sexta-feira, 29 de maio de 2020

Facino Cane

Facino Cane (março de 1836)

Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense

Personagens: narrador (estudante, Balzac?), Facino Cane (Marco Facino Cane, Príncipe de Varese)

Em  17 de março de 1836, a revista Chronique de Paris publicou o conto, que, de acordo com a narrativa de Balzac à Eveline Hanska, ele escreveu em uma noite. Que noite para a história da literatura! Facino Cane traz, em onze folhas, o melhor de Balzac. É quase uma síntese de sua obra.
É a história de um jovem, que pode ser o escritor, que vive modestamente e cujo o passatempo é observar a vida dos outros, especialmente dos membros das classes populares de Paris.
"Deixar seus hábitos, tornar-se um outro pela embriaguez das faculdades morais e fazer esse brinquedo à vontade, tal era o meu divertimento. A que devo eu esse dom? Será o da vidência? Será uma dessas qualidades cujo abuso pode levar à loucura? Nunca pesquisei as causas desse poder; possuo-o, e dele me sirvo, eis tudo".
Em uma ocasião, ele aceita o convite da sua criada para comparecer ao casamento de uma de suas irmãs, festa popular na casa de um negociante de vinhos. Lá chamou a sua atenção, um componente de uma orquestra com três cegos do asilo Quinze-Vingts (criado por São Luís em 1260, seu nome refere-se aos 300 leitos, 15 X 20, no sistema vigesimal. Em 1779, foi transferido para a rue de Charenton, onde ocorre a festa relatada pelo narrador, e onde se localiza até hoje).
"(...) quando me aproximei, não sei por quê, todo o resto acabou para mim, o casamento e sua música desapareceram, minha curiosidade se viu excitada ao mais alto grau: minha alma penetrou no corpo do tocador de clarinete."
O narrador comparou-o a Dante, adivinhando sua nacionalidade:
"(...) era um italiano. Havia algo de grande e despótico nesse velho Homero, que guardava em si mesmo uma odisseia condenada ao olvido". Não resistindo ao interesse, foi conversar com o velho. Descobriu que ele tinha 82 anos, era veneziano e seu nome era Marco Facino Cane, Príncipe de Varese. Era descendente de um condottiere homônimo, figura histórica, que viveu entre 1360 e 1412. O jovem foi convidado pelo ancião a acompanhá-lo. Ao saírem da festa, a proposta:
"Quer levar-me a Veneza, guiar-me, ter fé em mim? Ficará mais rico do que as dez mais ricas casas de Amsterdam ou de Londres, mais rico que os Rotschild, enfim, rico como As Mil e Uma Noites".
A história narrada pelo clarinetista era das mais fantasiosas e improváveis. Era rico e poderoso em sua juventude,  e apaixonou-se perdidamente, "como não se ama mais", por uma mulher casada. Por isso, envolveu-se em uma disputa e foi preso. Planejou uma fuga e, através dos muros da prisão, encontrou o tesouro da república de Veneza, milhões em ouro, prata e pedras preciosas. Conseguiu levar uma pequena parte e emplacou mais um capítulo de aventuras. Morou em várias cidades da Europa e acabou perdendo sua fortuna para outra mulher, de família poderosa, com quem pretendia se casar. Perdeu a visão, em função talvez dos anos no cárcere. Terminou pobre e cego no asilo de Quinze-Vignts. Mas, lembrava exatamente como chegar ao local do tesouro. E convidava nosso narrador a levá-lo a Veneza para dele se apoderarem e enriquecerem. O jovem, tocado pela história e pela emoção da narrativa, concordou. "Iremos a Veneza. (...). Assim que tivermos algum dinheiro". O conto termina com a notícia da morte de Facino Cane no inverno seguinte em Quinze-Vignts.
O texto permite uma série de reflexões, especialmente para quem já leu outros textos de Balzac. Vou me fixar em duas questões: quem é o narrador e as duas narrativas em uma em Facino Cane.
Paulo Rónai, no texto de introdução ao conto, afirma que, em Facino Cane, "o eu é verdadeiro e refere-se ao próprio escritor". Balzac, de fato, morou na rue Lesdiguières, como o narrador, quando, aos vinte anos, fez uma espécie de "estágio probatório" para a vida de escritor a pedido da família. Também Balzac teve uma criada, a mãe Vaillant, nessa época, que aparece na história. Foi ela que convidou o narrador para o casamento. Mas principalmente, é o talento de observador dos homens, de historiador de costumes, que o narrador descreve nas primeiras páginas, quando diz que penetrava na existência das pessoas como um dervixe de As Mil e Uma Noites.
Não creio, porém, que o narrador seja, de fato, Balzac. No início do conto, ele diz que "o amor da ciência atirara-me numa mansarda onde eu trabalhava durante a noite, e passava o dia numa biblioteca vizinha, a de Monsieur". É, portanto, um estudante de ciências, não um escritor. Não creio que isso tenha grande importância, mas é a primeira vez que não concordo com Paulo Rónai, conhecedor enciclopédico da Comédia Humana.
Há claramente duas narrativas em Facino Cane: a do narrador e a de Facino Cane. O narrador, sendo ou não Balzac, é nosso conhecido historiador dos costumes que acompanha a vida comezinha do casal de proletários, que sai do teatro, em sua batalha diária pela sobrevivência. O ancião cego chama a sua atenção justamente por ser diferente dos indivíduos populares que o cercavam. Balzac o compara a Dante e Homero. E sua [de Facino Cane] fantástica e inverossímil narrativa é totalmente destoante do que faz Balzac de melhor na Comédia Humana, construir personagens nada extraordinários e captar a vida real. Facino Cane é extraordinário e sua vida não se parece nada real. Talvez seja louco, como insinuam seus colegas de orquestra, quando o chamam de pai Canard, ou um mentiroso.
Embora Balzac julgasse ter um estilo eclético, é considerado um autor realista. Elementos românticos e fantásticos aparecem em sua obra, veja-se Ferragus, A menina dos olhos de ouro, e o personagem Vautrin, por exemplo. Mas o que temos em Facino Cane é um duelo de narrativas, uma balzaquiana ou realista, outra fantástica, romântica. E o autor deixa o leitor curioso para saber qual das duas irá predominar. Quando o trecho final nos revela a morte do velho, é impossível não ter uma sensação de perda. Somos jogados de volta à realidade. Ao frustrar a nossa expectativa, Balzac nos faz antes sentir do que entender por que a literatura é importante. A janela que se abre quando começamos a ler uma história é abruptamente fechada aqui. É o final esperado para o leitor de Balzac. Uma absurda caça ao tesouro faria de Facino Cane uma obra menor. Sua possibilidade, contudo, confirma nossa necessidade de ficção.
Sobre Balzac e caça ao tesouro falarei em outro post.

