quarta-feira, 26 de junho de 2013

Memorial de Aires, Machado na sua melhor forma

Já comentei aqui que os audiolivros e os engarrafamentos de Porto Alegre têm me permitido rever clássicos da literatura brasileira que li quando ainda era muito jovem. Entre o ano passado e este ano "ouvi" Dom Casmurro, Quincas Borba e Memórias Póstumas de Brás Cubas, todos lidos quando eu era ainda adolescente e não tinha a vivência ( e a leitura) necessária para apreciar completamente essas obras. 
Memorial de Aires foi diferente. Eu não o havia lido. Li os menos valorizados Ressurreição, Helena e Iaíá Garcia e não li o último livro escrito por Machado. A culpa foi, em parte dos meus professores, que comentaram que Memorial de Aires era um livro menor, não apresentando Machado na sua melhor forma. Pois, discordo. Tendo "ouvido" O Memorial de Aires duas vezes e o lido uma, nos últimos meses, creio que a obra apresenta tudo de melhor do gênio de Machado de Assis. 
O Memorial de Aires é a o diário escrito pelo Conselheiro Aires, personagem que já aparecera em outros livros de Machado (especula-se se é ele ou não o narrador de Esaú e Jacó), durante os anos de 1888 e 1889. A narrativa começa em janeiro de 1888, quando já fazia um ano que o Conselheiro se aposentara da diplomacia e retornara ao Brasil. Nos seus trinta anos na ativa, Aires vivera no exterior, vindo esporadicamente ao país. 
Visitando o cemitério com sua irmã , Rita, Aires avistou uma bela mulher rezando em um túmulo. Soube por Rita que se tratava da viúva Noronha, Fidélia, que fora muito feliz no casamento, mas que esse durará muito pouco pelo precoce falecimento do esposo: 

"Nesse momento, a viúva descruzava as mãos, e fazia gesto de ir embora. Primeiramente espraiou os olhos, como a ver se estava só. Talvez quisesse beijar a sepultura, o próprio nome do marido, mas havia gente perto, sem contar dous coveiros que levavam um regador e uma enxada, e iam falando de um enterro daquela manhã."

Os irmãos então fizeram uma aposta a respeito da possibilidade da viúva vir a casar novamente. Aires sustentou que era possível que casasse, inclusive com ele próprio. Rita foi firme no sentido de que Fidélia não casava. 
Fidélia era conhecida de Rita da residencia do casal Aguiar. O "velho" Aguiar, gerente do Banco do Sul, e sua esposa, Dona Carmo, eram um casal de idade, sem filhos, que praticamente "adotara" Fidélia como filha postiça, em virtude do seu desentendimento com os pais por conta do casamento com o falecido Eduardo. Sabemos então que a história de Fidélia e Eduardo foi uma caso de Romeu e Julieta do Vale do Paraíba. Os pais dos jovens eram inimigos políticos e não permitiram o casamento, que ocorreu mesmo assim com o afastamento das respectivas famílias. Eles se conhecerem em um teatro no Rio de Janeiro e se apaixonaram. Depois do casamento, foram passar uma temporada em Lisboa, onde o rapaz faleceu. 
A ausência de filhos parecia ser a única mácula na vida do casal Aguiar, que aparece como exemplo de união conjugal, principalmente pelo caráter de Carmo, que alguns críticos sugerem ser inspirada em Carolina, esposa de Machado.  Eles supriam essa falta através de Fidélia e de outro "filho postiço" que, no início da narrativa estava desaparecido, mas logo anuncia seu retorno de Lisboa. 
Tristão, jovem médico, foi criado com duas mães, a sua e Carmo. O rapaz estava destinado pela família a ser comerciante, mas cedo demostrou o desejo de estudar Direito. No início da adolescência, sua família decidiu mudar-se para Lisboa, para a tristeza de Carmo. No princípio, as cartas e notícias eram abundantes. mas logo cessaram. Em maio de 1888 chegou carta de Tristão de Lisboa, anunciando a vinda próxima para o Brasil para visitar os pais adotivos. 
Em julho, o rapaz chegou da Europa para visita por tempo indeterminado e com propósitos incertos. Nesse meio tempo, falecera o Barão de Santa Pia, pai de Fidélia, deixando a ela a fazenda e os libertos, já que a abolição ocorrera em 13 de maio. 
Estabelece-se, então, uma rotina familiar entre o casal Aguiar, que hospedava Tristão, e Fidélia que estava sempre na casa dos pais adotivos. Reforçando o lado de Rita, Fidélia dispensou um pretendente, Osório. Tristão vai adiando o seu retorno à Lisboa, apesar dos chamados dos seus correligionários políticos. 
No início de novembro, pela primeira vez, Aires registra em seu diário que Tristão estava enamorado de Fidélia e ouve a confissão do jovem no dia 30. A partir daí foi tudo muito rápido. Em janeiro de 1899, os namorados estavam declarados e o casamento ocorreu em 15 de maio. 
Tristão, candidato a deputado pelas Cortes de Lisboa, decidiu partir para Portugal com a esposa. Tentaram convencer o casal Aguiar a ir junto. Diante da negativa, ocultaram dos velhos que a ida era definitiva. Em julho, o jovem casal partiu, deixando os Aguiares "com saudades de si mesmos". 
Apesar da aparência de narrativa de fatos do cotidiano, o Memorial de Aires é um livro cheio de facetas. Há muitos estudos literários a respeito da obra de Machado em geral e do Memorial em particular. Pretendo aqui apenas destacar as minhas impressões. 
Quando ouvi pela primeira vez a narrativa, tive um grande estranhamento, pois ouvira há pouco Memórias Póstumas de Brás Cubas e a diferença é muito grande. Foi na segunda vez que comecei a juntar as pistas de Machado. Destaco dois aspectos da obra, reconhecendo que há muitos mais a serem explorados: a relação de Tristão com Fidélia e a exploração por Machado da abolição da escravatura na narrativa. 
O que Aires conta não é a realidade, mas a sua visão da realidade. E em várias passagens Machado sugere que nem o que ele escreve corresponde realmente ao que ele pensa:

"Quando eu era do corpo diplomático efetivo não acreditava em tanta cousa junta, era  inquieto e desconfiado; mas, se me aposentei foi justamente para crer na sinceridade dos  outros. Que os efetivos desconfiem!”

Aires está dizendo que suspendeu a desconfiança assim que se aposentou, sugerindo que não acreditemos no que ele conta. Ele não diz em nenhum momento, mas sugere em vários momentos, que já havia alguma relação anterior entre Tristão e Fidélia. 
Com respeito à Fidélia, sabemos que ela tem algo de atriz. Na primeira vez que Aires a vê no cemitério, ela olha para os lados para ver se alguém a estava mirando. No jantar de núpcias dos Aguiares, ela disse que não iria, pois estava com dor de cabeça e acabou indo e chegando quando todos já estavam sentados, estilo entrada triunfal. Ela conheceu Eduardo, o primeiro marido, num teatro. 

