domingo, 11 de setembro de 2011

A Pianista

A Pianista. Elfriede Jelinek. São Paulo: Tordesilhas, 2011. Tradução: Luis Krausz. 

Lido entre 11 e 23 de julho de 2011. 

Excluindo Balzac, grande parte da literatura estrangeira por mim comentada é de língua alemã. O motivo: estudo alemão e frequento a biblioteca do Instituto Goethe. Tudo de novo que se publica em literatura alemã, no original ou em português, chega cedo na estante de novidades dessa biblioteca que fica num dos meus lugares preferidos em Porto Alegre. Um dia vou poder me exibir aqui com o original, mas por enquanto me contento com as traduções. Elfriede Jelinek tem algumas coisas em comum com Herta Müller: era pouco conhecida fora dos países de língua alemã quando ganhou o Nobel de Literatura em 2004 e a tradução de seu livro mais conhecido, Die Klavierspielerin - A Pianista, saiu neste ano no Brasil. Mas as semelhanças param por aí. O tema é também a opressão, mas não a política - a opressão internalizada. 
Erika Kohut é uma professora da piano de um conservatório de Viena. Está próxima aos quarenta anos e mora com a mãe em um apartamento de dois quartos. Erika foi criada para ser uma grande pianista de carreira internacional, mas não passou pela rigorosa seleção que esse tipo de carreira implica. Sua mãe, um mulher frustrada que se realiza através da filha, a trata como uma criança: controla seus horários, suas compras e dorme junto com ela na cama. A vida social de Erika consiste em concertos particulares em casas de família, sempre junto com a mãe. De resto, as duas passeiam pelos arredores de Viena nos finais de semana e assistem à televisão. É uma relação de co-dependência típica. Numa passagem, logo no início da narrativa, Erika chegou um pouco atrasada. Sua mãe havia, em represália, cortado alguns vestidos novos que ela comprara. Ela agrediu a mãe, arrancando um chumaço de seus cabelos. Depois de se agredirem fisicamente, as duas se abraçaram e pediram desculpas. 
Erika não tem namorado. Já teve algumas relações no passado, frustrantes do ponto de vista sexual. A tensão aparece na narrativa quando um jovem de 24 anos, Walter Klemmer, belo e atlético, se aproxima da professora. Ele admira a competência de Erika ao piano, já que também toca o instrumento, com rara maestria para uma amador. Klemmer está francamente interessado em Erika. Quer ter uma experiência com um mulher mais velha. Erika repele as suas atenções, ao mesmo tempo que fica cada vez mais interessada no rapaz. A onipresença da mãe impede que a professora explore seu próprio corpo. Por vezes, ela se tranca no banheiro e corta com um aparelho de gilete que pertencia a seu pai os lábios vaginais. Inventa aulas particulares noturnas e vai a cabines de striptease ou ao Prater assistir aos casais tendo relações sexuais. Em uma ocasião, em um ensaio coletivo, Erika se vinga de uma estudante que se aproximou de Klemmer colocando cacos de vidro nos bolsos de seus casaco. A menina corta as mãos e fica fora do concerto anual. É nesse dia que Klemmer agarra Erika no banheiro do conservatório. Ela não deixa que ele consume a relação sexual. A partir daí Erika começa um jogo masoquista com Klemmer que culmina quando o rapaz dá-lhe uma surra e a estupra no quarto de sua casa. 
São muitos os temas explorados nesse romance. Um dos principais, até porque Elfriede também é formada em música, é o binômio beleza/sofrimento que encerra uma carreira musical. Uma disciplina de horas de estudo por dia para atingir a perfeição não é suficiente. É preciso aquele diferencial chamado talento que poucos têm. Assim, quem se dedica à música e não é um dos escolhidos, ou se entrega ao amadorismo ou estará fadado à frustração. Erika se sente frustrada por não ter atingido o que era dela esperado. Então, sua desforra é humilhar os alunos, chegando até a feri-los fisicamente. Mas para mim, o tema mais bem trabalhado e que aproxima Jelinek de Schnitzler é a opressão do cotidiano. A autora apresenta um dia a dia brutal, cheio de tristeza e violência, por detrás da fachada de uma existência de classe média. Erika, assim como Georg von Wergenthin, de O Caminho para a Liberdade, e como o doutor Gläser, de O médico das termas, não tem sentimento em sua vida. Sua técnica, como pianista, é perfeita, mas técnica somente produz uma boa professora de piano, não uma boa intérprete. 
O trecho em que Erika e sua mãe levam o pai, insano (mais um ponto em comum com Schnitzler, a loucura sempre à espreita), para ser internado em um hospital para doentes mentais numa cidade próxima a Viena é revelador dessa violência do dia a dia: “ O pai não compreende por que está ali, pois ali nunca foi a casa dele. Está proibido de fazer muitas coisas, e em todas as que faz, mesmo as que são proibidas, tampouco é bem visto. Tudo o que ele fizer está errado. Já está acostuma a isso, por sua esposa. Ele já não deve mais tomar nada nas mãos nem se mexer. deve lutar contra a sua agitação e permanecer deitado (...). Mas o pai continua a querer sair, mal acabou de ser colocado no depósito. Ele é apanhado e obrigado a ficar ali. De que outra maneira sua família haveria de se livrar da perturbação? De que outra maneira os proprietários da instituição haveriam de garantir suas riquezas? Para uns é necessário que ele fique longe. Para outros, é preciso que ele permaneça ali. Uns vivem de sua presença. Os outros, de sua ausência. De ele ter ido embora e de não precisarem mais olhar para ele. Aufwiedersehen. Até logo. Foi um prazer. Para tudo há um fim. Quando elas estiverem ido embora, o pai, apoiado num ajudante trajando um avental branco, com ar de má vontade, deverá dar tchauzinho para as duas senhoras.” 
É digno de nota que recentemente tenham sido descobertos casos aterradores de violência doméstica justamente na Áustria, por detrás dos muros de casas de classe média. 
Houve algo que interferiu na minha leitura: para mim Erika Kohut tem o rosto da talentosíssima atriz francesa Isabelle Huppert que a representou no filme A Pianista de Michael Haneke. Eu havia visto o filme em 2001, no cinema. Agora, o revi. É muito fiel ao livro e não fica devendo a ele como sói ocorrer com adaptações de livros para o cinema.

