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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Um escritor na guerra: Vasily Grossman com o exército vermelho: 1941-1945

Um escritor na guerra: Vasily Grossman com o exército vermelho: 1941-1945. Vasily Grossman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. Editado e traduzido do russo para o inglês por Antony Beevor e Liuba Vinogradova. tradução Bruno Casotti.

Lido entre 11 e 18 de junho de 2011.

Livro fundamental para quem, como eu, gosta de história da Segunda Guerra Mundial, especialmente da União Soviética.
O escritor Vasily Grossman acompanhou o exeŕcito vermelho entre agosto de 1941 e maio de 1945 como correspondente do jornal Krasnaya Zvezda. Escreveu centenas de artigos que eram atenciosamente acompanhados tanto pelos soldados, quanto pelas autoridades. Também manteve um caderno de notas cujo conteúdo, para a sua sorte, só era conhecido pelo amigo Ilya Ehrenburg. Nesses cadernos, havia anotações que teriam custado a Grossman um lugar no gulag até o final de sua vida: a incompetência dos oficiais soviéticos; o desprezo das autoridades pela vida dos soldados; o colaboracionismo da população, especialmente dos ucranianos, com os nazistas; a inutilidade da burocracia; a crueldade dos soldados do exército vermelho quando da retomada dos territórios ocupados (e não somente contra alemães).
Esse volume foi cuidadosamente preparado pelo historiador Antony Beevor, que tomou conhecimento das anotações de Vasily Grossman quando escrevia Stalingrado, livro por mim aqui resenhado. Além das anotações, alguns artigos e algumas cartas escritas por Grossman (a maior parte para seu pai), o livro conta com uma contextualização, já que as notas são fragmentadas.
Quem lê as anotações de Grossman e não conhece Vida e Destino, terá informações interessantes sobre alguns dos principais cenários da guerra na União Soviética. Ele escreveu em seus cadernos sobre o terrível desastre que foi a invasão alemã em 1941, embora tenha suavizado isso em seus artigos. Descreveu a realidade dos soldados nas frentes de batalha, os problemas a serem administrados pelos comandantes e o terror da população civil fugindo da iminente invasão alemã.
Stalingrado é ponto alto das anotações. Grossman permaneceu na cidade durante toda a batalha e, apesar das críticas em seus cadernos, apresenta uma perspectiva totalmente patriótica: a vitória foi o resultado de uma explosão de patriotismo, nos moldes da vitória sobre o exército francês em 1812. Sua ênfase é no soldado comum. Ele critica a vaidade dos oficias que, após a vitória, se gabavam de seus feitos, ignorando o sacrifício do soldado comum e da população civil.
Especialmente tocantes são as passagens relativas à descoberta do massacre de Berdichev e do campo de extermínio de Treblinka. Berdichev era a cidade natal de Grossman e lá sua mãe, Yekatarina Savelievna, morreu em um massacre perpetrado por um dos famigerados SS Sonderkommando em setembro de 1941, quando cerca de 30 mil judeus foram assassinados a tiros em clareiras e enterrados em covas coletivas. O escritor não recebia notícias da mãe desde a época de sua morte, mas somente em janeiro de 1944 descobriu o que realmente ocorrera. Descobriu também, a colaboração dos ucranianos com os nazistas.
A partir desse momento, Grossman começou a escrever artigos denunciando o que na época não tinha nome, mas que seria conhecido como o holocausto. O assassinato de judeus em Berdichev foi um dos primeiros escritos na história sobre os massacres nazistas. Foi, como também o posterior trabalho de Grossman de denúncia dos crimes nazistas, censurado pelas autoridades soviéticas. Stálin era contra enfatizar o sofrimento de uma etnia. A propaganda oficial era de que todos os soviéticos estavam sofrendo igualmente com a invasão nazista.