“Mas Fidélia? Não conheço santa com tal nome, ou sequer mulher pagã. Terá sido dado à filha do barão, como em forma feminina de Fidélio, em homenagem a Beethoven?” 

Na ópera Fidélio, de Beethoven (1808), Leonora utiliza uma máscara, a de Fidélio, para salvar Florestan, seu marido aprisionado pelo malvado Dom Pizzaro. Fidélia é, portanto, uma viúva fiel ao falecido, mas usa uma máscara.
Tristão também não é o que parece. O jovem passou anos sem dar notícias aos país adotivos e apareceu, de uma hora para outra no Rio, sem objetivo definido para uma visita longa. Deixou de ser comerciante, para estudar Direito, mas acabou se tornando médico. Todavia, não se dedicava à medicina, mas à política. 
Na interação dos dois a maior pista dada por Machado é a comparação de dois encontros presenciados por Aires. Em 12 de setembro, ao chegar de bonde ao centro, Aires encontrou a viúva Noronha que iria tomar o carro. Ao ver o bonde partir, o Conselheiro percebeu Osório, contemplando a viúva:

"Entrei nesta dúvida — se teriam estado juntos na rua ou na loja a que ela veio, ou no banco, ou no inferno, que também é lugar de namorados, é certo que de namorados viciosos, del mal perverso. Achei que não, e compreendi que ele, se acaso a cumprimentou na rua, não ousou falar-lhe, apenas a acompanhou de longe, até que a viu meter-se no bonde e partir."

Poucos dias depois,  em 22 de setembro, outro encontro. Aires encontrou Fidélia na rua. Conversaram um pouco e se despediram. Aires, por amor aos encantos da viúva, resolveu segui-la: 

"No Largo de S. Francisco estava um carro dela, perto da igreja. Íamos da Rua do Ouvidor, a  dez passos de distância ou pouco mais. Parei na esquina, vi-a caminhar, parar, falar ao cocheiro, entrar no carro, que partiu logo pela travessa, naturalmente para os lados de Botafogo. Quando ia a voltar dei  com o moço Tristão, que ainda olhava para o carro, no meio do largo, como se a tivesse visto entrar.  Ele vinha agora para a Rua do Ouvidor, e também me viu; detive-me à espera. Tristão trazia os olhos  deslumbrados, e esta palavra na boca: 
— Grande talento! "

Aires deduziu que a estranha frase dizia respeito ao talento musical da viúva. Mas não está Machado a sugerir ter Aires presenciado um encontro íntimo dos dois frustrado pelo aparecimento do Conselheiro? Por que no primeiro encontro Fidélia tomou um bonde e no segundo um carro particular? 
Quando o casal já estava noivo, Aires escreve:

“Sabiam tudo. Parecia  incrível como duas pessoas que não se viram nunca, ou só de passagem e sem maior 
interesse, parece incrível como agora se conhecem textualmente e de cor". 

Outro ponto fica por conta da epígrafe, a qual somente dei atenção quando li o texto: 

"Em Lisboa sobre o mar, marcas novas mandei lavrar" (Cantiga de Joham Zorro)
"Para ver meu amigo
Que talhou peito comigo
Lá vou madre
para ver meu amado
Que miga peito talhado,
Lá vou madre" (Cantiga do rei Dom Dinis). 

São cantigas portuguesas dos séculos XIII. Por que Machado teria escolhido essas epígrafes? Talvez para sugerir que algo ocorreu em Lisboa, ou seja, os namorados já se conheciam e já tinham uma relação quando Tristão chegou ao Rio de Janeiro. 
Finalmente, o modo como o casal procedeu no final com respeito aos pais postiços, também levanta uma sombra sobre seu caráter, embora Aires sublinhe a tristeza de Fidélia e o esforço de ambos para que os Aguiares os acompanhasse até a Europa. 
A narrativa inicia alguns meses antes da abolição da escravidão no Brasil. O Barão de Santa Pia, antes de falecer, foi ao Rio com o objetivo de libertar seus escravos não por ser abolicionista, pelo contrário, mas para não ter o desgosto de ver o governo interferir na sua propriedade. Em 13 de maio, Aires descreve as comemorações nas ruas do Rio de Janeiro e disse estar satisfeito com o ato da Regente. É no dia seguinte, contudo, que Aires faz a ligação entre a abolição e a narrativa. Ao chegar na casa do casal Aguiar e ver que havia uma reunião e alegria geral, julgou se tratar de uma comemoração pelo fim da escravidão. Não era. O casal comemorava a chegada de uma carta de Tristão anunciando a sua breve chegada. 
"Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular". É essa, uma das grandes frases da literatura brasileira, que dá o tom pelo qual Machado tratou a abolição. Ela pouco afetou a vida das elites, mesmo os que, como Santa Pia, eram donos de escravos. Num segundo momento, já Fidélia proprietária da fazenda ela pensa em vender a propriedade, apesar do apego dos libertos pela sinhá-moça. Um vez acertado o casamento com Tristão, os noivos decidem doar Santa Pia aos libertos para afastar as suspeitas de interesse do rapaz no casamento (mais uma sombra sobre o caráter de Tristão). 

"— Lá se foi Santa Pia para os libertos, que a receberão provavelmente com danças e com lágrimas; mas
também pode ser que esta responsabilidade nova ou primeira..." 

Essa frase incompleta encerra o assunto, demostrando o descaso da elite para com o destino dos negros após a abolição. Não era mais problema deles, nem mesmo de Fidélia, que havia "cativado" os escravos - Machado brinca aqui com os significados da palavra cativar. 
Haveria muito mais para falar dessa obra tão rica: o amor sensual do ancião Aires pela viúva, a reflexão sobre a velhice e a morte, os possíveis paralelos biográficos Aires-Machado. Mas deixo isso para os especialistas. 
O post tem por objetivo fazer justiça a um livro  menos conhecido do mestre de Cosme Velho, encoberto por sua genialidade. 

terça-feira, 19 de março de 2013

A Duquesa de Langeais

A Duquesa de Langeais (25 de janeiro de 1834) - segunda história da História dos Treze

Personagens: Antonieta de Navarreins (Duquesa de Langeais ou irmã Teresa), Armando de Montriveau, Princesa de Blamont-Chauvry, vidama de Pamiers, Duque de Navarreins, Duque de Grandlieu, Juliano, Madre.

A história se passa entre 1818 e 1823. 


