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domingo, 20 de novembro de 2011

Um Conchego de Solteirão - terceira história de Os celibatários (novembro de 1842)

Volume VI: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Provinciana (lido entre 3 de dezembro de 2010 e 11 de julho de 2011).

Personagens: doutor Rouget, João-Jacques Rouget, Ágata Rouget, Bridau, Felipe Bridau, José Bridau, senhora Descoings (tia de Ágata), Florentina, Giroudeau, Maximiliana Hochon, senhor Hochon, Maxêncio Gilet, Francisco Hochon, Baruch Hochon, Fario, Flora Brazier, Fanchette, Horácio Bianchon, Bixiou.

Começo a falar sobre Um Conchego de Solteirão a me repetir. Se Balzac houvesse apenas produzido esse romance, ele já estaria entre os melhores. Temos aqui um romance em duas partes com núcleos diversos, tanto que Balzac mudou seu nome algumas vezes (pensou em A Gapuiadora e Os Dois Irmãos, mas optou por Um Conchego de Solteirão). A primeira parte discorre sobre a vida e o caráter dos irmãos Felipe e José Bridau. Felipe e José eram filhos de Ágata Rouget. Ágata e seu irmão, João-Jacques, eram filhos do doutor Rouget da cidade de Issoudun. O doutor, todavia, tinha sérias dúvidas sobre a paternidade de Ágata e enviou a filha a Paris para morar com os parentes da esposa, os Descoings. Ágata conheceu então Bridau, revolucionário girondino. Casaram-se, veio o Diretório e o Império e Bridau tornou-se homem de confiança de Napoleão. Tiveram dois filhos, Felipe e José, criados com facilidades no período napoleônico. Em 1808, Bridau faleceu precocemente. Ágata passou a morar com a tia Descoings e dedicar-se a criar os filhos. Felipe inclinou-se cedo às armas. Era belo e extrovertido, merecendo a preferência da mãe. José, o caçula, tinha pendores artísticos e cedo resolveu que seria pintor de quadros. A mãe desaprovava. Considerava a arte carreira pouco segura e desimportante. A comparação de José com o irmão era desvantajosa para o artista. José era feio, tímido e desajeitado. Desaprecia ao lado do solar Felipe. Enquanto José se instruía nas artes, Felipe ingressou no exército e foi ajudante-de-ordens de Napoleão na batalha de La Fère-Champenoise. Ao retornar à casa de mãe em 1814, depois da derrota de Waterloo, encontrou a família arruinada: a bolsa de estudos de José e a pensão da senhora Bridau haviam sido suprimidas: “Capitão aos dezenove anos e condecorado, Felipe, tendo servido como ajudante-de-ordens do imperador em dois campos de batalha, lisonjeava imensamente o amor próprio da mãe; assim, embora grosseiro, desordeiro, sem outro mérito além da vulgar bravura do soldado, parecia a seus olhos, um homem genial. Enquanto isso José, pequeno, magro, doentio, com uma fronte selvagem, amando a paz, a tranquilidade, sonhando com a glória artística, só lhe daria, segundo pensava, tormentos e inquietações”. Felipe então começou a mostrar seu caráter. Não trabalhava, passava nos cafés com outros oficiais bonapartistas e servia-se à larga da bolsa da mãe. Em 1817, convenceu Ágata a financiar uma desastrada viagem para os Estados Unidos para juntar-se ao Coronel Lallemand. Retornou em 1819 com dívidas que foram pagas pela estoica mãe. O coronel então entregou-se sem reservas a uma vida de farras. Tornou-se amante de uma dançarina e passou a roubar dinheiro da mãe, irmão e tia para gastar no jogo. Finalmente, roubou o dinheiro que a tia Descoings guardava para jogar na loteria. O número no qual a velha jogaria foi sorteado e ela morreu de desgosto. Ágata, então , o expulsou de casa. Ágata teve de arrumar um emprego e passou a viver modestamente com José, que trabalhava muito para dar à mãe uma existência mais leve. Felipe acabou preso, sob acusação de envolvimento em uma conspiração. Para libertá-lo, seria necessária uma quantia da qual Ágata não dispunha. Nesse ponto, a boa mãe recebeu uma carta da senhora Hochon, sua madrinha em Issoudun. Ela contava que Joâo-Jacques, irmão de Ágata, vivia com uma concubina que o tratava mal, e pretendia deixar toda a herança para a tal mulher, ignorando irmã e sobrinhos. E diz que Ágata devia ir imeditamente à terra natal. Ágata então partiu com José.
A ação se desloca para Issoudun, onde um novo grupo de personagens entra em ação. Há basicamente dois núcleos. A casa dos Hochon, onde Ágata e José ficaram hospedados e, defronte, a casa de Rouget. O talento de Balzac para criar personagens pérfidos é enorme. Na primeira parte, ele faz o terrível Felipe brilhar. Agora surgem Flora Brazier e Maxêncio Gilet. Flora é a tal gapuiadora quase deu o nome ao romance. Certa vez, Balzac viu uma menina no rio em Issoudun gapuaindo, ou seja, revolvendo a água com um galho de árvore para encaminhar os caranguejos para as armadilhas dos pescadores. É exatamente assim que Flora, aos doze anos, aparece na história. Em 1799, o doutor Rouget, pai de Ágata e João-Jacques, encontrou Flora no rio e, encantado com a sua beleza, levou-a para