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sábado, 6 de agosto de 2011

Outro estudo de mulher (junho1839-1842)

Personagens:diversos, mais de cinquenta personagens da Comédia Humana que se reúnem em casa da senhorita de Touches.

A história se passa depois de 1830.

Outro Estudo de Mulher é, como A Mulher de Trinta Anos, uma obra na qual Balzac reuniu vários contos dispersos em uma história só. Daí a profusão de personagens, vários dos mais importantes da Comédia Humana, que participam com uma ou duas frases.
Um grupo se encontrou para conversar em casa da senhorita de Touches, Camilo Maupin, após um baile. Foram então contadas quatro histórias.
Henrique de Marsay contou sua paixão, aos dezessete anos, por uma mulher que simultaneamente namorava um duque.
Após, Emílio Blondet discorreu sobre a “femme comme il faut”, a mulher naturalmente elegante, distinguindo-a da burguesa.
Depois, o general Montriveau contou uma passagem ocorrida durante a campanha de 1812, quando um capitão italiano matou a esposa e o coronel com quem ela o traía.
Finalmente, Horácio Bianchon (em certo ponto, Balzac esquece Bianchon e narra por ele mesmo...) contou uma história ocorrida na Vendôme, na Grande Ameia. A senhora Merret traía seu marido com um espanhol. O esposo descobriu e mandou murar o gabinete no qual o amante se escondia, levando-o à morte por inanição. 
Com Outro estudo de mulher, encerramos o quarto volume da Comédia Humana. 

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A Comédia Humana

No ano passado resolvi ler toda a Comédia Humana de Honoré de Balzac. Toda. Os dezessete volumes. Já estou no quinto. Postarei no blog o resumo e meus comentários para cada história.
Balzac é conhecido por um de seus piores romances, A Mulher de Trinta Anos. Mas foi um dos escritores mais fecundos de todos os tempos. São centenas de romances. E, com exceção dos trabalhos dos anos de juventude. de pouca qualidade, quase todos estão agrupados nesse monumento literário que é a Comédia Humana.
Em 1833, Balzac, já então um escritor prolífico, teve uma ideia brilhante que mudou a história da literatura ocidental: perpetrar o retorno das mesmas personagens em diversos romances. Segundo Paulo Rónai, no excelente ensaio que serve de introdução à Comédia Humana publicada pela Editora Globo, Balzac pretendeu eliminar a maior imperfeição inerente ao romance, a incapacidade de dar uma ilusão completa de realidade. "o romance, efetivamente, está rigidamente delimitado nos planos de uma construção que não se observa na vida. Mas os romances de Balzac não começam e não acabam; cada um traz sementes que vão germinar além do fim e por sua vez apresenta o desenvolvimento dos germes lançados em um ou mais romances anteriores". Assim, uma coadjuvante numa história aparece como personagem principal em outra. Alguém retratado na velhice aparece criança em outra história. As personagens envelhecem e seu problemas mudam. Questões não resolvidas se resolvem em outro romance. Além disso, personagens reais da França da Restauração participam também como personagens nas histórias. São mais de dois mil personagens, cada um com as suas características e histórias. E o mais espantoso é que, sem contar com computador, máquina de escrever ou sequer um secretário, Balzac tenha cometidos pouquíssimos erros.
Do ponto de vista histórico, A Comédia Humana é um retrato fiel e pormenorizado da França da Restauração. Friedrich Engels confessou que aprendeu mais sobre a sociedade francesa, inclusive pormenores econômicos, lendo Balzac do que em todos os livros de historiadores, economistas e estatísticos. E a descarnada "ascensão da burguesia" que vemos explicada nos textos dos historiadores marxistas, vive na nossa frente quando lemos a história de uma jovem dama de família aristocrática empobrecida que tem seu casamento arranjado com o filho de um grosseiro comerciante.
Em termos literários, há desde longos romances até pequenos contos. A qualidade não é homogêna. Há obras-primas como O Pai Goriot e As Ilusões Perdidas, pequenas pérolas como A Missa do Ateu e Uma Estréia na Vida e colchas de retalhos como o superestimado A Mulher de Trinta Anos e Outro Estudo de Mulher.
Nos posts seguintes vou falar um pouco de cada romance e, eventualmente, de aspectos da vida de Balzac.
A nous maintenant!

