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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Uma Estreia na Vida (fevereiro de 1842)

Volume II: Estudos de Costumes – Cenas da Vida Privada (lido entre 5 e 27 de outubro de 2009)

Um Estreia na Vida (fevereiro de 1842)

Personagens: Pierrotin, sr. Moreau (intendente de Presles), sra. Moreau (Estela), conde de Sérisy, Léger (granjeiro), sr. Clapard, sra. Clapard, Oscar Clapard (Husson), Jorge Marset (ajudante do sra. Crottat - notário), José Bridau (falso Shinner), Mistigris (Leão de Lora), sr. e sra Raybert (novos intendentes), Grindot (arquiteto), Jacques Moreau (filho de Moreau), sr. Cardot (tio de Oscar), Camusot (genro de Cardot), sr. Desroches (advogado), Godeschal (aprendiz de Desroches), Marieta (irmã de Godeschal), F. Marset (irmão de Jorge).

A história se passa entre 1822 até “bem depois de 1835”.

Uma Estreia na Vida é uma pequena obra prima. Pequena porque curta. Obra prima, pois nela Balzac empregou toda a sua habilidade. Aqui ele é, como se denominava, um “historiador de costumes”, narrando, em 1842, para a posteridade a França das diligências que morrera com a chegada da estrada de ferro. E é também o hábil contador de histórias, quando extrai de um episódio cômico, que poderia se esgotar em si mesmo, toda a história de uma vida.
Em 1822, o conde de Sérisy, desconfiado de que seu intendente, Moreau, estava lhe roubando, apanhou, incógnito, o coucou de Pierrotin em Paris rumo a Presles. No carro, estavam os pintores José Bridau, que se fazia passar pelo famoso e já nosso conhecido Schinner; seu ajudante, Mistigris (que fazia trocadilhos o tempo inteiro); Jorge Marset, simples aprendiz de notário que se fazia passar por nobre militar cheio de honrarias; e nosso herói, Oscar Husson. Oscar, protegido de Moreau, sentindo-se inferiorizado pela aparente grandeza de seus companheiros de viagem, passou a revelar segredos do conde que conhecia pelas indiscrições de Moreau, que era amante de sua mãe, a senhora Clapard. As fofocas diziam respeito à relação do conde com a sua esposa. O nobre, furioso, despediu Moreau, e Oscar perdeu seu protetor. A senhora Clapard pediu, então, ajuda ao tio Cardot, ancião que aparentava austeridade, mas que, na verdade, era um pândego e amante de dançarinas. Cardot obteve posição para Oscar no escritório de Desroches e passou a custear-lhe a faculdade de Direito. Sob a proteção do sério Godeschal, tudo ia bem para o jovem Oscar. Até que ingressou no escritório o irmão de Jorge Marset, e Oscar o reencontrou. Depois de uma comemoração, Oscar perdeu dinheiro do patrão no jogo e, embriagado, adormeceu, deixando de cumprir um compromisso do escritório. Desroches não perdoou e Oscar foi despedido. Restou a ele o serviço militar. Moreau melhorou a situação de seu protegido, conseguindo que ele ficasse sob às ordens do filho do conde de Sérisy. Em uma batalha na África, Oscar salvou a vida do jovem de Sérisy e perdeu um braço.
Anos depois, os mesmos personagens se encontraram em um carro rumo a Presles. José Bridau, já pintor famoso; Pierrotin, empresário rico; Léger, também rico; Jorge Marset, decadente; e Oscar, um circunspecto burguês que acabou casando com a senhorita Pierrotin. Descobrimos também que o senhor de Canalis, pretendente de Modesta Mignon, desposou a filha de Moreau.
O que faz de Uma Estreia na Vida uma história tão deliciosa? Muitas coisas, mas julgo que a principal é o toque de vida real dos persongens. Oscar é um herói que, a princípio, não provoca nenhuma empatia. A gafe que compromete seu futuro é fruto de sua vaidade e mediocridade. Tempos depois, cai na armadilha de Jorge e, novamente, desperdiça uma oportunidade. O que se espera, a partir daí, é a decadência. Contudo, ele se torna um ótimo militar, com caráter suficiente para arriscar a vida e salvar o filho do homem que o prejudicou. E assim são as pessoas reais, capazes do tolo e do sublime, capazes de cometerem erros e de os corrigirem. No princípio, estranhamos um herói tão infantil e antipático. Contudo, eis nós leitores, algumas páginas depois, lamentando as suas desventuras e torcendo por ele.
Os outros personagens também são deliciosamente reais. Moreau, que rouba descaradamente o patrão, não mede esforços para ajudar o filho da amante. A senhora Clapard cega, como todas as mães, à nulidade do filho. Desroches, justo e reto advogado, que acaba sendo injusto com o jovem herói. O tio Cardot, que salva Oscar por amor à sua dançarina. Como diz Rónai, “em cada um deles encontraremos essa incoerência orgânica que é a prova mais inequívoca da vida real”.
Em Uma Estreia na Vida Balzac utilizou uma experiência pessoal que irá aparecer em outros romances: sua vivência forense. A partir de novembro de 1816, Balzac passou a frequentar aulas de direito na Sorbonne. Porém, naquela época, não era na faculdade que se aprendia ciência jurídica, mas na posição de aprendiz em um escritório de advocacia ou tabelionato. Entre 1816 e abril de 1818, ele trabalhou no escritório de Guillonet-Merville, que ele viria a homenagear com o personagem Derville. Entre 1818 e meados de 1819, Balzac trabalhou para o tabelião Victor Passez. É esse o ambiente que ele descreve no escritório de Desroches. A vida de um aprendiz forense era muito diferente da dos estagiários de hoje em dia. Era uma vida monástica. Eles moravam no emprego, onde também se alimentavam e eram vigiados pelo patrão. Havia uma rígida hierarquia - primeiro, segundo, terceiro ajudante, primeiro, segundo, terceiro escriturário - e ascender nela era uma questão de mérito. Também há relatos das pilhérias e brincadeiras, como os jantares consignados em ata, em um dos quais nosso herói se perdeu. Aqui, mais um oportunidade para conhecer Balzac “historiador de costumes”.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Pedro Grassou

