quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Uma Filha de Eva (dezembro de 1843)

Personagens: Maria Eugênia (du Tillet), Maria Angélica (de Vandenesse), Conde du Tillet, Conde Felix de Vandenesse, professor Schmucke, Raul Nathan, Florina, senhora de Nuncingen, Gigonet (agiota).

A história se passa entre 1829 e 1835.

A filha de Eva é Maria Angélica de Vandenesse. Ela é, juntamente com Maria Eugênia, filha do infeliz e já nosso conhecido conde Rogério de Granville. Criadas pela mãe, Angélica, afastadas da sociedade e expostas à exagerada devoção da condessa, estavam muito mal preparadas para a vida na frívola sociedade parisiense. Casaram-se cedo para escapar do jugo materno: Eugênia, com o banqueiro de reputação dividosa Du Tillet; Angélica, com o elegante Felix de Vandenesse.
Maria Angélica teve mais sorte que a irmã. Vandenesse foi para ela “amante, pai, professor e marido” e “ao cabo de quatro anos teve a satisfação de haver feito da Condessa de Vandenesse uma das mais amáveis e notáveis mulheres de seu tempo”. Tudo estava perfeito. E aí começaram os problemas. “Vandenesse, ao satisfazer tudo, suprimira o desejo, esse rei da criação, que absorve uma soma enorme de forças morais”. Além do fastio do casamento feliz, Maria Angélica estava cercada de amigas que excitavam a sua imaginação destacando as maravilhas de possuir um amante. Nesse contexto, apareceu o jornalista e arrivista social Raul Nathan, por quem a condessa caiu de amores. Nathan era amante há dez anos da atriz de segunda linha Florina, e buscava uma ligação na alta sociedade. Quando Nathan se endividou, a ponto de ser preso (na verdade uma manobra de Du Tillet com o objetivo de afastar o jornalista da carreira política), Angélica, com a ajuda da irmã e do velho profesor Schmucke, pediu dinheiro emprestado à senhora de Nuncingen, e quase arruinou sua reputação. Eugênia, então, contou tudo ao conde de Vandenesse que perdoou Angélica e consertou a situação.
Assim como Uma estreia na Vida, Uma filha de Eva é um romance movido por acasos que se sucedem aos personagens principais. Isso cria para o leitor um clima de suspense: o adultério de Angélica irá se consumar? Ela conseguirá o dinheiro para salvar Nathan? Vandenesse perdoará a esposa? Bazac possuía uma agenda. No prefácio à primeira edição a Uma filha de Eva, ele escreveu: “Uma filha de Eva está destinada a pintar uma situação na qual se encontram algumas mulheres, empurradas a uma paixão ilícita por uma multidão de circunstâncias, mais ou menos atenuantes, mas que, não se vendo gravemente comprometidas, são bastante sábias para voltar à vida conjugal. As infelicidades da paixão ensinaram-lhes as doçuras de um casamento feliz”. Contudo, ele deu essa explicação depois da obra estar concluída. O romance poderia ter outro final - Angélica descoberta e abandonada pelo marido - e ser ainda assim o mesmo romance. A roda da fortuna teria dado outra volta.
Outro ponto interessante, são as conexões entre histórias da Comédia Humana. Conhecemos a origem do despreparo de Angélica para a vida social. Não conhecemos ainda a fonte da compreensão do conde Vandenesse. Mas conheceremos.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Fora de Mim - Martha Medeiros


Lido entre as 13:47 e as 15:54 hs. do dia 16 de dezembro de 2010.

