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domingo, 20 de novembro de 2011

Um Conchego de Solteirão - terceira história de Os celibatários (novembro de 1842)

Volume VI: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Provinciana (lido entre 3 de dezembro de 2010 e 11 de julho de 2011).

Personagens: doutor Rouget, João-Jacques Rouget, Ágata Rouget, Bridau, Felipe Bridau, José Bridau, senhora Descoings (tia de Ágata), Florentina, Giroudeau, Maximiliana Hochon, senhor Hochon, Maxêncio Gilet, Francisco Hochon, Baruch Hochon, Fario, Flora Brazier, Fanchette, Horácio Bianchon, Bixiou.

Começo a falar sobre Um Conchego de Solteirão a me repetir. Se Balzac houvesse apenas produzido esse romance, ele já estaria entre os melhores. Temos aqui um romance em duas partes com núcleos diversos, tanto que Balzac mudou seu nome algumas vezes (pensou em A Gapuiadora e Os Dois Irmãos, mas optou por Um Conchego de Solteirão). A primeira parte discorre sobre a vida e o caráter dos irmãos Felipe e José Bridau. Felipe e José eram filhos de Ágata Rouget. Ágata e seu irmão, João-Jacques, eram filhos do doutor Rouget da cidade de Issoudun. O doutor, todavia, tinha sérias dúvidas sobre a paternidade de Ágata e enviou a filha a Paris para morar com os parentes da esposa, os Descoings. Ágata conheceu então Bridau, revolucionário girondino. Casaram-se, veio o Diretório e o Império e Bridau tornou-se homem de confiança de Napoleão. Tiveram dois filhos, Felipe e José, criados com facilidades no período napoleônico. Em 1808, Bridau faleceu precocemente. Ágata passou a morar com a tia Descoings e dedicar-se a criar os filhos. Felipe inclinou-se cedo às armas. Era belo e extrovertido, merecendo a preferência da mãe. José, o caçula, tinha pendores artísticos e cedo resolveu que seria pintor de quadros. A mãe desaprovava. Considerava a arte carreira pouco segura e desimportante. A comparação de José com o irmão era desvantajosa para o artista. José era feio, tímido e desajeitado. Desaprecia ao lado do solar Felipe. Enquanto José se instruía nas artes, Felipe ingressou no exército e foi ajudante-de-ordens de Napoleão na batalha de La Fère-Champenoise. Ao retornar à casa de mãe em 1814, depois da derrota de Waterloo, encontrou a família arruinada: a bolsa de estudos de José e a pensão da senhora Bridau haviam sido suprimidas: “Capitão aos dezenove anos e condecorado, Felipe, tendo servido como ajudante-de-ordens do imperador em dois campos de batalha, lisonjeava imensamente o amor próprio da mãe; assim, embora grosseiro, desordeiro, sem outro mérito além da vulgar bravura do soldado, parecia a seus olhos, um homem genial. Enquanto isso José, pequeno, magro, doentio, com uma fronte selvagem, amando a paz, a tranquilidade, sonhando com a glória artística, só lhe daria, segundo pensava, tormentos e inquietações”. Felipe então começou a mostrar seu caráter. Não trabalhava, passava nos cafés com outros oficiais bonapartistas e servia-se à larga da bolsa da mãe. Em 1817, convenceu Ágata a financiar uma desastrada viagem para os Estados Unidos para juntar-se ao Coronel Lallemand. Retornou em 1819 com dívidas que foram pagas pela estoica mãe. O coronel então entregou-se sem reservas a uma vida de farras. Tornou-se amante de uma dançarina e passou a roubar dinheiro da mãe, irmão e tia para gastar no jogo. Finalmente, roubou o dinheiro que a tia Descoings guardava para jogar na loteria. O número no qual a velha jogaria foi sorteado e ela morreu de desgosto. Ágata, então , o expulsou de casa. Ágata teve de arrumar um emprego e passou a viver modestamente com José, que trabalhava muito para dar à mãe uma existência mais leve. Felipe acabou preso, sob acusação de envolvimento em uma conspiração. Para libertá-lo, seria necessária uma quantia da qual Ágata não dispunha. Nesse ponto, a boa mãe recebeu uma carta da senhora Hochon, sua madrinha em Issoudun. Ela contava que Joâo-Jacques, irmão de Ágata, vivia com uma concubina que o tratava mal, e pretendia deixar toda a herança para a tal mulher, ignorando irmã e sobrinhos. E diz que Ágata devia ir imeditamente à terra natal. Ágata então partiu com José.