Pedro Grassou (dezembro de 1839)
Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense



Personagens: Pedro Grassou (Fougères), Elias Magus, Servin (A Vendeta), Schinner (A BolsaModesta MignonA falsa amante) , Sommervieux (Ao "Chat-qui-pelote") José Bridau (Um conchego de solteirão), Leão de Lora (Um estreia na vida), François-Marius Granet (1775-1849), Pierre Duval Le Camus (1790-1854), Alexandre Gabriel Decamps (1803-1860), Cardot (Ao "chat-qui-pelote", Uma Estreia na Vida, A musa do departamento), Antenor Vervelle, senhora Vervelle e Virgínia Vervelle. 




A história começa em 1832, mas recua até 1819. 



Pedro Grassou é, nas palavras de Paulo Rónai, uma anedota. É interessante, contudo, pois é um dos textos no qual Balzac reflete a respeito da arte e do artista no seu tempo. 
O protagonista, também conhecido como Fougères, nome de sua cidade natal na Bretanha, é um pintor de quadros medíocre, que, embora tenha estudado com grandes nomes do seu tempo (alguns fictícios, como Servin, Schinner e Sommervieux, outros reais como Granet e Le Camus), não conseguia mais do que copiar o estilo de artistas consagrados. Foi inúmeras vezes desencorajado pelos seus pares, mas era humilde e persistente. Ao invés de buscar emprego em um escritório ou, ironia de Balzac, "experimentar a literatura", adotou um estilo modesto de vida e seguiu buscando o reconhecimento. Sobrevivia da venda de seus quadros a um comerciante de arte, usurário caricato, Elias Magus. Ele encomendava "interiores flamengos, uma lição de anatomia, uma paisagem" ao artista, e Grassou sobrevivia com renda minguada. Em 1829, dez anos após sua estreia na arte, seus amigos famosos, Schinner, Leão de Lora e Bridau, conseguiram que um quadro seu fosse admitido na exposição do grande Salão. Lá seu quadro, Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 , "embora medíocre, (...) teve um êxito extraordinário". Agradou  a Carlos X e a outros expoentes da realeza e lhe rendeu a cruz de cavaleiro da Legião de Honra. Foi sua consagração como artista. Passou a ter quadros aceitos no Salão. Mas seguiu vivendo com parcimônia e depositando suas economias no tabelião Cardot. 
Em dezembro de 1839, Magus traz a família Vervelle para que Fougerès lhe faça os retratos. O comerciante de garrafas Antenor Vervelle, sua esposa e filha, Virgínia, se afeiçoaram ao circunspecto e organizado artista. Descobrem ter em comum o mesmo Cardot como tabelião. Começam a considerará-lo um bom partido para a pouco atraente Virgínia. Grassou também pensa em casamento, julgando o dote e os bens do futuro sogro. 
Finalmente, Vervelle convida o artista para conhecer sua casa de campo, onde se gaba de ter uma galeria com quadros de grandes artistas, como Rubens, Rembrandt e Murilo. Ao ver a galeria, Fougerés descobre que metade das obras expostas eram suas, cópias por ele realizadas e compradas por pouco dinheiro por Magus, que as vendia caro para o burguês. Longe de ficar aborrecido, Vervelle reconheceu Grassou-Fougerès como um grande talento e deu a ele a mão de Virgínia. No final da história, ele mora com os sogros, ganha quinhentos francos por quadro e espera ingressar na Academia
O início do conto Pedro Grassou é ensaístico. Balzac critica a democratização do Salão de Pintura e Escultura ocorrida depois da Revolução de 1830:
"Uma experiência de dez anos demostrou a excelência da antiga instituição. Em vez de um torneio, tendes agora um motim; em vez de uma exposição gloriosa, um bazar tumultuoso; em vez do melhor, a totalidade . (...) Onde não há mais julgamento também não há mais coisa julgada". 
Grassou conseguiu colocar seu quadro Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801, em 1829,  por empenho de seus amigos famosos. Já depois da Revolução de Julho, "vinha apresentando a cada exposição uma dezena de quadros, dos quais o júri admitia quatro ou cinco". Essa crítica nos situa no tema que Balzac explora no texto: o aburguesamento do gosto artístico. Pedro Grassou é o artista burguês por excelência. A descrição do seu ateliê, organizado e limpo como um quarto de moça, já nos afasta do esteriótipo do artista atormentado e genial. São seus hábitos, especialmente os econômicos, que promovem a sua ascensão, mais que sua habilidade. Gastar pouco, comer pouco, colocar os ganhos na mão do tabelião, escolher temas que, ou combinavam com a política do momento (Os Preparativos na época de Carlos X) ou que não a confrontavam (retratos, paisagens e interiores na Monarquia de Julho), escolher a noiva pelo dote. Tudo isso fez com que Grassou não saísse "de um círculo burguês onde é considerado um dos melhores artistas da época". Não tem o reconhecimento dos pares, "os artistas zombam dele, seu nome é uma palavra de desprezo nos ateliês, os folhetins não se ocupam de sua obra", mas a classe ascendente o compra, pois com ele se identifica. 
Por que Pedro Grassou era um artista medíocre? Segundo Balzac, porque ele não conseguia imaginar, somente copiar; e porque não mostrava a natureza como era, mas de forma estereotipada (José Bridau, ao ver Grassou pintando Virgínia, comentou que a face com tons róseos era adequada para um anúncio de perfumista. Era preciso uma cor vermelha para pintar a moça ruiva). Ele deixava de copiar a natureza, mas copiava as imagens da natureza feitas por outros artistas. 
O interessante é que Grassou-Fougères sabia a diferença entre a obra medíocre e a de qualidade, ao contrário dos seus clientes. No final, sabemos que ele usava seu dinheiro para comprar quadros de pintores célebres que se encontravam em dificuldades para substituir as cópias da galeria de seu sogro, substituir as más telas por "verdadeiras obras primas, que não são dele". 
Paulo Rónai, na introdução do conto, nos diz que Balzac foi um dia Grassou, "produzindo obras inconfessáveis". Esse texto foi escrito entre 1944 e 1955, época da tradução da Comédia Humana no Brasil, da qual Rónai foi organizador. No texto do Jornal do Brasil de 2 de dezembro de 1972, Rónai nos dá notícia da leitura de Balzac et Le Mal du Siecle. Contribuition a une Phisyologie du Monde Moderne de Pierre Barbéris publicado em 1970. Nele, Barbéris analisa minuciosamente a obra de Balzac até 1833, após o primeiro sucesso balzaquiano. E o resultado muito se afasta do que Rónai denomina "a tese do milagre", ou seja, que uma mudança teria ocorrido com Balzac após seu trigésimo ano que o transformou de autor irresponsável e mercenário das obras da mocidade em historiador imparcial e perfeito de sua época. Havia muito mais qualidade naquela obra inicial do que se conhecia. Não houve milagre. Balzac imaginava e mostrava a natureza tal qual era, apesar da inexperiência da juventude.  Balzac nunca foi Pedro Grassou. 