Embora leia com frequência os textos de Martha Medeiros no jornal Zero Hora, nunca havia lido um livro dela. Martha e Cláudia Laitano são as minhas cronistas preferidas de Zero Hora. Ambas fazem uma abordagem inteligente do universo feminino, sem se limitar a ele.
Fora de Mim é um relato em primeira pessoa dividido em três partes. A narradora escreve se dirigindo a um homem com quem teve um relacionamento que acabou dolorosamente. É como se fosse uma carta. Aqui lembrei do belíssimo Fazes me Falta de Inês Pedrosa. O tom confessional é o mesmo, embora Inês trabalhe com maior densidade.
O tema é o amor insano. Não o amor tranquilo dos casais casados ou dos separados que se unem por afinidade. Este está presente no casamento da narradora que acabou com um abraço e um afago na cabeça do ex-marido e no relacionamento que ela teve depois que terminou com Ele. Escrevo Ele com letra maiúscula, pois a ideia é essa. A narradora que aprendeu na infância que só amamos uma vez, logo percebeu que isso não era verdade. Só no livro ela nos conta quatro relacionamentos: com o ex-marido, com Ele, com o que conheceu depois d´Ele e com o atual. Mas ela, mesmo relutante, admite que Ele foi o homem mais importante de sua vida: “por que logo você? Se eu tantas vezes te neguei o título de ´homem da minha vida` pelos motivos mais variados, se por sua causa tantas vezes me sinto menos do que eu media de fato, se afinidade era algo que jamais nos uniu, por que você seguia sendo, contrariando todas as apostas e à revelia do que eu afirmasse por mim mesma, o homem mais importante da minha vida?”.
A primeira parte narra a ruptura, depois de um prólogo em que a narradora compara o fim de um amor com um acidente de avião. Toda a mulher que já amou muito, desse jeito, vai se reconhecer na voz de Martha. O choro contraído, a ausência de fome, a sensação levar um autômato para passear e algumas reflexões: “ A morte tem me visitado em horas diversas do dia, a ideia dela surge em conta-gotas, e muitas vezes não é a morte minha, mas a sua, o que facilitaria muito as coisas, você morto não me trai, você morto não me dá esperança de retorno, você morto não me enviará o e-mail que tanto aguardo, você morto é a tranquilidade certa da minha alma. Morrendo você, eu é que descansaria em paz”.
Na segunda parte, ela conta como o casal se conheceu, os altos, altíssimos, e baixos, sombrios, do relacionamento. No final da primeira parte, ela revelara um dado que vai sendo preenchido de sentido. A irmã d´Ele, conversando com ela ao telefone, “deixou escapar algo que eu já suspeitava, mas não tinha certeza”. À medida que esse segundo capítulo avança, fica claro que o Homem da narradora sofria de distúrbio bipolar. O início afoito e intenso, as alterações súbitas de humor, o ciúme paranoico, a tendência de se aborrecer com coisas pouco importantes formam um quadro quase clássico da doença. Mas apesar das brigas, rupturas e voltas, Ele valia a pena. “Você me tirava do sério de um jeito que nunca havia me acontecido, eu parecia estar endoidecendo, mas eu não ia embora porque acreditava que você ainda valia a pena, e nunca entendi tão perfeitamente o significado dessa expressão, valer a pena. Era um castigo”. A narradora descobriu, analisando a forma repentina e precoce com que disse a Ele “eu te amo” pela primeira vez, que ela estava se amando pela primeira vez. Um amor assim não é passível de ser explicado, e buscar explicação é infrutífero. Entender é limitado, não entender é libertador. Mas a narradora encontrou uma pista: é a pessoa que nós somos quando estamos junto àquela pessoa que amamos, é essa pessoa que não connhecíamos ainda, mesmo que já tenhámos passado dos 40 anos, que produz tamanho abalo em nossas vidas.
A relação declinou quando a narradora percebeu que para manter seu amor, teria que desistir de si mesma, teria de ser “uma mulher que procurava não tocar em assuntos que pudessem resultar em atrito. Uma mulher que evitava ser espirituosa com receio de não ser compreendida."
Na última parte, a narradora conta o o que aconteceu depois do fim. O Homem casou com uma mulher com quem ele passou a se relacionar pouco tempo depois da ruptura. Teve filhos com ela. Elas acabaram se encontrando e estabelecendo uma relação de amizade. Tudo indica que o novo relacionamento d´Ele era igualmente conturbado, mas sua parceira era mais passiva. A narrradora conheceu um homem interessante e tranquilo. Esse relacionamento nota 7 (“os três pontos que faltavam para alcançar o sublime eram os que conferiam espaço para a minha liberdade”) não avançou, pois o moço queria casar. E ela termina revelando que está novamente em um relacionamento que tem tudo para não dar certo. A pulsão da entrega é mais forte do que a razão e o comedimento. No final ela declara: “Preciso que saiba: nunca deixarei de pensar em você, por que você foi o amor menos elaborado que tive, menos politicamente correto, menos ´o cara certo na hora certa`, menos criado no cativeiro da idealização, e essa impossibilidade de intelectualizar o que senti me faz pensar que talvez eu não estivesse enganada sobre aquela ideia romântica de que só se ama assim uma vez .“

