sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A solteirona

A Solteirona (Paris, outubro de 1836) - primeira história de "As Rivalidades"

Personagens: Susana, Cavaleiro de Valois, senhora Lardot, senhor Du Bousquier, senhora Granson, Atanásio Granson, senhorita Courmon (Rosa-Maria-Vitória), padre Sponde, Jacquelin, Josette, Marieta, senhor de Troisville, senhorita Armanda d'Esgrignon. 

A história se passa entre 1816 e 1830. 

Balzac, que odiava solteirões, veja-se Pierrete e o Cura de Tours, apresenta aqui uma amável solteirona, embora dê a ela um destino infeliz. 
A Solteirona conta a história da disputa de dois homens pela mão da senhorita Rosa-Maria-Vitória Courmon, o melhor partido de Alençon, embora já estivesse na faixa dos quarenta anos. De um lado, representando a monarquia, estava o Cavaleiro de Valois, um remanescente do Ancien Régime; “Sua pele, já tão branca, parecia mais branca ainda pelo uso de algum preparado secreto. Sem usar perfumes, o cavaleiro exalava como que um aroma de mocidade que refrescava o ambiente. Suas mãos de fidalgo, cuidadas como as de uma dama, atraíam o olhar pelas unhas cor-de-rosa e bem aparadas”. Dou outro lado, representando a república estava o grosseiro senhor Du Bousquier, melhor caracterizado pela sua moradia: “A lareira de pedra mal pintada contrastava com um formoso relógio, desonrado pela vizinhança de uma par de castiçais ordinários. A escada, por onde todos subiam sem limpar os sapatos, nunca tinha levado uma só mão de tinta. As portas, finalmente, mal pintadas por um operário da região, espantavam o olhar com suas tonalidades berrantes. Essa casa era igual à época simbolizada por du Bousquier - oferecia um amontoado confuso de porcarias e coisas magníficas”. Du Bousquier fizera fortuna como fornecedor de víveres para o exército revolucionário, mas caíra em desgraça com Napoleão. Aguardava em Alençon uma oportunidade para refazer seu patrimônio.  
Rosa-Maria-Vitória não casara na época da Revolução, pois desejava desposar um fidalgo e temia o tribunal revolucionário. Entre 1804 e 1815, eram escassos os bons partidos em função da guerra. Assim, chegou aos quarenta anos tendo que se contentar com um noivo “indígena”. 
A história começa com uma manobra do Cavaleiro de Valois para obter a senhorita. Ele convenceu a bela engomadeira Susana, que desejava ir para Paris, a dizer que estava grávida de Du Bousquier. Assim, Susana conseguiu dinheiro do republicano para a viagem, e, além disso, procurou a Sociedade Maternal, que apoiava jovens solteiras grávidas, que era presidida pela senhorita Courmon. Assim, a solteirona ficaria com a impressão de que Du Bousquier era um libertino. "
Em parte o plano deu certo. Ocorre que o padre Sponde, tio de Rosa, recebeu uma carta de do senhor de Troisville, militar, neto de um amigo, que desejava se estabelecer em Alençon. A solteirona julgou que era seu marido que chegava. Mandou arrumar a casa, reformar os quartos, organizar a melhor prataria e servir as melhores bebidas para esperar o visitante. Na recepção oferecida a ele, diante de toda a sociedade da província, Rosa ficou sabendo que Trosville era casado há dezesseis anos e tinha quatro filhos. Humilhada, ela decidiu casar com o primeiro solteiro que aparecesse. E foi Du Bousquier. “Enfim, a República impotente derrotara a valente Aristocracia, em em plena Restauração.” 
Nesse meio tempo, o jovem Atanásio Granson, secretamente apaixonado pela senhorita Courmon suicidou-se  afogando-se no rio. 
Du Bousquier, passando a administrar a fortuna da esposa, prosperou finaceiramente. Também inclinou a casa Courmon para o partido liberal: “A casa Courmon, sob a hábil influência de Du Bousquier, constituía essa opinião fatal que, sem ser verdadeiramente liberal nem resolutamente monarquista, gerou os 221 no dia em que se definiu a luta entre o mais augusto, o maior, o único poder verdadeiro, a Realeza, e o mais falso, o mais inconstante, o mais opressivo dos poderes, o poder chamado parlamentar, exercido pelas assembleias eletivas”. 
O cavaleiro de Valois, tendo perdido a contenda, declinou fisicamente ”Enfim, as ruínas tão sabiamente reprimidas fenderam esse belo edifício e provaram o quanto é grande o poder da alma sobre o corpo: pois que o homem louro, o cavaleiro, o jovem herói morreu quando a esperança falhou”. 
O cavaleiro faleceu em 1830, quando Du Bousquier já era Recebedor geral. E a senhora Du Bousquier, aos sessenta anos, revelou a uma amiga que não suportava a ideia de morrer donzela, confirmando o que Balzac insinuara diversas vezes: que Du Bousquier, assim como o regime que ele representava, era impotente.
A descrição da casa da solteirona é tão vívida, que provavelmente corresponde a algum lugar real que Balzac conheceu.  É muito interessante a ideia de fazer tipos representaram ideias políticas. E fazer da disputa de uma mulher uma alegoria da disputa pelo poder político. 
A Solteirona não é o melhor de Balzac, mas tem tudo de melhor de Balzac.

sábado, 31 de dezembro de 2011

O mal que ronda a terra

O mal que ronda a terra: um tratado sobre as insatisfações do presente. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. Tradução: Celso Nogueira.