casa, dando uma pequena compensação ao tio da menina. Tudo indica que Rouget tinha intenções libidinosas para com a moça, mas morreu antes de concretizá-las. Flora então ficou na casa e tornou-se criada-amante de João-Jacques, a quem dominava completamente. Max Gilet é um temperamento gêmeo de Felipe Bridau. Contudo, ao contrário de Felipe, Max não teve boa estrutura familiar. Filho da esposa de um tamanqueiro, de beleza singular, com pai desconhecido, Max foi criado solto e alistou-se no exército para escapar de uma acusação de assassinato. Só teve algum brilho, porém, nos Cem Dias. Retornou a Issoudun e, assim como outros oficiais do Império, ficou ocioso. Organizou, então, um grupo de jovens, espécie de confraria, os Cavaleiros da Malandragem, que faziam estripulias de madrugada em Issoudun. Tornou-se amante de Flora que convenceu Rouget a deixá-lo a morar em sua casa. A ideia dos amantes era tomar a fortuna de Rouget e fugir. Assim, a chegada de Ágata causou um alvoroço na cidade. Flora não deixou que Ágata se aproximasse do irmão e José acabou falsamente acusado de tentar matar Max. Sem sucesso, eles retornaram a Paris. Eis que então Felipe retorna para a história. O coronel foi condenado a cinco anos de vigilância pela polícia política em uma cidade do interior da França. Desroches, tabelião e amigo da família, conseguiu que ele fosse para Issoudun e instiruiu-o a reaver a fortuna de sua família. Aconselhado por Desroches e por Hochon, Felipe, com sua astúcia, teve sucesso onde os bons Ágata e José não tiveram. Conquistou a confiança do tio, dominou Flora e matou Max em um duelo. Terminou por apressar a morte do velho Rouget e casou com Flora. Levou-a a Paris, onde incentivou nela o vício da bebida. Rico e com amigos influentes, prestou obediência aos Bourbon, subiu muito e aguardava a morte da mulher para desposar uma jovem nobre. Virou às costas à mãe e ao irmão. Acabou perdendo a maior parte de sua fortuna na bolsa. Voltou à ativa e foi para a Argélia, onde morreu em combate em 1839. Ágata faleceu convencida de que prefirira durante toda a vida o filho errado. E José prosseguiu sua carreira de pintor. Acabou ficando, por herança, com os bens que restaram de Felipe, bem como com seu título de nobreza, Conde de Brambourg.
É uma história complexa com personagens marcantes. Muito poderia ser comentado, mas destaco dois temas. Um deles, é a inadequação para a vida civil de temperamentos feitos para a guerra. Balzac conheceu isso muito bem. A França passou 25 anos em guerra quando iniciou o período da Restauração. Milhares de militares retornaram à vida civil apenas para descobrir que não serviam para ela. É o caso de Felipe e de Maxêncio. Homens que pela força, pela desenvoltura e destemor seriam heróis e protagonistas de feitos grandiosos, mas que, longe da espada, tornam-se golpistas mesquinhos e aproveitadores. Assim era o grupo de Felipe em Paris e de Max em Issoudun.
O outro tema é de caráter biográfico. A preferência de Ágata por Felipe em detrimento de José é a preferência de madame Balzac por Henry, seu caçula, em detrimento de Honoré. Anne Charlotte Laure Sallambier casou aos dezoito anos com Bernard-François Balssa (que depois se transformou em Balzac) de cinquenta. Foi um casamento arranjado e Balzac foi o primeiro filho do dever. Dez anos depois, nasceu Henry, filho do amor, que atendia pelo nome de Jean de Margonne (ele legou 200 mil francos em testamento a Henry). Madame Balzac sempre foi rígida e ríspida com o seu primogênito. O manteve fora de casa por quatro anos. Já com Henry, revelou-se uma mãe dedicada e amorosa. Pois, Balzac tornou-se famoso e conhecido, ao passo que Henry teve uma carreira errática nas colônias francesas, vindo a falecer em 1858 empobrecido nas ilhas Comores. Daí o paralelo entre Balzac e José. José também era artista e todos julgavam que escolhera mal a carreira, ao passo que o irmão, militar, parecia fadado à glória. Na época em que Balzac começou a escrever parecia muito mais provável que Henry fosse bem sucedido profissionalmente. Pois Balzac tornou-se mundialmente famoso e passou a sustentar a mulher que o preterira.
Na minissérie Balzac, na qual Gerard Depardieu faz um Balzac bem convincente, há uma cena ótima que resume esse drama. Balzac, com cerca de doze anos, está no colégio interno. Recebe a visita de sua mãe. O garoto corre feliz para abraçá-la. Uma sinistra Jeanne Moreau o afasta, alegando que ele não tinha boas notas, por isso não merecia carinhos. Fazia anos que ele não a via.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A Bolsa (maio de 1832)

Personagens: Hipólito Schinner, Adelaide de Leisegneur, Baronesa de Rouville, cavaleiro Du Halga, conde de Kergaroüet, Francisco Souchet.

A história se passa no reinado de Luís XVIII, ou seja, entre 1815 e 1824.

A Bolsa é um conto mal acabado de Balzac. Longas descrições, uma situação de suspense e um final feliz muito forçado.

