa de Rochefide pelo frívolo nobre. 

Não é um grande texto literário, mas é uma leitura agradável. 

Dois pontos interessantes. A obstinação de Claudina com o amor não correspondido que Paulo Rónai considera um estudo de psicologia. Persistir em algo tão penoso se transforma em uma verdadeira missão de vida. Podemos, inclusive, imaginar que, caso o rapaz cedesse e se mostrasse apaixonado, o interesse de Claudina declinaria. 

Mais instigantes são os sinais trocados nas relações Carlos Eduardo/Claudina e Du Bruel/Claudina. No casamento, ela está no comando e submete o atordoado marido aos seus caprichos. Não somente isso. Ela manobra a carreira de Du Bruel, que se torna par de França e conde. Um homem que teria de contentado em permanecer como autor de vaudevilles de qualidade duvidosa e frequentador da boêmia parisiense. Ou seja, há aspectos psicológicos nessa novela que recomendam muito  a sua leitura. 

Referência da ilustração. Honoré de Balzac. A prince of Bohemia and other stories. Philadelphia: Gebbie Publishing Co. 1899. 


terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Um homem de negócios

Um homem de negócios (Paris, 1845)

Volume XI: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense (lido entre 16 de fevereiro de 2021 e 26 de março de 2022)

Personagens principais: Margarida Turquet (Málaga), Cardot, Desroches, Bixiou, Nathan, Lousteau, La Palférine, Máximo de Trailles, Claparon, Cérizet, sra. Chocardelle (Antonia), Ida Bonamy, Croizeau, sr. Denisard (Cérizet), Hortênsia, Nuncingen. 

A história se passa em algum momento entre 1840 e 1845.

Maxime Dastugue. Retrato de Balzac (1886), Museu de Versalhes

Um homem de negócios é um conto ao estilo de história dentro da história, como Gobseck e Outro Estudo de Mulher. Um grupo de personagens conhecidos da Comédia Humana se encontra na casa da cortesã ou lourette Málaga, amante do tabelião Cardot. Desroches conta a disputa entre Máximo de Trailles e Cérizet, devedor e credor. Cérizet se faz passar por um diretor de aduana, Denisard, para cobrar uma dívida de Máximo de Trailles. O mulherengo, bon vivant e devedor inveterado, De Trailles, está na faixa dos cinquenta anos. Já o encontramos em Gobseck e O Pai Goriot, sempre explorando e arruinando mulheres.
 

Lembremos que Balzac vivia devendo dinheiro e conhecia todas as manhas do assunto. O tema desse pequeno texto, o dinheiro, é também uma dos temas da vida do nosso mestre. 


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

O Primo Pons

O Primo Pons (julho de 1846-maio de 1847) - Os Parentes Pobres

Volume X: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense (lido entre 25 de junho de 2020 e 10 de fevereiro de 2021 )
 
Personagens principais: Silvano Pons, Schmucke, sra. Cibot, sr. Cibot, Gaudissart, sr. Camusot de Merville (presidente da Câmara na corte real de Paris) , sra. Camusot-Merville (presidenta), srta. Cecília Camusot, Madalena Vivet (criada da presidenta), Rémonencq, sra. Fontaine (cartomante), Wilhelm Schwab (flautista da orquestra), Heloísa Brisetout (bailarina), Fritz Brunner, Berthier (tabelião), dr. Poulain, Elias Magus, Fraisier, sr. Leboeuf, Trognon (tabelião), Leopoldo Hannequin (tabelião), sr. Tabareau (tabelião), vigário Duplanty, sra. Sauvage, sra. Cantinet, corretor da casa Sonet, Villemot (primeiro escrevente de Tabareau), Topinard, sra. Topinard (Lolotte), Vitel (juiz de paz).



A história se passa entre outubro de 1844 e 1846.