Em agosto de 1832, depois de passar um mês em Angoulême em casa de Zulma Carraud, Balzac partiu em uma jornada difícil de oito dias, que lhe custou ainda um corte na perna, para Aix-les-Bains. Lá encontraria uma mulher com quem se correspondia desde o ano anterior. Era ela Claire-Clémence-Henriette-Claudine de Maillé de La Tour-Landry, a Marquesa de Castries. Ela tinha 36 anos e uma história trágica. Fora condenada ao ostracismo pelo Faubourg Saint-Germain por seu envolvimento com o filho de Metternich, o chanceler austríaco. O amante faleceu com tuberculose e Henriette sofreu um acidente que a deixou com um problema na perna. Ela era a nova paixão de Balzac e o romancista gastou o que não possuía para ir juntar-se ao seu grupo em Aix. 
Veja-se a carta que Balzac escreveu à Zulma descrevendo sua paixão:

"Tenho que ir a Aix no ducado de Savóia, correndo atrás de alguém que muito provavelmente procura me fazer de bobo. Trata-se de uma daquelas mulheres aristocráticas que você possivelmente detesta, uma daquelas beldades angelicais que a gente gosta de imaginar com um bom coração - a duquesa por excelência, muito arrogante, amorosa, sagaz, espirituosa, coquete - como nada que eu já tivesse visto! Um daqueles fenômenos dos quais restam hoje poucos exemplos. E ela diz que me ama e quer me trancar num palácio veneziano (...) e deseja que no futuro eu escreva só para ela. Uma daquelas mulheres que se deve adorar de joelhos, quando assim elas desejam, e que é um prazer conquistar".

Passou as próximas semanas tentando conquistar a marquesa. Isso envolvia, além da lábia, gravatas, camisas brancas, botas, luvas, pomadas para o cabelo vindas de Paris. Em 14 de outubro, o grupo rumou para Genebra a caminho da Itália. Tinha certeza que no país da paixão, teria seu prêmio. Mas se precipitou em Genebra. Levou a marquesa à Villa Diodatti, onde partiu para o ataque. 
A marquesa recebeu a investida entre incrédula e incomodada. Considerava Balzac um amigo divertido e lamentava que ele a tomasse por uma mulher que colecionava amantes.  Balzac, humilhado e profundamente ofendido, retornou a Paris. 
Quando escreveu a Duquesa de Langeais, essa história ainda estava viva para Balzac. Balzac descreveu o jogo de que fora vítima, reservando um fim trágico à sua algoz. 
O romance, perturbado por alguns traços de romantismo exagerado, como o convento e a intervenção Dos Treze, é primorosamente construído. 
A história começa com a chegada do Marquês de Montriveau a um convento na costa da Espanha. Ele faz parte da expedição francesa que fora ao país para restabelecer a autoridade de Fernando VII. Mas o marquês tem outro objetivo: há cinco anos procura pelo mundo sua amada que desapareceu de Paris em 1818. Ao assistir uma missa, ouve a voz de uma das freiras, da ordem das carmelitas descalças, e reconhece Antonieta de Navarreins, a antiga Duquesa de Langeais. Utilizando pressão política, Montriveau consegue uma entrevista com a irmã, que se chama agora Teresa. Na entrevista,  que é acompanhada pela Madre, Antonieta diz que não deixará o convento.
Aí Balzac recua na história. Cinco anos antes, a Duquesa de Langeais era uma das rainhas da moda do Faubourg Saint-Germain. Em um casamento de conveniências com o Duque de Langeias, que nunca aparece na história, vivia nos bailes e salões, sendo cortejada pelos elegantes. Ao ver o Marquês de Montriveau, Antonieta se interessou. Era um heroi do período napoleônico que recentemente participara de uma expedição científica pela África, o lhe conferia uma aura de sabedoria e mistério em meio à sociedade frívola de Paris. 
Antonieta decide conquistá-lo: "A Duquesa de Langeais aprendera, jovem ainda, que uma mulher pode deixar-se amar ostensivamente sem ser cúmplice do amor, sem o aprovar, sem o contentar senão com os mínimos adiantamentos do amor e mais de uma sonsa lhe revelara os meios de representar essas perigosas comédias". Contudo, Montriveau não era um dos dândis superficiais aos quais Antonieta estava acostumada. 
Os dois iniciam um duelo verbal de avanços e recuos, no qual a duquesa tenta preservar o amor de Montriveau sem se dar, e ele tenta consumar a paixão. Até que uma série de eventos, que contam com a participação da Confraria dos Treze, levam à separação definitiva dos amantes, justamente quando estão de comum acordo com respeito à paixão. 
Voltando ao convento, Montriveau tentou, com a ajuda dos confrades, resgatar Antonieta, mas encontrou a amada morta em seu claustro. 
O ponto alto do romance é o embate verbal entre Montriveau e Antonieta. 
Na verdade, Balzac apresenta pelas palavras da heroína uma reflexão bem acertada sobre a moral feminina da época, ou seja, a moral que se esperava de uma mulher honesta: "Está apaixonado, ah! eu creio! Deseja-me e me quer para amante, eis tudo. Pois bem, não, a Duquesa de Langeais não descerá até aí (...). Nada me assegura o seu amor. Fala da minha beleza, posso me tornar feia em seis meses, como a princesa minha vizinha. Está encantado com o meu espírito, com a minha graça; meu Deus, há de acostumar-se com eles como se acostumaria ao prazer. (...) Perdida, um dia não me dará outra razão de sua mudança, além das palavras decisivas: não amo mais." Outras heroínas da Comedia Humana como Lady Brandon de O Romeiral e Clara de Beauseant de A Mulher Abandonada entregaram-se e pagaram um alto preço. 
Um aspecto interessante de A Duquesa de Langeais é uma série de comentários de natureza política, que revelam um Balzac reacionário. O escritor dá uma espécie de lição aos conservadores que perdiam terreno na política: " Em lugar de deitar fora as insígnias que chocavam o povo [referindo-se aos aristocratas] e conservar secretamente a sua força, deixou aumentar a força da burguesia, agarrou-se fatalmente às insígnias, e esqueceu invariavelmente, as leis que lhe impunha a sua fraqueza numérica. Um aristocracia que se compõe apenas de um milésimo da sociedade deve, hoje em dia, como outrora, multiplicar os seus meios de ação para opor, nas grandes crises, um peso igual ao das massas populares". 
Paulo Rónai nos conta que essas manifestações eram fruto do despeito e endereçadas à Marquesa de Castries e ao seu tio, Duque de Fitz James, que era líder da oposição monarquista de Luís Felipe. Rónai comenta divertido: "Resistindo às insistências de Balzac, longe estava a marquesa de imaginar que, assim agindo, abalava o futuro do legitimismo e, portanto, da própria França". 

Dica de cinema: A belíssima adaptação para o cinema da Duquesa de Langeais de Jacques Rivette de 2007, Ne touchez pas la hache, não foi distribuída no Brasil. É extremamente fiel ao livro reproduzindo os diálogos e ambientes com maestria. O destaque é para o excelente desempenho da dupla Jeanne Balibar e Guillaume Depardieu, esse em um de seus últimos trabalhos. 
Existe outra adaptação de 1942, La Duchesse de Langeais, de Jacques de Baroncelli, com roteiro de Jean Giraudoux. Esse não consegui ver ainda. 

O episódio da vida de Balzac e a carta são de ROBB,  Graham. Balzac - uma biografia. Sâo Paulo: Cia das letras, 1995. 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Ferragus ou o Chefe dos Devoradores

Ferragus ou o Chefe dos Devoradores (fevereiro de 1833) - primeira história da História dos Treze

Volume VIII: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense (lido entre 12 de fevereiro de 2013 e setembro de 2015)

Personagens: Augusto de Malincourt, vidama de Pamiers, baronesa de Malincourt, Clemência Desmarets, Júlio Desmarets, Justino, Ida Gruget, Viúva Gruget, Ferragus (Henrique), Jacquet.

