terça-feira, 1 de setembro de 2015

Émilie, Émilie - a ambição feminina no século XVIII

Émilie, Émilie: a ambição feminina no século XVIII. Elisabeth Badinter. São Paulo: Discurso Editorial, Duna Dueto, Paz e Terra, 2003. 

O que tantos livros sobre mulheres fazem na minha cabeceira, na minha bolsa, no meu leitor Kobo? Quando estava na graduação em História tinha uma certa rejeição por história das mulheres. Não queria fazer parte de uma história categorizada, separada do resto. Ingenuidade da juventude. Era como se diluir a história das mulheres na história da humanidade fosse garantir a igualdade de direitos entre mulheres e homens. Era como acreditar na concretude do caput do artigo 5º da Constituição brasileira. 
Minha busca por conhecer mais sobre a história das mulheres é totalmente pessoal. Preciso entender as opções e escolhas da minha mãe, das minhas três avós (sim, tive três avós). Como essas opções e escolhas me atingiram e atingem a minha filha. Não basta saber a história delas, Teresa, Genny, Haidee, Orfila. Preciso saber o que veio antes. 
Estava pensando em tudo isso, quando conheci Elisabeth Badinter. Filósofa e historiadora francesa é uma das mulheres mais influentes da França (e também mais ricas). Dedica-se à história das mulheres,  do feminismo e da maternidade. Comecei pelo seu livro mais conhecido, Um amor conquistado: o mito do amor materno, sobre o qual ainda vou escrever. Me apaixonei pela clareza e racionalidade do texto. Busquei outros títulos na Estante Virtual. Comprei tudo o que encontrei. Assim, cheguei a Émilie, Émilie
Trata-se da biografia comparada de duas mulheres do século XVIII, Gabrielle Émilie Le Tonnelier de Breteuil, marquesa de Châtelet-Laumont (1706-1749) e Louise Florence Pétronille Tardieu d´ Esclavelles d´Épinay, Madame d´Épinay (1726-1783). Elas foram contemporâneas por vinte e três anos, mas nunca se encontraram. São mais conhecidas como tendo sido amantes de Voltaire (1694-1778) e de Friedrich Melchior von Grimm (1723-1807), respectivamente. Mas foram muito mais do que isso. São suas histórias que Badinter enfrenta em 460 páginas.
As duas pertenciam a classes privilegiadas, mas eram de meios diferentes e incompatíveis na época. Émilie pertencia à alta aristocracia. Louise, à burguesia financeira. Tiveram gostos, caráter e trajetórias diversas. O que tinham em comum, todavia, prevalecia sobre as diferenças, segundo Badinter. E está no título do seu livro: a ambição. "Mulheres em um mundo que reserva a glória apenas aos homens, são estimuladas a uma mesma ambição. Uma e outra escolheram um objetivo preciso para suas vidas, desenvolveram toda a energia de que eram capazes, utilizada até suas últimas forças. Mesmo que os resultados nem sempre tenham estado à altura de suas esperanças, nunca cederam ao desânimo nem depuseram as armas. A não ser o tempo necessário para qualquer ser humano se recobrar. Se o sacrifício e a perseverança são os sinais da ambição, então Madame du Châtelet e Madame d´Épinay foram autênticas ambiciosas. E quase irmãs".
Émilie nasceu em 17 de dezembro de 1706 em Paris, em uma família privilegiada em todos os sentidos, "rica, unida e nobre". Filha de um alto magistrado de Luís XIV, que tinha 58 anos quando ela nasceu, e tinha para com ela "todas a fraquezas de um avô e a ternura de um pai". Ao contrário da maioria das crianças nobres da época, passou quase toda a juventude na casa da família.
Louise nasceu em 11 de março de 1726 na fortaleza de Valenciennes, da qual seu pai era governador. Filha única de pai quase sexagenário e de uma mãe devota, recebeu as maiores atenções dos pais, o que, segundo Badinter, lhe armaram para que sempre tivesse confiança em si mesma.
Émilie foi privilegiada em termos de educação. "Nenhum conhecimento lhe foi proibido, nenhum constrangimento pesou sobre ela por causa do seu sexo". Interessada por línguas, aprendeu latim, italiano e inglês. Aos 17 anos, lia Locke no original. Contudo, original mesmo, era seu gosto por física e matemática. "Fato raríssimo na história da educação de meninas, seu pai a fez tomar aulas dessas duas disciplinas". E foi aí que ela encontrou o foco para a sua ambição.
Louise, segundo Badinter, se assemelhava a Émilie aos dez anos, em disciplina e vontade de saber. Todavia, foi nessa época que faleceu seu pai. Sua mãe tinha uma visão tradicional sobre a educação de meninas: bastava aprender a ler e a escrever. Louise foi confiada a uma tia rica rica, na casa da qual sofreu as humilhações habituais da prima pobre. Conseguiu acompanhar as aulas que a prima tomava com uma governanta, o que logo foi proibido pela tia, que julgava que uma mulher erudita era naturalmente pedante.
"Do século XVII até o fim do século XIX, a mulher erudita é constantemente ridicularizada e tudo se faz para que ela não exista. Quando, no fim do século XIX, as mulheres adquiriram progressivamente o direito de acesso às universidades, são solicitadas a utilizar seu saber para fins altruístas e não egoístas. Para agradar a seus maridos, para serem melhores professoras dos seus filhos, mas nunca para fins pessoais. Uma mulher que ame os estudos por si mesmos comete uma heresia".
Louise voltou a morar com a mãe e, entre 1737 e 1739, foi enviada a um convento,  onde prevalecia a educação religiosa e habilidades como costura e dança. Isso foi tudo o que Madame d´Épinay teve em termos de educação. Aos treze anos, ainda tinha dificuldade para escrever.
Ambas passaram por todas as etapas da vida de uma mulher da época: casaram, tiveram filhos e tiveram amantes. "Entretanto, o século XVIII constitui uma espécie de paradoxo na história das mulheres privilegiadas. Ao mesmo tempo que mantinham para estas a obrigação de casar e de ter filhos, a ideologia dominante lhes concedia direito à negligência. A inconstância conjugal não era um vício. Pode-se mesmo dizer que a fidelidade era considerada um valor fora de moda, quase ridículo, e os cuidados da maternidade não eram considerados dignos das preocupações de uma mulher da alta sociedade".