A imagem é uma ilustração de 1911 que mostra o condottiere Facino Cane, em 1409, convencendo os nobres genoveses a resistirem à dominação francesa durante as guerras italianas.  Esse ilustração é da coleção de figurinhas adesivas da marca Liebig, que produzia extrato de carne. Eram temáticas, colecionáveis e foram produzidas em vários países entre 1872 e 1975. 






segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Os segredos da Princesa de Cadignan

Os segredos da Princesa de Cadignan (junho de 1833- maio de 1839)


Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense


Personagens principais: Princesa de Cadignan ( Diana de Mafrigneuse, Uxelles), Marquesa d´Espard, Toby, Marquesa de Cinc-Cygne, De Marsay, Miguel Chrestien, Daniel D´Arthez, Emílio Blondet, sra. de Montcornet, Rastignac, Marquês d´Estrignon, Máximo de Trailles, barão de Nuncingen, Blondet, Nathan. 

A história inicia em 1829. 


A novela conta a conquista pela experiente Diana de Mafrigneuse, a Princesa de Cadignan do título, do ingênuo e circunspecto escritor Daniel D´Arthez. A bela Diana, que já fora amante de parte considerável do elenco masculino da Comédia Humana, encontrava-se, após a Revolução de Julho, em Paris, com seu filho já adulto enquanto seu marido acompanhara a família real no exílio. 
Diana "ao ver chegar a terrível falência do amor, essa idade dos quarenta anos, para além da qual tão pouca coisa resta à mulher, a princesa lançara-se no reino da filosofia (...) A literatura e a política são hoje para as mulheres o que outrora era a devoção, o último asilo de suas pretensões". 
Mas em maio de 1833, em uma conversa com sua amiga-rival, a sra. d´Espard, Diana fala sobre um rapaz que foi por ela apaixonado e morreu nas revoltas de junho de 1832, Miguel Chrestien. A sra. d´Espard comentou que conhecia um grande amigo de Miguel e que o apresentaria à princesa: era o conhecido escritor Daniel D´Arthez. 
Assim começou a convivência que resultou no romance. Para justificar sua vida dissoluta ao honesto Daniel (lembremos que  Daniel D´Arthez é uma das "encarnações positivas" do próprio Balzac, o modelo de escritor que Balzac gostaria de ser), Diana contou como, quando ainda era uma menina, foi dada em casamento ao Duque de Mafrigneuse, muito mais velho, que era amante de sua mãe. E que seus erros se justificavam por esse fato, um tanto sórdido, mas não tão incomum no mundo da nobreza da época. Tudo indica que ela mentia, mas mentia por amá-lo. E o desfecho sugere que Daniel sabia da verdade. E ainda assim, quis ficar com ela. 
Paulo Rónai, na introdução, cita Anne-Marie Meininger que afirmou que a história se baseou na história da amor da Condessa Cordélia de Castellane com o Conde de Molé. 
Não é, nem de longe, o melhor da Comédia Humana. Mas é impossível parar de ler para conhecer o desfecho. 

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Esplendores e Misérias das Cortesãs

Esplendores e Misérias das Cortesãs (1838-1847)

Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense (lido entre dezembro de 2017 e 14 de junho de 2020).

Personagens principais: Luciano Chardon de Rubempré, Ester van Gobsek (Torpedo), Carlos Herrera (Jacques Collin, Vautrin, Engana-Morte), Europa (Eugênia, Prudência Servien), Ásia (Sra. Saint-Estève, Jacqueline Collin), Paccard, Diana de Maufrigneuse (duquesa), Leontina de Sérisy (condessa) marquesa d´Espard, Clotilde de Grandlieu, barão de Nuncingen, Peyrade (tio Canquoelle, Samuel Jonhson), Contenson, Corentin, juiz Camusot, Amélia Camusot (esposa do juiz), Susana du Val-Noble, Eva Séchard (irmã de Luciano), Bibi-Lupin, Conde Granville (procurador geral), Teodoro Calvi (Madalena), La Pouraille (Dannepont), Riganson (Biffon).

A história inicia em 1824 e termina em 1830.