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Émilie, Émilie - a ambição feminina no século XVIII

Émilie, Émilie: a ambição feminina no século XVIII. Elisabeth Badinter. São Paulo: Discurso Editorial, Duna Dueto, Paz e Terra, 2003. 

O que tantos livros sobre mulheres fazem na minha cabeceira, na minha bolsa, no meu leitor Kobo? Quando estava na graduação em História tinha uma certa rejeição por história das mulheres. Não queria fazer parte de uma história categorizada, separada do resto. Ingenuidade da juventude. Era como se diluir a história das mulheres na história da humanidade fosse garantir a igualdade de direitos entre mulheres e homens. Era como acreditar na concretude do caput do artigo 5º da Constituição brasileira. 
Minha busca por conhecer mais sobre a história das mulheres é totalmente pessoal. Preciso entender as opções e escolhas da minha mãe, das minhas três avós (sim, tive três avós). Como essas opções e escolhas me atingiram e atingem a minha filha. Não basta saber a história delas, Teresa, Genny, Haidee, Orfila. Preciso saber o que veio antes. 
Estava pensando em tudo isso, quando conheci Elisabeth Badinter. Filósofa e historiadora francesa é uma das mulheres mais influentes da França (e também mais ricas). Dedica-se à história das mulheres,  do feminismo e da maternidade. Comecei pelo seu livro mais conhecido, Um amor conquistado: o mito do amor materno, sobre o qual ainda vou escrever. Me apaixonei pela clareza e racionalidade do texto. Busquei outros títulos na Estante Virtual. Comprei tudo o que encontrei. Assim, cheguei a Émilie, Émilie. 
Trata-se da biografia comparada de duas mulheres do século XVIII, Gabrielle Émilie Le Tonnelier de Breteuil, marquesa de Châtelet-Laumont (1706-1749) e Louise Florence Pétronille Tardieu d´ Esclavelles d´Épinay, Madame d´Épinay (1726-1783). Elas foram contemporâneas por vinte e três anos, mas nunca se encontraram. São mais conhecidas como tendo sido amantes de Voltaire (1694-1778) e de Friedrich Melchior von Grimm (1723-1807), respectivamente. Mas foram muito mais do que isso. São suas histórias que Badinter enfrenta em 460 páginas.
As duas pertenciam a classes privilegiadas, mas eram de meios diferentes e incompatíveis na época. Émilie pertencia à alta aristocracia. Louise, à burguesia financeira. Tiveram gostos, caráter e trajetórias diversas. O que tinham em comum, todavia, prevalecia sobre as diferenças, segundo Badinter. E está no título do seu livro: a ambição. "Mulheres em um mundo que reserva a glória apenas aos homens, são estimuladas a uma mesma ambição. Uma e outra escolheram um objetivo preciso para suas vidas, desenvolveram toda a energia de que eram capazes, utilizada até suas últimas forças. Mesmo que os resultados nem sempre tenham estado à altura de suas esperanças, nunca cederam ao desânimo nem depuseram as armas. A não ser o tempo necessário para qualquer ser humano se recobrar. Se o sacrifício e a perseverança são os sinais da ambição, então Madame du Châtelet e Madame d´Épinay foram autênticas ambiciosas. E quase irmãs".
Émilie nasceu em 17 de dezembro de 1706 em Paris, em uma família privilegiada em todos os sentidos, "rica, unida e nobre". Filha de um alto magistrado de Luís XIV, que tinha 58 anos quando ela nasceu, e tinha para com ela "todas a fraquezas de um avô e a ternura de um pai". Ao contrário da maioria das crianças nobres da época, passou quase toda a juventude na casa da família.
Louise nasceu em 11 de março de 1726 na fortaleza de Valenciennes, da qual seu pai era governador. Filha única de pai quase sexagenário e de uma mãe devota, recebeu as maiores atenções dos pais, o que, segundo Badinter, lhe armaram para que sempre tivesse confiança em si mesma.
Émilie foi privilegiada em termos de educação. "Nenhum conhecimento lhe foi proibido, nenhum constrangimento pesou sobre ela por causa do seu sexo". Interessada por línguas, aprendeu latim, italiano e inglês. Aos 17 anos, lia Locke no original. Contudo, original mesmo, era seu gosto por física e matemática. "Fato raríssimo na história da educação de meninas, seu pai a fez tomar aulas dessas duas disciplinas". E foi aí que ela encontrou o foco para a sua ambição.
Louise, segundo Badinter, se assemelhava a Émilie aos dez anos, em disciplina e vontade de saber. Todavia, foi nessa época que faleceu seu pai. Sua mãe tinha uma visão tradicional sobre a educação de meninas: bastava aprender a ler e a escrever. Louise foi confiada a uma tia rica rica, na casa da qual sofreu as humilhações habituais da prima pobre. Conseguiu acompanhar as aulas que a prima tomava com uma governanta, o que logo foi proibido pela tia, que julgava que uma mulher erudita era naturalmente pedante.
"Do século XVII até o fim do século XIX, a mulher erudita é constantemente ridicularizada e tudo se faz para que ela não exista. Quando, no fim do século XIX, as mulheres adquiriram progressivamente o direito de acesso às universidades, são solicitadas a utilizar seu saber para fins altruístas e não egoístas. Para agradar a seus maridos, para serem melhores professoras dos seus filhos, mas nunca para fins pessoais. Uma mulher que ame os estudos por si mesmos comete uma heresia".
Louise voltou a morar com a mãe e, entre 1737 e 1739, foi enviada a um convento,  onde prevalecia a educação religiosa e habilidades como costura e dança. Isso foi tudo o que Madame d´Épinay teve em termos de educação. Aos treze anos, ainda tinha dificuldade para escrever.
Ambas passaram por todas as etapas da vida de uma mulher da época: casaram, tiveram filhos e tiveram amantes. "Entretanto, o século XVIII constitui uma espécie de paradoxo na história das mulheres privilegiadas. Ao mesmo tempo que mantinham para estas a obrigação de casar e de ter filhos, a ideologia dominante lhes concedia direito à negligência. A inconstância conjugal não era um vício. Pode-se mesmo dizer que a fidelidade era considerada um valor fora de moda, quase ridículo, e os cuidados da maternidade não eram considerados dignos das preocupações de uma mulher da alta sociedade".