O jovem e promissor pintor de quadros Hipólito Schinner instala seu ateliê no último andar de um velho prédio. Distraído, caí de uma escada e desmaia. Ao acordar, está na presença de suas vizinhas que, ao ouvir o barulho da queda, o socorrem. Trata-se de uma bela jovem, Adelaide de Leisegneur, e de sua mãe, a baronesa de Rouville. No dia seguinte, Schinner vai ao apartamento das vizinhas agradecer pela ajuda. Eis o ponto alto do livro, a descrição do apartamento: "Para um observador, havia um não sei quê de desolador no espetáculo daquela miséria, que se assemelhava a maquilagem duma mulher velha que ainda quer se dar ares de moça". É a descrição que lança a ambiguidade sobre a vida de Adelaide e de sua mãe: eram elas simples mulheres que viviam em uma pobreza decente após um passado de riquezas? Ou eram mulheres de caráter duvidoso? Balzac aponta o tempo todo para a segunda hipótese. O nome da filha diferente do da mãe. Os cavalheiros idosos, Du Halga e conde de Kergaroüet, que frequentavam o apartamento, e as liberdades que tomavam com Adelaide que para Hipólito ora pareciam as de um pai, ora não. A avidez da baronesa pelo jogo. E, finalmente, o desaparecimento da bolsa de Hipólito com quantia considerável de dinheiro. O desfecho é decepcionante. Após alguns dias de dúvidas e sofrimento, Schinner descobre que Adelaide subtraíra sua bolsa para substituí-la por outra feita por ela. E o pintor é informado de que o conde de Kergaroüet, apiedado da difícil situação financeira da baronesa, perdia voluntariamente no jogo para ajudá-la, já que ela se recusava a aceitar dinheiro.

Balzac poderia ter deixado alguma ambiguidade no conto. Paulo Rónai chama a atenção, na introdução, para o alinhavo da história do jogo. O autor lança tantas sombras sobre o caráter da heroína, que o desenlace é totalmente insatisfatório. No início da história ele diz: "Nenhum pintor de costumes se animou, talvez por pudor, a nos iniciar na intimidade de certas existências parisienses, no segredo dessas moradias de onde saem tão frescas, tão elegantes toilletes, mulheres tão brilhantes que, exteriormente ricas, deixam em tudo os sinais de uma fortuna equívoca". Eis uma tema que Balzac trabalharia com maestria. Mas em A Bolsa ficamos só com a expectativa.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Eugênia Grandet (setembro de 1833)


Personagens: Grandet, Senhora Grandet (née Bertellière); Eugênia; C. de Boufons (sobrinho do senhor Cruchot); senhor Cruchot (notário); Padre Cruchot; senhor de Grassins; senhora de Grassins; Adolfo de Grassins; Nanon (senhora Cornoiller depois de casar); Carlos Grandet; Anete (amante de Carlos); senhorita d'Aubrion (noiva de Carlos).

A história começa em 1819 e termina por volta de 1829.