Optei, dessa vez, por elencar os personagens principais, uma vez que figuram nesse romance quase todos os personagens da Comédia Humana. É um dos textos mais longos de Balzac e aqui nos surpreendemos mais uma vez com a capacidade do escritor para trabalhar com tantos personagens e alusões a outras histórias (algumas incrivelmente escritas após).
Esplendores conta com quatro partes escritas e publicadas em épocas diferentes: Como Amam as Cortesãs, Por Quanto o Amor Fica aos Velhos, Aonde os Maus Caminhos Vão Dar e A Última Encarnação de Vautrin. Elas foram publicadas juntas somente em 1869, depois da morte do escritor.
Ajuda ao leitor saber que Esplendores é a continuação de Ilusões Perdidas que, por sua vez, é a continuação de O Pai Goriot.
A história começa com o romance entre a prostituta Ester e Luciano de Rubempré sob a vigilância do padre Carlos Herrera. O padre, enviado do rei da Espanha, tomou Luciano sob sua proteção no final de Ilusões Perdidas. Herrera pretendia fazer de Luciano um grande homem, obtendo para ele um bom casamento. Para isso era preciso de um nome, obtido com a recuperação do "de Rubempré" da família da mãe do jovem com a intercessão do rei. E era preciso uma propriedade no campo. O padre via o relacionamento de Luciano com Ester como uma ameaça ao futuro do rapaz. Ao invés de proibir, ele controlou o romance. Escondeu Ester, de modo que os encontros fossem secretos, enquanto Luciano fazia seu nome junto à grande sociedade. O idílio durou quatro anos. Em 1829, Luciano tinha um bom casamento a vista, com Clotilde de Grandlieu, segunda filha do duque de Grandlieu. Ao mesmo tempo, era amante da condessa de Sérisy. A compra das terras era premente. Quando o barão de Nuncingen viu em um parque, durante a noite, Ester e por ela ficou obcecado, Herrera viu a chance de obter os milhões necessários ao casamento de Luciano. Nuncingen "comprou" Ester através de uma série de tramoias desenvolvidas pelo padre e seus ajudantes, Prudência Servien, Paccard e Jacqueline Collin. Tudo estava encaminhado para o desfecho positivo. Mas Ester, após se entregar ao barão, se suicidou. Nesse meio tempo, Peyrade, Contenson e Corentin, agentes da polícia política, investigavam a vida de Luciano e suas relações com o misterioso padre. Com o suicídio da cortesã, Luciano e o padre Herrera foram presos. Luciano, mantido sem comunicação, confessou sua ligação com o sacerdote e revelou que ele era na verdade o evadido das galés, Jacques Collin, morador da pensão Vauquer em O Pai Goriot sob o nome de Vautrin. A ex e atual amante do jovem, Diana de Maufrigneuse e Leontina de Sérisy, tentaram salvá-lo. Mas Luciano se suicidou na prisão.
Na última parte encontramos Jacques Collin, devastado pela perda de Luciano, tentando dar novo rumo à sua vida. Através de uma série de manobras ele conseguiu salvar da forca um antigo protegido, o jovem Teodoro Calvi, também fugido das galés. E finalmente se tornou agente da polícia política, função que exerceu por quinze anos até se aposentar por volta de 1845.
O resumo é confuso, porque a história é confusa. São, na verdade, quatro histórias diferentes que estão interligadas. Como bem aponta Paulo Rónai: "os dois ambientes principais do livro, o da prostituição e o dos galés, comunicam-se por meio de canais secretos, cujos mistérios Balzac revela, com os meios da alta finança e da aristocracia, ideia esta que o romancista já aproveitou em outros romances, mas do qual tira aqui o melhor partido". Aqui percebemos a coesão do mundo criado por Balzac, um mundo no qual o dinheiro faz as distâncias entre o Faubourg Saint Germain e a Conciergerie mais aparentes que reais.
O ponto fraco de Esplendores é a fraca verossimilhança de certas passagens. O envio de Ester para uma escola de moças e sua transformação, seu relacionamento secreto com Luciano em Paris por quatro anos, as absurdas tramas de Jacques Collin com suas comparsas que sempre dão certo, a facilidade com que um espertalhão como Nuncingen foi enganado, tudo isso compromete a história. Mesmo assim o ritmo é "vertiginoso e avassalador". Mesmo que partes da história sejam pouco críveis, não conseguimos parar de ler.
Os dois grandes personagens do livro são Luciano e Jacques Collin. A morte de Luciano é chocante e recebida com pesar pelo leitor da Balzac. Em passagem conhecida, Oscar Wilde declarou que "umas das maiores tragédias da minha vida é a morte de Luciano de Rubempré. É uma mágoa da qual nunca pude me livrar completamente". O Luciano que aqui aparece é diferente do de Ilusões Perdidas. Aqui Balzac utiliza sua "invenção", o reaparecimento das personagens em diferentes romances, para dar nuances às suas personalidades. (Marcel Proust, admirador de Balzac, faz o mesmo em Em Busca do Tempo Perdido). O jovem que, inspirado por Napoleão, desejava conquistar Paris com a sua literatura (ainda que com dramas de consciência) em Ilusões, aqui aparece como o equivalente masculino da cortesã, sustentado por mulheres em função da sua beleza física. 
Jacques Collin, como já mencionado, teve sua inspiração em François-Eugène Vidcoq (1775-1857), evadido das galés que trabalhou para a polícia. As passagens que o envolvem são as mais inverossímeis. Mesmo assim, é um grande personagem. Sua astúcia e sua força física são humanizadas pelo amor que nutre por Luciano. Colllin, sabendo que não seria possível viver em sociedade, transformou Luciano em seu projeto de vida, dedicando o seu dinheiro (roubado dos galés, a quem ele servia como uma espécie de banqueiro) e seus talentos para ver o rapaz vencer na vida. Mas, ainda que arrasado pelo suicídio do seu "filho", Collin logo articulou uma outra encarnação, "a última encarnação de Vautrin". 
Muito se discute sobre a homossexualidade de Jacques Collin. Ao longo da Comédia ele tem ligação com três jovens, todos fisicamente atraentes: Luciano, Eugênio de Rastignac e Teodoro Calvi. E atribui parte de sua força moral à indiferença às mulheres. Quando foi à casa da condessa de Sérisy com a carta de Luciano para retirá-la da loucura que a morte do amante causara e viu o conde "escapar um gesto de alegria" (mesmo com a consciência de que era traído pela condessa com Luciano) ele pensou:
"Aí estão, pois, esses homens que decidem dos nossos destinos e dos destinos dos povos! (...) Basta o suspiro de uma fêmea para lhes virar a inteligência do avesso. Por um olhar perdem a cabeça! Por causa de uma saia mais arregaçada ou menos arregaçada percorrem Paris desesperados! As fantasias de uma mulher reagem sobre todos os negócios de Estado! Ah! Que força adquire um homem quando se subtrai, como eu, a esta tirania infantil, a estas probidades derrubadas pela paixão, a essas maldades cheias de candura, a estes estratagemas de selvagem! A mulher com o seu gênio de algoz, com o seu talento para a tortura, é e será sempre a desgraça do homem. Procurador-Geral, ministro, ei-los todos obcecados, torcendo tudo por cartas de duquesa ou de menina solteira, ou por causa de uma mulher que será mais maluca com o seu juízo do que o era sem ele". 
Encontrei alguns estudos com discussões bizantinas a respeito de ter ou não sido a relação de Collin com Luciano consumada. Discussão sem sentido, uma vez que o caráter da relação, platônica ou não, não modifica em nada o amor e devoção do bandido pelo jovem . Balzac era delicado ao tratar do tema, veja-se A menina dos olhos de ouro. Aqui não seria diferente. 
Para terminar, algo que me chamou muito a atenção. O conhecimento de Balzac do interior da Conciergerie, prisão na época da Comédia e palácio real entre os séculos X e XIV. Para descrever todos os corredores, as passagens secretas, as entradas e saídas, o pátio, as vistas das janelas, o material do qual eram feitas as grades das janelas (!), ele dever ter ido lá muitas vezes. E não só isso. Ele descreve o palácio real, ou seja, como era a Conciergerie antes de ser uma prisão. Da próxima vez que for a Paris (que seja logo!), vou levar comigo essa descrição. 



quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A Casa Nuncingen

A Casa Nuncingen (escrito em novembro de 1837)

Personagens: Androche Finot, Emílio Blondet, Couture, Bixiou Rastignac, Nuncingen, Delfina, o narrador, a acompanhante do narrador. 

A história se passa em 1836. 

A Casa Nuncingen é uma novela curta na qual Balzac utiliza um artifício um pouco inverossímil, mas interessante. O narrador, acompanhado por uma dama, ocupa um espaço reservado em um restaurante de Paris, de onde escuta, sem ser notado, a conversa de quatro amigos que jantam no espaço ao lado. Os faladores são Androche Finot, Emílio Blondet, Couture e Bixiou. O tema da conversa eram as fortunas de Rastignac e Nuncingen. 
Descobrimos aqui o enorme conhecimento que Balzac possuía da especulação financeira. Nuncigen, na verdade, enriquecera através de manobras especulativas nas bolsas de valores. Não hesitava em arruinar famílias. E Eugênio de Rastignac, que conhecemos pobre em O Pai Goriot, enriqueceu ajudando e tomando informações para Nuncigen. Com o detalhe de que Rastignac era amante de Delfina, esposa de Nuncigen e née Goriot. 
Segundo Paulo Rónai, Nuncigen era, na verdade, o alter ego do Barão James Rotschild. 
Eu, particularmente, achei a novela um pouco enfadonha. O estilo, que Rónai caracteriza como "nervoso", deixou, na verdade, a narrativa um tanto confusa. 


terça-feira, 1 de setembro de 2015

Émilie, Émilie - a ambição feminina no século XVIII

Émilie, Émilie: a ambição feminina no século XVIII. Elisabeth Badinter. São Paulo: Discurso Editorial, Duna Dueto, Paz e Terra, 2003. 