Para remediar a insignificância da vida feminina, muitas mulheres das classes privilegiadas investiriam na vida social e mundana. "Outras, principalmente depois de 1750, tentaram voltar a dar vida e interesse às preocupações familiares". Madame du Châtelet pertenceu ao primeiro grupo. Madame d´Épinay, ao segundo.
Émilie fez um casamento de conveniência. Louise casou por amor com um primo irmão. "A mais satisfeita das duas foi, no entanto, a primeira. O Sr. du Châtelet revelou-se um marido muito gentil, discreto, cortês e amigo, enquanto o Sr. d´´Epinay foi uma caricatura de esposo execrável. Mas, ambos, não puderam, ou não quiseram, satisfazer suas esposas." Quem o fez foram Voltaire e Grimm, com quem elas formaram pares ligados por sentimentos e interesses. "É incontestável que esses dois homens deram às duas Émilies os trunfos necessários, mas não suficientes, para a realização da ambição delas: a estabilidade afetiva e o respeito do homem admirado, o que lhes dava confiança em si mesmas".
Badinter não foge da questão que nos ocorre nessa altura do texto. Não estamos aqui fazendo o mesmo de sempre, valorizando Émilie e Louise pela sua ligação com homens célebres? "Se fosse preciso expor a ambição masculina no século XVIII e particularmente a de Grimm e de Voltaire, deveríamos evocar suas relações afetivas e delas fazer a condição necessária à sua ambição?". A resposta é não. Voltaire e Grimm já eram conhecidos antes de se ligarem a elas. Não tiveram necessidade de admiração e reconhecimento das companheiras para investir em suas ambições. Já Émilie e Louise nasceram para desempenhar o papel tradicional de esposa, mãe e presença mundana nos salões da elite da época. "O amor, longe de ser uma fonte de alienação, foi a condição de emancipação e autonomia delas. Desde de que se sentiram amadas e respeitadas, elas cessaram de sentir a necessidade de correr atrás do reconhecimento dos outros". Podiam ser elas mesmas e se dedicar a sua ambição.
Émilie foi amante de Voltaire entre 1733 e 1741. Louise foi amante de Grimm entre 1754 e 1773. Ambas foram muito apaixonadas e foram correspondidas. Viveram com seus amantes uma comunhão intelectual, com estudo, leituras e trabalhos conjuntos. Deixaram de ser correspondidas em função de outras paixões, no caso de Voltaire, e, da ambição, no caso de Grimm. Mas nunca romperam a relação de amizade e companheirismo com eles. Ambos sobreviveram a elas.
Mas o que essas mulheres fizeram de extraordinário?
Émilie du Châtelet foi uma das primeiras, senão da primeira mulher Física de história. Escreveu Instituições da Física em 1740, no qual difunde a física newtoniana, pouco conhecida na França da época. E se distingue dos seus pares do século das luzes ao tentar conciliar Newton (1643-1727) com Descartes (1596-1650) e com a metafísica de Leibniz (1646-1716). A partir de 1744, ela se dedicou a traduzir os Principia de Newton para o francês em uma edição comentada. Sua  morte precoce em 1749 a impediu de terminar o trabalho, que foi concluído pelo amigo Alexis Claude de Clairaut (1713-1765). Até hoje é a tradução de Newton que os franceses leem. Voltaire escreveu no prefácio:
"Essa tradução, que os mais talentosos homens da França deveriam ter feito e que os outros devem estudar, um mulher a empreendeu e terminou, para o espanto e a glória do seu país. Gabrielle-Émilie (...) é a autora desta tradução que se tornou necessária a todos que queiram adquirir os profundos conhecimentos que o mundo deve ao grande Newton. (...). Tem-se aí dois prodígios: o primeiro, que Newton tenha escrito estas obra; o outro, que uma mulher a tenha traduzido e esclarecido".
Louise, que foi anfitriã de Rouseeau (1712-1778), se dedicou a escrever sobre educação. Sua obra, Conversações com Émilie de 1774, escrita para a educação de sua neta, Émilie, subverte as instruções de Rousseau no seu Émile. Jean-Jacques, um dos grandes responsáveis pela submissão da mulher na era burguesa, recomendava à Sophie, companheira de Émile:
"Todos os estudos ociosos não levam a nada de bom (...). Que necessidade tem um menina de aprender a ler e escrever tão cedo? Terá ela logo uma casa para administrar? Muito poucas há que, ao invés de apenas abusar, fazem um bom uso dessa ciência fatal (...). ".
Pois nas suas Conversações, Louise construiu uma anti-Sophie: "Quando vós vos empenhais em cultivar a vossa razão, em orná-la com conhecimentos úteis e sólidos, estais abrindo para vós mesmas tantas novas fontes de prazer e de satisfação, tantos meios de embelezar vossa vida, de ter recurso contra o tédio e consolo durante a adversidade, quando conhecimentos e talentos. São bens que ninguém pode roubar-vos, que vos livram da dependência dos outros (...) que, ao contrário, tornam os outros dependentes de vós; pois quanto mais talentos e luzes temos, mais nos tornamos úteis e necessárias à sociedade.". Nas palavras de Badinter: "Rousseau pode prender as mulheres no lar quanto quiser, Madame d´Épinay lhes dá a receita para escapar". Louise escreveu outras obras, mas foram as Conversações que a tornaram célebre. Em 1783, foi premiada pela Academia Francesa.
Hoje as mulheres seguem os caminhos abertos por Émilie e Louise. São cientistas, pedagogas, políticas, intelectuais. Escolhem ter filhos ou não. Mas o baixo número de mulheres que escolhem carreiras científicas e a sombra dos ensinamentos de Jean-Jacques sobre a educação das meninas indicam que as Émilies ainda tem muito o que ensinar. 
Madame du Châtelet