Em julho de 1944, Grossman chegou ao que restava do campo de Treblinka, na Polônia. Os nazistas, percebendo a reação do exército vermelho destruíram o campo e queimaram os corpos que estavam enterrados. Grossman fez um trabalho de detetive, entrevistando os poucos sobreviventes, a população local, desenhando a estrutura e descrevendo o funcionamento do campo. Seu artigo O inferno de Treblinka foi utilizado no julgamento de Nuremberg. Lá ele constatou que quem fazia o “serviço sujo” no campo - retirava os pertences das vítimas, encaminhava as vítimas para a câmara de gás, cortava os cabelos, extraía os dentes dos cadáveres e queimava os corpos - eram ucranianos.
No final, Grossman acompanhou unidades do exército vermelho até Berlim. Não há muitas notas desse período. Mas há registros da crueldade dos soldados russos com a população civil, e não somente população alemã. Eles saqueavam seu próprio povo e, inclusive, muitos oficiais se comportavam como ladrões. E não eram somente as “Frauleins” que sofreram nas mãos dos russos. Mulheres e meninas soviéticas também eram estupradas pelos soldados que se comportavam como animais, bêbados e selvagens.
Quem lê os cadernos de Grossman e leu Vida e Destino tem outra perspectiva. Estamos diante da pesquisa de Grossman para o trabalho de sua vida. Sua atenção aos detalhes, sua preocupação com o cotidiano dos soldados, com as piadas, com as gírias, com a comida, tudo foi “laboratório” para Vida e Destino. Até os modelos de alguns personagens estão lá.
Grossman foi um excelente jornalista de guerra, talvez um dos melhores de todos os tempos. Mas seu trabalho como escritor não fica atrás.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Vida e Destino - a luta


A pergunta que não quer calar quando lemos Vida e Destino é: como um homem que conhecia tão bem o sistema soviético acreditou que poderia publicar algo tão herético a ponto de entregar a obra a uma editora oficial? Não há nada sutil ou disfarçado na crítica de Grossman ao stalinismo. Ele segue o conselho que se dá a quem quer fazer literatura: não explique, mostre! Ele mostra que o campo de concentração alemão é igual ao campo de trabalho soviético. Ele mostra a estupidez e insanidade da burocracia. Ele mostra Hitler passando a espada do anti-semintismo a Stálin, uma alusão à perseguição aos judeus na década de 1950. Ele faz uma crítica arrepiante ao culto à personalidade, quando Victor atende um telefonema e é o próprio Stálin do outro lado da linha. Ele fala do colaboracionismo com o exército alemão. Da participação dos ucranianos no holocausto. Mostra o comunista exemplar Krymov ser preso sem saber o motivo, como aconteceu com milhares. Segundo Robert Chandler, o poder de outros escritores dissidentes - Solzhenitsyn, Nadehzda Mandelstam, Pasternak - decorre de suas posições de outsiders. Já o poder de Grossman deriva de seu íntimo conhecimento de cada nível da sociedade soviética. Então, como ele pode acreditar que Vida e Destino passaria?
Em outubro de 1960, contrariando o conselho de seus amigos Semyon Lipkin e Yekaterina Zabolotskaya, Grossman entregou o manuscrito aos editores do Znamya. Era a época do “degelo” de Krushchev e Grossman realmente acreditava que Vida e Destino poderia ser publicada. Em fevereiro de 1961, três funcionários da KGB invadiram o apartamento do escritor para confiscar o manuscrito e materiais correlatos. Até o papel carbono e os tipos da máquina de escrever foram recolhidos. Essa foi uma das ocasiões em que as autoridades soviéticas “prenderam um livro” ao invés de prender uma pessoa. Somente Arquipélago Gulag foi julgado tão perigoso. Grossman se recusou a assinar uma declaração para não revelar a visita da KGB, mas de resto colaborou com os agentes dando o nome do seu primo e de dois datilógrafos que possuíam cópias. Mas a KGB falhou em descobrir que havia duas outras cópias: uma com Semyon Lipkin e outra com Lyolya Dominikina, uma amiga do tempo de estudante, sem relação com o mundo literário.