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Estudo de Mulher (fevereiro de 1830)

Personagens: Marquês e Marquesa de Listomère, Eugênio de Rastignac, Horácio Bianchon.

A história se passa em 1828.

Aqui temos um pequeno texto que Balzac chama de “estudo”. A mulher objeto desse estudo é a marquesa de Listomère retratada por Balzac como a encarnação do espírito da Restauração: “Tem princípios, jejua, comunga, e vai muito enfeitada aos bailes, aos Bouffons, à Opera; seu diretor espiritual permite-lhe aliar o profano ao sagrado. Sempre em dia com a Igreja e com o mundo, ela oferece uma imagem do tempo presente, que parece ter tomado a palavra Legalidade por epígrafe. (...) Na hora presente ela é virtuosa por cálculo, ou talvez, por inclinação”. Eis que essa dama, casada com o Marquês de Listomère, dançou uma noite com Eugênio de Rastignac, personagem de primeiro plano da Comédia Humana. Na manhã seguinte, Rastignac escreveu duas cartas, uma para seu advogado e outra para a senhora de Nuncigen, sua amante. Endereçou a segunda, de forma equivocada, à Marquesa de Listomère. Era uma carta com declarações de amor. A Marquesa, ao recebê-la, ficou indignada. Contudo, Eugênio só percebeu o engano quatro dias depois. Nesse meio tempo, a Marquesa havia migrado da indignação para o interesse e do interesse para a paixão. Rastignac foi então à casa da Marquesa desfazer o equívoco. Essa, sonhando com o romance, ao saber que não era destinatária da missiva ficou profundamente ofendida.
O interessante nesse texto é a narrativa. Até quase a metade da história, julgamos que é Balzac quem está narrando. Então a surpresa: “Foi nesse instante que penetrei na sala de Eugênio. Ele teve um sobressalto e disse. -- Ah! com que então aqui estás, meu caro Horácio! Desde quando?” Descobrimos que o narrador é Horácio Bianchon, um dos personagens mais queridos da Comédia Humana. Ele aparece em vários romances, nunca como protagonista, mas como arguto observador. Diz-se que Balzac, em sua agonia, antes de morrer, chamou por Horário Bianchon.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A Senhora Firminani (fevereiro de 1834 - data correta fevereiro de 1832)

Personagens: Senhora Firmiani, Otávio de Camps, senhor de Bourbonne (Rouxellay).

A história se passa em 1825.


A Senhora Firmiani é um pequeníssimo texto não muito interessante de Balzac.
O senhor de Bourbonne ouviu falar que seu sobrinho Otávio arruinou-se financeiramente por causa da senhora Firmiani. Julgando estar o sobrinho sob o domínio de uma aproveitadora, vai, .às ocultas, investigar. Ao conhecê-la, julga-a encantadora. Descobre, então, que Otávio, inspirado pela senhora Firmiani, desfez-se da fortuna por razões morais, já que essa fora indevidamente adquirida pelo pai.
O mais interessante desse texto é o início no qual Balzac nos apresenta a personagem através da fala de representantes de diversas espécies sociais: os positivos, os flanadores, os colegiais, os amadores, os originais, os observadores, os fátuos, etc. Essa classificação está no prefácio de Balzac à Comédia Humana.
De resto, a história é insossa e inverossímil, embora Balzac nos afirme que é real.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Falsa Amante (janeiro de 1842)

Personagens: Clementina du Rouvre, Conde Adão Langinski, Tadeu Paz, Málaga (Margarida Turquet), senhor e senhora Chapuzot, conde de Palférine.

A história se passa entre 1835 e 1842.