Para remediar a insignificância da vida feminina, muitas mulheres das classes privilegiadas investiriam na vida social e mundana. "Outras, principalmente depois de 1750, tentaram voltar a dar vida e interesse às preocupações familiares". Madame du Châtelet pertenceu ao primeiro grupo. Madame d´Épinay, ao segundo.
Émilie fez um casamento de conveniência. Louise casou por amor com um primo irmão. "A mais satisfeita das duas foi, no entanto, a primeira. O Sr. du Châtelet revelou-se um marido muito gentil, discreto, cortês e amigo, enquanto o Sr. d´´Epinay foi uma caricatura de esposo execrável. Mas, ambos, não puderam, ou não quiseram, satisfazer suas esposas." Quem o fez foram Voltaire e Grimm, com quem elas formaram pares ligados por sentimentos e interesses. "É incontestável que esses dois homens deram às duas Émilies os trunfos necessários, mas não suficientes, para a realização da ambição delas: a estabilidade afetiva e o respeito do homem admirado, o que lhes dava confiança em si mesmas".
Badinter não foge da questão que nos ocorre nessa altura do texto. Não estamos aqui fazendo o mesmo de sempre, valorizando Émilie e Louise pela sua ligação com homens célebres? "Se fosse preciso expor a ambição masculina no século XVIII e particularmente a de Grimm e de Voltaire, deveríamos evocar suas relações afetivas e delas fazer a condição necessária à sua ambição?". A resposta é não. Voltaire e Grimm já eram conhecidos antes de se ligarem a elas. Não tiveram necessidade de admiração e reconhecimento das companheiras para investir em suas ambições. Já Émilie e Louise nasceram para desempenhar o papel tradicional de esposa, mãe e presença mundana nos salões da elite da época. "O amor, longe de ser uma fonte de alienação, foi a condição de emancipação e autonomia delas. Desde de que se sentiram amadas e respeitadas, elas cessaram de sentir a necessidade de correr atrás do reconhecimento dos outros". Podiam ser elas mesmas e se dedicar a sua ambição.
Émilie foi amante de Voltaire entre 1733 e 1741. Louise foi amante de Grimm entre 1754 e 1773. Ambas foram muito apaixonadas e foram correspondidas. Viveram com seus amantes uma comunhão intelectual, com estudo, leituras e trabalhos conjuntos. Deixaram de ser correspondidas em função de outras paixões, no caso de Voltaire, e, da ambição, no caso de Grimm. Mas nunca romperam a relação de amizade e companheirismo com eles. Ambos sobreviveram a elas.
Mas o que essas mulheres fizeram de extraordinário?
Émilie du Châtelet foi uma das primeiras, senão da primeira mulher Física de história. Escreveu Instituições da Física em 1740, no qual difunde a física newtoniana, pouco conhecida na França da época. E se distingue dos seus pares do século das luzes ao tentar conciliar Newton (1643-1727) com Descartes (1596-1650) e com a metafísica de Leibniz (1646-1716). A partir de 1744, ela se dedicou a traduzir os Principia de Newton para o francês em uma edição comentada. Sua  morte precoce em 1749 a impediu de terminar o trabalho, que foi concluído pelo amigo Alexis Claude de Clairaut (1713-1765). Até hoje é a tradução de Newton que os franceses leem. Voltaire escreveu no prefácio:
"Essa tradução, que os mais talentosos homens da França deveriam ter feito e que os outros devem estudar, um mulher a empreendeu e terminou, para o espanto e a glória do seu país. Gabrielle-Émilie (...) é a autora desta tradução que se tornou necessária a todos que queiram adquirir os profundos conhecimentos que o mundo deve ao grande Newton. (...). Tem-se aí dois prodígios: o primeiro, que Newton tenha escrito estas obra; o outro, que uma mulher a tenha traduzido e esclarecido".
Louise, que foi anfitriã de Rouseeau (1712-1778), se dedicou a escrever sobre educação. Sua obra, Conversações com Émilie de 1774, escrita para a educação de sua neta, Émilie, subverte as instruções de Rousseau no seu Émile. Jean-Jacques, um dos grandes responsáveis pela submissão da mulher na era burguesa, recomendava à Sophie, companheira de Émile:
"Todos os estudos ociosos não levam a nada de bom (...). Que necessidade tem um menina de aprender a ler e escrever tão cedo? Terá ela logo uma casa para administrar? Muito poucas há que, ao invés de apenas abusar, fazem um bom uso dessa ciência fatal (...). ".
Pois nas suas Conversações, Louise construiu uma anti-Sophie: "Quando vós vos empenhais em cultivar a vossa razão, em orná-la com conhecimentos úteis e sólidos, estais abrindo para vós mesmas tantas novas fontes de prazer e de satisfação, tantos meios de embelezar vossa vida, de ter recurso contra o tédio e consolo durante a adversidade, quando conhecimentos e talentos. São bens que ninguém pode roubar-vos, que vos livram da dependência dos outros (...) que, ao contrário, tornam os outros dependentes de vós; pois quanto mais talentos e luzes temos, mais nos tornamos úteis e necessárias à sociedade.". Nas palavras de Badinter: "Rousseau pode prender as mulheres no lar quanto quiser, Madame d´Épinay lhes dá a receita para escapar". Louise escreveu outras obras, mas foram as Conversações que a tornaram célebre. Em 1783, foi premiada pela Academia Francesa.
Hoje as mulheres seguem os caminhos abertos por Émilie e Louise. São cientistas, pedagogas, políticas, intelectuais. Escolhem ter filhos ou não. Mas o baixo número de mulheres que escolhem carreiras científicas e a sombra dos ensinamentos de Jean-Jacques sobre a educação das meninas indicam que as Émilies ainda tem muito o que ensinar. 
Madame du Châtelet