A ação se desloca para Issoudun, onde um novo grupo de personagens entra em ação. Há basicamente dois núcleos. A casa dos Hochon, onde Ágata e José ficaram hospedados e, defronte, a casa de Rouget. O talento de Balzac para criar personagens pérfidos é enorme. Na primeira parte, ele faz o terrível Felipe brilhar. Agora surgem Flora Brazier e Maxêncio Gilet. Flora é a tal gapuiadora quase deu o nome ao romance. Certa vez, Balzac viu uma menina no rio em Issoudun gapuaindo, ou seja, revolvendo a água com um galho de árvore para encaminhar os caranguejos para as armadilhas dos pescadores. É exatamente assim que Flora, aos doze anos, aparece na história. Em 1799, o doutor Rouget, pai de Ágata e João-Jacques, encontrou Flora no rio e, encantado com a sua beleza, levou-a para casa, dando uma pequena compensação ao tio da menina. Tudo indica que Rouget tinha intenções libidinosas para com a moça, mas morreu antes de concretizá-las. Flora então ficou na casa e tornou-se criada-amante de João-Jacques, a quem dominava completamente. Max Gilet é um temperamento gêmeo de Felipe Bridau. Contudo, ao contrário de Felipe, Max não teve boa estrutura familiar. Filho da esposa de um tamanqueiro, de beleza singular, com pai desconhecido, Max foi criado solto e alistou-se no exército para escapar de uma acusação de assassinato. Só teve algum brilho, porém, nos Cem Dias. Retornou a Issoudun e, assim como outros oficiais do Império, ficou ocioso. Organizou, então, um grupo de jovens, espécie de confraria, os Cavaleiros da Malandragem, que faziam estripulias de madrugada em Issoudun. Tornou-se amante de Flora que convenceu Rouget a deixá-lo a morar em sua casa. A ideia dos amantes era tomar a fortuna de Rouget e fugir. Assim, a chegada de Ágata causou um alvoroço na cidade. Flora não deixou que Ágata se aproximasse do irmão e José acabou falsamente acusado de tentar matar Max. Sem sucesso, eles retornaram a Paris. Eis que então Felipe retorna para a história. O coronel foi condenado a cinco anos de vigilância pela polícia política em uma cidade do interior da França. Desroches, tabelião e amigo da família, conseguiu que ele fosse para Issoudun e instiruiu-o a reaver a fortuna de sua família. Aconselhado por Desroches e por Hochon, Felipe, com sua astúcia, teve sucesso onde os bons Ágata e José não tiveram. Conquistou a confiança do tio, dominou Flora e matou Max em um duelo. Terminou por apressar a morte do velho Rouget e casou com Flora. Levou-a a Paris, onde incentivou nela o vício da bebida. Rico e com amigos influentes, prestou obediência aos Bourbon, subiu muito e aguardava a morte da mulher para desposar uma jovem nobre. Virou às costas à mãe e ao irmão. Acabou perdendo a maior parte de sua fortuna na bolsa. Voltou à ativa e foi para a Argélia, onde morreu em combate em 1839. Ágata faleceu convencida de que prefirira durante toda a vida o filho errado. E José prosseguiu sua carreira de pintor. Acabou ficando, por herança, com os bens que restaram de Felipe, bem como com seu título de nobreza, Conde de Brambourg.
É uma história complexa com personagens marcantes. Muito poderia ser comentado, mas destaco dois temas. Um deles, é a inadequação para a vida civil de temperamentos feitos para a guerra. Balzac conheceu isso muito bem. A França passou 25 anos em guerra quando iniciou o período da Restauração. Milhares de militares retornaram à vida civil apenas para descobrir que não serviam para ela. É o caso de Felipe e de Maxêncio. Homens que pela força, pela desenvoltura e destemor seriam heróis e protagonistas de feitos grandiosos, mas que, longe da espada, tornam-se golpistas mesquinhos e aproveitadores. Assim era o grupo de Felipe em Paris e de Max em Issoudun.
O outro tema é de caráter biográfico. A preferência de Ágata por Felipe em detrimento de José é a preferência de madame Balzac por Henry, seu caçula, em detrimento de Honoré. Anne Charlotte Laure Sallambier casou aos dezoito anos com Bernard-François Balssa (que depois se transformou em Balzac) de cinquenta. Foi um casamento arranjado e Balzac foi o primeiro filho do dever. Dez anos depois, nasceu Henry, filho do amor, que atendia pelo nome de Jean de Margonne (ele legou 200 mil francos em testamento a Henry). Madame Balzac sempre foi rígida e ríspida com o seu primogênito. O manteve fora de casa por quatro anos. Já com Henry, revelou-se uma mãe dedicada e amorosa. Pois, Balzac tornou-se famoso e conhecido, ao passo que Henry teve uma carreira errática nas colônias francesas, vindo a falecer em 1858 empobrecido nas ilhas Comores. Daí o paralelo entre Balzac e José. José também era artista e todos julgavam que escolhera mal a carreira, ao passo que o irmão, militar, parecia fadado à glória. Na época em que Balzac começou a escrever parecia muito mais provável que Henry fosse bem sucedido profissionalmente. Pois Balzac tornou-se mundialmente famoso e passou a sustentar a mulher que o preterira.
Na minissérie Balzac, na qual Gerard Depardieu faz um Balzac bem convincente, há uma cena ótima que resume esse drama. Balzac, com cerca de doze anos, está no colégio interno. Recebe a visita de sua mãe. O garoto corre feliz para abraçá-la. Uma sinistra Jeanne Moreau o afasta, alegando que ele não tinha boas notas, por isso não merecia carinhos. Fazia anos que ele não a via.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Pedro Grassou