Nessa novela, Balzac nos apresenta personagens poloneses, abundantes em Paris na época, em virtude da situação política da Polônia. Além de ter vários amigos poloneses, o escritor também convivia com os parentes de Eveline Hanska.
Porém, se trata de uma história de amor impossível. Tadeu Paz, polonês, apaixonou-se por Clementina, esposa de seus melhor amigo, Adão. Ao notar que Clementina percebeu seus sentimentos, Paz inventou ter como amante uma trapezista de circo chamada Málaga. Assim, Clementina passou a desprezá-lo. Ao final, Clementina descobriu que a história da amante era falsa. E Tadeu foi embora, dizendo que iria se alistar no exército russo. Mas, na verdade, continuava em Paris, velando por Clementina.
Paulo Rónai destaca na introdução como a habilidade de Balzac para criar personagens desprezíveis é superior à sua habilidade para criar tipos honestos. Isso fica claro nesse A Falsa Amante. Tadeu não só não parece real, como suas ações parecem ingênuas e inverossímeis. Criou complexas tramas para sustentar a história da falsa amante, quando bastaria ele dizer que estava apaixonado por outra mulher. E dizer que iria para guerra e ficar em Paris às escondidas, espiando à amada para protegê-la dos sedutores? E isso quando era óbvio que Clementina estava apaixonada por ele?
Pelo menos, Balzac deixou uma porta aberta. A última frase do romance é: “A todo momento, Clementina espera rever Paz”. E conhecendo a lógica da Comédia Humana, sabemos que eles podem ter se reencontrado e sido felizes. Não para sempre, contudo.

Ressurreição - Liev Tolstói


Lido entre 29 de outubro e 21 de novembro de 2010.