Muitos julgam ter sido Grossman insanamente ingênuo ao acreditar que seria possível publicar Vida e Destino na União Soviética. Havia, de fato, na época, uma atmosfera de esperança desde que Krushchev denunciou os crimes de Stálin em 1956. Mas Chandler considera que não foi ingenuidade de Grossman: foi simplesmente cansaço de acomodar suas ideias às demandas das autoridades. Ele sabia que poderia ser preso e não contou nem para Lipkin que deixara uma cópia do livro com Dominikina.
Grossman continuou insistindo na publicação. Mikhail Suslov, importante ideólogo do partido comunista nos anos Krushchev e Brehznev, declarou a que obra não seria publicada em duzentos ou trezentos anos.
Temendo a perda do seu trabalho, Grossman entrou em depressão. Lipkin disse: “Grossman envelheceu diante dos nosso olhos. Tornou-se grisalho e calvo. Sua asma retornou.“ Nas palavras dele: “Eles me estrangularam em uma esquina escura.
Ele relacionava a publicação de Vida e Destino à memória de sua mãe. No vigésimo aniversário da morte de Yekaterina, em 1961, ele escreveu uma carta na qual dizia: “Eu sou você, querida mãe, e enquanto eu viver, você viverá também. Quando eu morrer, você continuará vivendo nesse livro, que eu dediquei a você e e cujo destino está ligado ao seu destino”. Com o tempo, ele passou a se referir ao livro como a um ser vivo. Em uma de suas tentativas escreveu em uma carta para Krushchev: ¨Não existe sentido ou verdade na minha situação presente, na minha liberdade física, enquanto o livro ao qual dediquei a minha vida está na prisão. Peço liberdade ao meu livro”.
A liberdade não veio e Grossman, amargurado e desiludido, faleceu em 1964, aos 59 anos. Mas Mikhail Suslov estava enganado: vinte anos depois os russos puderam conhecer esse trabalho extraordinário e corajoso.
Tenho esperança que a excelente Editora Cosac Naify, aproveitando a qualidade dos tradutores brasileiros da língua russa, traga Vida e Destino para os brasileiros. A editora já dispõe de uma catálogo invejável de obras russas, primorosamente traduzidas. Vida e Destino
precisa constar nesse catálogo.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Vida e Destino - o homem


Vasily Grossman nasceu em em 1905 em Berdichev, na Ucrânia, cidade que tinha uma das maiores populações judaicas da Europa Central. Sua família pertencia à elite educada do local e era assimilada. Seus pais se separaram e Grossman chegou a morar entre 1910 e 1912 na Suíça, com sua mãe, Yekatarina Savelievna. Durante a guerra civil, sua família escapou de um grande massacre de judeus na Ucrânia, quando cerca de 150 mil foram assassinados.
Entre 1924 e 1929, estudou Química na Universidade de Moscou. Lá descobriu sua vocação literária, sem, todavia, nunca ter perdido o interesse pela ciência, daí fazer de um físico de seu alter ego em
Vida e Destino. Em 1928, casou-se com Anna Petrovna Matsuk-Galy com quem teve, em 1930, sua única filha Ekaterina. Depois da graduação, trabalhou como inspetor de segurança em uma mina e como professor de Química em um centro médico em Donbasss. Em 1934, publicou Na cidade de Berdichev, um conto, e Glyukauf, uma novela, que chamaram a atenção da crítica. Em 1937, Grossman foi admitido na União de Escritores Soviéticos e seu livro Stephan Kol’chugin foi indicado para o Prêmio Stálin.