O que tantos livros sobre mulheres fazem na minha cabeceira, na minha bolsa, no meu leitor Kobo? Quando estava na graduação em História tinha uma certa rejeição por história das mulheres. Não queria fazer parte de uma história categorizada, separada do resto. Ingenuidade da juventude. Era como se diluir a história das mulheres na história da humanidade fosse garantir a igualdade de direitos entre mulheres e homens. Era como acreditar na concretude do caput do artigo 5º da Constituição brasileira. 
Minha busca por conhecer mais sobre a história das mulheres é totalmente pessoal. Preciso entender as opções e escolhas da minha mãe, das minhas três avós (sim, tive três avós). Como essas opções e escolhas me atingiram e atingem a minha filha. Não basta saber a história delas, Teresa, Genny, Haidee, Orfila. Preciso saber o que veio antes. 
Estava pensando em tudo isso, quando conheci Elisabeth Badinter. Filósofa e historiadora francesa é uma das mulheres mais influentes da França (e também mais ricas). Dedica-se à história das mulheres,  do feminismo e da maternidade. Comecei pelo seu livro mais conhecido, Um amor conquistado: o mito do amor materno, sobre o qual ainda vou escrever. Me apaixonei pela clareza e racionalidade do texto. Busquei outros títulos na Estante Virtual. Comprei tudo o que encontrei. Assim, cheguei a Émilie, Émilie
Trata-se da biografia comparada de duas mulheres do século XVIII, Gabrielle Émilie Le Tonnelier de Breteuil, marquesa de Châtelet-Laumont (1706-1749) e Louise Florence Pétronille Tardieu d´ Esclavelles d´Épinay, Madame d´Épinay (1726-1783). Elas foram contemporâneas por vinte e três anos, mas nunca se encontraram. São mais conhecidas como tendo sido amantes de Voltaire (1694-1778) e de Friedrich Melchior von Grimm (1723-1807), respectivamente. Mas foram muito mais do que isso. São suas histórias que Badinter enfrenta em 460 páginas.
As duas pertenciam a classes privilegiadas, mas eram de meios diferentes e incompatíveis na época. Émilie pertencia à alta aristocracia. Louise, à burguesia financeira. Tiveram gostos, caráter e trajetórias diversas. O que tinham em comum, todavia, prevalecia sobre as diferenças, segundo Badinter. E está no título do seu livro: a ambição. "Mulheres em um mundo que reserva a glória apenas aos homens, são estimuladas a uma mesma ambição. Uma e outra escolheram um objetivo preciso para suas vidas, desenvolveram toda a energia de que eram capazes, utilizada até suas últimas forças. Mesmo que os resultados nem sempre tenham estado à altura de suas esperanças, nunca cederam ao desânimo nem depuseram as armas. A não ser o tempo necessário para qualquer ser humano se recobrar. Se o sacrifício e a perseverança são os sinais da ambição, então Madame du Châtelet e Madame d´Épinay foram autênticas ambiciosas. E quase irmãs".
Émilie nasceu em 17 de dezembro de 1706 em Paris, em uma família privilegiada em todos os sentidos, "rica, unida e nobre". Filha de um alto magistrado de Luís XIV, que tinha 58 anos quando ela nasceu, e tinha para com ela "todas a fraquezas de um avô e a ternura de um pai". Ao contrário da maioria das crianças nobres da época, passou quase toda a juventude na casa da família.
Louise nasceu em 11 de março de 1726 na fortaleza de Valenciennes, da qual seu pai era governador. Filha única de pai quase sexagenário e de uma mãe devota, recebeu as maiores atenções dos pais, o que, segundo Badinter, lhe armaram para que sempre tivesse confiança em si mesma.
Émilie foi privilegiada em termos de educação. "Nenhum conhecimento lhe foi proibido, nenhum constrangimento pesou sobre ela por causa do seu sexo". Interessada por línguas, aprendeu latim, italiano e inglês. Aos 17 anos, lia Locke no original. Contudo, original mesmo, era seu gosto por física e matemática. "Fato raríssimo na história da educação de meninas, seu pai a fez tomar aulas dessas duas disciplinas". E foi aí que ela encontrou o foco para a sua ambição.
Louise, segundo Badinter, se assemelhava a Émilie aos dez anos, em disciplina e vontade de saber. Todavia, foi nessa época que faleceu seu pai. Sua mãe tinha uma visão tradicional sobre a educação de meninas: bastava aprender a ler e a escrever. Louise foi confiada a uma tia rica rica, na casa da qual sofreu as humilhações habituais da prima pobre. Conseguiu acompanhar as aulas que a prima tomava com uma governanta, o que logo foi proibido pela tia, que julgava que uma mulher erudita era naturalmente pedante.
"Do século XVII até o fim do século XIX, a mulher erudita é constantemente ridicularizada e tudo se faz para que ela não exista. Quando, no fim do século XIX, as mulheres adquiriram progressivamente o direito de acesso às universidades, são solicitadas a utilizar seu saber para fins altruístas e não egoístas. Para agradar a seus maridos, para serem melhores professoras dos seus filhos, mas nunca para fins pessoais. Uma mulher que ame os estudos por si mesmos comete uma heresia".
Louise voltou a morar com a mãe e, entre 1737 e 1739, foi enviada a um convento,  onde prevalecia a educação religiosa e habilidades como costura e dança. Isso foi tudo o que Madame d´Épinay teve em termos de educação. Aos treze anos, ainda tinha dificuldade para escrever.
Ambas passaram por todas as etapas da vida de uma mulher da época: casaram, tiveram filhos e tiveram amantes. "Entretanto, o século XVIII constitui uma espécie de paradoxo na história das mulheres privilegiadas. Ao mesmo tempo que mantinham para estas a obrigação de casar e de ter filhos, a ideologia dominante lhes concedia direito à negligência. A inconstância conjugal não era um vício. Pode-se mesmo dizer que a fidelidade era considerada um valor fora de moda, quase ridículo, e os cuidados da maternidade não eram considerados dignos das preocupações de uma mulher da alta sociedade".