Madame d´Épinay

Tradução francesa do Principia





segunda-feira, 20 de julho de 2015

César Birotteau

A História da grandeza e da decadência de César Birotteau, perfumista, adjunto do Maire do segundo distrito de Paris, cavaleiro da Legião de Honra, etc (escrito em novembro de 1837)

Personagens: César Birotteau, Constança  Birotteau,  Cesarina, Alexandre Crotat (Xandrot), Cláudio José Pilleraut, Anselmo Popinot, sr. e sra. Ragon, Ferdinando Du Tillet, sr. e sra. Roguin, Sara Gobseck (A Bela Holandesa), Carlos Claparon, João Batista Molinaux, sr. Grindot (arquiteto), sra. Madou, sr. Vauquelin, Celestino, Gaudissart, Androche Finot, sr. Lourdois, Francisco  Birotteau, Cayron (comerciante de guarda chuvas), José Lesbas, Francisco Keller, Adolfo Keller, Padre Loraux. 

A história se passa entre 1819 e 1823.

Em uma carta para a escritora Margarete Harkness, escrita em abril de 1888, Friedrich Engels declarou que aprendera mais com Balzac do com todos os historiadores, economistas e estatísticos a respeito do nascimento da sociedade burguesa. Essa observação parece digrida especialmente a César Birotteau, que Paulo Rónai qualifica como um dos romances balzaquianos mais perfeitos. A "burguesia" termo do qual nós, professores de história, abusamos nas aulas, caracteriza algo fluido no tempo e no espaço. Um burguês na França de Balzac não é o mesmo que um burguês no Brasil de hoje. Mas o uso do mesmo termo aproxima e confunde a percepção. Pois Balzac nós dá o burgês de carne e osso, com nome, sobrenome, gostos, conceitos e preconceitos. Assistimos a nova classe tomar conta das relações sociais da França da Restauração, enquanto as demais classes e grupos se acomodam como é possível. 
Nosso burguês se chama César Birotteau. De origem camponesa (é irmão de Francisco Birotteau, o nosso Cura de Tours), foi para Paris aos catorze anos trabalhar como caixeiro na casa dos senhores Ragon, comerciantes de perfumes. Trazia somente seus pobres pertences pessoais e a disposição para o trabalho duro. Apesar do temperamento pacato, envolveu-se na conspiração de 13 vendemiário contra a Convenção, tendo a honra de lutar com Napoleão nas escadarias da Igreja de São Roque. "Se o ajudante de campo de Barras (Napoleão), saiu da obscuridade, Birotteau foi salvo por ela". Acabou esquecido e não foi punido. 
Assumiu a perfumaria dos Ragon e desposou a bela Contança Pilleraut, primeira caixeira da loja Pequeno Marinheiro. Juntos foram fazer fortuna. 
Encontramos os Birotteau, em 1819, como comerciantes prósperos e estabelecidos no mercado. Graças a algumas invenções como a "Dupla Pomada das Sultanas" e a "Água Carminativa", não faltavam pedidos e clientes. Mas faltava um certo glamour, incompatível com a vida no comércio. Então, Birotteau foi condecorado como Cavaleiro da Legião de Honra, em agradecimento a seus serviços à causa realista. Ele resolveu reformar a casa para dar um baile em comemoração à desocupação da França. Para pagar a extravagância, César entrou em um negócio de especulação de terrenos com alguns sócios, dentre os quais Roguin, dono de um cartório. Ocorre que, por detrás de Roguin, estava um dos típicos vilões balzaquianos, Ferdinando Du Tillet. Du Tillet nutria um grande desejo de vingança contra César. Fora seu caixeiro e furtara três mil francos do caixa. Birotteau descobriu e o despediu, mas sem fazer publicidade do caso.  Além disso, cortejara Constança e fora repelido por ela. Pois Du Tillet aproximou-se de Roguin, descobriu-lhe a fraqueza (uma amante dissipadora) e armou um plano para levar César Birotteau à falência. Após o baile na casa de Birotteau, o perfumista enfrentou uma sucessão de quedas que o levaram à falência. Com a ajuda da família e dos amigos, Birotteau conseguiu se reabilitar completamente pagando todos os seus credores, algo tão raro que foi até assinalado em sessão no tribunal pelo procurador do Rei. 
Um resumo, todavia, não dá conta da magnífica construção do romance. O início com o sonho premonitório de Cosntança. O meio, com o acontecimento central, o baile, que marca o auge do perfumista e o início da sua ruína. E no final, o novo baile, esse quase fantasmagórico, ao qual nosso heroi não resistiu. 
Mas o que pode haver de genial na história da falência de uma casa burguesa? Segundo Paulo Rónai, Balzac é genial ao construir personagens em nada extraordinários (para não dizer medíocres) e captar neles a vida real: "Birotteau, repetindo vinte vezes as mesmas palavras para explicar sua distinção com a Cruz da Legião de Honra e julgando-se, mesmo do fundo de sua miséria, superior a Popinot, que foi seu aprendiz; a sra. Birotteau, heroica e amorosa companheira de César, resistindo virtuosamente à sedução de Du Tillet, e, no entanto, guardando-lhe as cartas no seu cofrezinho; (...) Molinaux, tipo monstruoso de proprietário, não tendo outro medo do que ser julgado insuficientemente esperto pelos proprietários do Café David; Cesarina e Anselmo Popinot, os jovens amantes, incapazes, embora solidários com o sofrimento de César, de se arrancarem ao egoísmo do seu amor - eis alguns rasgos de intuição genial que faria Balzac idear um caráter num só bloco e tirar dele tudo o que podia dar". 
Outro feito notável, já conhecido dos leitores da Comédia Humana, é o conhecimento de Balzac sobre os pormenores dos processos e técnicas narrados.Fala da especulação de imóveis como se fosse um corretor ou um especulador. Discorre sobre a falência como um advogado (aqui a sua experiência como auxiliar de tabelião), diz-se que os advogados consultavam César Birotteau quando tratavam de falências. Conhece detalhes da fabricação de produtos de perfumaria. Conhece o funcionamento dos tribunais de comércio. Opina sobre os anúncios de produtos em jornais, uma novidade da época que mudou o comércio no século XIX. Segundo Rónai, dez especialistas seriam necessários para escrever César Biroteau. "mas os dez especialistas e o escritor genial têm o mesmo nome: Balzac". 
Não sei se Engels comentou algo específico sobre César Birotteau, mas algo me diz que era um dos romances no qual ele pensava quando escreveu à senhora Harkness. Segundo Brunetière (citado por Paulo Rónai), em todo livro não se passa quase nada, mas nele cabe a Restauração inteira. 




quarta-feira, 3 de junho de 2015

A menina dos olhos de ouro

A menina dos olhos de ouro (escrito entre março de 1834 e abril de 1835) - terceira história de História dos Treze

Personagens: Henrique de Marsay, Lorde Dudley (pai de Henrique), marquesa de Vordac (mãe de Henrique), padre de Maronis,  Paulo de Manerville, Lourenço (camareiro), Paquita Valdez, Concha Marialva, Cristêmio, mãe de Paquita, don Hijos (marquês de San Real), Margarita Eufêmia Porraberil (marquesa de San Real, filha de lorde Dudley com uma dama espanhola), Ferragus.

A história se passa em 1815.