domingo, 21 de agosto de 2011

Úrsula Mirouët (junho-julho de 1841)

Volume V: Estudos de Costumes:Cenas da Vida Provinciana (lido entre 8 de de agosto e 25 de novembro de 2010)

Personagens: Minoret-Levraut (chefe da posta); Zélia ; Desidério; doutor Dionísio Minoret; Úrsula (filha de José Mirouët que era filho de Valentim, pai de Úrsula;falecida esposa do doutor Dionísio); Bougival; padre Chaperon; senhor e senhora Massin; senhor Crémière-Dionis (tabelião de Nemours); Goupil (primeiro amanuense do tabelião Crémière-Dionis); senhor Crémière (exator de Nemours); senhor Jordy; senhor Bougrand (juiz de paz); doutor Bouvard; Saviniano; senhora de Portuenduère.

A história inicia em 1829 e termina em 1841.

Úrsula Mirouët não é Balzac na sua melhor forma. A heroína é, nas palavras de Paulo Rónai, um retrato balzaquiano da virgem francesa: não muito esperta, de uma virtude a qualquer prova e que nasce para vida no momento em que se apaixona.
A história contrapõe a órfã Úrsula, criada pelo doutor Dionísio Minouret, viúvo muito rico, e os herdeiros do doutor, Minouret-Levraut, Crémière-Dionis e Massin, na pequena cidade de Nemours. O doutor Minouret se estabeleceu em Nemours depois de uma promissora carreira em Paris. Lá dedicou-se a criar Úrsula e ao seu pequeno círculo de amigos formado pelo padre Chaperon, senhor Jordy e doutor Bougrand. Os herdeiros aguardavam a morte do doutor e temiam que ele comprometesse sua herança beneficiando Úrsula. Sua apreensão aumentou quando Minouret, ateu convicto, converteu-se ao cristianismo e passou a frequentar a missa na companhia da pupila. Julgavam que tal mudança devia-se à enorme ascensão de Úrsula sobre o doutor. Ignoravam que a conversão devia-se a uma experiência mística. Minouret foi a Paris visitar um antigo colega, Bouvard, e comprovou a eficácia do magnetismo de Mesmer, teoria mística complexa que professava que existe separação entre corpo e espírito.
Nesse meio tempo, Úrsula se apaixonou pelo vizinho Saviniano, personagem mal acabada de Balzac. Ele aparece na história preso por dívidas após uma temporada de desmandos em Paris e transformou-se num sujeito honesto, esforçado e desprendido. Sua mãe, a senhora de Portuenduère, nobre empobrecida, mas muito orgulhosa, jamais concordaria no casamento do filho com uma moça de origem duvidosa. Assim, a saída para Úrsula era a herança do doutor Minouret.
Com a morte do doutor, iniciou-se uma sequência de ação: Minouret-Levraut, o desprezível chefe da posta, descobriu o testamento deixado pelo tio e o destruiu. Não houve testemunhas e Úrsula ficou sem nada. Foi expulsa de casa e teve de contar com a caridade dos poucos amigos. Aí entra o misticismo novamente na história. O falecido doutor apareceu-lhe em sonhos e revelou toda a ação de Minouret-Levraut. Ela contou ao padre Chaperon, que interpelou o criminoso. Simultaneamente, o cínico e pérfido Goupil, corrompido por Minouret-Levraut, começou uma campanha para difamar Úrsula com cartas anônimas para que ela deixasse Nemours. Finalmente, o doutor apareceu a Úrsula e disse que caso Minouret-Levraut não reparasse a injustiça, seu filho único, Desidério, iria perecer. O criminoso tentou se redimir, mas era tarde. Desidério sofreu um acidente numa carruagem e morreu. No final, o mal foi reparado e Úrsula, após receber sua herança, casou-se com o amado. Minouret-Levraut tornou-se piedoso e passou a se dedicar à caridade.
O único ponto interessante a comentar sobre essa história é aparecimento nela do misticismo de Balzac. Nosso autor foi contemporâneo de diversas teorias místicas e era delas adepto. Frequentava cartomantes, participava de sessões de hipnose e cria em transmissão de pensamento. Esses temas aparecerão em outra histórias, mas Úrsula Mirouët, na ordem dada pelo autor da Comédia Humana, marca a sua estreia.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Tudo o que tenho levo comigo

Tudo o que tenho levo comigo. Herta Müller. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Tradução: Carola Saavedra.

Lido entre 28 de junho e 10 de julho de 2011.