Paulo Rónai nos conta que Eugênia Grandet foi o primeiro sucesso de público e crítica de Balzac. Foi escrito em um período especial: entre o primeiro encontro com Eveline Hanska em Lausanne, quando se conheceram pessoalmente, e o segundo, em Genebra, quando se tornaram amantes. Foi, portanto, um apaixonado Balzac que escreveu a história do amor fiel e exaltado da provinciana Eugênia Grandet.
A fórmula do início é tipicamente balzaquiana e nossa conhecida: um retrato da família Grandet na cidade de Samur. A descrição da sala da casa Grandet nos conta quase tudo sobre a família que a habita. E aí aparece o personagem que ofusca a heroína: o tanoeiro Grandet. Ele passava os dias fazendo negócios lucrativos e as noites encerrado no quarto contando seus milhões. E apesar das vultosas quantias entesouradas, submetia esposa e filha a uma vida no limite da sobrevivência: “Durante quinze anos, todos os dias da mãe e da filha haviam decorrido placidamente naquele lugar, em constante trabalho, desde abril até novembro. No dia 1º deste último mês elas se transferiam para junto da lareira, a fim de passar o inverno. Somente nesse dia Grandet permitia que se acendesse o fogo na sala. E o fazia apagar a 31 de março, indiferente ao frio dos primeiros dias da primavera e do outono”.
A austera casa Grandet era frequentada por dois grupos: os Cruchots e os Grassins.  O sobrinho do senhor Cruchot, presidente do tribunal de primeira instância de Samur, o o jovem Adolfo de Grassins aspiravam à mão da rica Eugênia. Grandet, que não pretendia dar a filha a nenhum dos dois, jogava com esses interesses para obter favores e aumentar sua fortuna.
O equilíbrio foi rompido pela chegada de Paris do sobrinho de Grandet, o belo Carlos. O rapaz, um típico dândi parisiense, vestido na última moda e já dotado de uma amante casada, chegou a Samur, enviado pelo pai, irmão do velho avarento. Carlos trouxe uma carta fechada na qual o pai contava a Grandet a sua falência, a desgraça de seu nome na praça em Paris e anunciava o seu suicídio. Pedia a Grandet que ajudasse o sobrinho. Grandet conseguiu, utilizando os serviços de des Grassins, suspender a falência do irmão. E preparou a viagem de Carlos para as Índias. Nesse meio tempo, o romance. Eugênia e Carlos se apaixonaram: juraram amor eterno e a moça emprestou ao amado grande quantia de dinheiro que guardava. Carlos partiu. Grandet, ao descobrir o sumiço do tesouro da filha, ficou fora de si. Trancou-a no quarto a pão e água. O desentendimento entre pai e filha agravou a enfermidade da senhora Grandet, que veio a falecer. No final de 1827, aos oitenta e três anos,  foi a vez do velho Grandet.  Antes, iniciou Eugênia nos mistérios da enorme fortuna. Eugênia, já nas casa dos trinta, esperava por Carlos. Seus pretendentes continuavam a frequentar a casa, mas cada vez mais desanimados. Em 1828, Carlos retornou. Refizera a sua fortuna, mas esquecera a prima. Logo arranjou um casamento de conveniência com a senhorita d’ Aubrion, uma jovem sem fortuna e atrativos, mas com pais bem relacionados e com a partícula. Ao ser interpelado por des Grassins para pagar as dívidas do pai e reabilitar seu nome, recusou-se a fazer dizendo que adotaria o nome do sogro. Eugênia, ao saber de tudo, fez um acordo com o juiz Cruchot: se casaria com ele, mas seria um casamento de fachada. Em troca ele deveria procurar o primo, devolver seus pertences e quitar a dívida do tio. Carlos descobriu tarde demais o quão rica era a prima. E Cruchot, que utilizou seus conhecimentos jurídicos para fazer um acordo matrimonial desvantajoso para Eugênia, foi apanhado pela fortuna: faleceu pouco tempo depois do matrimônio. Eugênia, ao final, estava sozinha.
Entende-se o sucesso de Eugênia Grandet. Mesmo sem o toque de gênio de Pai Goriot, o romance tem tudo o que Balzac sabe de melhor fazer. Em primeiro lugar, os personagens. Grandet é um dos grandes avarentos da literatura. Balzac conseguiu criar um avarento humano, bem menos caricatural que Gobsek. Ele distribuía pela manhã os víveres para o dia, obrigando a criada, a mulher e a filha a contrabandear comida. Mas seu amor pela filha e sua devoção pela esposa eram reais e o faziam, muitas vezes, fraquejar.
Eugênia é mais uma versão da virgem francesa de Balzac, a jovem que passa a viver quando descobre o amor. Surpreende, contudo, ao casar com Cruchot e humilhar o primo, pagando suas dívidas. E é encantador ver como ela trazia o velho Grandet dentro de si. Depois da morte do pai, ela manteve os mesmos hábitos avarentos. Ela só não era considerada avara na comunidade por seus trabalhos e doações para caridade.
A criada Nanon é uma forte personagem de apoio. Humilde e orgulhosa, comparsa e opositora das rabugices de Grandet. Acabou casada, como uma boa burguesa, após a morte do patrão. São muitos exemplos da incoerência orgânica que é a prova inequívoca da vida real.
Um segundo ponto, são as intrigas que Balzac consegue articular tão bem, sobretudo na província. As visitas do cruchonistas e grassinistas à casa Grandet atrás do ouro de Eugênia garantem os momentos cômicos do romance. Só que aqui as tramoias não roubam a cena, como em Úrsula Mirouët. Elas fazem um bom pano de fundo para ação que começa com a chegada de Carlos.
Finalmente, o amor segundo Balzac. O amor de Eugênia é totalmente idealizado. Ela se apaixonou pelo primo, à primeira vista, e devotou sua vida a esperá-lo praticamente sem conhecê-lo. O Carlos que aparece em 1828, é bem diferente do rapaz que chorou por dias a morte do pai. Em duas deliciosas páginas que Rónai denomina de “educação sentimental” de Carlos, surge um homem frio, calculista, envolvido em negócios nada morais, como tráfico de escravos. Ele era, afinal, um Grandet. A solução de Balzac poderia ter sido um casamento infeliz com Carlos, como o de Augustina Guillaume.  Um final feliz com Carlos, como o de Adelaide, em A Bolsa. Um casamento feliz com Cruchot, como o de Modesta Mignon (que se apaixonou por Canalis, mas escolheu  la Brière). Balzac escolheu um fim pragmático. Um casamento de fachada com Cruchot, para contentar a comunidade, e a viuvez precoce. Balzac apaixonado parecia pensar que se ama somente uma vez na vida. Mas no final, ele diz que Eugênia ainda poderia vir a se casar.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Émilie, Émilie - a ambição feminina no século XVIII

Émilie, Émilie: a ambição feminina no século XVIII. Elisabeth Badinter. São Paulo: Discurso Editorial, Duna Dueto, Paz e Terra, 2003. 