Conheci Tony Judt quando encontrei em uma livraria a obra Reflexões sobre um século esquecido. É um livro que reproduz resenhas publicadas, em geral, na New York Rewiew of Books. É estranho ler resenhas longas de livros não lidos, pois não lera a maioria dos livros resenhados. Mas as obras eram quase pretextos para revisões excelentes de temas importantes do século XX: a guerra fria, o conflito entre Israel e Palestina, o leste europeu depois do fim do comunismo, a política nos Estados Unidos e na Europa, sem falar nas biografias de intelectuais que marcaram o século passado. Me apaixonei pela clareza do texto de Judt. E, claro, fui buscar outras obras.
Tenho lido muitos textos sobre o mundo depois da guerra fria. E percebo uma certa convergência entre autores que adotam perspectivas teóricas muito diversas. Erik Hobsbawm, Francis Fukuyama, Immanuel Wallerstein, Robert Gilpin consideram que é preciso fazer alguma coisa para controlar os efeitos deletérios da globalização.
Pois, Tony Judt, em O mal que ronda a terra, enfrenta justamente essa questão.
Judt inicia chamando a atenção para o fato de que "do final do século XIX até os anos 1970, as sociedades ocidentais avançadas estavam todas se tornando menos desiguais". Mas "no decorrer dos últimos trinta anos nós jogamos tudo isso fora." Apesar do aumento bruto da riqueza mundial, a desigualdade, ou seja, a distância entre ricos e pobres, aumenta mesmo nos países mais ricos. O autor destaca que a aceitação passiva dessa realidade, como se fosse natural, bem como o caráter materialista e egoísta da vida humana contemporânea datam da década de 1980.
A partir desse ponto, Judt passa a fazer uma revisão histórica para compreender como se chegou a esse ponto. Foram os efeitos da Grande Depressão e seus desdobramentos sinistros que fizeram com que conservadores anti-comunistas como Franklin Roosevelt, Charles de Gaulle e Clement Atlee aceitassem e patrocinassem a intervenção do estado na economia. "Em parte, por que todos temiam as implicações de um retorno aos horrores de um passado recente, e se mostravam dispostos a restringir a liberdade do mercado em nome do interesse público".
O economista que se dedicou a esse desafio foi John Maynard Keynes. Keynes viveu o final da pax britânica e viu o mundo em que vivia (nasceu em 1883) desmoronar, levando vidas, países, riqueza material, ideias em que se baseavam sua cultura e classe social. Ele começou a se dedicar ao estudo da incerteza. E percebeu que um dos maiores atrativos do nazismo e do fascismo eram a autoridade centralizada e o planejamento. Muitos que jamais apoiariam Hitler, o festejaram quando reduziu o desemprego na Alemanha. A grande questão para os políticos do pós segunda guerra era: como evitar uma nova grande depressão e o apelo ao autoritarismo que esse tipo de situação gera? Como evitar a atração do socialismo soviético?
O estado de bem estar social ou de seguridade social foi patrocinado por políticos de diversas orientações partidárias nos diversos países da Europa e dos Estados Unidos. A política do universalismo, que ofereceu à classe média o mesmo acesso a serviços públicos destinados aos pobres, comprometeu-as com as instituições liberais. Foram as classes médias desempregadas e empobrecidas que primeiro apoiaram o fascismo. Elas se tranformaram no esteio da democracia liberal (Francis Fukuyama em texto denominado The Future of History se pergunta se a democracia liberal sobreviverá com o declínio da classe média causado pela globalização).
Mas o tempo passou. E a geraçào que entrou na universidade na década de 1960 só conhecia os horrores do entre guerras de ouvir falar. Eles "só conheceram um mundo de chances maiores, serviços médicos e educacionais generosos, perspectivas otimistas de mobilidade social e - acima de tudo, talvez - uma sensação de segurança indefinível, mas onipresente." Para Judt, o conflito de gerações na década de 1960 transcendeu as questões de classe e nacionalidade. Em função da televisão, dos rádios portáteis e da internacionalização da cultura popular uma grande brecha se abriu entre a geração dos anos 1960 e a geração dos seus pais. A palavra de ordem da época era o individualismo: "a afirmação da exigência pessoal de liberdade privada maximizada e irrestrita para exprimir desejos autônomos, que fossem respeitados e institucionalizados pela sociedade como um todo". Os objetivos comuns da geração anterior foram substituídos por objetivos privados. "Na verdade, muitos radicais dos anos 1960 eram defensores entusiasmados de escolhas impostas, quando elas afetavam povos distantes que pouco conheciam. Em retrospecto, chama a atenção a imensa quantidade de pessoas, na Europa e nos Estados Unidos, que proclamavam seu entusiasmo pela revolução cultural de Mao Tse Tung, ditatorial e unificadora, enquanto definiam a reforma cultural doméstica como a maximização da autonomia e da iniciativa privada".
O autor julga que o marxismo, que era mais retórico do que real,  encobria uma postura egoísta da esquerda nessa época: o movimento estudantil estava mais preocupado com o horário do fechamento do portão das universiades e com usar roupas menos formais nas aulas do que com as condições sociais dos trabalhadores.
Judt esclarece de onde vêm as ideias econômicas que prosperam no mundo atual. Os economistas da Universidade de Chicago as retiraram dos textos de economistas da Europa central: Friedrich Hayek, Joseph Shumpeter, Karl Popper e Peter Drucker, entre outros. Esse teóricos se dedicaram a responder a mesma questão de Keynes - como a Europa liberal afundou, dando lugar ao fascismo. Mas deram uma resposta bastante diferente: o único caminho para defender o liberalismo e a sociedade aberta era manter o estado fora da vida econômica. Eles previram o fracasso do estado de bem estar social e, por muito tempo, seus pares (todos emigraram para o ocidente) julgavam que haviam cometido um erro de cálculo. Foi quando o estado social começou a enfrentar dificuldades que eles obtiveram uma plateia.
Na sequência, Judt analisa como essa geração, ao chegar ao poder na década de 1980, desmontou o estado de bem estar social. Fala da privatição descontrolada e usa como exemplo o sistema ferroviário inglês que foi privatizado na era Thatcher. O resutado é um sistema caro, ineficiente, que tem que ser subsidiado pelo Estado e é o mais inseguro da Europa ocidental. Aqui ele levanta a questão dos custos sociais, culturais e ambientais que devem ser levados em conta, juntamente com os econômicos.
O autor considera que uma das piores consequências da demolição do serviço público é a crescente dificuldade de compreender o que temos em comum com as outras pessoas. Por isso, a instituição ícone de nossa época é o condomínio fechado, "símbolo do reconhecimento descarado do desejo de se isolar de outros membros da sociedade, assim como reconhecimento formal da incapacidade ou omissão do Estado (ou do município) em impor sua autoridade sobre um espaço público contínuo".  Judt julga que essa perda do senso de interesses em comum não é restrita a propietários ricos: nos Estados Unidos estudantes judeus ou afro-americanos muitas vezes optam por morar em dormitórios exclusivos, comer sepradamente e se matricular em cursos étnicos.
O que fazer diante desse quadro? Tony Judt diz que não podemos esquecer o passado, viver como se o século XX não tivesse existido. Ele defende abertamente o fortalecimento do papel do Estado, ainda que reconheça a ineficiência do mesmo em diversas esferas. E  diz que temos que começar a falar sobre todas essas coisas. Por isso, escreveu o livro.
O mal que ronda a terra foi publicado em fevereiro de 2010. Tony Judt faleceu precocemente em agosto do mesmo ano. É uma pena não poder mais contar com seu texto lúcido e coerente. Felizmente, ele deixou uma vasta obra e, principalmente, ideias.