Gosto de descobrir autores novos. Novos aqui têm o significado egoístico de que ainda não li. Até porque é prepotência minha classificar uma autora que ganhou o prêmio Nobel de literatura em 2009 e é muito conhecida nos países de língua alemã de nova. Mas para mim e no Brasil, Herta Müller é uma autora nova. Tudo o que tenho levo comigo é seu segundo livro traduzido para o português e a tradução é desse ano.
Além da novidade, me interessei pelo livro por ser em alemão - e eu estudo alemão - e por tratar de um tema que me atrai: a União Soviética no século XX.
O ano era 1945 e a Romênia, país natal da escritora, que estivera ao lado dos nazistas até agosto de 1944, estava agora ao lado dos aliados. O acordo do novo governo com os soviéticos previa a deportação de todos os indivíduos entre 17 e 45 anos da minoria alemã para um campo de trabalho na Rússia: já que eram nazistas, agora iriam ajudar na reconstrução da União Soviética.
O personagem que narra em primeira pessoa é Leopold Auberg, homossexual de 17 anos. Ele foi levado da sua cidade natal de Hermannstadt para gulag de Nowo-Gorlowka, na Ucrânia. A ideia de ir para a Rússia até o agradava no início. O homossexualismo era crime na Romênia o o rapaz tinha certeza da rejeição de sua sexualidade pela a família.
A viagem durou 12 dias,  dias de uma certa inconsequência, nos quais os viajantes até desperdiçaram comida. A realidade se apresentou em uma parada, já em território soviético, quando todos tiveram que saltar do trem, baixar as calças e fazer suas necessidades em público e coletivamente: “Talvez naquela noite não eu, mas o horror em mim tenha se tornado adulto de repente. Talvez a unidade só se torne real dessa forma. Pois todos, sem exceção, ao fazer nossas necessidades, dirigíamos nosso rostos automaticamente em direção ao leito do trem. Todos tínhamos a lua nas costas, não tirávamos os olhos da porta aberta do vagão de animais, dependíamos dela como da porta de um quarto. Tínhamos o medo insano de que a porta se fechasse e o trem partisse sem nós”.
A partir daí o narrador descreve o dia a dia no gulag: a fome onipresente, o trabalho escravo, a desumanização, que fez com que com o tempo os prisioneiros perdessem as suas identidades sexuais, a morte dos companheiros.
O campo funcionava como uma cidade. Havia Tur Prikulitsch, o romeno que atuava como preposto dos russos em troca de vantagens. Bea Zakel, amante de Tur pelas mesmas vantagens. Trudi Pelikan, a moça que perdeu os dedos do pé num acidente e foi trabalhar na enfermaria. Konrad Fonn, o acordeonista. Paul Gast, o advogado que comia a sopa de sua esposa até que ela morreu de fome. Oswald Enyeter, o barbeiro, que por sua profissão conseguia sobreviver melhor. Kati-plantão, a alienada mental que passou os cinco anos no campo sem saber onde estava. Dos russos, a únca que merece atenção do narrador é Fenja, a moça feia responsável paor distribuir a ração diária de pão, momento no qual iniciava o grande dilema do dia: seria possível guardar pão para a noite?
Ao final do quarto ano, a situação melhorou. Os prisioneiros passaram a receber salários e mais comida, uma tentativa de encobrir a realidade no retorno.
A única notícia que Leo recebeu de casa foi um cartão postal anunciando o nascimento de um irmão. Ele interpretou isso como um sinal da família de que ele não precisava voltar: havia outro em seu lugar.
Leo retornou então para casa, mas como todos que passam por esse tipo de experiência, não conseguia comunicá-la. Distanciava-se da famíla. Continuava tendo encontros furtivos com homens, mas casou-se com uma moça e mudou-se para Bucareste. Após onze anos, a deixou e mudou-se para a Áustria.
A experiência de Leo Auberg é baseada na do poeta Oskar Pastior. Ele teve diversos encontros com Herta que resultaram em cadernos com anotações. Pretendiam escrever um romance juntos, mas Oskar morreu em 2006, de modo que Herta resolveu escrever o livro sozinha. O tema era importante para a escritora. Sua mãe passou cinco anos em um campo de trabalho na União Soviética e nunca conseguiu falar no assunto.
Marcelo Backes, em artigo no Estado de São Paulo, de 7 de maio de 2011 comentou: “Recentemente, descobriu-se que Oskar Pastior teria espionado outros escritores para a Securitate, um dos quais, Georg Hoprich, acabou se suicidando. Pastior foi chantageado pelo sistema, mas Herta também foi, e ainda assim resistiu. Mircea Dinescu, poeta romeno que pensou sob o mesmo sistema, defendeu Pastior e disse que era bom que ele estivesse morto, não vivenciando seu desmascaramento. Herta Müller se proclamou horrorizada, alegando que se soubesse do fato não teria colaborado com Pastior. Se foi só o acaso que permitiu Tudo o Que Tenho Levo Comigo, nós ganhamos com o acaso mais uma vez...”.
O estilo de Herta é poético e há muitas brincadeiras e jogos de palavras. Talvez o estilo não tenha me agradado, pois é o tipo de texto que só podemos sentir na língua original, embora o trabalho da tradutora seja cuidadoso (e difícil).
E talvez o tema não se preste à poesia (aqui vão me dizer que qualquer tema se presta à poesia). Mas Primo Levi, em É isso um homem? com seu texto direto e tradicional transmitiu a mim muito mais o horror e a singularidade da sua experiência.

sábado, 6 de agosto de 2011

Outro estudo de mulher (junho1839-1842)

Personagens:diversos, mais de cinquenta personagens da Comédia Humana que se reúnem em casa da senhorita de Touches.

A história se passa depois de 1830.