O que tantos livros sobre mulheres fazem na minha cabeceira, na minha bolsa, no meu leitor Kobo? Quando estava na graduação em História tinha uma certa rejeição por história das mulheres. Não queria fazer parte de uma história categorizada, separada do resto. Ingenuidade da juventude. Era como se diluir a história das mulheres na história da humanidade fosse garantir a igualdade de direitos entre mulheres e homens. Era como acreditar na concretude do caput do artigo 5º da Constituição brasileira. 
Minha busca por conhecer mais sobre a história das mulheres é totalmente pessoal. Preciso entender as opções e escolhas da minha mãe, das minhas três avós (sim, tive três avós). Como essas opções e escolhas me atingiram e atingem a minha filha. Não basta saber a história delas, Teresa, Genny, Haidee, Orfila. Preciso saber o que veio antes. 
Estava pensando em tudo isso, quando conheci Elisabeth Badinter. Filósofa e historiadora francesa é uma das mulheres mais influentes da França (e também mais ricas). Dedica-se à história das mulheres,  do feminismo e da maternidade. Comecei pelo seu livro mais conhecido, Um amor conquistado: o mito do amor materno, sobre o qual ainda vou escrever. Me apaixonei pela clareza e racionalidade do texto. Busquei outros títulos na Estante Virtual. Comprei tudo o que encontrei. Assim, cheguei a Émilie, Émilie
Trata-se da biografia comparada de duas mulheres do século XVIII, Gabrielle Émilie Le Tonnelier de Breteuil, marquesa de Châtelet-Laumont (1706-1749) e Louise Florence Pétronille Tardieu d´ Esclavelles d´Épinay, Madame d´Épinay (1726-1783). Elas foram contemporâneas por vinte e três anos, mas nunca se encontraram. São mais conhecidas como tendo sido amantes de Voltaire (1694-1778) e de Friedrich Melchior von Grimm (1723-1807), respectivamente. Mas foram muito mais do que isso. São suas histórias que Badinter enfrenta em 460 páginas.
As duas pertenciam a classes privilegiadas, mas eram de meios diferentes e incompatíveis na época. Émilie pertencia à alta aristocracia. Louise, à burguesia financeira. Tiveram gostos, caráter e trajetórias diversas. O que tinham em comum, todavia, prevalecia sobre as diferenças, segundo Badinter. E está no título do seu livro: a ambição. "Mulheres em um mundo que reserva a glória apenas aos homens, são estimuladas a uma mesma ambição. Uma e outra escolheram um objetivo preciso para suas vidas, desenvolveram toda a energia de que eram capazes, utilizada até suas últimas forças. Mesmo que os resultados nem sempre tenham estado à altura de suas esperanças, nunca cederam ao desânimo nem depuseram as armas. A não ser o tempo necessário para qualquer ser humano se recobrar. Se o sacrifício e a perseverança são os sinais da ambição, então Madame du Châtelet e Madame d´Épinay foram autênticas ambiciosas. E quase irmãs".
Émilie nasceu em 17 de dezembro de 1706 em Paris, em uma família privilegiada em todos os sentidos, "rica, unida e nobre". Filha de um alto magistrado de Luís XIV, que tinha 58 anos quando ela nasceu, e tinha para com ela "todas a fraquezas de um avô e a ternura de um pai". Ao contrário da maioria das crianças nobres da época, passou quase toda a juventude na casa da família.
Louise nasceu em 11 de março de 1726 na fortaleza de Valenciennes, da qual seu pai era governador. Filha única de pai quase sexagenário e de uma mãe devota, recebeu as maiores atenções dos pais, o que, segundo Badinter, lhe armaram para que sempre tivesse confiança em si mesma.
Émilie foi privilegiada em termos de educação. "Nenhum conhecimento lhe foi proibido, nenhum constrangimento pesou sobre ela por causa do seu sexo". Interessada por línguas, aprendeu latim, italiano e inglês. Aos 17 anos, lia Locke no original. Contudo, original mesmo, era seu gosto por física e matemática. "Fato raríssimo na história da educação de meninas, seu pai a fez tomar aulas dessas duas disciplinas". E foi aí que ela encontrou o foco para a sua ambição.
Louise, segundo Badinter, se assemelhava a Émilie aos dez anos, em disciplina e vontade de saber. Todavia, foi nessa época que faleceu seu pai. Sua mãe tinha uma visão tradicional sobre a educação de meninas: bastava aprender a ler e a escrever. Louise foi confiada a uma tia rica rica, na casa da qual sofreu as humilhações habituais da prima pobre. Conseguiu acompanhar as aulas que a prima tomava com uma governanta, o que logo foi proibido pela tia, que julgava que uma mulher erudita era naturalmente pedante.
"Do século XVII até o fim do século XIX, a mulher erudita é constantemente ridicularizada e tudo se faz para que ela não exista. Quando, no fim do século XIX, as mulheres adquiriram progressivamente o direito de acesso às universidades, são solicitadas a utilizar seu saber para fins altruístas e não egoístas. Para agradar a seus maridos, para serem melhores professoras dos seus filhos, mas nunca para fins pessoais. Uma mulher que ame os estudos por si mesmos comete uma heresia".
Louise voltou a morar com a mãe e, entre 1737 e 1739, foi enviada a um convento,  onde prevalecia a educação religiosa e habilidades como costura e dança. Isso foi tudo o que Madame d´Épinay teve em termos de educação. Aos treze anos, ainda tinha dificuldade para escrever.
Ambas passaram por todas as etapas da vida de uma mulher da época: casaram, tiveram filhos e tiveram amantes. "Entretanto, o século XVIII constitui uma espécie de paradoxo na história das mulheres privilegiadas. Ao mesmo tempo que mantinham para estas a obrigação de casar e de ter filhos, a ideologia dominante lhes concedia direito à negligência. A inconstância conjugal não era um vício. Pode-se mesmo dizer que a fidelidade era considerada um valor fora de moda, quase ridículo, e os cuidados da maternidade não eram considerados dignos das preocupações de uma mulher da alta sociedade".