Feliz Ano Novo!

A musa do departamento

A musa do departamento (junho 1843-agosto 1844) segunda história de "Os parisienses da província".

Personagens: Milaud de La Baudraye; Diná Piédefer; Senhora Piédefer; senhor de Clagny (procurador do Rei); senhor Gravier; Visconde de Chargeboeuf (subprefeito); padre Duret; baronesa de Fontaine; Estevão Lousteau; Horácio Bianchon; Visconde de Chargeboeuf; senhor Cardot; Felícia Cardot; Senhora Cardot; Bixiou.

Nessa história acompanhamos a vida de Diná Piédefer, uma jovem bela e dotada de inteligência singular, mas desprovida de um dote atraente. Seu pai faleceu em 1819, deixando a mãe e Diná com 12 anos. O padre Duret ajudava a mãe e obter um noivo para filha, quando surgiu o bem mais velho e nada instigante senhor de La Baudraye, nobre recente, mas muito ambicioso da cidade de Sancerre. Casaram-se em 1824, Diná com 17 anos e La Baudraye com 44.
Diná logo organizou um salão, onde mostrava seus dotes culturais. Em torno dela, reuniu-se um círculo de admiradores: o senhor de Clagny, o senhor Gavier, o Visconde de Chargeboeuf e o jovem Visconde de Chargeboeuf.
Com o tempo, porém essa musa do departamento começou a se aborrecer com a mediocridade da vida provinciana. Teve um choque quando recebeu a visita de Ana, baronesa de Fontaine, colega da época do colégio. Viu a diferença entre ela, uma mulher provinciana, e a elegância da parisiense. Sob um pseudônimo, começou a escrever versos. Um poema, Paquita, a sevilhana, fez muito sucesso. Com o tempo, sua identidade foi descoberta.
Em 1836, Diná recebeu em seu castelo duas celebridades conterrâneas: o doutor Horácio Bianchon e o escritor e jornalista Estevão Lousteau. Depois de alguns dias, Diná e Estevão tornaram-se amantes. O cínico Lousteau, que havia armado a história com Bianchon, passou uma temporada em Sancerre e, após, retornou a Paris. Lá retomou a sua vida boêmia e suas atrizes. Em dificuldades financeiras, pensou em casar. Enquanto isso, Diná lhe escrevia cartas apaixonadas que ele sequer lia. Recebeu uma oferta para desposar a senhorita Felícia Cardot, que havia dado um mau passo e o pai, o tabelião Cardot, fez uma bela proposta para que Estevão aceitasse a moça. Nesse momento, Diná chegou à casa de Estevão em Paris e declarou que estava grávida. Havia deixado de La Baudraye e queria viver com o escritor, apesar das terríveis consequências. Estevão, num primeiro momento ficou apavorado. Após, pensando na idade avançada do marido de Diná e na bela herança, resolveu assumi-la. Viveram por seis anos e tiveram dois filhos.
Em 1842, de La Baudraye, muito mais rico, conde e par de França procurou a esposa e propôs que ela voltasse para Sancerre. Aceitando ou não sua oferta, ele levaria os “seus filhos” quando atingissem a idade de seis anos. Diná aceitou e deixou Estevão.
No final, em 1843, Diná esperava mais um filho.
Narrativa tipicamente balzaquiana, com abertura histórica - antecedentes familiares de de La Baudraye e Diná e muitas idas e vindas. Um escritor menos hábil se perderia facilmente. Não Balzac. Vamos do salão provinciano de Diná aos versos de Paquita, a sevilhana. Vamos do sarau de Diná com os “parisienses” à vida boêmia de Estevão de volta à capital. Vamos do crescimento da paixão de Diná por Lousteau ao seu lento, mas certo, declínio.
O ponto alto do romance é justamente o desvanecer da paixão. Balzac fez (é está expresso no texto) uma paródia do romance Adolfe de Benjamin Constant (por mim aqui resenhado).
Balzac aqui mostra aquela imparcialidade que o caracteriza (embora, por vezes, ele a abandone). A vida de Diná com de La Baudraye não a faz feliz, mas, com exceção de alguns momentos, tampouco a vida com Estevão. O retorno de Diná para Sancerre resolveu o problema social tornando-a, novamente, uma “mulher honesta”. Mas isso irá assegurar a felicidade? Ao final, temos a felicidade pragmática. Diná estava esperando mais um filho, mas não do marido. Seria de Estevão? Do fiel senhor de Clagny? Ou de outro?

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Memórias de uma moça bem comportada

Memórias de uma moça bem comportada. Simone de Beauvoir. Rio de Janeiro: Nova Fonteira,1983. Tradução: Sérgio Milliet.

Lido em setembro de 2011.