Tolstói escreveu Ressurreição entre 1887 e 1899. Tudo começou em uma conversa com o advogado e escritor Anatóli Koni. Koni contou-lhe que fora procurado por um jovem da nobreza que precisava de um advogado. O caso era o seguinte: convocado para atuar em um júri, o jovem reconheceu em uma acusada uma criada que seduzira e engravidara em casa de uma tia. Grávida e solteira, a moça foi mandada embora pela patroa e tornou-se prostituta. Foi acusada de roubo e presa. O jovem nobre, sentindo-se culpado, quis ajudá-la e até casar-se com ela. Mas a moça morreu de tifo na prisão.
A história trouxe lembranças a Tostói. Ele também seduzira uma criada em casa de uma parente, o que motivara a demissão da moça. E ele possuía um filho bastardo que morava em sua propriedade. Tolstói pediu autorização a Koni para utilizar a história e começou a escrever. Logo abandonou o texto. A motivação para a sua conclusão veio somente em 1898. Tolstói negociou os direitos autorais de uma obra ainda não escrita para auxiliar os membros da seita dos dukhobors a emigrarem para o Canadá. Tratava-se de uma seita que pregava ideias simpáticas ao escritor: negação da propriedade, do governo, do dinheiro, da Igreja, assim como o vegetarianismo e a não violência. O grupo era naturalmente perseguido pelo governo russo. Após a intervenção de Tolstói, já mundialmente famoso na época, o caso teve grande repercussão na imprensa internacional. O governo, então, para evitar o desgaste, concordou com a emigração para o Canadá, que aceitou o grupo. Mas era necessário o dinheiro do transporte. Tolstói, então, que abrira mão dos direitos autorais de sua obra em 1881, vendeu Ressurreição por preço elevado. E finalmente o concluiu.
O princípe Dmítri Ivánovitch Nekhliúdov é um nobre despreocupado que vive das rendas das terras de sua família. Após servir ao exército, retornou a Moscou, onde vive uma vida típica da nobreza da época: jantares, jogos, teatros. Corteja uma moça moça nobre, com quem pensa em se casar. Um dia, Nekhliúdov é convocado para servir como jurado no tribunal. Em um dos processos, reconhece na acusada, a prostituta Máslova, Katiucha: moça que trabalhava para suas tias e que ele seduzira, dez anos antes. Descobre, então, que Máslova, acusada de envenenamento, havia engravidado dele, fora mandada embora pelas tias e tornou-se meretriz. Começa, então, a “ressurreição” de Nekhliúdov.
Por um erro judiciário, Máslova é condenada aos trabalhos forçados. O príncipe então procura um advogado para tentar corrigir a situação. Ele acredita-se culpado pelos infortúnios de Máslova. A partir daí, Nekhliúdov começa a rever a sua vida. Tudo o que era natural passa a ser questionado. Ele decide que a única forma de reparar o erro é casar-se com Máslova. Ele a procura na prisão e declara as suas intenções. Ela o rejeita, ao mesmo tempo em que parece nutrir sentimentos por ele. Ao mesmo tempo, Nekhliúdov entra em contato com a realidade paralela das prisões. Vários prisioneiros, percebendo a sua condição de fidalgo, pedem a sua ajuda. E ele descobre inúmeras injustiças. Da mesma forma, descobre a indiferença dos diretores das prisões, oficiais de justiça, promotores, autoridades em geral, que, mesmo diante da mais flagrante injustiça, ateem-se aos protocolos e regulamentos, ainda que irracionais.
O príncipe resolve acompanhar Máslova-Katiucha para a Sibéria, para onde será deportada. Resolve, então, distribuir suas terras para os camponeses que lá trabalham. Passa a ser visto pela sociedade moscovita como um excêntrico.
Finalmente, com a partida de Máslova, Nekhliúdov acompanha o comboio de prisioneiros que vai para a Sibéria. Consegue com as autoridades que a moça possa acompanhar os presos políticos, que viajam em melhores condições. Durante a viagem, ela conhece Simonson, preso político que se interessa por ela. Simonson propõe-lhe casamento. Ela o aceita para liberar Nekhliúdov do compromisso que ele teima em cumprir. Nesse meio-tempo, Nekhliúdov recebe a resposta do apelo que fizera ao Czar sobre o caso: Máslova recebeu indulto, com a substituição dos trabalhos forçados pelo exílio na região siberiana.
Contar essa história é dizer muito pouco sobre Ressurreição. Assim como é dizer muito pouco, considerá-lo romance de tese, de caráter moral ou religioso.
Tolstói consegue, ao narrar o despertar de Nekhliúdov para a vida real, criar um estranhamento de cunho quase antropológico de quase todas as instituições do mundo ocidental às quais estamos acostumados. Sua descrição dos julgamentos, das prisões, do jantar em casa dos Kortcháguin, dos fidalgos embarcando na primeira classe do trem, nos dão a impressão de estar vendo essas coisas pela primeira vez.
Observemos a sua descrição da missa ortodoxa, muito semelhante à nossa familiar missa católica:
“A missa consistia em que o sacerdote, vestido numa roupa especial, estranha, bordada e muito desconfortável, cortava e arrumava uns pedacinhos de pão num pires e depois os colocava numa taça com vinho, enquanto pronunciava diversos nomes e algumas preces. Enquanto isso, o sacristão não parava de ler, primeiro, e depois começou a cantar, revezando com o coro dos prisioneiros, várias preces em eslavo eclesiástico, em si já quase incompreensíveis, e que se tornavam mais incompreensíveis ainda por causa da velocidade da leitura e do canto. (...) Além disso, o sacristão leu vários versículos dos Atos dos Apóstolos numa voz tão estranha e tensa que não se conseguia entender nada e o sacerdote leu com muita clareza um trecho do Evangelho de Marcos, em que se contava como Cristo, após ressuscitar e antes de subir aos céus e sentar-se à mão direita de seu pai, foi ver primeiro Maria Madalena, de quem expulsou sete demônios, e depois foi ter com os onze discípulos e ordenou-lhes que pregassem os Evangelhos a todas as criaturas, e também anunciou que quem não crê e é batizado será salvo e, além disso, vai expulsar os demônios, vai curar as pessoas com as mãos colocadas sobre elas, vai falar línguas novas, vai apanhar serpentes