Apesar dessas obras serem hoje identificadas com o realismo socialista, não foram consideradas tão ortodoxas na época. Gorki criticava Grossman por apresentar detalhes não palatáveis da realidade e Stálin retirou
Stephan Kol’chugin da lista do prêmio que levava seu nome, por considerar que o personagem principal simpatizava com os mencheviques. Existia um comprometimento de Grossman com a verdade, que em Vida e Destino, ele levou às últimas consequências.
Grossman também teve atitudes incomuns e corajosas, quando do grande terror da década de 1930. Em 1935, já separado de Anna, conheceu Olga Guber, cinco anos mais velha do que ele Em 1937, o ex marido de Olga foi preso e assassinado. No ano seguinte, quando Olga foi presa, ele adotou os dois filhos dela, que, caso contrário, seriam enviados para um campo para filhos de inimigos do povo. Grossman foi mais longe, escrevendo para Yezhov, o chefe do serviço secreto, declarando que Olga era agora sua esposa e nada mais tinha a ver com o ex-marido e deveria ser liberada, como de fato, ocorreu. Nessa ocasião, Grossman chegou a ser interrogado na sinistra prisão Lubianka, experiência vivida por Krymov em
Vida e Destino.
Grossman sempre teve interesse pelo exército. Com o início da guerra, se alistou como soldado comum, mas acabou servindo como correspondente do jornal
Krasnaya Zvesda. Ele cobriu batalhas importantes da defesa de Moscou à queda de Berlim. Seus artigos agradavam tanto soldados quanto oficiais.
Começou escrever seu cadernos de notas em agosto de 1941. E algumas das passagens desses cadernos, poderiam ter lhe custado a vida. Aparecem críticas a importantes comandantes e temas tabu como deserção e colaboração com os alemães, todas questões que aprecem em
Vida e Destino.
Ele conversou com um número enorme de pessoas. Tinha uma memória extraordinária, o que permitia que conversasse sem tomar notas, ganhando facilmente a confiança do ouvinte. Generais, franco-atiradores, pilotos de avião, soldados do batalhão penal, prisioneiros alemães, civis, todos conversavam com Grossman. Ortenberg, o editor chefe de
Krasnaya Zvesda, escreveu: “todos os correspondentes ligados ao front de Stalingrado ficaram impressionados como Grossman fez o comandante de divisão (...), um calado e reservado siberiano, conversar com ele por seis horas, (...), contando tudo o que ele queria saber, em um dos piores momentos”. Em uma ocasião, Grossman acompanhou o famoso franco-atirador Chekhov ao seu posto e o entrevistou enquanto ele matava alemães.
A morte da mãe em um massacre de judeus perpetrado pelos nazistas em Berdichev foi uma dor que Grossman carregou por toda a vida. Ele culpava a esposa, Olga Mikhailovna, que pouco antes da guerra não concordou em receber a sogra em Moscou. O episódio aparece retratado em
Vida e Destino com respeito ao alter ego de Grossman, o físico nuclear Victor Shturm. Uma das mais tocantes passagens do livro é a carta escrita por Anna Semyonovna, mãe de Victor, ao filho, do gueto, onde estava presa. Após a morte de Grossman, foi encontrado um envelope entre seus pertences com duas cartas para a mãe, uma escrita em 1950 e a outra em 1961, e duas fotos. A primeira foto mostrava Yeakaterina com Vasily ainda criança. A outra era uma foto tomada de um oficial nazista, com uma pilha de corpos de mulheres e meninas.
Em janeiro de 1943, pouco antes da queda de Stalingrado, Grossman foi substituído por Konstantin Simonov, o autor do famoso poema “Espere por mim”. Ele sentiu-se traído tendo de deixar a cidade naquele momento
Após, Grossman acompanhou o Exército Vermelho na libertação da Ucrânia, onde tomou conhecimento dos massacres dos judeus, bem como dos últimos dias de sua mãe. O conto
O Velho Professor o o artigo A Ucrânia sem judeus estão entre as primeiras manifestações escritas sobre holocausto. E o artigo O inferno de Treblinka escrito no final de 1944, foi o primeiro artigo escrito sobre os campos de concentração e foi utilizado como prova em Nuremberg.