Outro Estudo de Mulher é, como A Mulher de Trinta Anos, uma obra na qual Balzac reuniu vários contos dispersos em uma história só. Daí a profusão de personagens, vários dos mais importantes da Comédia Humana, que participam com uma ou duas frases.
Um grupo se encontrou para conversar em casa da senhorita de Touches, Camilo Maupin, após um baile. Foram então contadas quatro histórias.
Henrique de Marsay contou sua paixão, aos dezessete anos, por uma mulher que simultaneamente namorava um duque.
Após, Emílio Blondet discorreu sobre a “femme comme il faut”, a mulher naturalmente elegante, distinguindo-a da burguesa.
Depois, o general Montriveau contou uma passagem ocorrida durante a campanha de 1812, quando um capitão italiano matou a esposa e o coronel com quem ela o traía.
Finalmente, Horácio Bianchon (em certo ponto, Balzac esquece Bianchon e narra por ele mesmo...) contou uma história ocorrida na Vendôme, na Grande Ameia. A senhora Merret traía seu marido com um espanhol. O esposo descobriu e mandou murar o gabinete no qual o amante se escondia, levando-o à morte por inanição. 
Com Outro estudo de mulher, encerramos o quarto volume da Comédia Humana. 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Um escritor na guerra: Vasily Grossman com o exército vermelho: 1941-1945

Um escritor na guerra: Vasily Grossman com o exército vermelho: 1941-1945. Vasily Grossman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. Editado e traduzido do russo para o inglês por Antony Beevor e Liuba Vinogradova. tradução Bruno Casotti.

Lido entre 11 e 18 de junho de 2011.

Livro fundamental para quem, como eu, gosta de história da Segunda Guerra Mundial, especialmente da União Soviética.
O escritor Vasily Grossman acompanhou o exeŕcito vermelho entre agosto de 1941 e maio de 1945 como correspondente do jornal Krasnaya Zvezda. Escreveu centenas de artigos que eram atenciosamente acompanhados tanto pelos soldados, quanto pelas autoridades. Também manteve um caderno de notas cujo conteúdo, para a sua sorte, só era conhecido pelo amigo Ilya Ehrenburg. Nesses cadernos, havia anotações que teriam custado a Grossman um lugar no gulag até o final de sua vida: a incompetência dos oficiais soviéticos; o desprezo das autoridades pela vida dos soldados; o colaboracionismo da população, especialmente dos ucranianos, com os nazistas; a inutilidade da burocracia; a crueldade dos soldados do exército vermelho quando da retomada dos territórios ocupados (e não somente contra alemães).
Esse volume foi cuidadosamente preparado pelo historiador Antony Beevor, que tomou conhecimento das anotações de Vasily Grossman quando escrevia Stalingrado, livro por mim aqui resenhado. Além das anotações, alguns artigos e algumas cartas escritas por Grossman (a maior parte para seu pai), o livro conta com uma contextualização, já que as notas são fragmentadas.
Quem lê as anotações de Grossman e não conhece Vida e Destino, terá informações interessantes sobre alguns dos principais cenários da guerra na União Soviética. Ele escreveu em seus cadernos sobre o terrível desastre que foi a invasão alemã em 1941, embora tenha suavizado isso em seus artigos. Descreveu a realidade dos soldados nas frentes de batalha, os problemas a serem administrados pelos comandantes e o terror da população civil fugindo da iminente invasão alemã.