Nunca pensei em ler uma biografia de Simone de Beauvoir. Mas duas coincidências me levaram a fazê-lo. Assisti, em agosto, a peça Viver sem Tempos Mortos na qual Fernanda Montenegro apresenta um monólogo a partir de textos das obras e a correspondência de Simone. Gostei muito de algumas passagens, a ponto de pensar como seria bom ter o texto da peça para ler. Algumas semanas depois, fui à biblioteca localizada no clube que frequento. É um biblioteca organizada com doações dos sócios, de modo que há muitos livros antigos. Encontrei o livro e abri na primeira página: “Nasci, às quatro horas da manhã, a 9 de janeiro de 1908, num quarto de móveis laqueados de branco e que dava para o Bulevar Raspali.” Quem resiste a esse início? 
Simone escreveu esse primeiro volume da sua autobiografia (houve diversos outros depois) aos quarenta e oito anos. Ouso dizer que se trata de uma biografia de “formação”. Como nos romances de formação, existe um ponto de partida e um ponto de chegada: esse último é a vida adulta., 
Os primeiros anos são dominados pela família: classe alta, mas não ricos; católicos, o pai , formalmente, a mãe, devota. Simone atribui muito mais influência ao pai do que à mãe em sua personalidade. Ele era um homem culto, gostava de literatura - organizava um caderno com recomendações de livros para Simone - e tinha uma paixão: representar. Simone comenta que ele não desprezaria os preconceitos do seu meio para abraçar uma carreira de ator. Desse modo, se realizava participando de montagens amadoras na casa dos amigos. A mãe era uma católica severa e devota. Simone dá  a impressão de viver um clima de animosidade com Françoise desde muito pequena. Ela atribui às diferenças entre seus pais a origem de seus pendores intelectuais: “(...)o individualismo de papai e sua ética profana contrastavam com a severa moral tradicionalista que mamãe me ensinava. Esse desequilíbrio que me impelia à contestação explica em grande parte que tenha me tornado uma intelectual.”
A religião católica ocupava um local importante na vida de Simone. Ela era devota e participava de todos os rituais: comunhão, novenas, retiros. Chegou a formular um plano secreto de se tornar freira. Mas um sermão do padre de sua igreja  que contava que uma menina que lera livros inadequados, ficou confusa e se suicidou perturbou sua fé.  Mais tarde ela relata a naturalidade da perda de sua fé. A Simone de quarenta e oito anos que escreveu, filosofou a respeito, mas a garota de quinze um dia deu-se conta de que deus não existia. 
A partir desse ponto, a vida de Simone vai se diferenciando da das mulheres de sua geração. Mas não sem percalços. O principal talvez tenha sido a paixão pelo primo Jacques e o sonho acalentado por anos de casar com ele. Aqui a Simone madura hesita em revelar que tenha cultivado tanto esse sonho. Mas a recorrência com que Jacques aparece no relato e o final demonstram que por pouco um dos casais mais famosos do século XX não teria existido. Na última parte do livro Simone declara querer tirar a limpo suas relações com Jacques. Quando ainda estava em um estranho namoro e após uma viagem de Jacques para a Argélia, Simone foi surpreendida pela notícia de que ele havia ficado noivo de uma moça que mal conhecia. Então ela conta que o casamento não deu certo e  que Jacques passou por uma enorme decadência financeira. Encontrou-o vinte anos depois, envelhecido, doente em função do alcoolismo, vestido como um mendigo e vivendo de favores. Ela nos conta que faleceu com quarenta e seis anos. 
Tudo bem que o leitor da biografia precisava saber do namoro de Simone com o primo e do desfecho. Mas a narrativa parece mais uma desforra: viram, ele casou com outra (não me quis) e vejam o que lhe aconteceu?! As feministas são mulheres como todas as outras. 
Teria muito para contar. A biografia é rica, densa. Há a decisão de estudar filosofia, a amiga Zaza, que faleceu aos vinte anos, uma incursão de nossa moça bem comportada pela vida boêmia na Paris dos anos 1920 e, bem no final, o encontro com Jean-Paul Sartre, que será desenvolvido no próximo volume. 
Gostei muito da leitura, pois me identifiquei com alguns pontos. Eu também tive uma educação católica e pensei em ser freira. E, por volta dos doze ou treze anos, deixei de acreditar em deus de uma forma natural. Não li nada, ninguém me falou nada, só passei a sentir que aquilo não fazia sentido. Eu também construí a minha identidade através da leitura e até hoje tenho uma paixão feroz por aprender. Muito do que ela falou sobre isso tem a ver comigo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O Ilustre Gaudissart