e, se beber veneno, não vai morrer, continuará sadio. A essência da missa consistia em supor que os pedacinhos de pão partidos pelo sacerdote e colocados no vinho, por efeito de certas manipulações e preces, transformavam-se no corpo e no sangue de Deus. As manipulações consistiam em que o sacerdote levantava igualmente os dois braços e mantinha-os erguidos, a despeito de assim embolar-se todo no saco bordado que vestia, depois cair de joelhos, beijava a mesa e o que estava sobre ela. A ação mais importante acontecia quando o sacerdote, com um guardanapo seguro nas duas mãos, sacudia-o de leve e num movimento ritmado, acima do pires e da taça dourada. Supunha-se que naquele exato instante o pão e o vinho transformavam-se em corpo e em sangue e, por tal motivo, aquele momento da missa era cercado de uma solenidade especial. (...). Depois disso considerava-se que a transformação estava concluída e o sacerdote, após retirar o guardanapo de cima do pires, partiu em quatro um pedaço do meio do pão, colocou primeiro no vinho e depois na boca. Supunha-se que ele comia um pedacinho do corpo de Deus e bebia um gole do seu sangue. Em seguida, o sacerdote puxou para o lado uma cortininha, abriu as portas no meio da cerquinha e, com a taça dourada nas mãos, saiu pelas portas do meio e convidou aos que quisessem também comer o corpo e o sangue de Deus e se aproximar da taça.”
O livro tem momentos de exasperação e denúncia, mas uma descrição como essa tem mais impacto do que qualquer arrazoado político ou filosófico. E são muitas. O leitor estranha o conhecido e a partir desse afastamento compreende e quase acompanha a transformação pela qual passa o personagem.
Sabe-se que Tolstói pesquisou muito para escrever Ressurreição. Leu diversos tratados jurídicos. Visitou prisões e campos de trabalho. Entrevistou prisioneiros, carcereiros, diretores de prisões. Nekhliúdov, depois de visitar Máslova na prisão e conhecer diversos prisioneiros chegou à conclusão que existiam cinco categorias de criminosos: a primeira era formada por pessoas totalmente inocentes, vítimas de erros judiciários; a segunda, formada por pessoas que cometeram crimes em situações excepcionais, como embriaguez, ciúmes, fúria; a terceira era formada por pessoas condenadas por ações que, no entender delas, eram costumeiras e boas, mas que eram criminalizadas, como vender bebida produzida artesanalmente ou pegar lenha em florestas do Estado; a quarta categoria era formada por presos políticos, condenados apenas por se oporem às autoridades constituídas; a quinta era a dos criminosos propriamente ditos. Temos uma discussão complexa sobre Criminogia aqui. Sobre o segundo grupo, por exemplo, Nekhliúdov argumenta a incoerência de prender um homem embriagado que mata outro em uma briga de bar, e não prender um nobre que mata seu oponente em um duelo. Qual seria a diferença entre as duas situações, fora a classe dos envolvidos? A terceira categoria é dos que incorrem no que chamamos de erro de proibição. Ao que parece, num país vasto e repleto de minorias como a Rússia czarista, era comum que pessoas fossem presas e condenadas por praticarem ações costumeiras que eram criminalizadas. O quarto grupo, o dos presos políticos, era enorme. Eram socialistas, líderes de minorias que reivindicavam independência, jornalistas, professores, indivíduos que se opunham à Igreja ortodoxa. O costume de prendê-los e deportá-los para a Sibéria não foi uma invenção dos soviéticos. Era uma tradição czarista. O último grupo, o dos criminosos de fato, Nekhliúdov considerava vítimas da negligência e da crueldade da sociedade. Em alguns, ele reconhece tipos repulsivos e desagradáveis, mas não vê diferença entre esses e outros igualmente desagradáveis que via na sociedade de “fraque, dragonas e rendas”. Ele chega então na questão mais importante: “por que todas aquelas pessoas tão variadas eram mantidas na prisão, enquanto outras pessoas iguais a elas andavam soltas e até as julgavam (...)”. Ele leu Lombroso, Garofalo, Ferri, Maudsley, Tarde e não encontrou a resposta. Achou digressões e debates que pareciam fugir do tema. “Com que direito alguns castigam os outros? Não só não havia essa resposta, como todos os raciocínios destinavam-se a esclarecer e justificar o castigo, cuja necessidade era reconhecida como um axioma”. A ideia da necessidade do monopólio da violência pelo Estado (que ele não menciona, aliás) não o satisfaria, já que ele percebe suas engrenagens - juízes, promotores, diretores, governadores - como autômatos preocupados somente com a manutenção de seus privilégios.
A solução do romance é apressada e pouco convincente. Nekhliúdov encontra as respostas no Evangelho. Estabelece cinco mandamentos a partir do Evangelho de Mateus: não matar, não praticar adultério, não jurar, oferecer a outra face ao agressor e amar os inimigos.
Uma palavra ainda sobre o herói. Nekhliúdov não conquista o leitor. Sua misantropia é irritante. No início do romance, antes do julgamento de Máslova, ele aparece como um egoísta que não se satisfaz com nada e com ninguém. A transformação pela qual ele passa poderia ter ficado muito artificial se Tolstói não tivesse dado a ele aquele toque de vida real que faz de um autor um mestre. Ele oscila. Fica tentado, em vários momentos, a dar para trás: esquecer Máslova e seguir a sua vida. Ele percebe, quando vai a São Petesburgo, o perigo representado pela casa da tia, cheia de luxos e comodidades, e pela beleza de Mariette, que flerta abertamente com ele. Ele luta o tempo todo para trazer à tona o Nekhliúdov que se apaixonou por Katiucha dez anos antes, enquanto o Nekhliúdov que ele se tornou aparece o tempo todo. Ele, apesar de acompanhar o comboio de prisioneiros, nas piores condições, nunca deixa de ser um fidalgo. É um alter-ego de Tolstói, sem dúvida. Mas a forma como Tolstói o retratou faz o leitor vislumbrar as contradições desse homem notável que fugiu de casa aos 82 anos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A Paz Conjugal (julho de 1829)