Imagem de Théophile Robaudi

Aqui vou ter a ousadia de discordar de Paulo Rónai. Ele prefere O Primo Pons. Eu prefiro A Prima Bete. Rónai destaca a conexão do segundo com o resto da Comédia Humana, considerando que "representa como que o fecho da abóbada de todo o edifício". De fato, há desfechos e entreatos para diversos personagens. Mas isso, em alguns momentos, deixa a história confusa. Sem falar que se confirma a falta de vocação de Balzac para criar a bondade. Pons e Schmucke são menos interessantes que a Cibot e Fraisier. 
Os músicos, Pons e Schmucke, trabalhavam juntos em um teatro popular, administrado por nosso já conhecido Gaudissart. Talentos medíocres e já na terceira idade, resolveram dividir a solidão morando juntos. Mas Pons, que chegou a ensaiar uma carreira promissora no período do Diretório, tinha duas paixões maiores que a música: a boa comida e as obras de arte. São elas que impulsionam a ação. 
Com seu modesto salário e com o hábito dispendioso de adquirir obras de arte, Pons fila jantares na casa de parentes melhor aquinhoados. Uma dessas casas é a da presidenta Camusot de Merville, sua prima distante. Com frequência é humilhado pelos empregados, pela parenta e por sua filha, mas releva para não abrir mão da boa mesa. Querendo agradar a família Camusot, arranja um bom partido para a jovem Cecília Camusot, o alemão Fritz Brunner. O casamento não se concretiza e Pons cai em desgraça, sendo afastado e difamado pelos parentes ricos. 
Aí entra a personagem mais importante da obra, que não está na lista do início: a coleção. Pons, ao longo da vida, acumulou um verdadeiro museu, que ficava em duas salas do seu apartamento. Quadros, esculturas, objetos decorativos, belas molduras. A vida discreta que levava fazia com que a maioria das pessoas desconhecesse a coleção e, principalmente, seu valor. Aqui, um dado biográfico. Balzac, em seus últimos anos, se entregou ao colecionismo como se entregava a tudo na vida, sem limites. Os resultados foram muitas dívidas e alguns logros, compra de peças falsas ou de objetos de pouco valor a ele empurrado como valiosos. Zwieg comenta que, quem lê as cartas de Balzac desse período, sem saber quem ele era, vai julgar tratar-se de um colecionador ou comerciante de artes, pois há mais referências a isso do que à literatura. Assim, na coleção de Pons, há muitos quadros que eram de Balzac. 
Pons adoece e incia a trama pérfida da porteira Cibot, do advogado picareta e desonesto Fraisier e da presidenta para roubar a herança do músico, que deveria ficar para Schmucke. Quem conhece Balzac pode adivinhar que o conluio deu certo. Pons morreu e a coleção ficou com Camusot-Merville. Fraisier obteve um cargo público e a Cibot, uma boa quantia em dinheiro. O pobre Schmucke teve que sair do apartamento e contou somente com a ajuda de Topinard, empregado do teatro, o único que se preocupava com os dois quebra-nozes, como os dois velhos amigos eram conhecidos. O pianista Schmucke não viveu muito mais do que o companheiro. 
Um dos pontos interessantes é a indústria da morte na Paris do século XIX. Todo um conjunto de pessoas, funcionários, tabeliães, advogados, marmoreiros, cocheiros, mestres de cerimônias, cujo sustento depende da morte e que infestam os primeiros momentos da perda de um ente querido. São tantos tabeliães que fiquei confusa e tive de fazer uma lista. 
Enfim, é um bom romance, é bem escrito, foi o último trabalho totalmente escrito por Balzac. Mas não tem a vibração da Prima Bete, que largamos tudo para não parar de ler. Questão de "gosto pessoal", como diz o mestre Paulo Rónai. 

A imagem é de Honoré de Balzac. Cousin Pons. Philadelphia: George Barrie & Son, 1897. 



quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A Casa Nuncingen

A Casa Nuncingen (escrito em novembro de 1837)

Personagens: Androche Finot, Emílio Blondet, Couture, Bixiou Rastignac, Nuncingen, Delfina, o narrador, a acompanhante do narrador. 