Observação: na edição em português que tenho, da Editora Globo de 1990, a data do quadro de Grassou Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 está com a data errada de 1809. Os chouans eram monarquistas da região da Bretanha que se rebelaram contra a Revolução Francesa. Com o início das guerras napoleônicas, houve uma espécie de trégua desse tipo de revolta em 1801. Por isso, a data de 1809 me pareceu estranha. Foi um erro de tradução que pode ser verificado no texto original de Pierre Grassou

O quadro que ilustra a postagem é La femme hydropique (1663) do pintor holandês Gerit Dou (1613-1675). Foi o quadro que Pedro Grassou plagiou ao fazer Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 . O original, de Dou, está no Louvre. O de Pedro Grassou talvez esteja também. 


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Uma Filha de Eva (dezembro de 1843)

Personagens: Maria Eugênia (du Tillet), Maria Angélica (de Vandenesse), Conde du Tillet, Conde Felix de Vandenesse, professor Schmucke, Raul Nathan, Florina, senhora de Nuncingen, Gigonet (agiota).

A história se passa entre 1829 e 1835.

A filha de Eva é Maria Angélica de Vandenesse. Ela é, juntamente com Maria Eugênia, filha do infeliz e já nosso conhecido conde Rogério de Granville. Criadas pela mãe, Angélica, afastadas da sociedade e expostas à exagerada devoção da condessa, estavam muito mal preparadas para a vida na frívola sociedade parisiense. Casaram-se cedo para escapar do jugo materno: Eugênia, com o banqueiro de reputação dividosa Du Tillet; Angélica, com o elegante Felix de Vandenesse.
Maria Angélica teve mais sorte que a irmã. Vandenesse foi para ela “amante, pai, professor e marido” e “ao cabo de quatro anos teve a satisfação de haver feito da Condessa de Vandenesse uma das mais amáveis e notáveis mulheres de seu tempo”. Tudo estava perfeito. E aí começaram os problemas. “Vandenesse, ao satisfazer tudo, suprimira o desejo, esse rei da criação, que absorve uma soma enorme de forças morais”. Além do fastio do casamento feliz, Maria Angélica estava cercada de amigas que excitavam a sua imaginação destacando as maravilhas de possuir um amante. Nesse contexto, apareceu o jornalista e arrivista social Raul Nathan, por quem a condessa caiu de amores. Nathan era amante há dez anos da atriz de segunda linha Florina, e buscava uma ligação na alta sociedade. Quando Nathan se endividou, a ponto de ser preso (na verdade uma manobra de Du Tillet com o objetivo de afastar o jornalista da carreira política), Angélica, com a ajuda da irmã e do velho profesor Schmucke, pediu dinheiro emprestado à senhora de Nuncingen, e quase arruinou sua reputação. Eugênia, então, contou tudo ao conde de Vandenesse que perdoou Angélica e consertou a situação.
Assim como Uma estreia na Vida, Uma filha de Eva é um romance movido por acasos que se sucedem aos personagens principais. Isso cria para o leitor um clima de suspense: o adultério de Angélica irá se consumar? Ela conseguirá o dinheiro para salvar Nathan? Vandenesse perdoará a esposa? Bazac possuía uma agenda. No prefácio à primeira edição a Uma filha de Eva, ele escreveu: “Uma filha de Eva está destinada a pintar uma situação na qual se encontram algumas mulheres, empurradas a uma paixão ilícita por uma multidão de circunstâncias, mais ou menos atenuantes, mas que, não se vendo gravemente comprometidas, são bastante sábias para voltar à vida conjugal. As infelicidades da paixão ensinaram-lhes as doçuras de um casamento feliz”. Contudo, ele deu essa explicação depois da obra estar concluída. O romance poderia ter outro final - Angélica descoberta e abandonada pelo marido - e ser ainda assim o mesmo romance. A roda da fortuna teria dado outra volta.