O Ilustre Gaudissart (Paris, 1837 *) - primeira história de "Os parisienses na província"

Personagens: Gaudissart, Jenny Courant, hospedeiro Mitouflet, senhor Vernier, senhora Vernier, senhor Margaritis, senhora Margaritis.

A história se passa em 1831.

O Ilustre Gaudissart é uma novela curta. Praticamente metade da narrativa é dedicada a fazer o retrato de Gaudissart, que é o de qualquer caixeiro-viajante, figura que surgiu na França na época em que Balzac escrevia a Comédia Humana. Um tipo superficial que possuía um simulacro de cultura, em geral, de acordo com o artigo que vendia e com seu público alvo.
Até 1830, Gaudissard comercializava apenas o Artigo-de Paris, ou seja, produtos industriais fabricados na cidade. Com a agitação política e financeira de 1830, resolveu diversificar seus negócios. Se dedicaria a vender seguros e assinaturas de jornais na província, sem deixar de lado o Artigo-de-Paris.
Os jornais eram Le Globe, fundado em 1824, que a partir de 1830 passou a divulgar as doutrinas de Saint-Simon; Le Movement, jornal republicano; e o Jornal dos Filhos, dedicado às crianças
A história propriamente dita se desenvolve em Tours. Gaudissart se despediu de sua namorada Jenny e ao chegar à capital da Touraine, local de pessoas desconfiadas e pouco dadas à novidade. Tentou, então, conquistar a confiança do senhor Vernier, figura importante da comunidade. Esse resolveu pregar-lhe uma peça, mandando-o conversar com o senhor Margaritis. Disse que Margaritis era uma pessoa muito influente na cidade e que, caso ele comprasse o seguro, todos comprariam. Ocorre que o italiano Margaritis era insano há muitos anos e era cuidado por sua mulher. Gaudissard foi até lá e entabulou uma conversa muito engraçada com o louco, não percebendo o engodo. Inclusive aceitou comprar dois barris de vinho de Margaritis, que na verdade ele nem possuía. Voltando à hospedaria de Mitouflet, descobriu que fora enganado e que toda a cidade estava rindo dele. Desafiou, então, Vernier para um duelo. No dia e hora de se baterem, fizeram as pazes e foram almoçar juntos.
Paulo Rónai diz na sua introdução que a história não é muito boa pela falta de talento de Balzac para o cômico. Apesar da conversa de Gaudissart com Margaritis ser engraçada, temos a impressão que ela poderia ter sido melhor trabalhada. Na verdade, o ponto alto da novela é o retrato de Gaudissad, o homem que, ao chegar em uma casa, deixava sua personalidade na porta de entrada.

Segundo o Visconde Spoelberch de Lovenjou, em Histoire des Ouvres de Balzac, essa data está incorreta. Deve ser substituída por 1833.

domingo, 27 de novembro de 2011

A Língua Absolvida

A Língua Absolvida. Elias Canetti. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Tradução: Kurt Jahn.