A história se passa em 1836. 

A Casa Nuncingen é uma novela curta na qual Balzac utiliza um artifício um pouco inverossímil, mas interessante. O narrador, acompanhado por uma dama, ocupa um espaço reservado em um restaurante de Paris, de onde escuta, sem ser notado, a conversa de quatro amigos que jantam no espaço ao lado. Os faladores são Androche Finot, Emílio Blondet, Couture e Bixiou. O tema da conversa eram as fortunas de Rastignac e Nuncingen. 
Descobrimos aqui o enorme conhecimento que Balzac possuía da especulação financeira. Nuncigen, na verdade, enriquecera através de manobras especulativas nas bolsas de valores. Não hesitava em arruinar famílias. E Eugênio de Rastignac, que conhecemos pobre em O Pai Goriot, enriqueceu ajudando e tomando informações para Nuncigen. Com o detalhe de que Rastignac era amante de Delfina, esposa de Nuncigen e née Goriot. 
Segundo Paulo Rónai, Nuncigen era, na verdade, o alter ego do Barão James Rotschild. 
Eu, particularmente, achei a novela um pouco enfadonha. O estilo, que Rónai caracteriza como "nervoso", deixou, na verdade, a narrativa um tanto confusa. 


segunda-feira, 20 de julho de 2015

César Birotteau

A História da grandeza e da decadência de César Birotteau, perfumista, adjunto do Maire do segundo distrito de Paris, cavaleiro da Legião de Honra, etc (escrito em novembro de 1837)

Personagens: César Birotteau, Constança  Birotteau,  Cesarina, Alexandre Crotat (Xandrot), Cláudio José Pilleraut, Anselmo Popinot, sr. e sra. Ragon, Ferdinando Du Tillet, sr. e sra. Roguin, Sara Gobseck (A Bela Holandesa), Carlos Claparon, João Batista Molinaux, sr. Grindot (arquiteto), sra. Madou, sr. Vauquelin, Celestino, Gaudissart, Androche Finot, sr. Lourdois, Francisco  Birotteau, Cayron (comerciante de guarda chuvas), José Lesbas, Francisco Keller, Adolfo Keller, Padre Loraux. 

A história se passa entre 1819 e 1823.