O escritor descobriu algo incômodo para o regime stalinista: a recepção calorosa dos ucranianos ao exército nazista e sua ativa participação no massacre dos judeus. Isso tinha íntima relação com a terrível fome que assolou a região com as coletivizações da década de 1930. O governo espalhou na época boatos de que os judeus seriam responsáveis pela falta de comida.
Grossman foi o primeiro jornalista a documentar o início - os massacres na Ucrânia - e o fim - os campos de extermínio na Polônia - do holocausto. Em Treblinka, os alemães tentaram destruir os indícios da existência do campo. Grossman entrevistou camponeses e os quarenta sobreviventes, tentando reconstituir o funcionamento do campo. Ele estava se arriscando, uma que vez a política stalinista recomendava que se divulgasse que “todas as nacionalidades sofreram igualmente sob o nazismo”. Admitir que os judeus foram a maioria das vítimas, significava admitir a cumplicidade de alguns grupos, especialmente dos ucranianos, com os nazistas.
Entre 1943 e 1946, Grossman trabalhou com Ilya Eherenburg para o Comitê judaico anti-fascista no
Livro Negro, um documento a respeito dos massacres de judeus na União Soviética e na Polônia. Esse livro somente foi publicado em Israel em 1980.
Para Grossman se tratava de uma dívida sentimental. Ele não se identificava como judeu até que sua mãe morreu por ser judia. Estudar e divulgar o holocausto era uma forma de se reconciliar com as suas origens.
O movimento de Grossman em direção à dissidência foi gradual. Durante a guerra se mostrou totalmente destemido em relação à polícia política. Mas em 1952, na época da perseguição aos judeus, ele assinou uma carta que pedia punição aos médicos judeus supostamente envolvidos em um complô contra a vida de Stálin. A incoerência do escritor pode parecer surpreendente, mas fica muito mais clara nas páginas de
Vida e Destino, quando Victor assina uma carta desse tipo. Na década de 1950, Grossman teve algum sucesso de público. Foi condecorado com a Cruz Vermelha do Trabalho e conseguiu publicar Por uma causa. Nessa época estava escrevendo suas duas maiores obras, Tudo flui e Vida e Destino. Ambas foram publicadas na Rússia somente na década de 1980.
Grossman tentou publicar
Vida e Destino na década de 1960. A possibilidade de perder seu trabalho, levou-o à depressão. Mesmo assim não parou de trabalhar. Ele escreveu A Paz esteja contigo, um relato de uma viagem à Armênia. E dedicou-se a completar Tudo flui, um trabalho ainda mais crítico do que Vida e Destino. Parte ficção, parte reflexão, inclui um estudo sobre os campos, páginas eloquentes sobre a fome do início da década de 1930, um ataque a Lênin e uma reflexão sobre “a alma escrava” dos russos que ainda enfurece os nacionalistas.
Vassily Grossman, que nessa época, estava sofrendo de câncer do estômago, faleceu em 14 de setembro 1964, ao 59 anos, sem saber se seu maior trabalho seria um dia conhecido pelo público.

A maior parte das informações foram retiradas do prefácio de Life and Fate escrito por Robert Chandler. Os títulos dos livros foram traduzidos para o português por mim.

sábado, 4 de junho de 2011

Vida e Destino - o livro


Life and Fate. Vasily Grossman. New York: New York Review Books classics, 2006. Tradução de Robert Chandler.