Stalingrado é ponto alto das anotações. Grossman permaneceu na cidade durante toda a batalha e, apesar das críticas em seus cadernos, apresenta uma perspectiva totalmente patriótica: a vitória foi o resultado de uma explosão de patriotismo, nos moldes da vitória sobre o exército francês em 1812. Sua ênfase é no soldado comum. Ele critica a vaidade dos oficias que, após a vitória, se gabavam de seus feitos, ignorando o sacrifício do soldado comum e da população civil.
Especialmente tocantes são as passagens relativas à descoberta do massacre de Berdichev e do campo de extermínio de Treblinka. Berdichev era a cidade natal de Grossman e lá sua mãe, Yekatarina Savelievna, morreu em um massacre perpetrado por um dos famigerados SS Sonderkommando em setembro de 1941, quando cerca de 30 mil judeus foram assassinados a tiros em clareiras e enterrados em covas coletivas. O escritor não recebia notícias da mãe desde a época de sua morte, mas somente em janeiro de 1944 descobriu o que realmente ocorrera. Descobriu também, a colaboração dos ucranianos com os nazistas.
A partir desse momento, Grossman começou a escrever artigos denunciando o que na época não tinha nome, mas que seria conhecido como o holocausto. O assassinato de judeus em Berdichev foi um dos primeiros escritos na história sobre os massacres nazistas. Foi, como também o posterior trabalho de Grossman de denúncia dos crimes nazistas, censurado pelas autoridades soviéticas. Stálin era contra enfatizar o sofrimento de uma etnia. A propaganda oficial era de que todos os soviéticos estavam sofrendo igualmente com a invasão nazista.
Em julho de 1944, Grossman chegou ao que restava do campo de Treblinka, na Polônia. Os nazistas, percebendo a reação do exército vermelho destruíram o campo e queimaram os corpos que estavam enterrados. Grossman fez um trabalho de detetive, entrevistando os poucos sobreviventes, a população local, desenhando a estrutura e descrevendo o funcionamento do campo. Seu artigo O inferno de Treblinka foi utilizado no julgamento de Nuremberg. Lá ele constatou que quem fazia o “serviço sujo” no campo - retirava os pertences das vítimas, encaminhava as vítimas para a câmara de gás, cortava os cabelos, extraía os dentes dos cadáveres e queimava os corpos - eram ucranianos.
No final, Grossman acompanhou unidades do exército vermelho até Berlim. Não há muitas notas desse período. Mas há registros da crueldade dos soldados russos com a população civil, e não somente população alemã. Eles saqueavam seu próprio povo e, inclusive, muitos oficiais se comportavam como ladrões. E não eram somente as “Frauleins” que sofreram nas mãos dos russos. Mulheres e meninas soviéticas também eram estupradas pelos soldados que se comportavam como animais, bêbados e selvagens.
Quem lê os cadernos de Grossman e leu Vida e Destino tem outra perspectiva. Estamos diante da pesquisa de Grossman para o trabalho de sua vida. Sua atenção aos detalhes, sua preocupação com o cotidiano dos soldados, com as piadas, com as gírias, com a comida, tudo foi “laboratório” para Vida e Destino. Até os modelos de alguns personagens estão lá.
Grossman foi um excelente jornalista de guerra, talvez um dos melhores de todos os tempos. Mas seu trabalho como escritor não fica atrás.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O Contrato de Casamento (setembro-outubro de 1835)