Para remediar a insignificância da vida feminina, muitas mulheres das classes privilegiadas investiriam na vida social e mundana. "Outras, principalmente depois de 1750, tentaram voltar a dar vida e interesse às preocupações familiares". Madame du Châtelet pertenceu ao primeiro grupo. Madame d´Épinay, ao segundo.
Émilie fez um casamento de conveniência. Louise casou por amor com um primo irmão. "A mais satisfeita das duas foi, no entanto, a primeira. O Sr. du Châtelet revelou-se um marido muito gentil, discreto, cortês e amigo, enquanto o Sr. d´´Epinay foi uma caricatura de esposo execrável. Mas, ambos, não puderam, ou não quiseram, satisfazer suas esposas." Quem o fez foram Voltaire e Grimm, com quem elas formaram pares ligados por sentimentos e interesses. "É incontestável que esses dois homens deram às duas Émilies os trunfos necessários, mas não suficientes, para a realização da ambição delas: a estabilidade afetiva e o respeito do homem admirado, o que lhes dava confiança em si mesmas".
Badinter não foge da questão que nos ocorre nessa altura do texto. Não estamos aqui fazendo o mesmo de sempre, valorizando Émilie e Louise pela sua ligação com homens célebres? "Se fosse preciso expor a ambição masculina no século XVIII e particularmente a de Grimm e de Voltaire, deveríamos evocar suas relações afetivas e delas fazer a condição necessária à sua ambição?". A resposta é não. Voltaire e Grimm já eram conhecidos antes de se ligarem a elas. Não tiveram necessidade de admiração e reconhecimento das companheiras para investir em suas ambições. Já Émilie e Louise nasceram para desempenhar o papel tradicional de esposa, mãe e presença mundana nos salões da elite da época. "O amor, longe de ser uma fonte de alienação, foi a condição de emancipação e autonomia delas. Desde de que se sentiram amadas e respeitadas, elas cessaram de sentir a necessidade de correr atrás do reconhecimento dos outros". Podiam ser elas mesmas e se dedicar a sua ambição.
Émilie foi amante de Voltaire entre 1733 e 1741. Louise foi amante de Grimm entre 1754 e 1773. Ambas foram muito apaixonadas e foram correspondidas. Viveram com seus amantes uma comunhão intelectual, com estudo, leituras e trabalhos conjuntos. Deixaram de ser correspondidas em função de outras paixões, no caso de Voltaire, e, da ambição, no caso de Grimm. Mas nunca romperam a relação de amizade e companheirismo com eles. Ambos sobreviveram a elas.
Mas o que essas mulheres fizeram de extraordinário?
Émilie du Châtelet foi uma das primeiras, senão da primeira mulher Física de história. Escreveu Instituições da Física em 1740, no qual difunde a física newtoniana, pouco conhecida na França da época. E se distingue dos seus pares do século das luzes ao tentar conciliar Newton (1643-1727) com Descartes (1596-1650) e com a metafísica de Leibniz (1646-1716). A partir de 1744, ela se dedicou a traduzir os Principia de Newton para o francês em uma edição comentada. Sua  morte precoce em 1749 a impediu de terminar o trabalho, que foi concluído pelo amigo Alexis Claude de Clairaut (1713-1765). Até hoje é a tradução de Newton que os franceses leem. Voltaire escreveu no prefácio:
"Essa tradução, que os mais talentosos homens da França deveriam ter feito e que os outros devem estudar, um mulher a empreendeu e terminou, para o espanto e a glória do seu país. Gabrielle-Émilie (...) é a autora desta tradução que se tornou necessária a todos que queiram adquirir os profundos conhecimentos que o mundo deve ao grande Newton. (...). Tem-se aí dois prodígios: o primeiro, que Newton tenha escrito estas obra; o outro, que uma mulher a tenha traduzido e esclarecido".
Louise, que foi anfitriã de Rouseeau (1712-1778), se dedicou a escrever sobre educação. Sua obra, Conversações com Émilie de 1774, escrita para a educação de sua neta, Émilie, subverte as instruções de Rousseau no seu Émile. Jean-Jacques, um dos grandes responsáveis pela submissão da mulher na era burguesa, recomendava à Sophie, companheira de Émile:
"Todos os estudos ociosos não levam a nada de bom (...). Que necessidade tem um menina de aprender a ler e escrever tão cedo? Terá ela logo uma casa para administrar? Muito poucas há que, ao invés de apenas abusar, fazem um bom uso dessa ciência fatal (...). ".
Pois nas suas Conversações, Louise construiu uma anti-Sophie: "Quando vós vos empenhais em cultivar a vossa razão, em orná-la com conhecimentos úteis e sólidos, estais abrindo para vós mesmas tantas novas fontes de prazer e de satisfação, tantos meios de embelezar vossa vida, de ter recurso contra o tédio e consolo durante a adversidade, quando conhecimentos e talentos. São bens que ninguém pode roubar-vos, que vos livram da dependência dos outros (...) que, ao contrário, tornam os outros dependentes de vós; pois quanto mais talentos e luzes temos, mais nos tornamos úteis e necessárias à sociedade.". Nas palavras de Badinter: "Rousseau pode prender as mulheres no lar quanto quiser, Madame d´Épinay lhes dá a receita para escapar". Louise escreveu outras obras, mas foram as Conversações que a tornaram célebre. Em 1783, foi premiada pela Academia Francesa.
Hoje as mulheres seguem os caminhos abertos por Émilie e Louise. São cientistas, pedagogas, políticas, intelectuais. Escolhem ter filhos ou não. Mas o baixo número de mulheres que escolhem carreiras científicas e a sombra dos ensinamentos de Jean-Jacques sobre a educação das meninas indicam que as Émilies ainda tem muito o que ensinar. 
Madame du Châtelet