Lido entre 17 de agosto e 12 de setembro de 2011.

Gosto muito de biografias. E não me importa muito se a história é da vida de alguém conhecido ou desconhecido. Sei, pois trabalho como historiadora, o quanto uma biografia pode ser distorcida, especialmente uma autobiografia. Mesmo assim gosto, ainda que reconheça que, via de regra, o que lemos é uma versão do que realmente aconteceu.
A Língua Absolvida me despertou a atenção, pois, além de uma biografia (é o primeiro volume de três), é originalmente escrito em alemão. Mas o que me fez levá-lo para casa, foi um detalhe: Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, era búlgaro de nascimento e sua língua materna não era o alemão, mas o ladino, língua dos judeus sefaradins. Considero um mistério um escritor tornar-se um mestre num idioma que não é o seu. Fiquei assombrada quando soube que Joseph Conrad aprendeu inglês depois dos vinte anos. Canetti aprendeu alemão ainda menino, mas, mesmo assim é algo fascinante A Língua Absolvida cobre o período de 1905, ano de nascimento de Canetti, a 1921.
O autor nasceu em Buschuk na Bulgária em uma grande família de judeus sefaradins. Da infância mais tenra se destacam as lembranças dos dois avós, o Canetti e o Arditti, a casa comunal com as empregadas búlgaras, a visão assustadora e irresistível dos ciganos e a “língua mágica”. Seus pais, quando não queriam ser compreendidos, falavam em alemão, que Canetti considerava uma língua mágica. Foi seu primeiro contato com a língua adotada que se tornaria a sua.
Quando tinha seis anos, seus pais se mudaram para Manchester na Inglaterra. Foi uma decisão de seu pai que queria escapar do jugo paterno. Resolveu ir tabalhar com um cunhado que tinha uma empresa na Inglaterra. O avô Canetti não aceitou a decisão e, ao perceber que era irreversível, amaldiçoou o filho diante de toda a família. O pai de Elias, Jacques, quando jovem, desejou tornar-se ator. Mas o velho Canetti impôs a ele um destino de comerciante. Eis que agora, aos trinta anos, com esposa e três filhos, ele iria viver por sua conta. Cerca de um ano depois, um dia, depois do café da manhã, Jacques Canetti teve um infarto e caiu morto na sala de jantar - a maldição se concretizara.
A família foi, então, residir em Viena. Na verdade, Elias ficou com a mãe, e os irmãos menores foram para um escola na Suíça. A mãe, Mathilde, que segundo Elias, até a morte do pai, não tinha muita importância, passou a ser a figura chave de sua infância. Ela ensinou-lhe alemão, a língua mágica, de forma brutal, mas funcionou. Eles passavam os serões discutindo obras literárias, especialmente teatrais. Elias relata algumas lembranças da guerra - os versinhos ofensivos que os colegas diziam sobre os russos e o quanto isso irritava sua mãe, uma pacifista ferrenha, o racionamento, as filas, o pão feito de estranhas mistura., um triste trem de refugiados.
Em 1916, foram para a Suíça. Lá a mãe trouxe os filhos para a casa e assumiu a rotina sem ajuda. Isso durou dois anos e então ela adoeceu - não tinha estrutura para criar três crianças sozinha.
Então, em 1919, Elias foi morar em uma pensão administrada por solteironas em Tiefenbrunnen na Suíça. Nesse período apaixonou-se por ciência e escreveu sua primeira obra literária. Faz um retrato riquíssimo de seus professores e de alguns colegas. Em maio de 1921, a mãe preocupada com o caráter do filho foi buscá-lo na escola para enviá-lo à Alemanha. Elias não queria ir, mas a mãe estava irredutível.
Se destaca nesse primeiro volume o retrato vívido e honesto de Mathilde. Ela aparece com todas as complexidades: como a mulher que despertava ciúme no marido; pacifista, extremamente afetada pela guerra, mãe recalcitrante, que queria, mas não conseguia cuidar dos filhos sozinha; leitora apaixonada e voraz; vaidosa; frustrada; agressiva. A passagem em que ele revela a fantasia de Mathilde de que um suposto famoso pintor que eles encontraram num hotel queria pintá-la faz com que mulher saia das páginas do livro e saia andando na nossa frente. O homem maduro que escreve a biografia compreendeu que a mulher que sua mãe foi abrira mão de uma vida própria pelos filhos - ela enviuvou jovem, poderia ter se casado novamente, se dedicado aos estudos. Ela se sacrificou, mas não conseguia esconder a frustração.
A história do pai que desejava ser ator, mas tornou-se comerciante, dá o tom do conflito vivido por Elias nesse período da vida. Ele estava se tornando um intelectual e a frase do pai ecoava em seu pensamento: “Você será aquilo que quiser ser. Você não precisará ser comerciante como eu e os tios. Você estudará e escolherá aquilo que mais lhe agradar”. Mas a mãe, também filha de comerciantes, após incentivar nele a leitura e a busca de conhecimento, o chama para a vida prática: “Quem lhe dará dinheiro para isso? (estudar)”. O conflito da vida do pai, chegou à do filho aos dezesseis anos

domingo, 20 de novembro de 2011

Um Conchego de Solteirão - terceira história de Os celibatários (novembro de 1842)

Volume VI: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Provinciana (lido entre 3 de dezembro de 2010 e 11 de julho de 2011).