Personagens: Paulo de Manerville, Henrique de Marsay, senhora Evangelista, Natália, senhor Mathias, senhor Solonet, Felix de Vandenesse.

A história se passa entre 1821 e 1827.

O Contrato de Casamento é mais uma história cínica e impiedosa de Balzac. Aqui ele contradiz várias outras obras, apresentando um verdadeiro libelo contra o casamento. Lembremos que Balzac objeta o casamento por amor, defendendo sempre o casamento racional: quando existe estima e um projeto comum de vida entre os cônjuges. Em O Contrato de Casamento ele ataca a instituição em si. Defende a ideia de de Marsay: casar-se sem nenhuma inclinação para obter dinheiro e liberdade.
Paulo de Mannerville, rico herdeiro de Bordéus, resolveu desposar a bela Natália Evangelista (Casa-Real), apesar das objeções de seu amigo bon vivant Henrique de Marsay. Ocorre que a mãe de Natália, a senhora Evangelista ( segundo o cínico de Marsay “comparado à senhora Evangelista, o papá Gobseck é uma flanela, um veludo, um poção calmante, um merengue com baunilha, um tio de fim de romance”), gastara todo o dinheiro do dote da moça e desejava casá-la sem nada. Cada uma das partes contratou então um tabelião para redigir o contrato de casamento. Paulo contratou mestre Mathias, um tabelião experiente de 69 anos; as Evangelista contrataram o jovem Solonet.
Ao final de um cansativo embate, o experiente Mathias conseguiu constituir um morgado a favor de Paulo. Mas nos cinco anos em que ficaram casados, Paulo gastou toda a sua fortuna com o luxo de Natália. Ao final, arruinado, embarcou em um navio para Calcutá para tentar refazer sua fortuna. Julgava a sua esposa virtuosa e por ele apaixonada. Quando já estava a bordo, recebeu carta de de Marsay que revelava que Natália era há muito amante de Félix de Vandenesse.
O subtítulo desse volume 4 da Comédia Humana é “cenas da vida privada”. Temos que ter isso em conta, uma vez que era ambição de Balzac cobrir todos os aspectos da sociedade francesa de seu tempo. A cena aqui é justamente os atos oficiais que antecedem o casamento e seu caráter de primeira batalha em uma guerra: “Esse dia foi para Paulo a primeira escaramuça dessa longa e fatigante guerra denominada casamento. É necessário, portanto, ficar as forças de cada partido, a situação dos corpos beligerantes e o terreno sobre o qual deviam manobrar.” O ponto alto, e Balzac sabia disso, tanto que o escreveu em uma carta à irmã, é o embate entre o velho e o novo notariado da França na época: “Penso ter conseguido fazer o que quis. A cena do contrato, por si só, faz compreender o que será o futuro dos dois esposos. Encontrarás aí uma cena que julgo profundamente cômica, o combate do jovem e do velho notariado. Consegui interessar o leitor pela discussão desse ato, assim como ela se verificou. Eis uma das grandes cenas da vida privada escrita". 