Pedro Grassou (dezembro de 1839)
Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense



Personagens: Pedro Grassou (Fougères), Elias Magus, Servin (A Vendeta), Schinner (A BolsaModesta MignonA falsa amante) , Sommervieux (Ao "Chat-qui-pelote") José Bridau (Um conchego de solteirão), Leão de Lora (Um estreia na vida), François-Marius Granet (1775-1849), Pierre Duval Le Camus (1790-1854), Alexandre Gabriel Decamps (1803-1860), Cardot (Ao "chat-qui-pelote", Uma Estreia na Vida, A musa do departamento), Antenor Vervelle, senhora Vervelle e Virgínia Vervelle. 




A história começa em 1832, mas recua até 1819. 



Pedro Grassou é, nas palavras de Paulo Rónai, uma anedota. É interessante, contudo, pois é um dos textos no qual Balzac reflete a respeito da arte e do artista no seu tempo. 
O protagonista, também conhecido como Fougères, nome de sua cidade natal na Bretanha, é um pintor de quadros medíocre, que, embora tenha estudado com grandes nomes do seu tempo (alguns fictícios, como Servin, Schinner e Sommervieux, outros reais como Granet e Le Camus), não conseguia mais do que copiar o estilo de artistas consagrados. Foi inúmeras vezes desencorajado pelos seus pares, mas era humilde e persistente. Ao invés de buscar emprego em um escritório ou, ironia de Balzac, "experimentar a literatura", adotou um estilo modesto de vida e seguiu buscando o reconhecimento. Sobrevivia da venda de seus quadros a um comerciante de arte, usurário caricato, Elias Magus. Ele encomendava "interiores flamengos, uma lição de anatomia, uma paisagem" ao artista, e Grassou sobrevivia com renda minguada. Em 1829, dez anos após sua estreia na arte, seus amigos famosos, Schinner, Leão de Lora e Bridau, conseguiram que um quadro seu fosse admitido na exposição do grande Salão. Lá seu quadro, Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 , "embora medíocre, (...) teve um êxito extraordinário". Agradou  a Carlos X e a outros expoentes da realeza e lhe rendeu a cruz de cavaleiro da Legião de Honra. Foi sua consagração como artista. Passou a ter quadros aceitos no Salão. Mas seguiu vivendo com parcimônia e depositando suas economias no tabelião Cardot. 
Em dezembro de 1839, Magus traz a família Vervelle para que Fougerès lhe faça os retratos. O comerciante de garrafas Antenor Vervelle, sua esposa e filha, Virgínia, se afeiçoaram ao circunspecto e organizado artista. Descobrem ter em comum o mesmo Cardot como tabelião. Começam a considerará-lo um bom partido para a pouco atraente Virgínia. Grassou também pensa em casamento, julgando o dote e os bens do futuro sogro. 
Finalmente, Vervelle convida o artista para conhecer sua casa de campo, onde se gaba de ter uma galeria com quadros de grandes artistas, como Rubens, Rembrandt e Murilo. Ao ver a galeria, Fougerés descobre que metade das obras expostas eram suas, cópias por ele realizadas e compradas por pouco dinheiro por Magus, que as vendia caro para o burguês. Longe de ficar aborrecido, Vervelle reconheceu Grassou-Fougerès como um grande talento e deu a ele a mão de Virgínia. No final da história, ele mora com os sogros, ganha quinhentos francos por quadro e espera ingressar na Academia
O início do conto Pedro Grassou é ensaístico. Balzac critica a democratização do Salão de Pintura e Escultura ocorrida depois da Revolução de 1830:
"Uma experiência de dez anos demostrou a excelência da antiga instituição. Em vez de um torneio, tendes agora um motim; em vez de uma exposição gloriosa, um bazar tumultuoso; em vez do melhor, a totalidade . (...) Onde não há mais julgamento também não há mais coisa julgada". 
Grassou conseguiu colocar seu quadro Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801, em 1829,  por empenho de seus amigos famosos. Já depois da Revolução de Julho, "vinha apresentando a cada exposição uma dezena de quadros, dos quais o júri admitia quatro ou cinco". Essa crítica nos situa no tema que Balzac explora no texto: o aburguesamento do gosto artístico. Pedro Grassou é o artista burguês por excelência. A descrição do seu ateliê, organizado e limpo como um quarto de moça, já nos afasta do esteriótipo do artista atormentado e genial. São seus hábitos, especialmente os econômicos, que promovem a sua ascensão, mais que sua habilidade. Gastar pouco, comer pouco, colocar os ganhos na mão do tabelião, escolher temas que, ou combinavam com a política do momento (Os Preparativos na época de Carlos X) ou que não a confrontavam (retratos, paisagens e interiores na Monarquia de Julho), escolher a noiva pelo dote. Tudo isso fez com que Grassou não saísse "de um círculo burguês onde é considerado um dos melhores artistas da época". Não tem o reconhecimento dos pares, "os artistas zombam dele, seu nome é uma palavra de desprezo nos ateliês, os folhetins não se ocupam de sua obra", mas a classe ascendente o compra, pois com ele se identifica. 
Por que Pedro Grassou era um artista medíocre? Segundo Balzac, porque ele não conseguia imaginar, somente copiar; e porque não mostrava a natureza como era, mas de forma estereotipada (José Bridau, ao ver Grassou pintando Virgínia, comentou que a face com tons róseos era adequada para um anúncio de perfumista. Era preciso uma cor vermelha para pintar a moça ruiva). Ele deixava de copiar a natureza, mas copiava as imagens da natureza feitas por outros artistas. 
O interessante é que Grassou-Fougères sabia a diferença entre a obra medíocre e a de qualidade, ao contrário dos seus clientes. No final, sabemos que ele usava seu dinheiro para comprar quadros de pintores célebres que se encontravam em dificuldades para substituir as cópias da galeria de seu sogro, substituir as más telas por "verdadeiras obras primas, que não são dele". 
Paulo Rónai, na introdução do conto, nos diz que Balzac foi um dia Grassou, "produzindo obras inconfessáveis". Esse texto foi escrito entre 1944 e 1955, época da tradução da Comédia Humana no Brasil, da qual Rónai foi organizador. No texto do Jornal do Brasil de 2 de dezembro de 1972, Rónai nos dá notícia da leitura de Balzac et Le Mal du Siecle. Contribuition a une Phisyologie du Monde Moderne de Pierre Barbéris publicado em 1970. Nele, Barbéris analisa minuciosamente a obra de Balzac até 1833, após o primeiro sucesso balzaquiano. E o resultado muito se afasta do que Rónai denomina "a tese do milagre", ou seja, que uma mudança teria ocorrido com Balzac após seu trigésimo ano que o transformou de autor irresponsável e mercenário das obras da mocidade em historiador imparcial e perfeito de sua época. Havia muito mais qualidade naquela obra inicial do que se conhecia. Não houve milagre. Balzac imaginava e mostrava a natureza tal qual era, apesar da inexperiência da juventude.  Balzac nunca foi Pedro Grassou. 