Personagens: doutor Rouget, João-Jacques Rouget, Ágata Rouget, Bridau, Felipe Bridau, José Bridau, senhora Descoings (tia de Ágata), Florentina, Giroudeau, Maximiliana Hochon, senhor Hochon, Maxêncio Gilet, Francisco Hochon, Baruch Hochon, Fario, Flora Brazier, Fanchette, Horácio Bianchon, Bixiou.

Começo a falar sobre Um Conchego de Solteirão a me repetir. Se Balzac houvesse apenas produzido esse romance, ele já estaria entre os melhores. Temos aqui um romance em duas partes com núcleos diversos, tanto que Balzac mudou seu nome algumas vezes (pensou em A Gapuiadora e Os Dois Irmãos, mas optou por Um Conchego de Solteirão). A primeira parte discorre sobre a vida e o caráter dos irmãos Felipe e José Bridau. Felipe e José eram filhos de Ágata Rouget. Ágata e seu irmão, João-Jacques, eram filhos do doutor Rouget da cidade de Issoudun. O doutor, todavia, tinha sérias dúvidas sobre a paternidade de Ágata e enviou a filha a Paris para morar com os parentes da esposa, os Descoings. Ágata conheceu então Bridau, revolucionário girondino. Casaram-se, veio o Diretório e o Império e Bridau tornou-se homem de confiança de Napoleão. Tiveram dois filhos, Felipe e José, criados com facilidades no período napoleônico. Em 1808, Bridau faleceu precocemente. Ágata passou a morar com a tia Descoings e dedicar-se a criar os filhos. Felipe inclinou-se cedo às armas. Era belo e extrovertido, merecendo a preferência da mãe. José, o caçula, tinha pendores artísticos e cedo resolveu que seria pintor de quadros. A mãe desaprovava. Considerava a arte carreira pouco segura e desimportante. A comparação de José com o irmão era desvantajosa para o artista. José era feio, tímido e desajeitado. Desaprecia ao lado do solar Felipe. Enquanto José se instruía nas artes, Felipe ingressou no exército e foi ajudante-de-ordens de Napoleão na batalha de La Fère-Champenoise. Ao retornar à casa de mãe em 1814, depois da derrota de Waterloo, encontrou a família arruinada: a bolsa de estudos de José e a pensão da senhora Bridau haviam sido suprimidas: “Capitão aos dezenove anos e condecorado, Felipe, tendo servido como ajudante-de-ordens do imperador em dois campos de batalha, lisonjeava imensamente o amor próprio da mãe; assim, embora grosseiro, desordeiro, sem outro mérito além da vulgar bravura do soldado, parecia a seus olhos, um homem genial. Enquanto isso José, pequeno, magro, doentio, com uma fronte selvagem, amando a paz, a tranquilidade, sonhando com a glória artística, só lhe daria, segundo pensava, tormentos e inquietações”. Felipe então começou a mostrar seu caráter. Não trabalhava, passava nos cafés com outros oficiais bonapartistas e servia-se à larga da bolsa da mãe. Em 1817, convenceu Ágata a financiar uma desastrada viagem para os Estados Unidos para juntar-se ao Coronel Lallemand. Retornou em 1819 com dívidas que foram pagas pela estoica mãe. O coronel então entregou-se sem reservas a uma vida de farras. Tornou-se amante de uma dançarina e passou a roubar dinheiro da mãe, irmão e tia para gastar no jogo. Finalmente, roubou o dinheiro que a tia Descoings guardava para jogar na loteria. O número no qual a velha jogaria foi sorteado e ela morreu de desgosto. Ágata, então , o expulsou de casa. Ágata teve de arrumar um emprego e passou a viver modestamente com José, que trabalhava muito para dar à mãe uma existência mais leve. Felipe acabou preso, sob acusação de envolvimento em uma conspiração. Para libertá-lo, seria necessária uma quantia da qual Ágata não dispunha. Nesse ponto, a boa mãe recebeu uma carta da senhora Hochon, sua madrinha em Issoudun. Ela contava que Joâo-Jacques, irmão de Ágata, vivia com uma concubina que o tratava mal, e pretendia deixar toda a herança para a tal mulher, ignorando irmã e sobrinhos. E diz que Ágata devia ir imeditamente à terra natal. Ágata então partiu com José.
A ação se desloca para Issoudun, onde um novo grupo de personagens entra em ação. Há basicamente dois núcleos. A casa dos Hochon, onde Ágata e José ficaram hospedados e, defronte, a casa de Rouget. O talento de Balzac para criar personagens pérfidos é enorme. Na primeira parte, ele faz o terrível Felipe brilhar. Agora surgem Flora Brazier e Maxêncio Gilet. Flora é a tal gapuiadora quase deu o nome ao romance. Certa vez, Balzac viu uma menina no rio em Issoudun gapuaindo, ou seja, revolvendo a água com um galho de árvore para encaminhar os caranguejos para as armadilhas dos pescadores. É exatamente assim que Flora, aos doze anos, aparece na história. Em 1799, o doutor Rouget, pai de Ágata e João-Jacques, encontrou Flora