Para remediar a insignificância da vida feminina, muitas mulheres das classes privilegiadas investiriam na vida social e mundana. "Outras, principalmente depois de 1750, tentaram voltar a dar vida e interesse às preocupações familiares". Madame du Châtelet pertenceu ao primeiro grupo. Madame d´Épinay, ao segundo.
Émilie fez um casamento de conveniência. Louise casou por amor com um primo irmão. "A mais satisfeita das duas foi, no entanto, a primeira. O Sr. du Châtelet revelou-se um marido muito gentil, discreto, cortês e amigo, enquanto o Sr. d´´Epinay foi uma caricatura de esposo execrável. Mas, ambos, não puderam, ou não quiseram, satisfazer suas esposas." Quem o fez foram Voltaire e Grimm, com quem elas formaram pares ligados por sentimentos e interesses. "É incontestável que esses dois homens deram às duas Émilies os trunfos necessários, mas não suficientes, para a realização da ambição delas: a estabilidade afetiva e o respeito do homem admirado, o que lhes dava confiança em si mesmas".
Badinter não foge da questão que nos ocorre nessa altura do texto. Não estamos aqui fazendo o mesmo de sempre, valorizando Émilie e Louise pela sua ligação com homens célebres? "Se fosse preciso expor a ambição masculina no século XVIII e particularmente a de Grimm e de Voltaire, deveríamos evocar suas relações afetivas e delas fazer a condição necessária à sua ambição?". A resposta é não. Voltaire e Grimm já eram conhecidos antes de se ligarem a elas. Não tiveram necessidade de admiração e reconhecimento das companheiras para investir em suas ambições. Já Émilie e Louise nasceram para desempenhar o papel tradicional de esposa, mãe e presença mundana nos salões da elite da época. "O amor, longe de ser uma fonte de alienação, foi a condição de emancipação e autonomia delas. Desde de que se sentiram amadas e respeitadas, elas cessaram de sentir a necessidade de correr atrás do reconhecimento dos outros". Podiam ser elas mesmas e se dedicar a sua ambição.
Émilie foi amante de Voltaire entre 1733 e 1741. Louise foi amante de Grimm entre 1754 e 1773. Ambas foram muito apaixonadas e foram correspondidas. Viveram com seus amantes uma comunhão intelectual, com estudo, leituras e trabalhos conjuntos. Deixaram de ser correspondidas em função de outras paixões, no caso de Voltaire, e, da ambição, no caso de Grimm. Mas nunca romperam a relação de amizade e companheirismo com eles. Ambos sobreviveram a elas.
Mas o que essas mulheres fizeram de extraordinário?
Émilie du Châtelet foi uma das primeiras, senão da primeira mulher Física de história. Escreveu Instituições da Física em 1740, no qual difunde a física newtoniana, pouco conhecida na França da época. E se distingue dos seus pares do século das luzes ao tentar conciliar Newton (1643-1727) com Descartes (1596-1650) e com a metafísica de Leibniz (1646-1716). A partir de 1744, ela se dedicou a traduzir os Principia de Newton para o francês em uma edição comentada. Sua  morte precoce em 1749 a impediu de terminar o trabalho, que foi concluído pelo amigo Alexis Claude de Clairaut (1713-1765). Até hoje é a tradução de Newton que os franceses leem. Voltaire escreveu no prefácio:
"Essa tradução, que os mais talentosos homens da França deveriam ter feito e que os outros devem estudar, um mulher a empreendeu e terminou, para o espanto e a glória do seu país. Gabrielle-Émilie (...) é a autora desta tradução que se tornou necessária a todos que queiram adquirir os profundos conhecimentos que o mundo deve ao grande Newton. (...). Tem-se aí dois prodígios: o primeiro, que Newton tenha escrito estas obra; o outro, que uma mulher a tenha traduzido e esclarecido".
Louise, que foi anfitriã de Rouseeau (1712-1778), se dedicou a escrever sobre educação. Sua obra, Conversações com Émilie de 1774, escrita para a educação de sua neta, Émilie, subverte as instruções de Rousseau no seu Émile. Jean-Jacques, um dos grandes responsáveis pela submissão da mulher na era burguesa, recomendava à Sophie, companheira de Émile:
"Todos os estudos ociosos não levam a nada de bom (...). Que necessidade tem um menina de aprender a ler e escrever tão cedo? Terá ela logo uma casa para administrar? Muito poucas há que, ao invés de apenas abusar, fazem um bom uso dessa ciência fatal (...). ".
Pois nas suas Conversações, Louise construiu uma anti-Sophie: "Quando vós vos empenhais em cultivar a vossa razão, em orná-la com conhecimentos úteis e sólidos, estais abrindo para vós mesmas tantas novas fontes de prazer e de satisfação, tantos meios de embelezar vossa vida, de ter recurso contra o tédio e consolo durante a adversidade, quando conhecimentos e talentos. São bens que ninguém pode roubar-vos, que vos livram da dependência dos outros (...) que, ao contrário, tornam os outros dependentes de vós; pois quanto mais talentos e luzes temos, mais nos tornamos úteis e necessárias à sociedade.". Nas palavras de Badinter: "Rousseau pode prender as mulheres no lar quanto quiser, Madame d´Épinay lhes dá a receita para escapar". Louise escreveu outras obras, mas foram as Conversações que a tornaram célebre. Em 1783, foi premiada pela Academia Francesa.
Hoje as mulheres seguem os caminhos abertos por Émilie e Louise. São cientistas, pedagogas, políticas, intelectuais. Escolhem ter filhos ou não. Mas o baixo número de mulheres que escolhem carreiras científicas e a sombra dos ensinamentos de Jean-Jacques sobre a educação das meninas indicam que as Émilies ainda tem muito o que ensinar. 
Madame du Châtelet