A história se passa na década de 1820 do século XIX. 

Ferragus é o primeiro de três episódios de História dos Treze. O que essas histórias têm em comum são "os treze", ou seja, treze indivíduos que participavam de uma espécie de confraria, estando associados para ajudar uns aos outros. No prefácio, extremamente enfadonho, Balzac menciona que esses treze homens tinham posições diferentes na sociedade, mas se encontravam unidos por uma espécie de juramento que obrigava os outros doze a auxiliar, de qualquer forma, o irmão que se encontrava com algum problema.
A época que precedeu as revoluções liberais de 1830 e 1848 foi o período áureo das sociedades secretas. Há, na Comédia Humana, referência a diversos grupos desse tipo, como os usurários em Gobseck ou os Cavalheiros da Malandragem em Um Conchego de Solteirão
Pois Ferragus é um dos membros dessa sociedade dos treze, os Devoradores. Segundo Balzac, no prefácio, Devoradores era o nome de uma das tribos de "Companheiros" oriundas da grande associação mística formada entre os obreiros da cristandade para reconstruir o Templo de Jerusalém. 
Sabemos pouco sobre ele. É idoso, já esteve nas galés e tem um filha, por quem está disposto a tudo. Quando a história começa, Ferragus está prestes a obter uma falsa identidade, a do senhor de Funcal, conde português, para poder aparecer na sociedade com a moça. Ela, Clemência Desmarets, era casada com Júlio, corretor de câmbio que enriquecera, mas que desconhecia a origem de sua esposa. 
Todavia, o barão Augusto de Malincourt, jovem aristocrata, apaixona-se por Clemência e passa a segui-la. Uma tarde a surpreende entrando numa casa suspeita e passa a investigar. Descobre então sua relações com Ferragus, que julga serem adulterinas. A partir desse momento, Augusto sofre duas tentativas de assassinato. Acaba alertando Júlio, que passa a suspeitar da esposa. 
No final, quando tudo se esclarece - Júlio descobre que Ferragus é pai de Clemência - é tarde demais. Clemência adoece e morre. E Augusto morre envenenado. Júlio, desesperado, abandona os negócios e passa a viver recluso, assim como Ferragus.
É espantoso saber, por Paulo Rónai, que essa história fez um enorme sucesso. É tediosa  e cheia artifícios que a fazem irrealista como a carta que Ferragus derruba no chão e é encontrada por Augusto, os atentados contra o barão, o casamento de Júlio com Clemência, de uma felicidade que não se encontra nem nos contos de fada (isso quando conhecemos os juízos de Balzac sobre o casamento burguês). Segundo Rónai, as fontes de Balzac aqui são o romance negro inglês e o romance popular francês, que ele utilizou como modelos na sua estreia. 
A alusão ao romantismo é explícita: Balzac dedica as três novelas da História dos Treze a Hector Berlioz, Franz Liszt e Eugène Delacroix, três expoentes do romantismo. 
Mas, apesar de não ser o melhor de Balzac, ele está lá. Veja-se essa passagem em que ele compara Paris com um ser vivo:
"Monstro completo, aliás. Suas águas-furtadas são-lhe a cabeça cheia de ciência e gênio; os primeiros andares, estômagos felizes; suas lojas, verdadeiros pés; deles saem todos os transeuntes e todos os ocupados. E que vida ativa tem o monstro! Apenas o último rodar das últimas carruagens de baile lhe cessa o coração, já os braços se agitam nas barreiras e ele se espreguiça lentamente. Todas as portas bocejam, giram sobre os gonzos, como as membranas de uma imensa lagosta, invisivelmente manobradas por trinta mil homens ou mulheres, cada um dos quais vive num espaço de seis pés quadrados, onde tem uma cozinha, um ateliê, um leito, filhos e um jardim, onde não vê claro e onde tudo deve ver." 

Na foto, vemos a nova edição da Comédia Humana que está sendo publicada desde o final de 2012 pela Biblioteca Azul, um divisão da editora Globo. Uma inciativa louvável já que a obra se encontrava esgotada dede o final da década de 1980. 










quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Ilusões Perdidas


Ilusões Perdidas (1835-1853)

Volume VII: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Provinciana (Lido entre 16 de julho de 2011 e 19 de dezembro de 2012)

Personagens: Jerônimo Nicolau Séchard, David Séchard, Luciano Chardon ou Luciano de Rubempré, senhora Chardon, Eva Chardon, senhora de Bargeton (Maria Luísa Anais de Negrepelisse), senhor de Bargeton, Padre Niollant, barão Sixto du Châtelet, senhor Postel, Amélia de Chandour, Estanislau de Chandour, Astolfo de Saintot, Elisa de Saintot, Adriano de Bartas, Josefina de Bartas, Alexandre de Brebain, Carlota de Brebian, Conde Jaques de Sénoches, senhora Zefirina de Sénoches, Francis de Hautoy Francisca, Marquês de Pimentel, Marquesa de Pimentel, Barão e Baronesa de Rastingnac (pais de Eugênio de Rastignac), senhora du Brossard, senhorita du Brossard, Gentil, Albertina, senhora d´Espard, senhor de Marsay, Felix de Vandenesse, general Montriveau, Canalis, Eugênio de Rastignac, Estevão Losteau, Florina, Finot, Feliciano Vernout, Emílio Blondet, Nathan, Dauriat, Camusot, Corália, D´Arthez, Bianchon, Leão Giraut, Miguel Chrestien, Girondeau, Cláudio Vignon, Condessa du Montcornet, senhorita des Touches (Camilo Maupin), Fendant, Cavalier, Courtois, senhora Courtois, Cérizet, irmãos Cointet, Kolb, Marion, Pedro Petit-Claud, Vitor Doublon, reverendo Carlos Herrera. 

A história se passa entre 1819 e 1842.