Madame d´Épinay

Tradução francesa do Principia





terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Um homem de negócios

Um homem de negócios (Paris, 1845)

Volume XI: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense (lido entre 16 de fevereiro de 2021 e 26 de março de 2022)

Personagens principais: Margarida Turquet (Málaga), Cardot, Desroches, Bixiou, Nathan, Lousteau, La Palférine, Máximo de Trailles, Claparon, Cérizet, sra. Chocardelle (Antonia), Ida Bonamy, Croizeau, sr. Denisard (Cérizet), Hortênsia, Nuncingen. 

A história se passa em algum momento entre 1840 e 1845.

Maxime Dastugue. Retrato de Balzac (1886), Museu de Versalhes

Um homem de negócios é um conto ao estilo de história dentro da história, como Gobseck e Outro Estudo de Mulher. Um grupo de personagens conhecidos da Comédia Humana se encontra na casa da cortesã ou lourette Málaga, amante do tabelião Cardot. Desroches conta a disputa entre Máximo de Trailles e Cérizet, devedor e credor. Cérizet se faz passar por um diretor de aduana, Denisard, para cobrar uma dívida de Máximo de Trailles. O mulherengo, bon vivant e devedor inveterado, De Trailles, está na faixa dos cinquenta anos. Já o encontramos em Gobseck e O Pai Goriot, sempre explorando e arruinando mulheres.
 

Lembremos que Balzac vivia devendo dinheiro e conhecia todas as manhas do assunto. O tema desse pequeno texto, o dinheiro, é também uma dos temas da vida do nosso mestre. 


domingo, 22 de dezembro de 2013

Grande Irmão


Grande Irmão. Lionel Shriver. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2013. Tradução: Vera Ribeiro. 

Lido entre 19 e 22 de dezembro de 2013.