Outro ponto interessante, são as conexões entre histórias da Comédia Humana. Conhecemos a origem do despreparo de Angélica para a vida social. Não conhecemos ainda a fonte da compreensão do conde Vandenesse. Mas conheceremos.

sábado, 18 de junho de 2011

O Coronel Chabert (fevereiro/março de 1832)

Personagens: Godeschal, Derville, Coronel Jacinto Chabert, Verginaud, Condessa Rosina Ferraud ("viúva" de Chabert), Conde Ferraud.

A história se passa entre a batalha de Eylau e 1840.

O Coronel Chabert é mais uma história - como Uma estreia na Vida, A Interdição e O Contrato de Casamento - tributária dos anos que Balzac passou como escrevente de cartório. A ideia parece ter vindo da casa de Zulma Carraud. Um amigo do senhor Carraud, antigo oficial de Napoleão, senhor Dupac, foi dado como morto no campo de batalha e teve dificuldades em se identificar ao retornar a Paris.
Aqui Balzac conta a história do coronel Chabert, dado por morto na batalha de Eylau. Sua esposa, Rosina, julgando-se viúva casou com o conde Ferraud, com quem teve dois filhos. Com o retorno de Chabert, e a possibilidade da condessa ter de restituir a ele parte da sua fortuna, ela o repeliu e negou que ele fosse seu primeiro marido. Chabert procurou então o advogado Derville. O advogado inciou o processo, prevenindo Chabert da dificuldade do seu pleito. Com medo da anulação de seu segundo casamento, já que desconfiava que o conde Ferraud estava com intenções de desposar a filha de um par de França, Rosina armou um ardil para que Chabert desistisse do processo. Ao descobrir o embuste, o coronel desistiu de lutar e encerrou-se no asilo de velhice de Bicêtre.
Em O Coronel Chabert, Balzac apresenta o mesmo pessimismo de O Pai Goriot. É um Derville cético que , ao final, compara as atividades do padre, do médico e do advogado: “Sabes meu caro (...) que há na nossa sociedade três homens, o padre, o médico e o legista, que não podem estimar o mundo. Trajam vestes pretas, talvez carreguem o luto de todas as virtudes, de todas as ilusões. O mais infeliz dos três é o advogado. Quando um homem vai em busca do padre, ele o faz impelir pelo arrependimento, pelo remorso ou por crenças que o tornam interessante, que o engrandecem e que consolam a alma do mediador (...): ele purifica, conserta, reconcilia. Mas nós, advogados, vemos os mesmos sentimentos maus se repetirem; nada os corrige; nossos escritórios são esgotos que não se pode limpar. Quanta coisa eu aprendi no exercício da minha função! Vi um pai morrer num celeiro, sem cheta, abandonado pelas duas filhas a quem dera quarenta mil francos de renda! Vi queimarem testamentos; vi mães despojando os filhos, aproveitando-se do amor que lhes inspiravam para deixá-los loucos ou imbecis, a fim de poderem viver em paz com seus amantes. Vi mulheres dando ao filho do primeiro leito hábitos que lhes deviam acarretar a morte, a fim de enriquecerem o filho do amor. Não lhe posso dizer tudo o que vi, porque vi crimes contra os quais a justiça é impotente." Aqui Derville enumerou os enredos de O Pai Goriot, Úrsula Mirouët, Uma estreia na Vida e A mulher de Trinta Anos.