O personagem principal dessa novela curta já apareceu em diversas histórias como figura lateral: o bon vivant Henrique de Marsay, que, como já sabemos por Ferragus e A Duquesa de Langeais faz parte dos Treze.
Aqui ficamos sabendo que Henrique era filho natural de Lorde Dudley com a Marquesa de Vordac. Dudley casou a moça com o idoso senhor de Marsay  que reconheceu a criança em troca do usufruto de uma renda de cem mil francos. Ignorado por pai e mãe, Henrique foi viver com uma irmã solteirona do senhor de Marsay. Com a magra pensão que recebia, a senhora confiou o menino a um preceptor, o padre de Maronis, De Maronis que "ensinou em três anos ao rapazinho o que só em dez teria este aprendido numa escola" foi verdadeira figura paterna para Henrique.
No início da história, encontramos Henrique em abril de 1815, em plenos Cem Dias, aos 22 anos passeando na Tuleiries. Lá encontrou o recém chegado da província, Paulo de Manerville, já nosso conhecido de O Contrato de Casamento. Henrique comentou com Paulo seu interesse por uma moça exótica, fulva, com olhos dourados. O amigo revelou que a jovem era conhecida como "a menina dos olhos de ouro". Percebendo que seu interesse era recíproco, Henrique com a ajuda do criado Lourenço, descobriu que a moça se chamava Paquita Valdés e morava no palácio do Marquês de San Real. O problema é que Paquita era severamente vigiada pela criada, a senhora Concha Marialva. Henrique e Lourenço conseguiram mandar uma carta a Paquita e marcar três encontros. O primeiro foi num apartamento decadente onde estava presente a mãe de Paquita, uma mulher georgeana que vendera a filha como escrava para os San Real. Apesar dos apelos de Henrique, Paquita não se entregou desta vez. Isso ocorreu nos outros dois encontros, às escondidas, no Palácio de San Real. No terceiro encontro, Paquita deixou escapar um nome. Um nome de mulher. Henrique ficou bravo e pensou em matar a menina, mas foi impedido pelo criado de Paquita, Crescêncio.
Um semana depois, Henrique voltou ao Palácio, dessa vez acompanhado de alguns dos Treze. Lá encontrou uma cena de luta com Paquita morta. A assassina era a marquesa de San Real, cujo nome era Margarita Eufêmia Porraberil, filha de Lorde Dudley com uma dama espanhola. Portanto, irmã de Henrique. Os irmãos se reconheceram. Eufêmia declarou que tinha como encobrir o crime (Crescêncio também fora assassinado) e que iria para a Espanha entrar para um convento. De Marsay voltou para as conquistas.
A quem julgar a história inverosímel, responde Balzac na nota introdutória da primeira edição do romance: "O episódio de A Menina dos Olhos de Ouro, é verdadeiro na maior parte de seus pormenores; a circunstância mais poética, e que lhe forma o nó, a semelhança dos dois  principais personagens é exata. O heroi da aventura que veio contar-lha, pedindo-lhe que a publicasse, decerto estará satisfeito de ver seu desejo atendido, embora o autor, de início, tivesse julgado a empresa impossível; o que parecia sobretudo difícil de fazer crer era essa beleza maravilhosa e meio feminina que distinguia o heroi aos dezessete anos e da qual o autor reconheceu os traços do moço de vinte e quatro. Se algumas pessoas se interessarem pela Menina dos Olhos de Ouro, poderão vê-la após a queda da cortina sobre a peça, como a essas atrizes que, para receberam suas coroas efêmeras, se reerguem bem dispostas após terem sido apunhaladas. Nada tem desenlace poético na natureza. Hoje, a Menina dos Olhos de Ouro está bem murcha...Quanto á Marquesa de San Real, acotovelada este inverno nas Bouffes ou na Ópera por algumas das honradas pessoas que acabam de ler esse episódio, ela tem exatamente a idade que as mulheres não confessam".
Diz também que o desfecho é real, mas aconteceu a outros portagonistas: "A sociedade moderna, nivelando todas as condições, esclarecendo tudo, suprimiu o cômico e o trágico; o historiador dos costumes é forçado, como aqui, a ir buscar onde estão os fatos engendrados pela mesma paixão, mas acontecidos a vários indivíduos, e cosê-los juntos para obter um drama completo". 
Será verdade ou um truque de Balzac para aumentar o interesse em suas histórias, com os leitores especulando quem é quem? Ele diz que "os escritores não inventam coisa alguma"...
Dessa história, que não é a minha preferida de Balzac, comento dois aspectos. A suavidade e a naturalidade com que ele aborda o tema do lesbianismo. No início pensamos que Paquita é amante do Marquês de San Real. São as cartas de Londres e as alusões da menina ("é a mesma voz... e o mesmo ardor") que nos chamam a atenção para a Marquesa. O autor nos diz: "uma paixão terrível ante a qual recuou toda a nossa literatura, que, no entanto não me espanta em nada". Não espanta, pois era comum. E uma relação entre mulheres era mais fácil de dissimular, a pretexto de amizade, do que entre homens. Apesar do desfecho trágico e exagerado, e relação é tratada como se fosse uma relação heterossexual. 
O que prefiro nesse romance é o seu início, intitulado "Fisionomias Parisienses". Aqui, Balzac aparece como o magnífico historiador dos costumes que era fazendo um retrato vivo de Paris. Paulo Rónai nos diz: "Foram essas páginas, como muitas outras de Balzac que fixaram para sempre a imagem mítica de Paris aos olhos do mundo inteiro, e tal imagem nos interessa profundamente, porque a Paris de 1830 era uma prefiguração de todas as metrópoles modernas, inclusive a nossa". A análise das quatro camadas da vida social parisiense: o proletário, o burguês, o profissional liberal e o artista poderia ser utilizada em uma aula de história. Impressiona a vivacidade da descrição. É como se andássemos pela Paris de 1830 com Balzac nos mostrando a cidade. Deve ser por isso que ele dedicou A Menina dos Olhos de Ouro a Eugène Delacroix, pintor. 


Não terminei o doutorado ainda, mas voltei. Não podemos viver sem aquilo sem o qual não podemos viver. 
A Menina dos Olhos de Ouro é a primeira história de Balzac que leio no meu leitor Kobo. 


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Auto de Fé (Die Blendung)

Auto de Fé. Elias Canetti. São Paulo: Cosac Naify, 2004. Tradução: Herbert Caro. 

Lido entre 13  março e 18  julho de 2013. 