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Todos os fogos o fogo

Todos os fogos o fogo. Julio Cortazar. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2007. Tradução: Gloria Rodrigues.

Lido entre 1 e 8 de junho de 2011.

Todos os fogos o fogo de Júlio Cortazar é livro texto de oficina literária. São oito contos modelares para que não esqueçamos como pode ser sublime uma narrativa curta.
Um meus preferidos, A auto-estrada do sul, transforma um engarrafamento em uma situação meio onírica, meio estado de natureza. Não sei se José Saramago pensou nesse conto ao escrever Ensaio sobre a Cegueira, mas me parece claro que existe identidade entre as duas obras.
A saúde dos doentes parte de uma situação corriqueira, a morte de um filho em um acidente e a impossibilidade de dar a notícia à mãe doente, para criar um jogo de fantasia e realidade.
Reunião, com epígrafe de Che Guevara, é totalmente realista. O narrador (Che) relata a subida de uma serra com um grupo de guerrilheiros, fugindo das forças oficiais.
Senhorita Cora, o meu preferido, é escrito do início ao fim em fluxo de consciência. Um adolescente, Pablo, está no hospital para fazer uma operação de apendicite. Seus pais o visitam e ele é atendido por uma bela e jovem enfermeira, a senhorita Cora. As vozes de Pablo, de Cora, da mãe, do pai, dos médicos, se alternam sem se confundir. Talvez esse conto seja autobiográfico, já que Cortazar foi uma criança doente e passou temporadas hospitalizado.
A ilha ao meio-dia conta a obsessão de um comissário de bordo por uma faixa de terra da Grécia que ele avista do avião, da rota que ele faz, pontualmente ao meio dia. Confesso que não gostei do desfecho.
Instruções a John Howell brinca com uma ideia que todos que já foram ao teatro tiveram: o assistente que é convidado a atuar na peça.
Todos os fogos o fogo, conto que dá título ao livro, alterna duas narrativas: um grupo em uma arena romana assiste a uma luta de gladiadores e um casal de namorados/amantes está em crise, pois uma traição foi descoberta. É incrível como o escritor faz esse esquema funcionar.
O outro céu é uma narrativa fantástica na qual o narrador circula ao mesmo tempo por Paris e Buenos Aires. Na capital portenha, mora com a mãe, tem uma noiva e trabalha na Bolsa, ao passo que em Paris, circula à noite pelas galerias, “esse mundo que escolheu um céu mais próximo”, namora a prostituta Josiane e conversa com os notívagos sobre os crimes do assassino Laurent. Assisti  ontem ao Meia Noite em Paris de Woody Allen. Há uma cena em que Gil (Owen Wilson) conversa com pintores da Paris da década de 1920 e explica que ele vive em duas dimensões: em uma está noivo e vai casar; em outra está envolvido com a amante de Pablo Picasso. Lembrei imediatamente desse conto.
Histórias assim, não há que comentar. Há que ler.