domingo, 19 de dezembro de 2021

Os comediantes sem o saberem

Os comediantes sem o saberem (novembro de 1845)

Volume XI: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Parisiense

Personagens: Léon de Lora (Mistigris de Uma estreia na vida), Silvestre Palfox-Castel-Gazonal, Bixiou, Claúdio Vignon, Massol, Carabina (Serafina Sinet), Teodoro Gaillard (gerente de jornal), Suzana Gaillard, Fromenteau (cobrador de dívidas), Vital (fabricante de chapéus, sucessor de Finot, sra. Nourrison (espécie de "banco" para mulheres, Jacqueline Collin de  Esplendores e Misérias das Cortesãs),, sra. Mahuchet (sapateira de mulheres), Revenouillet (porteiro), Vavinet (usurário), Ridal, Jenny Cadine, Marius V (Mougin, cabeleireiro), Régulo (auxiliar de Marius), Dubourdieu (pintor, fourierista), sra. Fontaine (cartomante), Publícola Masson (pedicuro, republicano radical), Conde de Rastignac, Máximo de Trailles, Canalis, Giraud. Du Tillet, Nuncigen, Du Bruel, Málaga. 
Vital e Gazonal

A história se passa em 1845. 

Os Comediantes sem os saberem é uma viagem de descoberta a Paris, na qual o pintor León de Lora e cartunista Bixiou apresentam à cidade ao primo de Lora, Gazonal. O primo, da região dos Pirineus orientais, dirige uma manufatura de tecido na província. Está em Paris em razão de um processo contra a prefeitura de sua cidade que foi transferido à jurisdição do Conselho de Estado. Está desesperançado quando procura Léon. 

Pois León de Lora e Bixiou, sabendo que quem preside a sessão onde se encontra o processo é Massol e o que o relator é Cláudio Vignon, prometem que a decisão será favorável a Gazonal, desde que eles compareçam a uma festa logo mais à noite na casa da cortesã Carabina. Mas até lá, eles querem apresentar Parais a Gazonal. 

Então desfilam pelas páginas da Comédia Humana vários tipos pitorescos: Fromenteau, que cobra dívidas de todas as formas possíveis, Vital, fabricante de chapéus, a sra. Nourrison, que socorre com dinheiro as mulheres necessitadas,  Revenouillet, o porteiro que agencia dinheiro, Vavinet, o usurário elegante, Marius, o cabeleireiro empreendedor, Dubourdieu, o artista fourierista, a sinistra cartomante Fontaine, com sua galinha preta e seu sapo Astarot, o pedicuro Masson, defensor do terror revolucionário. 

No final, utilizando caminhos não administrativos ou judicias, Gazonal ganha seu processo. 

É um texto rápido, uma espécie de galeria de personagens. Repetindo Paulo Rónai na Introdução, é em Os Comediantes sem o Saberem que Balzac dá, na voz de Bixiou, sua famosa definição de Paris: "um instrumento que é preciso saber tocar". Os cicerones dão uma lição de como "tocar" Paris a Gazonal. Nós que nos divertimos. 


Sra, de Nourrison

Imagens: Oeuvres illustrées de Balzac, 1851-1853. https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k116911k/f232.item Acesso em 19 de dezembro de 2021. 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Ferragus ou o Chefe dos Devoradores

Ferragus ou o Chefe dos Devoradores (fevereiro de 1833) - primeira história da História dos Treze

Volume VIII: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense (lido entre 12 de fevereiro de 2013 e setembro de 2015)

Personagens: Augusto de Malincourt, vidama de Pamiers, baronesa de Malincourt, Clemência Desmarets, Júlio Desmarets, Justino, Ida Gruget, Viúva Gruget, Ferragus (Henrique), Jacquet.

A história se passa na década de 1820 do século XIX. 