Como já registrei aqui meu interesse por Elias Canetti surgiu a partir da sua biografia e da peculiaridade dele ter se tornado um mestre em uma língua que não era a sua língua materna, no caso o alemão (Canetti nasceu na Bulgária numa família de judeus sefaratitas, de modo que sua língua materna era o ladino, aparentado ao espanhol). No segundo volume das suas memórias, Uma Luz no meu ouvido, Canetti esclarece como foi gestado seu primeiro e único romance, Auto de Fé. Eu já o possuía na estande há um certo tempo. Chegou a hora de enfrentá-lo. 
Auto de Fé, cujo o título original é Die Blendung, o cegamento, conta a história de Peter Kien, um sinólogo famoso, que vive recluso em sua biblioteca repleta de livros raros. Percebendo o zelo de sua governanta, Therese, para com os livros, Kien resolve casar com ela. Therese, todavia, revela-se uma mulher vulgar, que deseja unicamente, saquear Kien e dispensá-lo. Com a ajuda do zelador, também interessado no dinheiro do sábio, ela acaba expulsando Kien de casa e, nas ruas, ele tem contato com um mundo que não conhece. Conhece uma fauna variada de personagens surrealistas: o anão Fischerle, um cego, um mascate, um limpador de esgotos. No final, o irmão de Kien, Georges, psiquiatra, chega à cidade para ajudá-lo. Mas Kien acaba morrendo com o incêndio de sua biblioteca. 
É um romance complexo e pesado. E, ao contrário de Thomas Mann, cujos primeiros livros, trazem ainda ares de século XIX, Auro de Fé é um romance absolutamente do século XX. Foi publicado em 1935, não por acaso, época em que o nazismo já estava instalado na Alemanha e a guerra se avizinhava. 
Canetti refletiu em uma obra clássica, Massa e Poder, sobre o fenômeno da massa. Isso está presente em vários momentos da narrativa. Não somente a massa como fenômeno, mas também a sociedade de massas. Os personagens convivem, interagem, mas não se comunicam. Eles absolutamente não conseguem compreender o outro. Cada um vive no seu mundo fechado, impermeável ao diálogo, à troca. Até o irmão médico de Kien, Georges, que é mais "normal" do que os outros, não consegue compreender a situação que está vivenciando. Hoje se fala muito que as pessoas, em função da internet e das redes sociais, não convivem, somente interagem. Isso já está em Auto de Fé
O livro tem uma origem complexa, narrada por Canetti em suas memórias e também, de forma resumida, no ensaio O Primeiro Livro, reproduzido na edição da Cosac Naify. Se presta a diversos tipos de análise, inclusive do ponto de vista psicanalítico. Não farei nenhuma análise, apenas comento dois pontos importantes para mim, ou melhor, duas influências presentes na obra que me são caras. 
Kien era, originalmente, o Homem dos Livros. Um personagem para quem os livros eram mais importantes do que a vida e do que as pessoas. A cena na qual, no hotel, ele arruma a biblioteca fictícia é emblemática. O grande Homem dos Livros da literatura ocidental é Dom Quixote de Cervantes ( e Canetti admite a influência). Dom Quixote passa a viver a realidade das novelas de cavalaria, rejeitando a atmosfera sombria da Espanha do século XVII. Já a fixação de Kien é nos livros em si. Às vezes são mencionados alguns temas que ele estuda, mas é a materialidade dos livros que é importante. Mas a dureza da realidade é pesada para ambos. Assim, apesar do fim sombrio de Kien, Auto de Fé é uma declaração de amor aos livros. Canetti é também um Homem dos Livros. 
A segunda é Balzac, influência também revelada. Canetti dizia que o plano original era escrever uma comédia humana de loucos. Havia diversos esboços de personagens, e somente Kien foi desenvolvido. Apesar da diferença de linguagem e de contexto, há Balzac em Auto de Fé. A disputa entre Kien e Therese por espaço lembra O cura de Tours, quando os padres Birotteau e Troubert disputam um quarto mobiliado. E as manobras de Fischerle para tirar dinheiro de Kien lembram os inúmeros trapaceiros que desfilam pela Comédia Humana. 
É um leitura pesada, que não flui facilmente. É preciso desgaste e energia para enfrentar essa obra única. Eu prefiro a prosa mais tradicional de Thomas Mann. Mas, para quem gosta de literatura, é uma obra indispensável. 


domingo, 22 de dezembro de 2013

Grande Irmão


Grande Irmão. Lionel Shriver. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2013. Tradução: Vera Ribeiro. 

Lido entre 19 e 22 de dezembro de 2013.