Madame d´Épinay

Tradução francesa do Principia





segunda-feira, 20 de julho de 2015

César Birotteau

A História da grandeza e da decadência de César Birotteau, perfumista, adjunto do Maire do segundo distrito de Paris, cavaleiro da Legião de Honra, etc (escrito em novembro de 1837)

Personagens: César Birotteau, Constança  Birotteau,  Cesarina, Alexandre Crotat (Xandrot), Cláudio José Pilleraut, Anselmo Popinot, sr. e sra. Ragon, Ferdinando Du Tillet, sr. e sra. Roguin, Sara Gobseck (A Bela Holandesa), Carlos Claparon, João Batista Molinaux, sr. Grindot (arquiteto), sra. Madou, sr. Vauquelin, Celestino, Gaudissart, Androche Finot, sr. Lourdois, Francisco  Birotteau, Cayron (comerciante de guarda chuvas), José Lesbas, Francisco Keller, Adolfo Keller, Padre Loraux. 

A história se passa entre 1819 e 1823.

Em uma carta para a escritora Margarete Harkness, escrita em abril de 1888, Friedrich Engels declarou que aprendera mais com Balzac do com todos os historiadores, economistas e estatísticos a respeito do nascimento da sociedade burguesa. Essa observação parece digrida especialmente a César Birotteau, que Paulo Rónai qualifica como um dos romances balzaquianos mais perfeitos. A "burguesia" termo do qual nós, professores de história, abusamos nas aulas, caracteriza algo fluido no tempo e no espaço. Um burguês na França de Balzac não é o mesmo que um burguês no Brasil de hoje. Mas o uso do mesmo termo aproxima e confunde a percepção. Pois Balzac nós dá o burgês de carne e osso, com nome, sobrenome, gostos, conceitos e preconceitos. Assistimos a nova classe tomar conta das relações sociais da França da Restauração, enquanto as demais classes e grupos se acomodam como é possível. 
Nosso burguês se chama César Birotteau. De origem camponesa (é irmão de Francisco Birotteau, o nosso Cura de Tours), foi para Paris aos catorze anos trabalhar como caixeiro na casa dos senhores Ragon, comerciantes de perfumes. Trazia somente seus pobres pertences pessoais e a disposição para o trabalho duro. Apesar do temperamento pacato, envolveu-se na conspiração de 13 vendemiário contra a Convenção, tendo a honra de lutar com Napoleão nas escadarias da Igreja de São Roque. "Se o ajudante de campo de Barras (Napoleão), saiu da obscuridade, Birotteau foi salvo por ela". Acabou esquecido e não foi punido. 
Assumiu a perfumaria dos Ragon e desposou a bela Contança Pilleraut, primeira caixeira da loja Pequeno Marinheiro. Juntos foram fazer fortuna. 
Encontramos os Birotteau, em 1819, como comerciantes prósperos e estabelecidos no mercado. Graças a algumas invenções como a "Dupla Pomada das Sultanas" e a "Água Carminativa", não faltavam pedidos e clientes. Mas faltava um certo glamour, incompatível com a vida no comércio. Então, Birotteau foi condecorado como Cavaleiro da Legião de Honra, em agradecimento a seus serviços à causa realista. Ele resolveu reformar a casa para dar um baile em comemoração à desocupação da França. Para pagar a extravagância, César entrou em um negócio de especulação de terrenos com alguns sócios, dentre os quais Roguin, dono de um cartório. Ocorre que, por detrás de Roguin, estava um dos típicos vilões balzaquianos, Ferdinando Du Tillet. Du Tillet nutria um grande desejo de vingança contra César. Fora seu caixeiro e furtara três mil francos do caixa. Birotteau descobriu e o despediu, mas sem fazer publicidade do caso.  Além disso, cortejara Constança e fora repelido por ela. Pois Du Tillet aproximou-se de Roguin, descobriu-lhe a fraqueza (uma amante dissipadora) e armou um plano para levar César Birotteau à falência. Após o baile na casa de Birotteau, o perfumista enfrentou uma sucessão de quedas que o levaram à falência. Com a ajuda da família e dos amigos, Birotteau conseguiu se reabilitar completamente pagando todos os seus credores, algo tão raro que foi até assinalado em sessão no tribunal pelo procurador do Rei. 
Um resumo, todavia, não dá conta da magnífica construção do romance. O início com o sonho premonitório de Cosntança. O meio, com o acontecimento central, o baile, que marca o auge do perfumista e o início da sua ruína. E no final, o novo baile, esse quase fantasmagórico, ao qual nosso heroi não resistiu. 
Mas o que pode haver de genial na história da falência de uma casa burguesa? Segundo Paulo Rónai, Balzac é genial ao construir personagens em nada extraordinários (para não dizer medíocres) e captar neles a vida real: "Birotteau, repetindo vinte vezes as mesmas palavras para explicar sua distinção com a Cruz da Legião de Honra e julgando-se, mesmo do fundo de sua miséria, superior a Popinot, que foi seu aprendiz; a sra. Birotteau, heroica e amorosa companheira de César, resistindo virtuosamente à sedução de Du Tillet, e, no entanto, guardando-lhe as cartas no seu cofrezinho; (...) Molinaux, tipo monstruoso de proprietário, não tendo outro medo do que ser julgado insuficientemente esperto pelos proprietários do Café David; Cesarina e Anselmo Popinot, os jovens amantes, incapazes, embora solidários com o sofrimento de César, de se arrancarem ao egoísmo do seu amor - eis alguns rasgos de intuição genial que faria Balzac idear um caráter num só bloco e tirar dele tudo o que podia dar". 
Outro feito notável, já conhecido dos leitores da Comédia Humana, é o conhecimento de Balzac sobre os pormenores dos processos e técnicas narrados.Fala da especulação de imóveis como se fosse um corretor ou um especulador. Discorre sobre a falência como um advogado (aqui a sua experiência como auxiliar de tabelião), diz-se que os advogados consultavam César Birotteau quando tratavam de falências. Conhece detalhes da fabricação de produtos de perfumaria. Conhece o funcionamento dos tribunais de comércio. Opina sobre os anúncios de produtos em jornais, uma novidade da época que mudou o comércio no século XIX. Segundo Rónai, dez especialistas seriam necessários para escrever César Biroteau. "mas os dez especialistas e o escritor genial têm o mesmo nome: Balzac". 
Não sei se Engels comentou algo específico sobre César Birotteau, mas algo me diz que era um dos romances no qual ele pensava quando escreveu à senhora Harkness. Segundo Brunetière (citado por Paulo Rónai), em todo livro não se passa quase nada, mas nele cabe a Restauração inteira. 




quarta-feira, 3 de junho de 2015

A menina dos olhos de ouro

A menina dos olhos de ouro (escrito entre março de 1834 e abril de 1835) - terceira história de História dos Treze

Personagens: Henrique de Marsay, Lorde Dudley (pai de Henrique), marquesa de Vordac (mãe de Henrique), padre de Maronis,  Paulo de Manerville, Lourenço (camareiro), Paquita Valdez, Concha Marialva, Cristêmio, mãe de Paquita, don Hijos (marquês de San Real), Margarita Eufêmia Porraberil (marquesa de San Real, filha de lorde Dudley com uma dama espanhola), Ferragus.

A história se passa em 1815.