Ferragus é o primeiro de três episódios de História dos Treze. O que essas histórias têm em comum são "os treze", ou seja, treze indivíduos que participavam de uma espécie de confraria, estando associados para ajudar uns aos outros. No prefácio, extremamente enfadonho, Balzac menciona que esses treze homens tinham posições diferentes na sociedade, mas se encontravam unidos por uma espécie de juramento que obrigava os outros doze a auxiliar, de qualquer forma, o irmão que se encontrava com algum problema.
A época que precedeu as revoluções liberais de 1830 e 1848 foi o período áureo das sociedades secretas. Há, na Comédia Humana, referência a diversos grupos desse tipo, como os usurários em Gobseck ou os Cavalheiros da Malandragem em Um Conchego de Solteirão
Pois Ferragus é um dos membros dessa sociedade dos treze, os Devoradores. Segundo Balzac, no prefácio, Devoradores era o nome de uma das tribos de "Companheiros" oriundas da grande associação mística formada entre os obreiros da cristandade para reconstruir o Templo de Jerusalém. 
Sabemos pouco sobre ele. É idoso, já esteve nas galés e tem um filha, por quem está disposto a tudo. Quando a história começa, Ferragus está prestes a obter uma falsa identidade, a do senhor de Funcal, conde português, para poder aparecer na sociedade com a moça. Ela, Clemência Desmarets, era casada com Júlio, corretor de câmbio que enriquecera, mas que desconhecia a origem de sua esposa. 
Todavia, o barão Augusto de Malincourt, jovem aristocrata, apaixona-se por Clemência e passa a segui-la. Uma tarde a surpreende entrando numa casa suspeita e passa a investigar. Descobre então sua relações com Ferragus, que julga serem adulterinas. A partir desse momento, Augusto sofre duas tentativas de assassinato. Acaba alertando Júlio, que passa a suspeitar da esposa. 
No final, quando tudo se esclarece - Júlio descobre que Ferragus é pai de Clemência - é tarde demais. Clemência adoece e morre. E Augusto morre envenenado. Júlio, desesperado, abandona os negócios e passa a viver recluso, assim como Ferragus.
É espantoso saber, por Paulo Rónai, que essa história fez um enorme sucesso. É tediosa  e cheia artifícios que a fazem irrealista como a carta que Ferragus derruba no chão e é encontrada por Augusto, os atentados contra o barão, o casamento de Júlio com Clemência, de uma felicidade que não se encontra nem nos contos de fada (isso quando conhecemos os juízos de Balzac sobre o casamento burguês). Segundo Rónai, as fontes de Balzac aqui são o romance negro inglês e o romance popular francês, que ele utilizou como modelos na sua estreia. 
A alusão ao romantismo é explícita: Balzac dedica as três novelas da História dos Treze a Hector Berlioz, Franz Liszt e Eugène Delacroix, três expoentes do romantismo. 
Mas, apesar de não ser o melhor de Balzac, ele está lá. Veja-se essa passagem em que ele compara Paris com um ser vivo:
"Monstro completo, aliás. Suas águas-furtadas são-lhe a cabeça cheia de ciência e gênio; os primeiros andares, estômagos felizes; suas lojas, verdadeiros pés; deles saem todos os transeuntes e todos os ocupados. E que vida ativa tem o monstro! Apenas o último rodar das últimas carruagens de baile lhe cessa o coração, já os braços se agitam nas barreiras e ele se espreguiça lentamente. Todas as portas bocejam, giram sobre os gonzos, como as membranas de uma imensa lagosta, invisivelmente manobradas por trinta mil homens ou mulheres, cada um dos quais vive num espaço de seis pés quadrados, onde tem uma cozinha, um ateliê, um leito, filhos e um jardim, onde não vê claro e onde tudo deve ver." 

Na foto, vemos a nova edição da Comédia Humana que está sendo publicada desde o final de 2012 pela Biblioteca Azul, um divisão da editora Globo. Uma inciativa louvável já que a obra se encontrava esgotada dede o final da década de 1980. 










domingo, 21 de agosto de 2011

Úrsula Mirouët (junho-julho de 1841)

Volume V: Estudos de Costumes:Cenas da Vida Provinciana (lido entre 8 de de agosto e 25 de novembro de 2010)

Personagens: Minoret-Levraut (chefe da posta); Zélia ; Desidério; doutor Dionísio Minoret; Úrsula (filha de José Mirouët que era filho de Valentim, pai de Úrsula;falecida esposa do doutor Dionísio); Bougival; padre Chaperon; senhor e senhora Massin; senhor Crémière-Dionis (tabelião de Nemours); Goupil (primeiro amanuense do tabelião Crémière-Dionis); senhor Crémière (exator de Nemours); senhor Jordy; senhor Bougrand (juiz de paz); doutor Bouvard; Saviniano; senhora de Portuenduère.

A história inicia em 1829 e termina em 1841.