Adoro descobrir autores por acaso. Grande Irmão foi um desses casos. Olhando o site da Livraria Cultura, vi o título do livro. Pensei que tivesse algo a ver com George Orwell. Quando li a sinopse, gostei do tema. É um assunto que anda me preocupando muito: a epidemia de obesidade nas sociedades ocidentais. Comprei, comecei a ler e, diante do meu primeiro fim de semana com algo parecido a férias(doutorando não tem férias), só parei na última linha. 
Pandora Halfdanarson  é uma mulher de 40 anos casada com Fletcher Feuerbach, mãe emprestada dos dois filhos adolescentes do marido, Tanner, 17 anos, e Cody, 13. Após dirigir uma empresa de catering por alguns anos, uma brincadeira a levou a um negócio bem sucedido. Fez um boneco de corda para presentar o marido, com um mecanismo para reproduzir frases gravadas, clichês sempre repetidos pelo homenageado. As pessoas que viram gostaram e começaram a encomendar a engenhoca. Nascia a Baby Monotonous. O sucesso permitiu que Fletcher se dedicasse à sua paixão, fabricação de móveis de design. Um dia, Pandora recebe a notícia de que seu irmão, Edison Appaloosa, músico de jazz em Nova Iorque, não está bem financeiramente. Envia uma passagem para que ele vá visitá-la em Iowa, depois de uma separação de quatro anos, pontuada por alguns telefonemas, cuja iniciativa é sempre de Pandora. Ao chegar ao aeroporto, Pandora não reconhece no homem empurrado em uma cadeira de rodas por comissários, o rapaz atlético por quem suas amigas eram apaixonadas na adolescência. Edison está pesando quase duzentos quilos. 
A visita se transforma em um ordálio. Fletcher é um homem de vida regrada, que acorda muito cedo, come apenas alimentos naturais, evita laticínios e pratica ciclismo. Conviver com os hábitos alimentares do cunhado produz uma guerra diária. Tanner é um garoto cínico e mal educado, que não hesita em debochar das histórias de Edison, que relata, de forma repetitiva e exagerada, as ocasiões em que tocou com os maiores astros do jazz. A única que auxilia Pandora na inglória tarefa de gerenciar a visita de dois meses é Cody. 
Pandora e Edison têm nomes diferentes em virtude de um personagem que aparece pouco, mas está sempre presente no enredo. O pai deles, e da irmã mais jovem, Solstice, é  ator e roteirista de televisão de uma série famosa da década de 1970, chamada Guarda Compartilhada. Travis Appaloosa, nascido Halfdanarson, vive, na faixa dos setenta anos, da nostalgia do passado, sonhando em voltar a fazer sucesso na televisão. Em Guarda Compartilhada, Travis criou uma família avatar idealizada, na qual o filho mais velho era uma cópia de Edison e a do meio, de Pandora. 
(Quem quer ler o livro e não quer saber o desfecho da história pare aqui). 
A história chega a um impasse na data em que Edison  deveria retornar a Nova Iorque. Ele, inicialmente, dizia que faria uma turnê na Península Ibérica. Mas Acaba confessando a Pandora que não havia turnê alguma e que ele estava sem trabalho e vivendo de favores há muito tempo. Pandora tinha duas possibilidades. Deixar Edison embarcar e dar algum  dinheiro para ele se manter ou convidá-lo a ficar e ajudá-lo a lidar com o problema do peso. 
Pandora decide apoiar o irmão, mesmo com a séria possibilidade de comprometer o casamento. Aluga um apartamento para ambos e anuncia ao marido que passará um ano ajudando Edison a emagrecer. Pandora ganhou alguns quilos a mais nos últimos anos e resolve acompanhar o irmão na dieta. Passam vários meses consumindo apenas shakes proteicos, quatro vezes por dia. Após quatro meses e já tendo emagrecido 25 quilos, Pandora volta a comer alimentos sólidos. Edison volta após seis meses. E, ao final de uma ano, Edison, que pesava 175 quilos, chega aos 73. Eles fazem uma festa para comemorar o feito e, nessa data, Pandora anuncia a Edison que ela voltará para casa com Fletcher. Em poucas linhas, sabemos que Edison voltou a engordar todos os quilos perdidos. 
Na terceira e última parte, descobrimos o que já imaginávamos: que a segunda parte era ficção. Edison embarcou de volta para Nova Iorque e Pandora passou a enviar algum dinheiro a ele. Morreu, tempos depois, aos quarenta e nove anos. 
Lionel Shriver é uma norte-americana que mora há anos na Inglaterra. Depois de cinco ou seis livros sem grande sucesso na década de 1990, ela ficou famosa em 2003 com Precisamos falar sobre Kevin, história narrada pela mãe de um adolescente psicopata e que virou filme. O seu irmão mais velho Greg, para quem Grande Irmão é dedicado, morreu aos 55 anos em virtude de complicações relacionadas à obesidade mórbida. 
O livro tem problemas narrativos bem óbvios. Há um grande abuso de clichês. A cena do aeroporto, quando Pandora, aguardando Edison, escuta dois passageiros reclamarem do incômodo causado pela presença de Edison é um grande chichê cinematográfico. Edison é uma personagem mal construído. O que Pandora conta dele antes da obesidade não tem nada a ver com a pessoa que aparece na história. Além disso, suas atitudes, comendo toda a comida que os parentes têm em casa, fazendo sujeira, quebrando a mobília, são lugares comuns associados aos obesos: pessoas preguiçosas, sem força de vontade e que incomodam os outros. Travis, que é quase um coadjuvante, é mais real que Edison. Travis, aliás, tem tudo a ver com a obesidade de Edison: ele é o genitor egoísta, algo que contrasta fortemente com a visão que temos hoje a respeito de paternidade e maternidade, mas que está nas vidas de muita gente. Para ele, seu mundo de fantasia de Guarda Compartilhada, é mais importante do que a família real. 
A segunda parte, da dieta, é francamente inverosímel, mas acredito que foi deliberado. Qualquer pessoa que já fez uma dieta (quem não?), sabe que é impossível ficar meses consumindo 500 calorias por dia, ou perder 100 quilos em uma ano. 
O tema de Grande Irmão não é exatamente obesidade, mas controle e competição. Controle sobre o que comemos, ou sobre o que não comemos. Controle sobre as relações familiares, fraternas ou não. Competição em todas as esferas da vida. Chama a atenção a competição entre Edison e Pandora, desde pequenos. Edison era o preferido dos pais. Pandora era a típica filha do meio, de quem não se espera nada. Enquanto ele foi aos dezessete anos para Nova Iorque com alguns trocados no bolso e ficou famoso, ela optou por estudar inglês na faculdade (algo que quem não sabia o que queria acabava fazendo). Aos quarenta anos, o jogo se inverteu. Edison está obeso e desempregado, enquanto Pandora, bem sucedida, está na capa da Vanity Fair. Também chama a atenção a competição entre Pandora e Fletcher. Ele compensa seu desempenho opaco na profissão com hábitos alimentares e de exercício que Pandora não consegue seguir. Ostenta perante ela, com alguns quilos a mais, seu físico atlético. Travis é o maior competidor em relação aos filhos. Não aceita que ambos, em momentos diferentes tenham mais sucesso do que ele teve. Menospreza a carreira de Edison e despreza a firma de Pandora. Quando Fletcher manda a ele uma foto e ele vê o estado físico de Edison, não consegue disfarçar a satisfação.
Creio que é essa dinâmica familiar que Shriver capta bem. Esse emaranhado de competição e afeto das relações familiares, em que os irmãos ora se unem contra os pais, ora se unem aos pais, um contra o outro. Em que as lealdades ora são do cônjuge, ora do irmão/irmã. Essas implicâncias sem explicação do dia a dia. Fazer o que sabemos que vai desagradar ao outro. Ostentar ao outro nosso sucesso, quando sabemos que ele não está bem. Se arrepender logo depois e mesmo assim, tornar a fazer. Esse é o ponto alto de Grande Irmão. As melhores reflexões são sobre isso e não sobre a questão do descontrole alimentar. 

Grande Irmão foi o primeiro e-book de literatura que escolhi ler no formato de e-book. Já li muitos da minha área de estudo e alguns de literatura por não querer esperar meses pela remessa da Amazon. Quando fui comprá-lo no site Cultura, ia comprar o livro convencional. Mas resolvi experimentar. Gostei da experiência. Li no meu celular. Achei prático poder sacar o celular do bolso e ler o livro a hora em que eu quisesse. Às vezes fico muito brava, quando saio e esqueço
de levar um dos livros que estou lendo. Agora vou manter sempre um no celular.




sábado, 27 de julho de 2013

Uma Luz em meu Ouvido

Uma Luz em meu ouvido. Elias Canetti. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Tradução Kurt Jahn.

Lido entre 19 de fevereiro e 6 de março de 2013.