Ilusões Perdidas foi a primeira obra de Balzac que li, aos 22 anos. Não sabia quase nada sobre o autor, tampouco sobre a Comédia Humana. Gostei muito do livro e foi a partir daí que nasceu a ideia de ler toda a Comédia Humana
Ilusões Perdidas é uma espécie de síntese da Comédia Humana. É só ver a galeria de personagens acima que não é exaustiva. Além disso, Balzac transita da província para Paris e de Paris para a província, com aquelas caracterizações ambientais tão tipicamente balzaquianas. 
Apesar do imenso número de personagens, Ilusões Perdidas conta a história de um único: Luciano de Rubempré. Paulo Rónai considera Luciano uma das criações mais completas de Balzac, não tanto pelo personagem  mas por representar um tipo característico de uma época: os jovens que entre 1820 e 1840 foram inspirados pelo exemplo de Napoleão Bonaparte. Datam dessa época diversas narrativas de ascensão e queda, com as de Luciano e Rastiganc ou Julien Sorel, de Stendhal. 
A obra está dividida em três partes: Os dois poetas, Um grande homem da província em Paris e Os sofrimentos do Inventor.
Em Os dois poetas conhecemos o nosso herói em seu meio, a cidade de Angoulême. Filho de um boticário falecido, Luciano sonha com a glória literária. O outro poeta é David Séchard, também personagem notável. Com tendências à invenção, David herda uma tipografia de seu pai, o avarento Jerônimo Séchard, que praticamente vende a empresa ao filho, deixando-o em sérias dificuldades. Aqui Balzac nos apresenta o mundo das tipografias, que ele conhecia muito bem, com todos os seus costumes, vocabulário e problemas. David é o melhor amigo de Luciano e ao longo do romance se casará com sua irmã, Eva. David, Eva e a senhora Chardon, mãe de Luciano, nee de Rubempré, julgam o rapaz um grande talento literário e estão dispostos a fazer sacrifícios para que ele tenha sucesso em Paris. 
Mas o primeiro sucesso de Luciano é no salão da senhora de Bargeton. Maria Luísa Anais de Negrepelisse é quase uma "irmã" de Diná Piédefer, a Musa do Departamento. Culta, educada e casada com um homem bem mais velho, ela brilha na sociedade provinciana de Angoulême. E apaixona-se pelo poeta, "belo como um deus grego". Atento à relação dos dois, está o Barão Sixto du Châtelet, há muito interessado em Luísa. 
Luísa arrisca seu casamento levando seu protegido a Paris, onde pretende introduzi-lo à sociedade através de sua parente, a Marquesa d´Espard. Inicia-se a parte mais importante da história, Um grande homem da província em Paris
Uma das melhores passagens é quando Luciano, comparando Luísa com as parisienses, dá-se conta que ela é uma provinciana, e Luísa, comparando seu amado com os dândis de Paris, percebe que ele parece mesmo o filho de um boticário de província. Logo, Luísa, incentivada pela Marquesa, percebe o equívoco e passa a ignorar Luciano. É esse desprezo que motiva Luciano a vencer na cidade grande. Nesse ponto, ele encontra nosso já conhecido Estevão Lousteau (de Beatriz, Um Conchego de Solteirão e Musa do Departamento), jornalista em Paris. Aqui Balzac nos apresenta aos primórdios do jornalismo, nas palavras de Rónai "o escritor pegou in statu nascendi uma das instituições essenciais do século XIX, quando ninguém lhe percebia ainda a importância transcendental". Balzac era um crítico feroz da imprensa e se gabava de não dever favores a jornalistas. E a crítica que faz ao jornalismo em Ilusões Perdidas é deliberada.
"Os costumes do Jornal constituem um desses assuntos imensos que exigem mais de um livro e de um prefácio. Aqui o autor pintou os começos da doença que atingiu nos dias de hoje o seu completo desenvolvimento. Em 1821, o Jornal encontrava-se em suas vestes de inocência comparado com o que é em 1839. Se, porém, o autor não pode abraçar a chaga em toda a extensão, tê-la-á, pelo menos, enfrentado sem medo" (Balzac no prefácio da primeira edição de Um grande homem da província em Paris). 
Luciano mergulha, então, no mundo dos jornalistas, que negociam artigos, entradas para os teatros, atrizes. Aqui o mundo do jornal encontra-se com o mundo das editoras, dos teatros, enfim, "do dinheiro agindo desavergonhada e impiedosamente". O poeta torna-se amante de uma jovem atriz, Corália, passa a escrever artigos sob encomenda, consegue publicar seus livros, As boninas e O archeiro de Carlos IX, passa a se vestir na última moda parisiense e andar em companhia  de Emílio Blondet, de Nathan, de  Felix de Vandenesse, enfim, dos homens da moda. 
A advertência vem de Daniel D´Arthez, o escritor devotado ao seu ideal, que recusa a vender sua pena em troca de glória. Segundo Stefan Zweig, Luciano e D´Arthez formam um par que encerra a dupla natureza de Balzac: "Nessa obra Balzac apresenta em duas personagens o que será ou poderá ser um escritor se este persistir rigorosa e fielmente em si e em sua obra ou se ceder à tentação de uma celebridade rápida e indigna. Luciano de Rubempré é seu perigo mais íntimo, e Daniel D´Arthez, o seu mais íntimo ideal. Balzac conhece a duplicidade de sua natureza, sabe que nele existe latente um escritor que inviolavelmente aspira ao máximo, recusa a si toda a concessão, repele todo o acordo e está inteiramente só no meio da sociedade. Mas igualmente reconhece a sua segunda natureza, reconhece em si o folgazão, o pródigo, o aristocrata,  o escravo do dinheiro, o indivíduo que constantemente incorre nas seduções do luxo". 
Mas Luciano prossegue e consegue chamar a atenção de Luísa, que promete conseguir junto ao rei que Luciano possa adotar o nome nobre de sua mãe. Mas tudo dá errado. Luciano faz uma aposta política equivocada, Corália cai em desgraça no teatro, adoece a acaba morrendo, os pretensos amigos jornalistas o abandonam e ele se vê obrigado a voltar incógnito para a província. 
Na terceira parte, Os sofrimentos do Inventor, é David Séchard o personagem principal. Aqui Balzac explora mais um aspecto de sua personalidade, a de inventor desastrado. David lutava com dificuldades para manter a sua tipografia, antiquada em comparação com as outras da época, e tentava descobrir uma fórmula para fabricar papel branco mais barato. Balzac explica em detalhes as suas experiências. Ao mesmo tempo, os inescrupulosos irmãos Cointet, tipógrafos concorrentes de David, fazem de tudo para roubar suas descobertas e para dificultar a sua vida. Balzac aqui envereda para o direito comercial, narrando com minúcias o protesto de uma letra. 
Luciano, derrotado, é ainda assim homenageado pelos seus conterrâneos. Volta e encontrar Luísa, agora casada com Sixto du Châtelet, que tornou-se prefeito de Charente. Mas, acaba, por um golpe do traidor Cérizet, empregado de David, sendo responsável pela prisão do cunhado. 
No final, David é libertado, abandona as invenções, e com a herança recebida do pai, passa a ter uma vida tranquila com Eva a os filhos. 
Luciano vai embora arrasado de Angoulême e encontra em seu caminho o misterioso reverendo espanhol Carlos Herrera.
Paulo Rónai considera Ilusões Perdidas o mais balzaquiano dos romances da Comédia Humana e aponta que ele foi subestimado  pelos contemporâneos do escritor, pelo fato de Balzac ter, como era seu costume, apresentado várias versões da obra: "Aparecem, pois, nesse livro imenso, quase todos os ambientes de Balzac, e não é pouco. Quase todos os assuntos também: a ambição; a monomania; o amor sob várias formas (o da mulher madura ao adolescente, o da cortesã ao rapaz bonito, o da esposa ao marido); as lutas do gênio com o ambiente; a conspiração da sociedade contra o indivíduo saído de sua esfera; as alegrias e as misérias da glória; a luta de gerações; a vingança do amor-próprio ferido; o grande tema de Paris; a chaga enorme devorando a França...". 



quinta-feira, 22 de março de 2012

O Gabinete de Antiguidades

O Gabinete das Antiguidades (julho de 1837) - segunda história de "As rivalidades"


Personagens: Carlos-Vitor-Ângelo-Carol (Marquês d'Esgrignon); senhorita Armanda d'Esgrignon; Chesnel (tabelião); senhor du Ronceret (presidente do Tribunal); Fabiano du Ronceret (filho do Presidente do Tribunal); senhor du Croiser (o mesmo senhor du Bousquier); senhora du Bousquier (a Solteirona); Virtuniano (filho do Marquês); Cavaleiro de Valois; de Marsay; Rastignac, Emílio Blondet; senhora de Mafrigneuse (Diana); Camusot (juiz de instrução); senhora Camusot (Maria Cecília Amélia Thiron); senhor Blondet (juiz). 