O personagem principal dessa novela curta já apareceu em diversas histórias como figura lateral: o bon vivant Henrique de Marsay, que, como já sabemos por Ferragus e A Duquesa de Langeais faz parte dos Treze.
Aqui ficamos sabendo que Henrique era filho natural de Lorde Dudley com a Marquesa de Vordac. Dudley casou a moça com o idoso senhor de Marsay  que reconheceu a criança em troca do usufruto de uma renda de cem mil francos. Ignorado por pai e mãe, Henrique foi viver com uma irmã solteirona do senhor de Marsay. Com a magra pensão que recebia, a senhora confiou o menino a um preceptor, o padre de Maronis, De Maronis que "ensinou em três anos ao rapazinho o que só em dez teria este aprendido numa escola" foi verdadeira figura paterna para Henrique.
No início da história, encontramos Henrique em abril de 1815, em plenos Cem Dias, aos 22 anos passeando na Tuleiries. Lá encontrou o recém chegado da província, Paulo de Manerville, já nosso conhecido de O Contrato de Casamento. Henrique comentou com Paulo seu interesse por uma moça exótica, fulva, com olhos dourados. O amigo revelou que a jovem era conhecida como "a menina dos olhos de ouro". Percebendo que seu interesse era recíproco, Henrique com a ajuda do criado Lourenço, descobriu que a moça se chamava Paquita Valdés e morava no palácio do Marquês de San Real. O problema é que Paquita era severamente vigiada pela criada, a senhora Concha Marialva. Henrique e Lourenço conseguiram mandar uma carta a Paquita e marcar três encontros. O primeiro foi num apartamento decadente onde estava presente a mãe de Paquita, uma mulher georgeana que vendera a filha como escrava para os San Real. Apesar dos apelos de Henrique, Paquita não se entregou desta vez. Isso ocorreu nos outros dois encontros, às escondidas, no Palácio de San Real. No terceiro encontro, Paquita deixou escapar um nome. Um nome de mulher. Henrique ficou bravo e pensou em matar a menina, mas foi impedido pelo criado de Paquita, Crescêncio.
Um semana depois, Henrique voltou ao Palácio, dessa vez acompanhado de alguns dos Treze. Lá encontrou uma cena de luta com Paquita morta. A assassina era a marquesa de San Real, cujo nome era Margarita Eufêmia Porraberil, filha de Lorde Dudley com uma dama espanhola. Portanto, irmã de Henrique. Os irmãos se reconheceram. Eufêmia declarou que tinha como encobrir o crime (Crescêncio também fora assassinado) e que iria para a Espanha entrar para um convento. De Marsay voltou para as conquistas.
A quem julgar a história inverosímel, responde Balzac na nota introdutória da primeira edição do romance: "O episódio de A Menina dos Olhos de Ouro, é verdadeiro na maior parte de seus pormenores; a circunstância mais poética, e que lhe forma o nó, a semelhança dos dois  principais personagens é exata. O heroi da aventura que veio contar-lha, pedindo-lhe que a publicasse, decerto estará satisfeito de ver seu desejo atendido, embora o autor, de início, tivesse julgado a empresa impossível; o que parecia sobretudo difícil de fazer crer era essa beleza maravilhosa e meio feminina que distinguia o heroi aos dezessete anos e da qual o autor reconheceu os traços do moço de vinte e quatro. Se algumas pessoas se interessarem pela Menina dos Olhos de Ouro, poderão vê-la após a queda da cortina sobre a peça, como a essas atrizes que, para receberam suas coroas efêmeras, se reerguem bem dispostas após terem sido apunhaladas. Nada tem desenlace poético na natureza. Hoje, a Menina dos Olhos de Ouro está bem murcha...Quanto á Marquesa de San Real, acotovelada este inverno nas Bouffes ou na Ópera por algumas das honradas pessoas que acabam de ler esse episódio, ela tem exatamente a idade que as mulheres não confessam".
Diz também que o desfecho é real, mas aconteceu a outros portagonistas: "A sociedade moderna, nivelando todas as condições, esclarecendo tudo, suprimiu o cômico e o trágico; o historiador dos costumes é forçado, como aqui, a ir buscar onde estão os fatos engendrados pela mesma paixão, mas acontecidos a vários indivíduos, e cosê-los juntos para obter um drama completo". 
Será verdade ou um truque de Balzac para aumentar o interesse em suas histórias, com os leitores especulando quem é quem? Ele diz que "os escritores não inventam coisa alguma"...
Dessa história, que não é a minha preferida de Balzac, comento dois aspectos. A suavidade e a naturalidade com que ele aborda o tema do lesbianismo. No início pensamos que Paquita é amante do Marquês de San Real. São as cartas de Londres e as alusões da menina ("é a mesma voz... e o mesmo ardor") que nos chamam a atenção para a Marquesa. O autor nos diz: "uma paixão terrível ante a qual recuou toda a nossa literatura, que, no entanto não me espanta em nada". Não espanta, pois era comum. E uma relação entre mulheres era mais fácil de dissimular, a pretexto de amizade, do que entre homens. Apesar do desfecho trágico e exagerado, e relação é tratada como se fosse uma relação heterossexual. 
O que prefiro nesse romance é o seu início, intitulado "Fisionomias Parisienses". Aqui, Balzac aparece como o magnífico historiador dos costumes que era fazendo um retrato vivo de Paris. Paulo Rónai nos diz: "Foram essas páginas, como muitas outras de Balzac que fixaram para sempre a imagem mítica de Paris aos olhos do mundo inteiro, e tal imagem nos interessa profundamente, porque a Paris de 1830 era uma prefiguração de todas as metrópoles modernas, inclusive a nossa". A análise das quatro camadas da vida social parisiense: o proletário, o burguês, o profissional liberal e o artista poderia ser utilizada em uma aula de história. Impressiona a vivacidade da descrição. É como se andássemos pela Paris de 1830 com Balzac nos mostrando a cidade. Deve ser por isso que ele dedicou A Menina dos Olhos de Ouro a Eugène Delacroix, pintor. 


Não terminei o doutorado ainda, mas voltei. Não podemos viver sem aquilo sem o qual não podemos viver. 
A Menina dos Olhos de Ouro é a primeira história de Balzac que leio no meu leitor Kobo.