Observação: na edição em português que tenho, da Editora Globo de 1990, a data do quadro de Grassou Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 está com a data errada de 1809. Os chouans eram monarquistas da região da Bretanha que se rebelaram contra a Revolução Francesa. Com o início das guerras napoleônicas, houve uma espécie de trégua desse tipo de revolta em 1801. Por isso, a data de 1809 me pareceu estranha. Foi um erro de tradução que pode ser verificado no texto original de Pierre Grassou

O quadro que ilustra a postagem é La femme hydropique (1663) do pintor holandês Gerit Dou (1613-1675). Foi o quadro que Pedro Grassou plagiou ao fazer Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 . O original, de Dou, está no Louvre. O de Pedro Grassou talvez esteja também. 


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Ilusões Perdidas


Ilusões Perdidas (1835-1853)

Volume VII: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Provinciana (Lido entre 16 de julho de 2011 e 19 de dezembro de 2012)

Personagens: Jerônimo Nicolau Séchard, David Séchard, Luciano Chardon ou Luciano de Rubempré, senhora Chardon, Eva Chardon, senhora de Bargeton (Maria Luísa Anais de Negrepelisse), senhor de Bargeton, Padre Niollant, barão Sixto du Châtelet, senhor Postel, Amélia de Chandour, Estanislau de Chandour, Astolfo de Saintot, Elisa de Saintot, Adriano de Bartas, Josefina de Bartas, Alexandre de Brebain, Carlota de Brebian, Conde Jaques de Sénoches, senhora Zefirina de Sénoches, Francis de Hautoy Francisca, Marquês de Pimentel, Marquesa de Pimentel, Barão e Baronesa de Rastingnac (pais de Eugênio de Rastignac), senhora du Brossard, senhorita du Brossard, Gentil, Albertina, senhora d´Espard, senhor de Marsay, Felix de Vandenesse, general Montriveau, Canalis, Eugênio de Rastignac, Estevão Losteau, Florina, Finot, Feliciano Vernout, Emílio Blondet, Nathan, Dauriat, Camusot, Corália, D´Arthez, Bianchon, Leão Giraut, Miguel Chrestien, Girondeau, Cláudio Vignon, Condessa du Montcornet, senhorita des Touches (Camilo Maupin), Fendant, Cavalier, Courtois, senhora Courtois, Cérizet, irmãos Cointet, Kolb, Marion, Pedro Petit-Claud, Vitor Doublon, reverendo Carlos Herrera. 

A história se passa entre 1819 e 1842.