 A história se passa entre 1822 e 1830. 

Gabinete das Antiguidades é uma história gêmea de A Solteirona. Em A Solteirona conhecemos o salão burguês de Alençon, a residência de du Bousquier e de Rosa-Maria-Vitória. Aqui conhecemos o salão nobre, o palacete do marquês d'Esgrignon, alcunhado de “gabinetes das antiguidades”. Incompreensível - e Paulo Rónai - o menciona na introdução - é a troca do nome de du Bousquier por du Croisser, já que se trata da mesma personagem. 
A história explora a desatrada educação de Virtuniano, o único herdeiro da antiquíssima casa d'Esgrignon. Criado na província com a convicção de seu velho pai de que representava a fina flor da nobreza francesa e paparicado pela tia Armanda, que lhe fazia todas as vontades, o jovem tinha tudo para produzir um desastre na família. Um desastre que é anunciado já nas primeiras páginas. Ocorre que havia alguém em Alençon interessado nesse infortúnio: o invejoso burguês du Croiser, que fora rejeitado por Armanda e jamais fora aceito no gabinete das antiguidades. Du Croiser percebe que Virtuniano seria o veículo de sua vingança. 
O rapaz, em 1822, foi enviado para fazer sua estreia em Paris. Levava cartas de recomendação para nobres a ele aparentados. Contudo, a ideia de nobreza vigente no “gabinete das antiguidades” era muito diferente da ideia de nobreza da Restauração: “Entregara, na véspera, uma carta de seu pai ao Duque de Lenoncourt, um dos fidalgos franceses mais favorecidos pelo Rei; encontrara-o no seu magnífico palácio, no meio de aristocráticos esplendores; no dia seguinte tornou a vê-lo no Bulevar, a pé, com um guarda-chuva na mão, sem nenhuma distinção exterior, sem seu cordão azul de que um cavaleiro das ordens, outrora, jamais se separava. Esse duque e par, Primeiro Gentil-Homem Camareiro do Rei, não tinha podido, apesar de sua alta polidez, reter um sorriso, enquanto lia a carta do marquês, seu parente. Esse sorriso explicara a Virtuniano que havia mais de sessenta léguas entre os Gabinete das Antiguidades e as Tulherias: havia uma distância de vários séculos”. 
O dinheiro era pouco, já que o marquês perdera seus bens durante a Revolução e não os recuperara. A ajuda vinha do fiel tabelião Chesnel, que usava sua renda pessoal para ajudar a família d'Esgrignon. 
Em Paris, Virtuniano entregou-se à boa vida, gastando em jantares, trajes, jogo. Tornou-se o favorito de uma mulher da moda, a duquesa de Mafrignouse, o que produziu gastos ainda mais vultosos. Necessitando de dinheiro, Virtuniano assinou letras a serem descontadas justamente pelo banco de du Croiser. O burguês deu-lhe crédito ilimitado, de modo que a sua dívida ia aumentando. Quando o valor estava já bastante elevado, du Croiser foi cobrar a dívida de Chesnel. Nesse meio tempo, Virtuniano, desesperado, falsificou uma letra para conseguir mais dinheiro. Chesnel, então, organizou uma operação de guerra para salvar a honra da família d'Esgrignon. Para isso contou com a ajuda do juiz Camusot, cuja esposa desejava que o marido fosse promovido para Paris, e do senhor Blondet, que desejava que o filho José fosse nomeado juiz suplente para que pudesse desposar uma herdeira rica. Diana Mafrignouse também ajudou, tendo até se deslocado a Alençon. 
Assim, o jovem Virtuniano passou somente algumas horas na prisão e seu velho pai não ficou sabendo de nada.  
No final, Chesnel e o marquês faleceram. E Virtuniano casou com a senhorita Duval, sobrinha e única herdeira de du Croiser. 
Esse romance tem características típicas de Balzac. A principal são as descrições. Quando estamos no auge da ação e queremos saber o que irá acontecer com Virtuniano, há páginas e páginas descrevendo em detalhes as moradias dos senhores Blondet e Camusot!
Creio que o diferencial do Gabinete das Antiguidades, em conjunto com A Solteirona, é explicar o significado da Restauração. Passagens como o jantar de Virtuniano com os burgueses da moda, no qual Blondet afirma: “Não há mais guerra contra o cardeal, nem há mais o campo do Drap d'Or. Enfim, você Conde d'Esgrignon, está ceando com um senhor Blondet, filho segundo de um miserável juiz de província, a quem você, lá, não estendia a mão e que, dentro de dez anos, poderá sentar-se ao seu lado, entre os pares do reino. Depois de tudo isso, que os nobres creiam em si mesmos se puderem!”. Diana é ainda mais objetiva, escandalizando os nobres da província: “Estão todos loucos aqui? (...) Querem então ficar no século XV quando já estamos no século XIX? Meus caros filhos, não há mais nobreza; o que há agora é apenas aristocracia. O código civil de Napoleão matou os pergaminhos como o canhão já matara o feudalismo. Fica-se muito mais nobre do que se é, quando se tem dinheiro. Casa-se com quem quiser, Virtuniano; enobrecerá sua mulher, e eis o mais sólido dos privilégios que ainda restam à nobreza da França”. 
Balzac explica melhor do que qualquer professor de história como o espírito da Restauração chegou ao interior da França e como a Revolução Francesa mudou o mundo para sempre. 
Paulo Rónai aponta as semelhanças entre O Gabinete das Antiguidades e Beatriz: “a atmosfera anacrônica das casas du Guénic e d'Esgrignon, os dois velhos chefes de família igualmente veneráveis e fossilizados; a santidade das mulheres que os assistem: a sra. du Guénic e a srta. d'Esgrignon; o fato de ambos terem um filho único, fruto de um casamento tardio entre pai velho e mãe moça, e de esse filho, mimado e viciado, ser belo, encantador e sem nenhuma força moral; a conspiração que se forma em ambos os ambientes para salvar esse filho predileto. (...) Tantas analogias não podem ser fortuitas: para Balzac, Calisto e Virtuniano eram, evidentemente, duas encarnações do mesmo tipo social. As divergências entre os dois romances mostrarão, entretanto, toda a riqueza de recursos de Balzac: em Beatriz, a conspiração é mundana, aqui, jurídica; a decadência de Calisto é efeito de uma paixão, a de Virtuniano, de uma vingança; o solar dos du Guénic está em luta com um salão literário, o gabinete de antiguidades, com um salão burguês etc."  Como curiosidade, existe uma personagem comum entre as duas histórias: Fabiano du Ronceret, filho do presidente do Tribunal. Em O Gabinete das Antiguidades, ele é o cínico amigo de Virtuniano que passa informações do jovem para du Croiser. Em Beatriz, mais velho, ele aceita casar com a senhora Schontz, amante de Arttur de Rocehfilde, que assim volta para a esposa Beatriz, que deixa Calisto.