Trata-se da continuação da biografia de Elias Cannetti, A Língua Absolvida. Uma Luz em meu Ouvido cobre o período entre 1921 e 1931, ao fim do qual Canetti tornou-se escritor.
O livro inicia com a chegada de Elias, aos 16 anos a Frankfurt em 1921. Lá, a família, mãe e três filhos, em dificuldades financeiras foi residir na pensão Charlotte. Na pensão, Elias teve contato com uma fauna variada. Alguns eram pessoas de aparência respeitável, mas com uma vida dupla. O autor conheceu o período de crise e inflação que se abateu sobre a Alemanha dos anos 1920. Ele relata o impacto que teve sobre ele ter presenciado na rua uma mulher desmaiar de fome.
Em 1924, Elias foi para Viena com o irmão Georg. Tendo desistido da medicina, optou, sem muita convicção, por estudar química. Ele tinha 19 anos.
Por intermédio da família Asriel, Canetti conheceu, no mesmo dia, duas das pessoas mais importantes de sua vida: Karl Kraus e Veza. 
Karl Kraus (1874-1936) não é muito conhecido hoje em dia, mas era uma celebridade na Viena dos anos 1920. Ensaísta, dramaturgo, polemista, escrevia um jornal, Die Fackel (A Tocha), onde atacava o belicismo e a corrupção das elites da época. Escreveu um drama de mais de oitocentas páginas, Os último dias da humanidade, "no qual aparece tudo o que aconteceu na guerra. Quando Karl Kraus fazia leituras de partes do mesmo, ficava-se como que aniquilado. Nada se movia no auditório, mal se ousava respirar. Ele mesmo lia os papéis de todos os personagens, dos aproveitadores e dos generais, dos velhacos e dos pobres-diabos que eram vítimas da guerra. Todos pareciam tão genuínos em sua interpretação como se estivessem à nossa frente. Quem o ouvisse, nunca mais desejaria frequentar um teatro, pois o teatro era enfadonho em comparação a Karl Kraus. Ele sozinho era um teatro inteiro, porém melhor, e este milagre da humanidade, esse monstro, este gênio tinha um nome tão comum como Karl Kraus". 
Pois na primeira vez que teve essa incrível experiência, Elias conheceu Veza Taubner-Calderon (1897-1963) com quem se casaria em 1934. Elias e Veza tiveram uma parceria intelectual poderosa que iniciou nessa época, apesar do posterior casamento conturbado - Canetti teve muitas amantes e Veza, uma intensa paixão por Georg, o irmão médico do escritor. 
Mas o tom desse período é o mesmo da parte final de A Língua Absolvida: os embates do jovem com a forte personalidade da mãe, Mathilde. Elias data um momento de ruptura, ocorrido em 24 de julho de 1925, quando a mãe o proibiu de fazer uma excursão para as montanhas com um amigo. Ocorreu uma grande crise que marcou o afastamento entre mãe e filho. Mathilde também se opunha ao relacionamento do filho com Veza. É muito engraçado o trecho em que Canetti conta que inventava para a mãe relacionamentos com outras mulheres para desviá-la da seriedade do seu romance com Veza. 
Também é desse período a narrativa do trabalho no laboratório de química, de onde saíram alguns modelos para os personagens de Auto de Fé.
Um acontecimento que mudou a vida de Canetti e o levou a dedicar anos ao estudo das massas e à publicação do ensaio Massa e Poder em 1960 ocorreu em 15 de julho de 1927. Tudo começou com um tiroteio alguns dias antes, quando seis operários foram mortos. A corte de justiça inocentou os assassinos, o que provocou uma grande revolta nos trabalhadores de Viena que marcharam para o Palácio da Justiça e o queimaram. Elias Canetti se integrou na massa manifestante, e estudar os movimentos de massa, de turba, a partir daí, passou a ser sua obsessão. Dessa experiência surgiu um dos modelos de Kien, o homem dos livros de Auto de Fé: "Numa rua lateral, não longe do Palácio da Justiça em chamas, logo ao lado, destacando-se nitidamente da massa, estava um homem de braços erguidos, que juntava as mãos por cima da cabeça, em desespero, e bradava em tom lamentoso, uma vez após a outra ´Os arquivos estão queimando!`, ´Todos os arquivos!`, ´Antes os arquivos do que as pessoas!`, disse-lhe eu, mas isso não o interessou, só tinha os arquivos na cabeça". 
Elias terminou sua graduação em química, já muito ciente de que jamais trabalharia como químico. Dois períodos em Berlim entre 1928 e 1929 foram fundamentais para sua carreira de escritor e para Auto de Fé. 
George Grosz - Berlin Strasse 1931
As maiores influências do período berlinense foram o pintor e desenhista George Grosz (1893-1959) e o escritor russo Isaak Babel (1894-1940). Canetti considera que o trabalho de Grosz teve o mesmo impacto para ele do que o texto de Karl Kraus, mas que por ser uma pessoa verbal e sem talento para o desenho, o admirava mas não o tinha como paradigma. Canetti considera que Babel significou mais para ele do que qualquer outra pessoa que conheceu na época. 
Outra figura dos anos 1920 com quem Canetti travou conhecimento foi Bertold Brecht (1898-1956). Elias não esconde sua antipatia por ele, considerado artificial e afetado. 
A última parte da narrativa, entre 1929 e 1931, trata da gestação de Auto de Fé. É muito interessante (para mim o mais interessante do livro) ver como um conjunto tão variável de influências resultou nesse romance sui generis. Coisas tão diversas como um quadro de Rembrandt, a Capela Sistina, a senhoria de uma das casas onde Elias morou, Cervantes, o homem que lamentava a queima dos arquivos, A Comédia Humana, a fragmentação das noites berlinenses, os desenhos de Grosz se amalgamaram para a dar origem a Die Blendung - o cegamento, que é o título original de Auto de Fé. Mas Auto de Fé, apesar de ser um capítulo da Comédia Humana dos loucos, como o próprio Elias o definiu, é também uma elegia aos livros, é o amor extremo aos livros, algo que Canetti trazia dentro de si. E eu, modestamente, também. Mas isso já é assunto para outro post. 