Ilusões Perdidas foi a primeira obra de Balzac que li, aos 22 anos. Não sabia quase nada sobre o autor, tampouco sobre a Comédia Humana. Gostei muito do livro e foi a partir daí que nasceu a ideia de ler toda a Comédia Humana
Ilusões Perdidas é uma espécie de síntese da Comédia Humana. É só ver a galeria de personagens acima que não é exaustiva. Além disso, Balzac transita da província para Paris e de Paris para a província, com aquelas caracterizações ambientais tão tipicamente balzaquianas. 
Apesar do imenso número de personagens, Ilusões Perdidas conta a história de um único: Luciano de Rubempré. Paulo Rónai considera Luciano uma das criações mais completas de Balzac, não tanto pelo personagem  mas por representar um tipo característico de uma época: os jovens que entre 1820 e 1840 foram inspirados pelo exemplo de Napoleão Bonaparte. Datam dessa época diversas narrativas de ascensão e queda, com as de Luciano e Rastiganc ou Julien Sorel, de Stendhal. 
A obra está dividida em três partes: Os dois poetas, Um grande homem da província em Paris e Os sofrimentos do Inventor.
Em Os dois poetas conhecemos o nosso herói em seu meio, a cidade de Angoulême. Filho de um boticário falecido, Luciano sonha com a glória literária. O outro poeta é David Séchard, também personagem notável. Com tendências à invenção, David herda uma tipografia de seu pai, o avarento Jerônimo Séchard, que praticamente vende a empresa ao filho, deixando-o em sérias dificuldades. Aqui Balzac nos apresenta o mundo das tipografias, que ele conhecia muito bem, com todos os seus costumes, vocabulário e problemas. David é o melhor amigo de Luciano e ao longo do romance se casará com sua irmã, Eva. David, Eva e a senhora Chardon, mãe de Luciano, nee de Rubempré, julgam o rapaz um grande talento literário e estão dispostos a fazer sacrifícios para que ele tenha sucesso em Paris. 
Mas o primeiro sucesso de Luciano é no salão da senhora de Bargeton. Maria Luísa Anais de Negrepelisse é quase uma "irmã" de Diná Piédefer, a Musa do Departamento. Culta, educada e casada com um homem bem mais velho, ela brilha na sociedade provinciana de Angoulême. E apaixona-se pelo poeta, "belo como um deus grego". Atento à relação dos dois, está o Barão Sixto du Châtelet, há muito interessado em Luísa. 
Luísa arrisca seu casamento levando seu protegido a Paris, onde pretende introduzi-lo à sociedade através de sua parente, a Marquesa d´Espard. Inicia-se a parte mais importante da história, Um grande homem da província em Paris
Uma das melhores passagens é quando Luciano, comparando Luísa com as parisienses, dá-se conta que ela é uma provinciana, e Luísa, comparando seu amado com os dândis de Paris, percebe que ele parece mesmo o filho de um boticário de província. Logo, Luísa, incentivada pela Marquesa, percebe o equívoco e passa a ignorar Luciano. É esse desprezo que motiva Luciano a vencer na cidade grande. Nesse ponto, ele encontra nosso já conhecido Estevão Lousteau (de Beatriz, Um Conchego de Solteirão e Musa do Departamento), jornalista em Paris. Aqui Balzac nos apresenta aos primórdios do jornalismo, nas palavras de Rónai "o escritor pegou in statu nascendi uma das instituições essenciais do século XIX, quando ninguém lhe percebia ainda a importância transcendental". Balzac era um crítico feroz da imprensa e se gabava de não dever favores a jornalistas. E a crítica que faz ao jornalismo em Ilusões Perdidas é deliberada.
"Os costumes do Jornal constituem um desses assuntos imensos que exigem mais de um livro e de um prefácio. Aqui o autor pintou os começos da doença que atingiu nos dias de hoje o seu completo desenvolvimento. Em 1821, o Jornal encontrava-se em suas vestes de inocência comparado com o que é em 1839. Se, porém, o autor não pode abraçar a chaga em toda a extensão, tê-la-á, pelo menos, enfrentado sem medo" (Balzac no prefácio da primeira edição de Um grande homem da província em Paris). 