Madame d´Épinay

Tradução francesa do Principia





quarta-feira, 24 de junho de 2020

Pedro Grassou

Pedro Grassou (dezembro de 1839)
Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense



Personagens: Pedro Grassou (Fougères), Elias Magus, Servin (A Vendeta), Schinner (A BolsaModesta MignonA falsa amante) , Sommervieux (Ao "Chat-qui-pelote") José Bridau (Um conchego de solteirão), Leão de Lora (Um estreia na vida), François-Marius Granet (1775-1849), Pierre Duval Le Camus (1790-1854), Alexandre Gabriel Decamps (1803-1860), Cardot (Ao "chat-qui-pelote", Uma Estreia na Vida, A musa do departamento), Antenor Vervelle, senhora Vervelle e Virgínia Vervelle. 




A história começa em 1832, mas recua até 1819. 



Pedro Grassou é, nas palavras de Paulo Rónai, uma anedota. É interessante, contudo, pois é um dos textos no qual Balzac reflete a respeito da arte e do artista no seu tempo. 
O protagonista, também conhecido como Fougères, nome de sua cidade natal na Bretanha, é um pintor de quadros medíocre, que, embora tenha estudado com grandes nomes do seu tempo (alguns fictícios, como Servin, Schinner e Sommervieux, outros reais como Granet e Le Camus), não conseguia mais do que copiar o estilo de artistas consagrados. Foi inúmeras vezes desencorajado pelos seus pares, mas era humilde e persistente. Ao invés de buscar emprego em um escritório ou, ironia de Balzac, "experimentar a literatura", adotou um estilo modesto de vida e seguiu buscando o reconhecimento. Sobrevivia da venda de seus quadros a um comerciante de arte, usurário caricato, Elias Magus. Ele encomendava "interiores flamengos, uma lição de anatomia, uma paisagem" ao artista, e Grassou sobrevivia com renda minguada. Em 1829, dez anos após sua estreia na arte, seus amigos famosos, Schinner, Leão de Lora e Bridau, conseguiram que um quadro seu fosse admitido na exposição do grande Salão. Lá seu quadro, Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 , "embora medíocre, (...) teve um êxito extraordinário". Agradou  a Carlos X e a outros expoentes da realeza e lhe rendeu a cruz de cavaleiro da Legião de Honra. Foi sua consagração como artista. Passou a ter quadros aceitos no Salão. Mas seguiu vivendo com parcimônia e depositando suas economias no tabelião Cardot. 
Em dezembro de 1839, Magus traz a família Vervelle para que Fougerès lhe faça os retratos. O comerciante de garrafas Antenor Vervelle, sua esposa e filha, Virgínia, se afeiçoaram ao circunspecto e organizado artista. Descobrem ter em comum o mesmo Cardot como tabelião. Começam a considerará-lo um bom partido para a pouco atraente Virgínia. Grassou também pensa em casamento, julgando o dote e os bens do futuro sogro. 
Finalmente, Vervelle convida o artista para conhecer sua casa de campo, onde se gaba de ter uma galeria com quadros de grandes artistas, como Rubens, Rembrandt e Murilo. Ao ver a galeria, Fougerés descobre que metade das obras expostas eram suas, cópias por ele realizadas e compradas por pouco dinheiro por Magus, que as vendia caro para o burguês. Longe de ficar aborrecido, Vervelle reconheceu Grassou-Fougerès como um grande talento e deu a ele a mão de Virgínia. No final da história, ele mora com os sogros, ganha quinhentos francos por quadro e espera ingressar na Academia
O início do conto Pedro Grassou é ensaístico. Balzac critica a democratização do Salão de Pintura e Escultura ocorrida depois da Revolução de 1830:
"Uma experiência de dez anos demostrou a excelência da antiga instituição. Em vez de um torneio, tendes agora um motim; em vez de uma exposição gloriosa, um bazar tumultuoso; em vez do melhor, a totalidade . (...) Onde não há mais julgamento também não há mais coisa julgada". 
Grassou conseguiu colocar seu quadro Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801, em 1829,  por empenho de seus amigos famosos. Já depois da Revolução de Julho, "vinha apresentando a cada exposição uma dezena de quadros, dos quais o júri admitia quatro ou cinco". Essa crítica nos situa no tema que Balzac explora no texto: o aburguesamento do gosto artístico. Pedro Grassou é o artista burguês por excelência. A descrição do seu ateliê, organizado e limpo como um quarto de moça, já nos afasta do esteriótipo do artista atormentado e genial. São seus hábitos, especialmente os econômicos, que promovem a sua ascensão, mais que sua habilidade. Gastar pouco, comer pouco, colocar os ganhos na mão do tabelião, escolher temas que, ou combinavam com a política do momento (Os Preparativos na época de Carlos X) ou que não a confrontavam (retratos, paisagens e interiores na Monarquia de Julho), escolher a noiva pelo dote. Tudo isso fez com que Grassou não saísse "de um círculo burguês onde é considerado um dos melhores artistas da época". Não tem o reconhecimento dos pares, "os artistas zombam dele, seu nome é uma palavra de desprezo nos ateliês, os folhetins não se ocupam de sua obra", mas a classe ascendente o compra, pois com ele se identifica. 
Por que Pedro Grassou era um artista medíocre? Segundo Balzac, porque ele não conseguia imaginar, somente copiar; e porque não mostrava a natureza como era, mas de forma estereotipada (José Bridau, ao ver Grassou pintando Virgínia, comentou que a face com tons róseos era adequada para um anúncio de perfumista. Era preciso uma cor vermelha para pintar a moça ruiva). Ele deixava de copiar a natureza, mas copiava as imagens da natureza feitas por outros artistas. 
O interessante é que Grassou-Fougères sabia a diferença entre a obra medíocre e a de qualidade, ao contrário dos seus clientes. No final, sabemos que ele usava seu dinheiro para comprar quadros de pintores célebres que se encontravam em dificuldades para substituir as cópias da galeria de seu sogro, substituir as más telas por "verdadeiras obras primas, que não são dele". 
Paulo Rónai, na introdução do conto, nos diz que Balzac foi um dia Grassou, "produzindo obras inconfessáveis". Esse texto foi escrito entre 1944 e 1955, época da tradução da Comédia Humana no Brasil, da qual Rónai foi organizador. No texto do Jornal do Brasil de 2 de dezembro de 1972, Rónai nos dá notícia da leitura de Balzac et Le Mal du Siecle. Contribuition a une Phisyologie du Monde Moderne de Pierre Barbéris publicado em 1970. Nele, Barbéris analisa minuciosamente a obra de Balzac até 1833, após o primeiro sucesso balzaquiano. E o resultado muito se afasta do que Rónai denomina "a tese do milagre", ou seja, que uma mudança teria ocorrido com Balzac após seu trigésimo ano que o transformou de autor irresponsável e mercenário das obras da mocidade em historiador imparcial e perfeito de sua época. Havia muito mais qualidade naquela obra inicial do que se conhecia. Não houve milagre. Balzac imaginava e mostrava a natureza tal qual era, apesar da inexperiência da juventude.  Balzac nunca foi Pedro Grassou. 