Rembrandt - Sansão cegado pelos filisteus 1636

domingo, 14 de julho de 2013

Crime e Castigo

Não estava nos meus planos reler Crime e Castigo agora. Eu o li há muitos anos na tradução de Natália Nunes para a a Abril Cultural, que é uma tradução de segunda mão, ou seja, o texto russo foi traduzido para o francês e a tradutora passou para o português. Eu havia adquirido a tradução direta do russo de Paulo Bezerra para a Editora 34, mas estava na prateleira, aguardando um motivo ou inspiração para a releitura. Eis que apareceu. Numa livraria bem perto da minha casa ofereceram um curso de literatura russa sobre Dostoiévski com o professor João Armando Nicotti. Normalmente, não posso participar desse tipo de atividade, mas é no sábado na parte da tarde. Não resisti. O professor Nicotti é um dos responsáveis pela minha paixão por Tolstói. Assisti, quando ainda era uma menina, uma palestra com ele sobre Anna Karênina: foi o início do meu interesse pela literatura russa e por Tolstói. 
Crime e Castigo conta a história de um jovem estudante de direito de 23 anos de São Petesburgo, Rodion Románovitch Raskólnikov que comete um crime. Raskólnikov vive sustentado pelas mãe, Pulkhéria Raskólnikova, que recebe uma miserável pensão, e pela irmã, Avdótia (Dúnia), governanta em uma casa burguesa na província. Mesmo assim, a pobreza o obriga a abandonar a faculdade. Movido pela falta de recursos - mora em um local insalubre, pouco se alimenta -, pela doença e por algumas teorias por ele elaboradas, o rapaz planeja e executa o assassinato de uma velha usurária, Aliena Ivánova. Durante a execução, com um machado, chega ao apartamento da velha sua irmã, Lisavieta Ivanova, e Raskólnikov é obrigado também a assassiná-la. 
Nesse meio tempo, ele recebe uma carta da mãe narrando o noivado de Dúnia com o capitalista Piotr Pietrovich Lúdjin e a viagem próxima de ambas, mãe e irmã, a São Petersburgo para o casamento. Raskólnikov desaprova o plano, pois percebe que  a irmã aceitou o pedido para ajudá-lo. E através das palavras da mãe, o jovem advinha que noivo é um homem que deseja uma noiva pobre e submissa que o reverencie. 
Raskólnikov tem ao seu lado, desde o princípio, o colega da faculdade Dmitri Prokófich Razumíkhin. Jovem honesto, um pouco ingênuo e infenso à rispidez do protagonista, ele logo se apaixona por Dúnia. Outro personagem importante é Semion Zakháritch Marmieladov  Ele conhece Raskólnikov em uma taberna e ele narra sua triste vida. É funcionário público, mas abandonou o trabalho pelo vício na bebida. Sua mulher, Catierina Ivánova, moça de família nobre que empobreceu, está com tuberculose e não tem meios de sustentar os três filhos pequenos do casal,  Polienka,  Kólia e Lênia (9, 7 e 6 anos). A filha mais velha de Marmieladov, Sônia Semionova Marmeliadova, ajuda os pais e madrasta se prostituindo. Ao longo da narrativa, Marmieladov morre atropelado por cavalos.  Raskólnikov dá a Catierina todo o dinheiro que recebeu da mãe para o enterro do alcoolista. E no dia do enterro, Catierina morre. O casal Marmieladov-Catierina foi inspirado na primeira esposa de Dostoiévski, Maria Dmitrieva e seu primeiro marido, Issáiev. 
Na galeria de personagens principais (há muitos, mais de 80), há ainda Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov e Porfiri Pietróvitch. 
Svidrigáilov aparece pela primeira vez na longa carta de Pulkhéria para Raskólnikov. Ele era o patrão da casa onde Dúnia trabalhava. Foi literalmente comprado pela mulher, uma solteirona endinheirada, Marfa Pietróvna, e com ela fez um acordo: viveria com ela na província e não teria casos amorosos sérios. Marfa tolerava, no máximo, casos com criadas de quarto. Svidrigáilov se apaixonou por Dúnia e provocou uma incidente que levou à difamação da moça. O mal entendido foi desfeito e Dúnia reabilitada, momento em Lúdjin apareceu para resgatá-la. Svidrigáilov é pedófilo, o que é retratado com realismo pelo autor. Ele vai para a cidade após a morte de Marfa, que, não fica claro, poderia ter sido provocada por ele. Apesar do mau caráter, Svidrigáilov pratica uma série de boas ações. Entre elas, paga o enterro de Catierina e providencia para que os órfãos fiquem em um bom internato. Também dá dinheiro à Sonia e à família de uma menina de 16 anos com quem ele iria se casar (na verdade iria comprá-la dos pais). Tem-se a impressão de que desde que foi para São Petersburgo ele estava pensando em se suicidar, o que, finalmente, ele faz com um tiro na cabeça. 
Porfiri Pietróvitch é o juiz de instrução que, através do estudo das atitudes de Raskólnikov, descobre que ele cometeu o crime. Faz um jogo psicológico com o protagonista e o incentiva a se entregar, já que teria uma série de atenuantes: sua doença, o fato de não ter usado o dinheiro que roubou da velha e a porta aberta quando cometia o crime. Raskólnikov acaba se entregando, mas não a Porfiri, a Ilia Pórokh. 
No final, Raskólnikov é condenado a sete anos na Sibéria. Vai para lá acompanhado por Sônia. Pulkhéria falece. Dúnia, que rompera o noivado com Lúdjin, casa com Razumíkhin . 
A última cena da narrativa ocorre um ano e meio depois do crime (o crime ocorreu em julho de 1865), quando Raskólnikov reconhece seu amor por Sônia e encontra nesse amor a redenção que até então não encontrara. 
Muita tinta já foi gasta para falar desse livro sob os mais diversos aspectos: jurídicos, psicológicos, históricos, filosóficos. 
Um dos ponto mais debatidos é o motivo do crime. O protagonista apresenta vários motivos, mas o mais plausível se relaciona a uma teoria segundo a qual existem homens ordinários, a maioria, e homens extraordinários, como Napoleão ou César, que são capazes de ultrapassar os limites para conquistar o que desejam. Esses últimos poderiam fazer o que quisessem e apenas colheriam a glória. Raskólnikov diz:
"A velha vai ver que foi mesmo um erro, mas não é nela que está a questão! A velha foi apenas um doença...eu queria ultrapassar o limite o quanto antes...eu não matei uma pessoa, eu matei um princípio!  Foi o princípio que eu matei, mas além eu não fui, permaneci do lado de cá... O único que eu soube fazer foi matar. Demais, nem isso eu soube, como se está verificando." 
Assim, o erro de Raskólnikov segundo ele mesmo não foi ter matado, mas não ter conseguido seguir com a vida após o crime, utilizar o produto do roubo para voltar para a universidade e fazer grandes coisas, como um grande homem teria feito no seu lugar. 
Ele não se arrepende do crime nem no final. O que traz a paz a Raskólnikov na última cena, não é o arrependimento, mas a redenção pelo amor de Sônia e pela perspectiva de uma vida com ela. 
Eis a sombra de Napoleão Bonaparte sobre os jovens do século XIX. Eugênio de Rastignhac, Luciano de Rubempré, Julien Sorel, Rodion Raskólnikov, todos atingidos, de forma diversa, pela perspectiva de atingir a grandeza. 
Raskólnikov é um dos personagens mais desagradáveis da literatura de todos os tempos. O leitor não desenvolve nenhuma empatia com ele, coisa que o mau caráter Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov, com todos os seus defeitos: jogador, agressor de mulheres, pedófilo, consegue logo que aparece no quarto do protagonista. Rodion desenvolve um certo fascínio, que é o que explica, por exemplo, amizade de Razumíkhin e o desvelo da empregada Nastácia. Mas Razumíkhin bem o define: "Ele não gosta de ninguém, talvez nunca venha a gostar". É o  gênio de Dostoiévski que nos faz acompanhar essa criatura insuportável com o maior dos interesses por quase seiscentas páginas.