Adoro descobrir autores por acaso. Grande Irmão foi um desses casos. Olhando o site da Livraria Cultura, vi o título do livro. Pensei que tivesse algo a ver com George Orwell. Quando li a sinopse, gostei do tema. É um assunto que anda me preocupando muito: a epidemia de obesidade nas sociedades ocidentais. Comprei, comecei a ler e, diante do meu primeiro fim de semana com algo parecido a férias(doutorando não tem férias), só parei na última linha. 
Pandora Halfdanarson  é uma mulher de 40 anos casada com Fletcher Feuerbach, mãe emprestada dos dois filhos adolescentes do marido, Tanner, 17 anos, e Cody, 13. Após dirigir uma empresa de catering por alguns anos, uma brincadeira a levou a um negócio bem sucedido. Fez um boneco de corda para presentar o marido, com um mecanismo para reproduzir frases gravadas, clichês sempre repetidos pelo homenageado. As pessoas que viram gostaram e começaram a encomendar a engenhoca. Nascia a Baby Monotonous. O sucesso permitiu que Fletcher se dedicasse à sua paixão, fabricação de móveis de design. Um dia, Pandora recebe a notícia de que seu irmão, Edison Appaloosa, músico de jazz em Nova Iorque, não está bem financeiramente. Envia uma passagem para que ele vá visitá-la em Iowa, depois de uma separação de quatro anos, pontuada por alguns telefonemas, cuja iniciativa é sempre de Pandora. Ao chegar ao aeroporto, Pandora não reconhece no homem empurrado em uma cadeira de rodas por comissários, o rapaz atlético por quem suas amigas eram apaixonadas na adolescência. Edison está pesando quase duzentos quilos. 
A visita se transforma em um ordálio. Fletcher é um homem de vida regrada, que acorda muito cedo, come apenas alimentos naturais, evita laticínios e pratica ciclismo. Conviver com os hábitos alimentares do cunhado produz uma guerra diária. Tanner é um garoto cínico e mal educado, que não hesita em debochar das histórias de Edison, que relata, de forma repetitiva e exagerada, as ocasiões em que tocou com os maiores astros do jazz. A única que auxilia Pandora na inglória tarefa de gerenciar a visita de dois meses é Cody. 
Pandora e Edison têm nomes diferentes em virtude de um personagem que aparece pouco, mas está sempre presente no enredo. O pai deles, e da irmã mais jovem, Solstice, é  ator e roteirista de televisão de uma série famosa da década de 1970, chamada Guarda Compartilhada. Travis Appaloosa, nascido Halfdanarson, vive, na faixa dos setenta anos, da nostalgia do passado, sonhando em voltar a fazer sucesso na televisão. Em Guarda Compartilhada, Travis criou uma família avatar idealizada, na qual o filho mais velho era uma cópia de Edison e a do meio, de Pandora. 
(Quem quer ler o livro e não quer saber o desfecho da história pare aqui). 
A história chega a um impasse na data em que Edison  deveria retornar a Nova Iorque. Ele, inicialmente, dizia que faria uma turnê na Península Ibérica. Mas Acaba confessando a Pandora que não havia turnê alguma e que ele estava sem trabalho e vivendo de favores há muito tempo. Pandora tinha duas possibilidades. Deixar Edison embarcar e dar algum  dinheiro para ele se manter ou convidá-lo a ficar e ajudá-lo a lidar com o problema do peso. 
Pandora decide apoiar o irmão, mesmo com a séria possibilidade de comprometer o casamento. Aluga um apartamento para ambos e anuncia ao marido que passará um ano ajudando Edison a emagrecer. Pandora ganhou alguns quilos a mais nos últimos anos e resolve acompanhar o irmão na dieta. Passam vários meses consumindo apenas shakes proteicos, quatro vezes por dia. Após quatro meses e já tendo emagrecido 25 quilos, Pandora volta a comer alimentos sólidos. Edison volta após seis meses. E, ao final de uma ano, Edison, que pesava 175 quilos, chega aos 73. Eles fazem uma festa para comemorar o feito e, nessa data, Pandora anuncia a Edison que ela voltará para casa com Fletcher. Em poucas linhas, sabemos que Edison voltou a engordar todos os quilos perdidos. 