no rio e, encantado com a sua beleza, levou-a para casa, dando uma pequena compensação ao tio da menina. Tudo indica que Rouget tinha intenções libidinosas para com a moça, mas morreu antes de concretizá-las. Flora então ficou na casa e tornou-se criada-amante de João-Jacques, a quem dominava completamente. Max Gilet é um temperamento gêmeo de Felipe Bridau. Contudo, ao contrário de Felipe, Max não teve boa estrutura familiar. Filho da esposa de um tamanqueiro, de beleza singular, com pai desconhecido, Max foi criado solto e alistou-se no exército para escapar de uma acusação de assassinato. Só teve algum brilho, porém, nos Cem Dias. Retornou a Issoudun e, assim como outros oficiais do Império, ficou ocioso. Organizou, então, um grupo de jovens, espécie de confraria, os Cavaleiros da Malandragem, que faziam estripulias de madrugada em Issoudun. Tornou-se amante de Flora que convenceu Rouget a deixá-lo a morar em sua casa. A ideia dos amantes era tomar a fortuna de Rouget e fugir. Assim, a chegada de Ágata causou um alvoroço na cidade. Flora não deixou que Ágata se aproximasse do irmão e José acabou falsamente acusado de tentar matar Max. Sem sucesso, eles retornaram a Paris. Eis que então Felipe retorna para a história. O coronel foi condenado a cinco anos de vigilância pela polícia política em uma cidade do interior da França. Desroches, tabelião e amigo da família, conseguiu que ele fosse para Issoudun e instiruiu-o a reaver a fortuna de sua família. Aconselhado por Desroches e por Hochon, Felipe, com sua astúcia, teve sucesso onde os bons Ágata e José não tiveram. Conquistou a confiança do tio, dominou Flora e matou Max em um duelo. Terminou por apressar a morte do velho Rouget e casou com Flora. Levou-a a Paris, onde incentivou nela o vício da bebida. Rico e com amigos influentes, prestou obediência aos Bourbon, subiu muito e aguardava a morte da mulher para desposar uma jovem nobre. Virou às costas à mãe e ao irmão. Acabou perdendo a maior parte de sua fortuna na bolsa. Voltou à ativa e foi para a Argélia, onde morreu em combate em 1839. Ágata faleceu convencida de que prefirira durante toda a vida o filho errado. E José prosseguiu sua carreira de pintor. Acabou ficando, por herança, com os bens que restaram de Felipe, bem como com seu título de nobreza, Conde de Brambourg.
É uma história complexa com personagens marcantes. Muito poderia ser comentado, mas destaco dois temas. Um deles, é a inadequação para a vida civil de temperamentos feitos para a guerra. Balzac conheceu isso muito bem. A França passou 25 anos em guerra quando iniciou o período da Restauração. Milhares de militares retornaram à vida civil apenas para descobrir que não serviam para ela. É o caso de Felipe e de Maxêncio. Homens que pela força, pela desenvoltura e destemor seriam heróis e protagonistas de feitos grandiosos, mas que, longe da espada, tornam-se golpistas mesquinhos e aproveitadores. Assim era o grupo de Felipe em Paris e de Max em Issoudun.
O outro tema é de caráter biográfico. A preferência de Ágata por Felipe em detrimento de José é a preferência de madame Balzac por Henry, seu caçula, em detrimento de Honoré. Anne Charlotte Laure Sallambier casou aos dezoito anos com Bernard-François Balssa (que depois se transformou em Balzac) de cinquenta. Foi um casamento arranjado e Balzac foi o primeiro filho do dever. Dez anos depois, nasceu Henry, filho do amor, que atendia pelo nome de Jean de Margonne (ele legou 200 mil francos em testamento a Henry). Madame Balzac sempre foi rígida e ríspida com o seu primogênito. O manteve fora de casa por quatro anos. Já com Henry, revelou-se uma mãe dedicada e amorosa. Pois, Balzac tornou-se famoso e conhecido, ao passo que Henry teve uma carreira errática nas colônias francesas, vindo a falecer em 1858 empobrecido nas ilhas Comores. Daí o paralelo entre Balzac e José. José também era artista e todos julgavam que escolhera mal a carreira, ao passo que o irmão, militar, parecia fadado à glória. Na época em que Balzac começou a escrever parecia muito mais provável que Henry fosse bem sucedido profissionalmente. Pois Balzac tornou-se mundialmente famoso e passou a sustentar a mulher que o preterira.
Na minissérie Balzac, na qual Gerard Depardieu faz um Balzac bem convincente, há uma cena ótima que resume esse drama. Balzac, com cerca de doze anos, está no colégio interno. Recebe a visita de sua mãe. O garoto corre feliz para abraçá-la. Uma sinistra Jeanne Moreau o afasta, alegando que ele não tinha boas notas, por isso não merecia carinhos. Fazia anos que ele não a via.