Úrsula Mirouët não é Balzac na sua melhor forma. A heroína é, nas palavras de Paulo Rónai, um retrato balzaquiano da virgem francesa: não muito esperta, de uma virtude a qualquer prova e que nasce para vida no momento em que se apaixona.
A história contrapõe a órfã Úrsula, criada pelo doutor Dionísio Minouret, viúvo muito rico, e os herdeiros do doutor, Minouret-Levraut, Crémière-Dionis e Massin, na pequena cidade de Nemours. O doutor Minouret se estabeleceu em Nemours depois de uma promissora carreira em Paris. Lá dedicou-se a criar Úrsula e ao seu pequeno círculo de amigos formado pelo padre Chaperon, senhor Jordy e doutor Bougrand. Os herdeiros aguardavam a morte do doutor e temiam que ele comprometesse sua herança beneficiando Úrsula. Sua apreensão aumentou quando Minouret, ateu convicto, converteu-se ao cristianismo e passou a frequentar a missa na companhia da pupila. Julgavam que tal mudança devia-se à enorme ascensão de Úrsula sobre o doutor. Ignoravam que a conversão devia-se a uma experiência mística. Minouret foi a Paris visitar um antigo colega, Bouvard, e comprovou a eficácia do magnetismo de Mesmer, teoria mística complexa que professava que existe separação entre corpo e espírito.
Nesse meio tempo, Úrsula se apaixonou pelo vizinho Saviniano, personagem mal acabada de Balzac. Ele aparece na história preso por dívidas após uma temporada de desmandos em Paris e transformou-se num sujeito honesto, esforçado e desprendido. Sua mãe, a senhora de Portuenduère, nobre empobrecida, mas muito orgulhosa, jamais concordaria no casamento do filho com uma moça de origem duvidosa. Assim, a saída para Úrsula era a herança do doutor Minouret.
Com a morte do doutor, iniciou-se uma sequência de ação: Minouret-Levraut, o desprezível chefe da posta, descobriu o testamento deixado pelo tio e o destruiu. Não houve testemunhas e Úrsula ficou sem nada. Foi expulsa de casa e teve de contar com a caridade dos poucos amigos. Aí entra o misticismo novamente na história. O falecido doutor apareceu-lhe em sonhos e revelou toda a ação de Minouret-Levraut. Ela contou ao padre Chaperon, que interpelou o criminoso. Simultaneamente, o cínico e pérfido Goupil, corrompido por Minouret-Levraut, começou uma campanha para difamar Úrsula com cartas anônimas para que ela deixasse Nemours. Finalmente, o doutor apareceu a Úrsula e disse que caso Minouret-Levraut não reparasse a injustiça, seu filho único, Desidério, iria perecer. O criminoso tentou se redimir, mas era tarde. Desidério sofreu um acidente numa carruagem e morreu. No final, o mal foi reparado e Úrsula, após receber sua herança, casou-se com o amado. Minouret-Levraut tornou-se piedoso e passou a se dedicar à caridade.
O único ponto interessante a comentar sobre essa história é aparecimento nela do misticismo de Balzac. Nosso autor foi contemporâneo de diversas teorias místicas e era delas adepto. Frequentava cartomantes, participava de sessões de hipnose e cria em transmissão de pensamento. Esses temas aparecerão em outra histórias, mas Úrsula Mirouët, na ordem dada pelo autor da Comédia Humana, marca a sua estreia.

quinta-feira, 22 de março de 2012

O Gabinete de Antiguidades

O Gabinete das Antiguidades (julho de 1837) - segunda história de "As rivalidades"


Personagens: Carlos-Vitor-Ângelo-Carol (Marquês d'Esgrignon); senhorita Armanda d'Esgrignon; Chesnel (tabelião); senhor du Ronceret (presidente do Tribunal); Fabiano du Ronceret (filho do Presidente do Tribunal); senhor du Croiser (o mesmo senhor du Bousquier); senhora du Bousquier (a Solteirona); Virtuniano (filho do Marquês); Cavaleiro de Valois; de Marsay; Rastignac, Emílio Blondet; senhora de Mafrigneuse (Diana); Camusot (juiz de instrução); senhora Camusot (Maria Cecília Amélia Thiron); senhor Blondet (juiz). 

 A história se passa entre 1822 e 1830. 