Na terceira e última parte, descobrimos o que já imaginávamos: que a segunda parte era ficção. Edison embarcou de volta para Nova Iorque e Pandora passou a enviar algum dinheiro a ele. Morreu, tempos depois, aos quarenta e nove anos. 
Lionel Shriver é uma norte-americana que mora há anos na Inglaterra. Depois de cinco ou seis livros sem grande sucesso na década de 1990, ela ficou famosa em 2003 com Precisamos falar sobre Kevin, história narrada pela mãe de um adolescente psicopata e que virou filme. O seu irmão mais velho Greg, para quem Grande Irmão é dedicado, morreu aos 55 anos em virtude de complicações relacionadas à obesidade mórbida. 
O livro tem problemas narrativos bem óbvios. Há um grande abuso de clichês. A cena do aeroporto, quando Pandora, aguardando Edison, escuta dois passageiros reclamarem do incômodo causado pela presença de Edison é um grande chichê cinematográfico. Edison é uma personagem mal construído. O que Pandora conta dele antes da obesidade não tem nada a ver com a pessoa que aparece na história. Além disso, suas atitudes, comendo toda a comida que os parentes têm em casa, fazendo sujeira, quebrando a mobília, são lugares comuns associados aos obesos: pessoas preguiçosas, sem força de vontade e que incomodam os outros. Travis, que é quase um coadjuvante, é mais real que Edison. Travis, aliás, tem tudo a ver com a obesidade de Edison: ele é o genitor egoísta, algo que contrasta fortemente com a visão que temos hoje a respeito de paternidade e maternidade, mas que está nas vidas de muita gente. Para ele, seu mundo de fantasia de Guarda Compartilhada, é mais importante do que a família real. 
A segunda parte, da dieta, é francamente inverosímel, mas acredito que foi deliberado. Qualquer pessoa que já fez uma dieta (quem não?), sabe que é impossível ficar meses consumindo 500 calorias por dia, ou perder 100 quilos em uma ano. 
O tema de Grande Irmão não é exatamente obesidade, mas controle e competição. Controle sobre o que comemos, ou sobre o que não comemos. Controle sobre as relações familiares, fraternas ou não. Competição em todas as esferas da vida. Chama a atenção a competição entre Edison e Pandora, desde pequenos. Edison era o preferido dos pais. Pandora era a típica filha do meio, de quem não se espera nada. Enquanto ele foi aos dezessete anos para Nova Iorque com alguns trocados no bolso e ficou famoso, ela optou por estudar inglês na faculdade (algo que quem não sabia o que queria acabava fazendo). Aos quarenta anos, o jogo se inverteu. Edison está obeso e desempregado, enquanto Pandora, bem sucedida, está na capa da Vanity Fair. Também chama a atenção a competição entre Pandora e Fletcher. Ele compensa seu desempenho opaco na profissão com hábitos alimentares e de exercício que Pandora não consegue seguir. Ostenta perante ela, com alguns quilos a mais, seu físico atlético. Travis é o maior competidor em relação aos filhos. Não aceita que ambos, em momentos diferentes tenham mais sucesso do que ele teve. Menospreza a carreira de Edison e despreza a firma de Pandora. Quando Fletcher manda a ele uma foto e ele vê o estado físico de Edison, não consegue disfarçar a satisfação.
Creio que é essa dinâmica familiar que Shriver capta bem. Esse emaranhado de competição e afeto das relações familiares, em que os irmãos ora se unem contra os pais, ora se unem aos pais, um contra o outro. Em que as lealdades ora são do cônjuge, ora do irmão/irmã. Essas implicâncias sem explicação do dia a dia. Fazer o que sabemos que vai desagradar ao outro. Ostentar ao outro nosso sucesso, quando sabemos que ele não está bem. Se arrepender logo depois e mesmo assim, tornar a fazer. Esse é o ponto alto de Grande Irmão. As melhores reflexões são sobre isso e não sobre a questão do descontrole alimentar. 