Observação: na edição em português que tenho, da Editora Globo de 1990, a data do quadro de Grassou Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 está com a data errada de 1809. Os chouans eram monarquistas da região da Bretanha que se rebelaram contra a Revolução Francesa. Com o início das guerras napoleônicas, houve uma espécie de trégua desse tipo de revolta em 1801. Por isso, a data de 1809 me pareceu estranha. Foi um erro de tradução que pode ser verificado no texto original de Pierre Grassou

O quadro que ilustra a postagem é La femme hydropique (1663) do pintor holandês Gerit Dou (1613-1675). Foi o quadro que Pedro Grassou plagiou ao fazer Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 . O original, de Dou, está no Louvre. O de Pedro Grassou talvez esteja também. 


sexta-feira, 15 de julho de 2011

Todos os fogos o fogo

Todos os fogos o fogo. Julio Cortazar. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2007. Tradução: Gloria Rodrigues.

Lido entre 1 e 8 de junho de 2011.

Todos os fogos o fogo de Júlio Cortazar é livro texto de oficina literária. São oito contos modelares para que não esqueçamos como pode ser sublime uma narrativa curta.
Um meus preferidos, A auto-estrada do sul, transforma um engarrafamento em uma situação meio onírica, meio estado de natureza. Não sei se José Saramago pensou nesse conto ao escrever Ensaio sobre a Cegueira, mas me parece claro que existe identidade entre as duas obras.
A saúde dos doentes parte de uma situação corriqueira, a morte de um filho em um acidente e a impossibilidade de dar a notícia à mãe doente, para criar um jogo de fantasia e realidade.
Reunião, com epígrafe de Che Guevara, é totalmente realista. O narrador (Che) relata a subida de uma serra com um grupo de guerrilheiros, fugindo das forças oficiais.
Senhorita Cora, o meu preferido, é escrito do início ao fim em fluxo de consciência. Um adolescente, Pablo, está no hospital para fazer uma operação de apendicite. Seus pais o visitam e ele é atendido por uma bela e jovem enfermeira, a senhorita Cora. As vozes de Pablo, de Cora, da mãe, do pai, dos médicos, se alternam sem se confundir. Talvez esse conto seja autobiográfico, já que Cortazar foi uma criança doente e passou temporadas hospitalizado.
A ilha ao meio-dia conta a obsessão de um comissário de bordo por uma faixa de terra da Grécia que ele avista do avião, da rota que ele faz, pontualmente ao meio dia. Confesso que não gostei do desfecho.
Instruções a John Howell brinca com uma ideia que todos que já foram ao teatro tiveram: o assistente que é convidado a atuar na peça.
Todos os fogos o fogo, conto que dá título ao livro, alterna duas narrativas: um grupo em uma arena romana assiste a uma luta de gladiadores e um casal de namorados/amantes está em crise, pois uma traição foi descoberta. É incrível como o escritor faz esse esquema funcionar.
O outro céu é uma narrativa fantástica na qual o narrador circula ao mesmo tempo por Paris e Buenos Aires. Na capital portenha, mora com a mãe, tem uma noiva e trabalha na Bolsa, ao passo que em Paris, circula à noite pelas galerias, “esse mundo que escolheu um céu mais próximo”, namora a prostituta Josiane e conversa com os notívagos sobre os crimes do assassino Laurent. Assisti  ontem ao Meia Noite em Paris de Woody Allen. Há uma cena em que Gil (Owen Wilson) conversa com pintores da Paris da década de 1920 e explica que ele vive em duas dimensões: em uma está noivo e vai casar; em outra está envolvido com a amante de Pablo Picasso. Lembrei imediatamente desse conto.
Histórias assim, não há que comentar. Há que ler.