Quem me acompanha deve ter percebido a diminuição das minhas postagens. 
Estou fazendo doutorado e o tempo para a literatura está reduzido. Mas o blog continuará ativo, somente com posts mais espaçados. 
Estou preparando As Ilusões Perdidas, obra que é uma síntese da Comédia Humana. Imperdível. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A solteirona

A Solteirona (Paris, outubro de 1836) - primeira história de "As Rivalidades"

Personagens: Susana, Cavaleiro de Valois, senhora Lardot, senhor Du Bousquier, senhora Granson, Atanásio Granson, senhorita Courmon (Rosa-Maria-Vitória), padre Sponde, Jacquelin, Josette, Marieta, senhor de Troisville, senhorita Armanda d'Esgrignon. 

A história se passa entre 1816 e 1830. 

Balzac, que odiava solteirões, veja-se Pierrete e o Cura de Tours, apresenta aqui uma amável solteirona, embora dê a ela um destino infeliz. 
A Solteirona conta a história da disputa de dois homens pela mão da senhorita Rosa-Maria-Vitória Courmon, o melhor partido de Alençon, embora já estivesse na faixa dos quarenta anos. De um lado, representando a monarquia, estava o Cavaleiro de Valois, um remanescente do Ancien Régime; “Sua pele, já tão branca, parecia mais branca ainda pelo uso de algum preparado secreto. Sem usar perfumes, o cavaleiro exalava como que um aroma de mocidade que refrescava o ambiente. Suas mãos de fidalgo, cuidadas como as de uma dama, atraíam o olhar pelas unhas cor-de-rosa e bem aparadas”. Dou outro lado, representando a república estava o grosseiro senhor Du Bousquier, melhor caracterizado pela sua moradia: “A lareira de pedra mal pintada contrastava com um formoso relógio, desonrado pela vizinhança de uma par de castiçais ordinários. A escada, por onde todos subiam sem limpar os sapatos, nunca tinha levado uma só mão de tinta. As portas, finalmente, mal pintadas por um operário da região, espantavam o olhar com suas tonalidades berrantes. Essa casa era igual à época simbolizada por du Bousquier - oferecia um amontoado confuso de porcarias e coisas magníficas”. Du Bousquier fizera fortuna como fornecedor de víveres para o exército revolucionário, mas caíra em desgraça com Napoleão. Aguardava em Alençon uma oportunidade para refazer seu patrimônio.  
Rosa-Maria-Vitória não casara na época da Revolução, pois desejava desposar um fidalgo e temia o tribunal revolucionário. Entre 1804 e 1815, eram escassos os bons partidos em função da guerra. Assim, chegou aos quarenta anos tendo que se contentar com um noivo “indígena”. 
A história começa com uma manobra do Cavaleiro de Valois para obter a senhorita. Ele convenceu a bela engomadeira Susana, que desejava ir para Paris, a dizer que estava grávida de Du Bousquier. Assim, Susana conseguiu dinheiro do republicano para a viagem, e, além disso, procurou a Sociedade Maternal, que apoiava jovens solteiras grávidas, que era presidida pela senhorita Courmon. Assim, a solteirona ficaria com a impressão de que Du Bousquier era um libertino. "
Em parte o plano deu certo. Ocorre que o padre Sponde, tio de Rosa, recebeu uma carta de do senhor de Troisville, militar, neto de um amigo, que desejava se estabelecer em Alençon. A solteirona julgou que era seu marido que chegava. Mandou arrumar a casa, reformar os quartos, organizar a melhor prataria e servir as melhores bebidas para esperar o visitante. Na recepção oferecida a ele, diante de toda a sociedade da província, Rosa ficou sabendo que Trosville era casado há dezesseis anos e tinha quatro filhos. Humilhada, ela decidiu casar com o primeiro solteiro que aparecesse. E foi Du Bousquier. “Enfim, a República impotente derrotara a valente Aristocracia, em em plena Restauração.” 
Nesse meio tempo, o jovem Atanásio Granson, secretamente apaixonado pela senhorita Courmon suicidou-se  afogando-se no rio. 
Du Bousquier, passando a administrar a fortuna da esposa, prosperou finaceiramente. Também inclinou a casa Courmon para o partido liberal: “A casa Courmon, sob a hábil influência de Du Bousquier, constituía essa opinião fatal que, sem ser verdadeiramente liberal nem resolutamente monarquista, gerou os 221 no dia em que se definiu a luta entre o mais augusto, o maior, o único poder verdadeiro, a Realeza, e o mais falso, o mais inconstante, o mais opressivo dos poderes, o poder chamado parlamentar, exercido pelas assembleias eletivas”. 
O cavaleiro de Valois, tendo perdido a contenda, declinou fisicamente ”Enfim, as ruínas tão sabiamente reprimidas fenderam esse belo edifício e provaram o quanto é grande o poder da alma sobre o corpo: pois que o homem louro, o cavaleiro, o jovem herói morreu quando a esperança falhou”. 
O cavaleiro faleceu em 1830, quando Du Bousquier já era Recebedor geral. E a senhora Du Bousquier, aos sessenta anos, revelou a uma amiga que não suportava a ideia de morrer donzela, confirmando o que Balzac insinuara diversas vezes: que Du Bousquier, assim como o regime que ele representava, era impotente.
A descrição da casa da solteirona é tão vívida, que provavelmente corresponde a algum lugar real que Balzac conheceu.  É muito interessante a ideia de fazer tipos representaram ideias políticas. E fazer da disputa de uma mulher uma alegoria da disputa pelo poder político. 
A Solteirona não é o melhor de Balzac, mas tem tudo de melhor de Balzac.

sábado, 31 de dezembro de 2011

O mal que ronda a terra

O mal que ronda a terra: um tratado sobre as insatisfações do presente. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. Tradução: Celso Nogueira.