O nome de Vasily Grossman foi um dos tantos nomes de escritores soviéticos que figuravam no livro Sussurros, por mim aqui resenhado. Mas somente me chamou atenção quando li um belíssimo texto de sua autoria na edição número 51 da revista Piauí denominado A Madona Sisitina. Nesse texto ele conta sua ida até o Museu Púchkin, em Moscou, para ver a Madona Sistina de Rafael. Era um dos quadros que fora trazido pelos russos de Dresden após a vitória aliada e que, dez anos após, retornaria à Alemanha. Antes da repatriação, porém, ficaria exposto três meses em Moscou. A pequena biografia apresentada pela revista dizia que Grossman havia escrito Vida e Destino, considerado por alguns o maior romance russo do século XX.
Como havia ganhado um Kindle de Natal, providenciei o livro, ávida por saborear as quase novecentas páginas.
Li o livro em dois meses. O inglês não é difícil e com o recurso do dicionário do Kindle fica fácil consultar as palavras desconhecidas que, afinal, se repetem. A maior dificuldade é o número enorme de personagens, todos com complicados nomes russos. No final do livro há uma divisão por núcleos de personagens que ajuda bastante.
Vida e Destino é um épico intimista. Vassily Grossman pretendeu retratar toda uma era. Cada personagem representa um grupo ou classe e seu destino exemplifica o destino daquele grupo ou classe. Victor Shtrum, o intelectual judeu, alter ego de Grossman; Getmanov, o cínico funcionário stalinista; Abarchuk e Krymov, dois velhos bolcheviques presos na década de 1930; Novikov, o oficial talentoso, cujas habilidades só foram reconhecidas depois dos desastres de 1941. Todavia, não foram tipos que Grossman construiu. São personagens complexos, cheios de contradições e humanidade. São enredos que apresentam um sutil entendimento das escolhas morais, da culpa, da duplicidade do ser humano. De acordo com Robert Chandler, essas características aproximam Grossman de um escritor que trabalhou em escala bem diversa: Anton Tchekov.
Ao final da leitura de Vida e Destino temos um painel de importância tanto literária como histórica da Rússia stalinista, a exemplo do que fez Liev Tolstói em Guerra e Paz. Mas cada um dos capítulos isolados funciona como um conto de Tchekov. Episódios como o da médica judia que deixa de salvar sua vida para ficar até a morte na câmara de gás com o menino abandonado; da mulher que, apesar de apaixonada pelo namorado com que poderá ter um futuro promissor, escolhe ficar com o ex-marido, um bolchevique que está preso na sinistra Lubianka; do jovem soldado soviético que entra em uma cratera para salvar-se de um bombardeio e lá dá a mão a um camarada e após vem a descobrir que o companheiro era um jovem soldado alemão; do motorista do Exército Vermelho, entusiasta das coletivizações da década de 1930, que é abandonado para morrer pelos alemães e é salvo por um velha camponesa ucraniana que é a única sobrevivente de um família da fome causada pela coletivização, têm um acento tão tchekoviano que traem a preferência literária de Grossmann : seus escritores favoritos eram Tolstói e Tchekov.
A estrutura de Vida e Destino é similar à de Guerra e Paz: a vida de uma país inteiro é evocada através de membros de uma única família e enredos secundários.
Aleksandra Vladimirovna Shaposhnikovna é uma idosa ligada à intelligentsia pré-revolucionária. Seus filhos e suas famílias são as figuras centrais da história.
Lyudmila, a filha mais velha de Aleksandra, é esposa do físico Victor Shtrum. Eles são pais da jovem Nadya. Victor tem um cargo importante em um instituto de Física em Moscou. No início do romance, o instituto havia sido transferido para Kazan por causa dos ataques alemães. Victor e Lyudmilla (Lyuba) estão em crise. O motivo principal foi a negativa da Lyuba em receber em Moscou a mãe de Victor, Anna Semyonovna, que estava na Ucrânia. Houve um grande massacre de judeus pelos alemães na região e Anna foi assassinada. Victor se sente culpado e culpa Lyuba pela morte da mãe. A carta de Anna, escrita do gueto para Victor, é uma das mais belas passagens do romance.