Gabinete das Antiguidades é uma história gêmea de A Solteirona. Em A Solteirona conhecemos o salão burguês de Alençon, a residência de du Bousquier e de Rosa-Maria-Vitória. Aqui conhecemos o salão nobre, o palacete do marquês d'Esgrignon, alcunhado de “gabinetes das antiguidades”. Incompreensível - e Paulo Rónai - o menciona na introdução - é a troca do nome de du Bousquier por du Croisser, já que se trata da mesma personagem. 
A história explora a desatrada educação de Virtuniano, o único herdeiro da antiquíssima casa d'Esgrignon. Criado na província com a convicção de seu velho pai de que representava a fina flor da nobreza francesa e paparicado pela tia Armanda, que lhe fazia todas as vontades, o jovem tinha tudo para produzir um desastre na família. Um desastre que é anunciado já nas primeiras páginas. Ocorre que havia alguém em Alençon interessado nesse infortúnio: o invejoso burguês du Croiser, que fora rejeitado por Armanda e jamais fora aceito no gabinete das antiguidades. Du Croiser percebe que Virtuniano seria o veículo de sua vingança. 
O rapaz, em 1822, foi enviado para fazer sua estreia em Paris. Levava cartas de recomendação para nobres a ele aparentados. Contudo, a ideia de nobreza vigente no “gabinete das antiguidades” era muito diferente da ideia de nobreza da Restauração: “Entregara, na véspera, uma carta de seu pai ao Duque de Lenoncourt, um dos fidalgos franceses mais favorecidos pelo Rei; encontrara-o no seu magnífico palácio, no meio de aristocráticos esplendores; no dia seguinte tornou a vê-lo no Bulevar, a pé, com um guarda-chuva na mão, sem nenhuma distinção exterior, sem seu cordão azul de que um cavaleiro das ordens, outrora, jamais se separava. Esse duque e par, Primeiro Gentil-Homem Camareiro do Rei, não tinha podido, apesar de sua alta polidez, reter um sorriso, enquanto lia a carta do marquês, seu parente. Esse sorriso explicara a Virtuniano que havia mais de sessenta léguas entre os Gabinete das Antiguidades e as Tulherias: havia uma distância de vários séculos”. 
O dinheiro era pouco, já que o marquês perdera seus bens durante a Revolução e não os recuperara. A ajuda vinha do fiel tabelião Chesnel, que usava sua renda pessoal para ajudar a família d'Esgrignon. 
Em Paris, Virtuniano entregou-se à boa vida, gastando em jantares, trajes, jogo. Tornou-se o favorito de uma mulher da moda, a duquesa de Mafrignouse, o que produziu gastos ainda mais vultosos. Necessitando de dinheiro, Virtuniano assinou letras a serem descontadas justamente pelo banco de du Croiser. O burguês deu-lhe crédito ilimitado, de modo que a sua dívida ia aumentando. Quando o valor estava já bastante elevado, du Croiser foi cobrar a dívida de Chesnel. Nesse meio tempo, Virtuniano, desesperado, falsificou uma letra para conseguir mais dinheiro. Chesnel, então, organizou uma operação de guerra para salvar a honra da família d'Esgrignon. Para isso contou com a ajuda do juiz Camusot, cuja esposa desejava que o marido fosse promovido para Paris, e do senhor Blondet, que desejava que o filho José fosse nomeado juiz suplente para que pudesse desposar uma herdeira rica. Diana Mafrignouse também ajudou, tendo até se deslocado a Alençon. 
Assim, o jovem Virtuniano passou somente algumas horas na prisão e seu velho pai não ficou sabendo de nada.  
No final, Chesnel e o marquês faleceram. E Virtuniano casou com a senhorita Duval, sobrinha e única herdeira de du Croiser. 
Esse romance tem características típicas de Balzac. A principal são as descrições. Quando estamos no auge da ação e queremos saber o que irá acontecer com Virtuniano, há páginas e páginas descrevendo em detalhes as moradias dos senhores Blondet e Camusot!
Creio que o diferencial do Gabinete das Antiguidades, em conjunto com A Solteirona, é explicar o significado da Restauração. Passagens como o jantar de Virtuniano com os burgueses da moda, no qual Blondet afirma: “Não há mais guerra contra o cardeal, nem há mais o campo do Drap d'Or. Enfim, você Conde d'Esgrignon, está ceando com um senhor Blondet, filho segundo de um miserável juiz de província, a quem você, lá, não estendia a mão e que, dentro de dez anos, poderá sentar-se ao seu lado, entre os pares do reino. Depois de tudo isso, que os nobres creiam em si mesmos se puderem!”. Diana é ainda mais objetiva, escandalizando os nobres da província: “Estão todos loucos aqui? (...) Querem então ficar no século XV quando já estamos no século XIX? Meus caros filhos, não há mais nobreza; o que há agora é apenas aristocracia. O código civil de Napoleão matou os pergaminhos como o canhão já matara o feudalismo. Fica-se muito mais nobre do que se é, quando se tem dinheiro. Casa-se com quem quiser, Virtuniano; enobrecerá sua mulher, e eis o mais sólido dos privilégios que ainda restam à nobreza da França”. 
Balzac explica melhor do que qualquer professor de história como o espírito da Restauração chegou ao interior da França e como a Revolução Francesa mudou o mundo para sempre. 
Paulo Rónai aponta as semelhanças entre O Gabinete das Antiguidades e Beatriz: “a atmosfera anacrônica das casas du Guénic e d'Esgrignon, os dois velhos chefes de família igualmente veneráveis e fossilizados; a santidade das mulheres que os assistem: a sra. du Guénic e a srta. d'Esgrignon; o fato de ambos terem um filho único, fruto de um casamento tardio entre pai velho e mãe moça, e de esse filho, mimado e viciado, ser belo, encantador e sem nenhuma força moral; a conspiração que se forma em ambos os ambientes para salvar esse filho predileto. (...) Tantas analogias não podem ser fortuitas: para Balzac, Calisto e Virtuniano eram, evidentemente, duas encarnações do mesmo tipo social. As divergências entre os dois romances mostrarão, entretanto, toda a riqueza de recursos de Balzac: em Beatriz, a conspiração é mundana, aqui, jurídica; a decadência de Calisto é efeito de uma paixão, a de Virtuniano, de uma vingança; o solar dos du Guénic está em luta com um salão literário, o gabinete de antiguidades, com um salão burguês etc."  Como curiosidade, existe uma personagem comum entre as duas histórias: Fabiano du Ronceret, filho do presidente do Tribunal. Em O Gabinete das Antiguidades, ele é o cínico amigo de Virtuniano que passa informações do jovem para du Croiser. Em Beatriz, mais velho, ele aceita casar com a senhora Schontz, amante de Arttur de Rocehfilde, que assim volta para a esposa Beatriz, que deixa Calisto.


Quem me acompanha deve ter percebido a diminuição das minhas postagens. 
Estou fazendo doutorado e o tempo para a literatura está reduzido. Mas o blog continuará ativo, somente com posts mais espaçados. 
Estou preparando As Ilusões Perdidas, obra que é uma síntese da Comédia Humana. Imperdível.