Conheci Tony Judt quando encontrei em uma livraria a obra Reflexões sobre um século esquecido. É um livro que reproduz resenhas publicadas, em geral, na New York Rewiew of Books. É estranho ler resenhas longas de livros não lidos, pois não lera a maioria dos livros resenhados. Mas as obras eram quase pretextos para revisões excelentes de temas importantes do século XX: a guerra fria, o conflito entre Israel e Palestina, o leste europeu depois do fim do comunismo, a política nos Estados Unidos e na Europa, sem falar nas biografias de intelectuais que marcaram o século passado. Me apaixonei pela clareza do texto de Judt. E, claro, fui buscar outras obras.
Tenho lido muitos textos sobre o mundo depois da guerra fria. E percebo uma certa convergência entre autores que adotam perspectivas teóricas muito diversas. Erik Hobsbawm, Francis Fukuyama, Immanuel Wallerstein, Robert Gilpin consideram que é preciso fazer alguma coisa para controlar os efeitos deletérios da globalização.
Pois, Tony Judt, em O mal que ronda a terra, enfrenta justamente essa questão.
Judt inicia chamando a atenção para o fato de que "do final do século XIX até os anos 1970, as sociedades ocidentais avançadas estavam todas se tornando menos desiguais". Mas "no decorrer dos últimos trinta anos nós jogamos tudo isso fora." Apesar do aumento bruto da riqueza mundial, a desigualdade, ou seja, a distância entre ricos e pobres, aumenta mesmo nos países mais ricos. O autor destaca que a aceitação passiva dessa realidade, como se fosse natural, bem como o caráter materialista e egoísta da vida humana contemporânea datam da década de 1980.
A partir desse ponto, Judt passa a fazer uma revisão histórica para compreender como se chegou a esse ponto. Foram os efeitos da Grande Depressão e seus desdobramentos sinistros que fizeram com que conservadores anti-comunistas como Franklin Roosevelt, Charles de Gaulle e Clement Atlee aceitassem e patrocinassem a intervenção do estado na economia. "Em parte, por que todos temiam as implicações de um retorno aos horrores de um passado recente, e se mostravam dispostos a restringir a liberdade do mercado em nome do interesse público".
O economista que se dedicou a esse desafio foi John Maynard Keynes. Keynes viveu o final da pax britânica e viu o mundo em que vivia (nasceu em 1883) desmoronar, levando vidas, países, riqueza material, ideias em que se baseavam sua cultura e classe social. Ele começou a se dedicar ao estudo da incerteza. E percebeu que um dos maiores atrativos do nazismo e do fascismo eram a autoridade centralizada e o planejamento. Muitos que jamais apoiariam Hitler, o festejaram quando reduziu o desemprego na Alemanha. A grande questão para os políticos do pós segunda guerra era: como evitar uma nova grande depressão e o apelo ao autoritarismo que esse tipo de situação gera? Como evitar a atração do socialismo soviético?
O estado de bem estar social ou de seguridade social foi patrocinado por políticos de diversas orientações partidárias nos diversos países da Europa e dos Estados Unidos. A política do universalismo, que ofereceu à classe média o mesmo acesso a serviços públicos destinados aos pobres, comprometeu-as com as instituições liberais. Foram as classes médias desempregadas e empobrecidas que primeiro apoiaram o fascismo. Elas se tranformaram no esteio da democracia liberal (Francis Fukuyama em texto denominado The Future of History se pergunta se a democracia liberal sobreviverá com o declínio da classe média causado pela globalização).
Mas o tempo passou. E a geraçào que entrou na universidade na década de 1960 só conhecia os horrores do entre guerras de ouvir falar. Eles "só conheceram um mundo de chances maiores, serviços médicos e educacionais generosos, perspectivas otimistas de mobilidade social e - acima de tudo, talvez - uma sensação de segurança indefinível, mas onipresente." Para Judt, o conflito de gerações na década de 1960 transcendeu as questões de classe e nacionalidade. Em função da televisão, dos rádios portáteis e da internacionalização da cultura popular uma grande brecha se abriu entre a geração dos anos 1960 e a geração dos seus pais. A palavra de ordem da época era o individualismo: "a afirmação da exigência pessoal de liberdade privada maximizada e irrestrita para exprimir desejos autônomos, que fossem respeitados e institucionalizados pela sociedade como um todo". Os objetivos comuns da geração anterior foram substituídos por objetivos privados. "Na verdade, muitos radicais dos anos 1960 eram defensores entusiasmados de escolhas impostas, quando elas afetavam povos distantes que pouco conheciam. Em retrospecto, chama a atenção a imensa quantidade de pessoas, na Europa e nos Estados Unidos, que proclamavam seu entusiasmo pela revolução cultural de Mao Tse Tung, ditatorial e unificadora, enquanto definiam a reforma cultural doméstica como a maximização da autonomia e da iniciativa privada".
O autor julga que o marxismo, que era mais retórico do que real,  encobria uma postura egoísta da esquerda nessa época: o movimento estudantil estava mais preocupado com o horário do fechamento do portão das universiades e com usar roupas menos formais nas aulas do que com as condições sociais dos trabalhadores.
Judt esclarece de onde vêm as ideias econômicas que prosperam no mundo atual. Os economistas da Universidade de Chicago as retiraram dos textos de economistas da Europa central: Friedrich Hayek, Joseph Shumpeter, Karl Popper e Peter Drucker, entre outros. Esse teóricos se dedicaram a responder a mesma questão de Keynes - como a Europa liberal afundou, dando lugar ao fascismo. Mas deram uma resposta bastante diferente: o único caminho para defender o liberalismo e a sociedade aberta era manter o estado fora da vida econômica. Eles previram o fracasso do estado de bem estar social e, por muito tempo, seus pares (todos emigraram para o ocidente) julgavam que haviam cometido um erro de cálculo. Foi quando o estado social começou a enfrentar dificuldades que eles obtiveram uma plateia.
Na sequência, Judt analisa como essa geração, ao chegar ao poder na década de 1980, desmontou o estado de bem estar social. Fala da privatição descontrolada e usa como exemplo o sistema ferroviário inglês que foi privatizado na era Thatcher. O resutado é um sistema caro, ineficiente, que tem que ser subsidiado pelo Estado e é o mais inseguro da Europa ocidental. Aqui ele levanta a questão dos custos sociais, culturais e ambientais que devem ser levados em conta, juntamente com os econômicos.
O autor considera que uma das piores consequências da demolição do serviço público é a crescente dificuldade de compreender o que temos em comum com as outras pessoas. Por isso, a instituição ícone de nossa época é o condomínio fechado, "símbolo do reconhecimento descarado do desejo de se isolar de outros membros da sociedade, assim como reconhecimento formal da incapacidade ou omissão do Estado (ou do município) em impor sua autoridade sobre um espaço público contínuo".  Judt julga que essa perda do senso de interesses em comum não é restrita a propietários ricos: nos Estados Unidos estudantes judeus ou afro-americanos muitas vezes optam por morar em dormitórios exclusivos, comer sepradamente e se matricular em cursos étnicos.
O que fazer diante desse quadro? Tony Judt diz que não podemos esquecer o passado, viver como se o século XX não tivesse existido. Ele defende abertamente o fortalecimento do papel do Estado, ainda que reconheça a ineficiência do mesmo em diversas esferas. E  diz que temos que começar a falar sobre todas essas coisas. Por isso, escreveu o livro.
O mal que ronda a terra foi publicado em fevereiro de 2010. Tony Judt faleceu precocemente em agosto do mesmo ano. É uma pena não poder mais contar com seu texto lúcido e coerente. Felizmente, ele deixou uma vasta obra e, principalmente, ideias.

Feliz Ano Novo!