Em Kazan, Victor e seus colegas desfrutam de um certo clima de liberdade em função da guerra. Reúnem-se na casa de Pyotr Solokov com o historiador Madyrov, cunhado de Solokov, e com Karimov. Há discussões sobre política e, mais tarde, em Moscou, Victor se arrependerá dessas conversas. Ele começa a envolver-se emocionalmente com Marya Solokova, a esposa do colega.
O ex-marido de Lyuba, Abarchuk, é um bolchevique da época da revolução que fora preso na década de 1930. Está em um campo de trabalho. Com Abarchuk, Lyuba teve Anatoly, Tolya, um soldado que está no front. Lyuba recebe a notícia de que o filho foi ferido. Ela viaja para visitá-lo e, ao chegar ao hospital, é informada que que o rapaz já falecera. A dor pela morte do filho afasta ainda mais Lyuba de Victor.
A filha mais nova de Aleksandra, Yevgenia, Zhenya, é um bela mulher, artista plástica, dividida entre um amor por um homem e a fidelidade em relação ao outro. Ela está separada de Krymov, um comissário do Exército Vermelho, bolchevique de primeira hora e está apaixonada por Novikov, um talentoso oficial. No início da narrativa ela está morando em Kuibyshev, onde divide um quarto com Jenny Gerinkhovna, uma antiga governanta da casa dos Shaposhnikov, de origem alemã. Lá ela luta para obter um visto de permanência, que é negado sem justificativa pelo burocrata Grishin. Jenny termina sendo presa. Também convive com o princípe Valdimir Shargorodski, que esteve exilado entre 1926 e 1933 e retornou à Rússia espontaneamente e com Limonov, um literato de Moscou. No final, Zhenya é informada de que Krymov fora preso em Stalingrado e encontra-se na prisão Lubianka. Novikov a amava há muito, desde antes de seu casamento com Krymov. Mas ela julga que não pode abandonar o ex-marido, ao mesmo tempo que teme que confidências feitas a Novikov tenham motivado a prisão de Krymov.
Aleksandra tinha ainda outra filha, Marusya, que morreu afogada no Volga durante a evacuação de Stalingrado. O viúvo de Marusya, Spiridinov, é diretor de estação de força de Stalingrado e permanceu na cidade com a filha Vera. Vera se recusa a deixar o pai e aguarda o retorno do namorado, Viktorov, piloto de avião, de quem espera um filho. O bebê nasce e Spiridinov se ausenta de seu posto por um dia para ver a filha. Por isso, é chamado a depor pelas autoridades. Vera espera sem saber que o avião de seu amado caiu e ele faleceu.
Há ainda um filho de Aleksandra, Dmitry, que fora preso no final dos anos 1930. Ele tem um filho, Seryozha, que está lutando em Stalingrado. Seryozha acaba na Casa 6 ½, uma posição russa isolada pelos alemães na cidade. Quem comanda a casa é Grekov, uma espécie de anarquista. Na casa está também Katya Vengrova, uma operadora de rádio. Ela e Seryozha se apaixonam, o que é problemático, pois Grekov está interessado na moça. No final, ele dispensa o casal. O partido comunista envia Krymov, por um túnel secreto, para a casa. Lá o comissário fica chocado com a falta de disciplina e as ideias de Grekov. Durante a noite, Krymov é atingido por um golpe, presumidamente desferido por Grekov. O comissário é enviado para o hospital. A casa é bombardeada. Somente os soldados Polyakov e Klimov conseguem escapar pelo túnel. Durante o bombardeio, Klimov segura a mão de um soldado alemão julgando que é a de um companheiro russo. Provavelmente, é pelo ocorrido na casa que Krymov é preso e enviado à Lubianka.