Luciano mergulha, então, no mundo dos jornalistas, que negociam artigos, entradas para os teatros, atrizes. Aqui o mundo do jornal encontra-se com o mundo das editoras, dos teatros, enfim, "do dinheiro agindo desavergonhada e impiedosamente". O poeta torna-se amante de uma jovem atriz, Corália, passa a escrever artigos sob encomenda, consegue publicar seus livros, As boninas e O archeiro de Carlos IX, passa a se vestir na última moda parisiense e andar em companhia  de Emílio Blondet, de Nathan, de  Felix de Vandenesse, enfim, dos homens da moda. 
A advertência vem de Daniel D´Arthez, o escritor devotado ao seu ideal, que recusa a vender sua pena em troca de glória. Segundo Stefan Zweig, Luciano e D´Arthez formam um par que encerra a dupla natureza de Balzac: "Nessa obra Balzac apresenta em duas personagens o que será ou poderá ser um escritor se este persistir rigorosa e fielmente em si e em sua obra ou se ceder à tentação de uma celebridade rápida e indigna. Luciano de Rubempré é seu perigo mais íntimo, e Daniel D´Arthez, o seu mais íntimo ideal. Balzac conhece a duplicidade de sua natureza, sabe que nele existe latente um escritor que inviolavelmente aspira ao máximo, recusa a si toda a concessão, repele todo o acordo e está inteiramente só no meio da sociedade. Mas igualmente reconhece a sua segunda natureza, reconhece em si o folgazão, o pródigo, o aristocrata,  o escravo do dinheiro, o indivíduo que constantemente incorre nas seduções do luxo". 
Mas Luciano prossegue e consegue chamar a atenção de Luísa, que promete conseguir junto ao rei que Luciano possa adotar o nome nobre de sua mãe. Mas tudo dá errado. Luciano faz uma aposta política equivocada, Corália cai em desgraça no teatro, adoece a acaba morrendo, os pretensos amigos jornalistas o abandonam e ele se vê obrigado a voltar incógnito para a província. 
Na terceira parte, Os sofrimentos do Inventor, é David Séchard o personagem principal. Aqui Balzac explora mais um aspecto de sua personalidade, a de inventor desastrado. David lutava com dificuldades para manter a sua tipografia, antiquada em comparação com as outras da época, e tentava descobrir uma fórmula para fabricar papel branco mais barato. Balzac explica em detalhes as suas experiências. Ao mesmo tempo, os inescrupulosos irmãos Cointet, tipógrafos concorrentes de David, fazem de tudo para roubar suas descobertas e para dificultar a sua vida. Balzac aqui envereda para o direito comercial, narrando com minúcias o protesto de uma letra. 
Luciano, derrotado, é ainda assim homenageado pelos seus conterrâneos. Volta e encontrar Luísa, agora casada com Sixto du Châtelet, que tornou-se prefeito de Charente. Mas, acaba, por um golpe do traidor Cérizet, empregado de David, sendo responsável pela prisão do cunhado. 
No final, David é libertado, abandona as invenções, e com a herança recebida do pai, passa a ter uma vida tranquila com Eva a os filhos. 
Luciano vai embora arrasado de Angoulême e encontra em seu caminho o misterioso reverendo espanhol Carlos Herrera.
Paulo Rónai considera Ilusões Perdidas o mais balzaquiano dos romances da Comédia Humana e aponta que ele foi subestimado  pelos contemporâneos do escritor, pelo fato de Balzac ter, como era seu costume, apresentado várias versões da obra: "Aparecem, pois, nesse livro imenso, quase todos os ambientes de Balzac, e não é pouco. Quase todos os assuntos também: a ambição; a monomania; o amor sob várias formas (o da mulher madura ao adolescente, o da cortesã ao rapaz bonito, o da esposa ao marido); as lutas do gênio com o ambiente; a conspiração da sociedade contra o indivíduo saído de sua esfera; as alegrias e as misérias da glória; a luta de gerações; a vingança do amor-próprio ferido; o grande tema de Paris; a chaga enorme devorando a França...". 



quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Ferragus ou o Chefe dos Devoradores

Ferragus ou o Chefe dos Devoradores (fevereiro de 1833) - primeira história da História dos Treze

Volume VIII: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense (lido entre 12 de fevereiro de 2013 e setembro de 2015)

Personagens: Augusto de Malincourt, vidama de Pamiers, baronesa de Malincourt, Clemência Desmarets, Júlio Desmarets, Justino, Ida Gruget, Viúva Gruget, Ferragus (Henrique), Jacquet.

A história se passa na década de 1820 do século XIX. 

Ferragus é o primeiro de três episódios de História dos Treze. O que essas histórias têm em comum são "os treze", ou seja, treze indivíduos que participavam de uma espécie de confraria, estando associados para ajudar uns aos outros. No prefácio, extremamente enfadonho, Balzac menciona que esses treze homens tinham posições diferentes na sociedade, mas se encontravam unidos por uma espécie de juramento que obrigava os outros doze a auxiliar, de qualquer forma, o irmão que se encontrava com algum problema.
A época que precedeu as revoluções liberais de 1830 e 1848 foi o período áureo das sociedades secretas. Há, na Comédia Humana, referência a diversos grupos desse tipo, como os usurários em Gobseck ou os Cavalheiros da Malandragem em Um Conchego de Solteirão
Pois Ferragus é um dos membros dessa sociedade dos treze, os Devoradores. Segundo Balzac, no prefácio, Devoradores era o nome de uma das tribos de "Companheiros" oriundas da grande associação mística formada entre os obreiros da cristandade para reconstruir o Templo de Jerusalém. 
Sabemos pouco sobre ele. É idoso, já esteve nas galés e tem um filha, por quem está disposto a tudo. Quando a história começa, Ferragus está prestes a obter uma falsa identidade, a do senhor de Funcal, conde português, para poder aparecer na sociedade com a moça. Ela, Clemência Desmarets, era casada com Júlio, corretor de câmbio que enriquecera, mas que desconhecia a origem de sua esposa. 
Todavia, o barão Augusto de Malincourt, jovem aristocrata, apaixona-se por Clemência e passa a segui-la. Uma tarde a surpreende entrando numa casa suspeita e passa a investigar. Descobre então sua relações com Ferragus, que julga serem adulterinas. A partir desse momento, Augusto sofre duas tentativas de assassinato. Acaba alertando Júlio, que passa a suspeitar da esposa. 
No final, quando tudo se esclarece - Júlio descobre que Ferragus é pai de Clemência - é tarde demais. Clemência adoece e morre. E Augusto morre envenenado. Júlio, desesperado, abandona os negócios e passa a viver recluso, assim como Ferragus.
É espantoso saber, por Paulo Rónai, que essa história fez um enorme sucesso. É tediosa  e cheia artifícios que a fazem irrealista como a carta que Ferragus derruba no chão e é encontrada por Augusto, os atentados contra o barão, o casamento de Júlio com Clemência, de uma felicidade que não se encontra nem nos contos de fada (isso quando conhecemos os juízos de Balzac sobre o casamento burguês). Segundo Rónai, as fontes de Balzac aqui são o romance negro inglês e o romance popular francês, que ele utilizou como modelos na sua estreia. 
A alusão ao romantismo é explícita: Balzac dedica as três novelas da História dos Treze a Hector Berlioz, Franz Liszt e Eugène Delacroix, três expoentes do romantismo. 
Mas, apesar de não ser o melhor de Balzac, ele está lá. Veja-se essa passagem em que ele compara Paris com um ser vivo:
"Monstro completo, aliás. Suas águas-furtadas são-lhe a cabeça cheia de ciência e gênio; os primeiros andares, estômagos felizes; suas lojas, verdadeiros pés; deles saem todos os transeuntes e todos os ocupados. E que vida ativa tem o monstro! Apenas o último rodar das últimas carruagens de baile lhe cessa o coração, já os braços se agitam nas barreiras e ele se espreguiça lentamente. Todas as portas bocejam, giram sobre os gonzos, como as membranas de uma imensa lagosta, invisivelmente manobradas por trinta mil homens ou mulheres, cada um dos quais vive num espaço de seis pés quadrados, onde tem uma cozinha, um ateliê, um leito, filhos e um jardim, onde não vê claro e onde tudo deve ver." 

Na foto, vemos a nova edição da Comédia Humana que está sendo publicada desde o final de 2012 pela Biblioteca Azul, um divisão da editora Globo. Uma inciativa louvável já que a obra se encontrava esgotada dede o final da década de 1980.