Personagens: conde e condessa de Gondreville, coronel Montcornet, Barão Marcial de La Roche Hugon, conde e condessa de Soulanges, condessa de Lansac, senhora Vaudremont.

A história se passa em 1809.

A Paz Conjugal começa com um retrato delicioso do período do Império. “Nunca, no dizer dos contemporâneos, Paris vira festas mais belas do que as que precederam e se seguiram ao casamento desse soberano com uma arquiduquesa da casa da Áustria; nunca, nos mais faustosos dias da antiga monarquia, tantas cabeças coroadas se reuniram nas margens do Sena, e nunca a aristocracia francesa fora tão rica, nem tão brilhante como então. Os diamantes profusamente prodigados nos adornos, os bordados a ouro e prata dos uniformes contrastavam tão bem com a indigência republicana que se tinha a impressão de ver as riquezas do globo a rolar nos salões de Paris.Uma embriaguez geral como que se havia apoderado desse império de um dia”. A breve descrição revela o sentimento de efemeridade de quem viveu a época, bem como os costumes, através de tiradas como essa: “De um primeiro a um quinto Boletim do Grande Exército, uma mulher podia ser sucessivamente amante, esposa, mãe e viúva”.
Em seguida, estamos em um baile. E lá, Balzac dá início a uma complexa e bem articulada trama. No baile em casa dos Gondreville, o conde de Soulanges cortejava a senhora Vaudremont. A senhora Vaudremont, ao que tudo indica preferia Marcial. Marcial, por sua vez, observava uma bela desconhecida, enquanto ostentava um rico brilhante no dedo. Apostou com o coronel Montcornet que conseguiria dançar com a beldade. Afinal, conseguiu. A mulher, então, o provocou, pedindo que Marcial desse a ela o caro brilhante que exibia. Ele lhe deu a joia. Ela então revelou ser a condessa de Soulanges, cujo marido havia roubado o brilhante, que era dela, para dar a senhora Vaudremont que, por sua vez, o dera a Marcial. Enquanto isso, a condessa de Landsac, velha dama que armara tudo, explicava a trama à irritada senhora Vaudremont. Foi reestabelecida, então, a paz conjugal.
Colocar tudo isso em um texto claro e bem escrito não é tarefa nada fácil. Essa pequena joia, nas palavras de Paulo Rónai, nos mostra a enorme habilidade de Balzac como narrador. É mais um obra-prima que ficou desconhecida pela prodigalidade de Balzac em criar bons textos.