Há um núcleo em um campo de concentração alemão. No campo, há vários oficiais soviéticos presos. Lá estão também Mikhail Mostovskoy, um velho bolchevique; Gardi, um padre italiano; Ikonnikov-Morzh, um tolstoiano, considerado insano; Chernetsov, um antigo menchevique. Mostovskoy e Chernetsov discutem o tempo todo questões da época da revolução. Ikonnikov-Morzh termina se suicidando para não ter de participar do extermínio de judeus. E, ao final, o SS Liss, comandante do campo, chama Mostovskoy para uma conversa na qual tenta demonstrar que ambos, apesar de em campos diferentes, têm posicionamentos políticos iguais. Um grupo começa organizar um levante contra os alemães.
Há outro núcleo no campo de trabalho russo, onde está Abarchuk, ex-marido de Lyuba. Além dos presos políticos, existem no campo criminosos comuns. São esses que mandam no local, pois ameaçam os presos políticos para que trabalhem ou façam tarefas por eles. Lá estão Nyeumolinov, um comandante da cavalaria durante a Guerra Civil; Monidze, ex membro da Juventude Comunista Internacional; Magar, um velho bolchevique, professor de Abarchuk; Stepanov, professor de economia.
Há o nucleo de Novikov e seu corpo de tanques. Aqui os personagens principais são o próprio Pyotr Novikov e o comissário Dementiy Getmanov, um funcionário cínico e oportunista.
Os dois núcleos que têm personagens reais são o alto comando do Exército Vermelho em Stalingrado e o o alto comando alemão na cidade. Lá estão Yeremenko, Zakharov, Chuykov, Krilov, Gurov, Pozharsky, Batyuk, Guryev e Rodimsev, todos reais. E do lado alemão, Friedrich Paulus, Schmidt e Adam.
Há ainda outros núcleos. Um grupo de judeus viajando de trem para um campo de extermínio onde está a médica Sofya Levinton, amiga de Zhenya. Um grupo de militares na estepe de Kalmyk. O grupo de pilotos ao qual pertence Viktorov, namorado de Vera. O círculo de amigos do comissário Getmanov.
Em Vida e Destino, Vasily Grossman utilizou tanto experiências pessoais, quanto os inúmeros relatos que ele colheu como repórter junto ao Exército Vermelho por quase quatro anos da Guerra. O episódio da mãe de Victor e do conflito com a esposa é autobiográfico. Yekatarina Savelievna, mãe de Grossman, morreu em um massacre de judeus em Berdichev, na Ucrânia em 1941. Ele culpava a esposa, Olga Mikhailovna, que pouco antes da guerra não concordou com a ida da sogra para Moscou, pois haveria pouco espaço no apartamento. O envolvimento com a esposa de um colega também é autobiográfico. Os conflitos morais de Victor são os mesmos vivenciados por Grossman como intelectual orgânico do stalinismo: assinar ou não uma carta que condenava um inocente? Assinar e sentir a consciência pesada ou não assinar e enfrentar o medo da prisão noturna? Ora a coragem, ora a covardia; ora a ousadia, ora o medo. As passagens referentes a Victor Shtrum são um verdadeiro tratado de psicologia sobre a vida em um estado totalitário e policial. São de Grossman também as lembranças do menino David, que viaja em um comboio para o campo de concentração, e a data do seu aniversário, 12 de dezembro. O personagem Novikov foi inspirado por Babadzhanyan, comandante de tanques que tornou-se marechal. O chefe de Victor, Chepyzin, que foi afastado, foi baseado no cientista Piotr Kapitsa, que se recusou a trabalhar no desenvolvimento da bomba atômica.
Não há nada extravagante em Vida e Destino, nem do ponto de vista estilístico, nem estrutural. Mas os questionamentos de Grossman e sua prática de mostrar a identidade entre comunismo e fascismo fazem de Vida e Destino uma obra extraordinária para a época em que foi escrita. Deve-se ter em conta que, nesse período, nem no Ocidente era feita essa identificação.
Vida e Destino foi escrito no final da década de 1950 e foi publicado na Rússia somente nos anos 1980.