Em uma carta para a escritora Margarete Harkness, escrita em abril de 1888, Friedrich Engels declarou que aprendera mais com Balzac do com todos os historiadores, economistas e estatísticos a respeito do nascimento da sociedade burguesa. Essa observação parece digrida especialmente a César Birotteau, que Paulo Rónai qualifica como um dos romances balzaquianos mais perfeitos. A "burguesia" termo do qual nós, professores de história, abusamos nas aulas, caracteriza algo fluido no tempo e no espaço. Um burguês na França de Balzac não é o mesmo que um burguês no Brasil de hoje. Mas o uso do mesmo termo aproxima e confunde a percepção. Pois Balzac nós dá o burgês de carne e osso, com nome, sobrenome, gostos, conceitos e preconceitos. Assistimos a nova classe tomar conta das relações sociais da França da Restauração, enquanto as demais classes e grupos se acomodam como é possível. 
Nosso burguês se chama César Birotteau. De origem camponesa (é irmão de Francisco Birotteau, o nosso Cura de Tours), foi para Paris aos catorze anos trabalhar como caixeiro na casa dos senhores Ragon, comerciantes de perfumes. Trazia somente seus pobres pertences pessoais e a disposição para o trabalho duro. Apesar do temperamento pacato, envolveu-se na conspiração de 13 vendemiário contra a Convenção, tendo a honra de lutar com Napoleão nas escadarias da Igreja de São Roque. "Se o ajudante de campo de Barras (Napoleão), saiu da obscuridade, Birotteau foi salvo por ela". Acabou esquecido e não foi punido. 
Assumiu a perfumaria dos Ragon e desposou a bela Contança Pilleraut, primeira caixeira da loja Pequeno Marinheiro. Juntos foram fazer fortuna. 
Encontramos os Birotteau, em 1819, como comerciantes prósperos e estabelecidos no mercado. Graças a algumas invenções como a "Dupla Pomada das Sultanas" e a "Água Carminativa", não faltavam pedidos e clientes. Mas faltava um certo glamour, incompatível com a vida no comércio. Então, Birotteau foi condecorado como Cavaleiro da Legião de Honra, em agradecimento a seus serviços à causa realista. Ele resolveu reformar a casa para dar um baile em comemoração à desocupação da França. Para pagar a extravagância, César entrou em um negócio de especulação de terrenos com alguns sócios, dentre os quais Roguin, dono de um cartório. Ocorre que, por detrás de Roguin, estava um dos típicos vilões balzaquianos, Ferdinando Du Tillet. Du Tillet nutria um grande desejo de vingança contra César. Fora seu caixeiro e furtara três mil francos do caixa. Birotteau descobriu e o despediu, mas sem fazer publicidade do caso.  Além disso, cortejara Constança e fora repelido por ela. Pois Du Tillet aproximou-se de Roguin, descobriu-lhe a fraqueza (uma amante dissipadora) e armou um plano para levar César Birotteau à falência. Após o baile na casa de Birotteau, o perfumista enfrentou uma sucessão de quedas que o levaram à falência. Com a ajuda da família e dos amigos, Birotteau conseguiu se reabilitar completamente pagando todos os seus credores, algo tão raro que foi até assinalado em sessão no tribunal pelo procurador do Rei. 
Um resumo, todavia, não dá conta da magnífica construção do romance. O início com o sonho premonitório de Cosntança. O meio, com o acontecimento central, o baile, que marca o auge do perfumista e o início da sua ruína. E no final, o novo baile, esse quase fantasmagórico, ao qual nosso heroi não resistiu. 
Mas o que pode haver de genial na história da falência de uma casa burguesa? Segundo Paulo Rónai, Balzac é genial ao construir personagens em nada extraordinários (para não dizer medíocres) e captar neles a vida real: "Birotteau, repetindo vinte vezes as mesmas palavras para explicar sua distinção com a Cruz da Legião de Honra e julgando-se, mesmo do fundo de sua miséria, superior a Popinot, que foi seu aprendiz; a sra. Birotteau, heroica e amorosa companheira de César, resistindo virtuosamente à sedução de Du Tillet, e, no entanto, guardando-lhe as cartas no seu cofrezinho; (...) Molinaux, tipo monstruoso de proprietário, não tendo outro medo do que ser julgado insuficientemente esperto pelos proprietários do Café David; Cesarina e Anselmo Popinot, os jovens amantes, incapazes, embora solidários com o sofrimento de César, de se arrancarem ao egoísmo do seu amor - eis alguns rasgos de intuição genial que faria Balzac idear um caráter num só bloco e tirar dele tudo o que podia dar". 
Outro feito notável, já conhecido dos leitores da Comédia Humana, é o conhecimento de Balzac sobre os pormenores dos processos e técnicas narrados.Fala da especulação de imóveis como se fosse um corretor ou um especulador. Discorre sobre a falência como um advogado (aqui a sua experiência como auxiliar de tabelião), diz-se que os advogados consultavam César Birotteau quando tratavam de falências. Conhece detalhes da fabricação de produtos de perfumaria. Conhece o funcionamento dos tribunais de comércio. Opina sobre os anúncios de produtos em jornais, uma novidade da época que mudou o comércio no século XIX. Segundo Rónai, dez especialistas seriam necessários para escrever César Biroteau. "mas os dez especialistas e o escritor genial têm o mesmo nome: Balzac". 
Não sei se Engels comentou algo específico sobre César Birotteau, mas algo me diz que era um dos romances no qual ele pensava quando escreveu à senhora Harkness. Segundo Brunetière (citado por Paulo Rónai), em todo livro não se passa quase nada, mas nele cabe a Restauração inteira.