Grande Irmão foi o primeiro e-book de literatura que escolhi ler no formato de e-book. Já li muitos da minha área de estudo e alguns de literatura por não querer esperar meses pela remessa da Amazon. Quando fui comprá-lo no site Cultura, ia comprar o livro convencional. Mas resolvi experimentar. Gostei da experiência. Li no meu celular. Achei prático poder sacar o celular do bolso e ler o livro a hora em que eu quisesse. Às vezes fico muito brava, quando saio e esqueço
de levar um dos livros que estou lendo. Agora vou manter sempre um no celular.




domingo, 14 de julho de 2013

Crime e Castigo

Não estava nos meus planos reler Crime e Castigo agora. Eu o li há muitos anos na tradução de Natália Nunes para a a Abril Cultural, que é uma tradução de segunda mão, ou seja, o texto russo foi traduzido para o francês e a tradutora passou para o português. Eu havia adquirido a tradução direta do russo de Paulo Bezerra para a Editora 34, mas estava na prateleira, aguardando um motivo ou inspiração para a releitura. Eis que apareceu. Numa livraria bem perto da minha casa ofereceram um curso de literatura russa sobre Dostoiévski com o professor João Armando Nicotti. Normalmente, não posso participar desse tipo de atividade, mas é no sábado na parte da tarde. Não resisti. O professor Nicotti é um dos responsáveis pela minha paixão por Tolstói. Assisti, quando ainda era uma menina, uma palestra com ele sobre Anna Karênina: foi o início do meu interesse pela literatura russa e por Tolstói. 
Crime e Castigo conta a história de um jovem estudante de direito de 23 anos de São Petesburgo, Rodion Románovitch Raskólnikov que comete um crime. Raskólnikov vive sustentado pelas mãe, Pulkhéria Raskólnikova, que recebe uma miserável pensão, e pela irmã, Avdótia (Dúnia), governanta em uma casa burguesa na província. Mesmo assim, a pobreza o obriga a abandonar a faculdade. Movido pela falta de recursos - mora em um local insalubre, pouco se alimenta -, pela doença e por algumas teorias por ele elaboradas, o rapaz planeja e executa o assassinato de uma velha usurária, Aliena Ivánova. Durante a execução, com um machado, chega ao apartamento da velha sua irmã, Lisavieta Ivanova, e Raskólnikov é obrigado também a assassiná-la. 
Nesse meio tempo, ele recebe uma carta da mãe narrando o noivado de Dúnia com o capitalista Piotr Pietrovich Lúdjin e a viagem próxima de ambas, mãe e irmã, a São Petersburgo para o casamento. Raskólnikov desaprova o plano, pois percebe que  a irmã aceitou o pedido para ajudá-lo. E através das palavras da mãe, o jovem advinha que noivo é um homem que deseja uma noiva pobre e submissa que o reverencie. 
Raskólnikov tem ao seu lado, desde o princípio, o colega da faculdade Dmitri Prokófich Razumíkhin. Jovem honesto, um pouco ingênuo e infenso à rispidez do protagonista, ele logo se apaixona por Dúnia. Outro personagem importante é Semion Zakháritch Marmieladov  Ele conhece Raskólnikov em uma taberna e ele narra sua triste vida. É funcionário público, mas abandonou o trabalho pelo vício na bebida. Sua mulher, Catierina Ivánova, moça de família nobre que empobreceu, está com tuberculose e não tem meios de sustentar os três filhos pequenos do casal,  Polienka,  Kólia e Lênia (9, 7 e 6 anos). A filha mais velha de Marmieladov, Sônia Semionova Marmeliadova, ajuda os pais e madrasta se prostituindo. Ao longo da narrativa, Marmieladov morre atropelado por cavalos.  Raskólnikov dá a Catierina todo o dinheiro que recebeu da mãe para o enterro do alcoolista. E no dia do enterro, Catierina morre. O casal Marmieladov-Catierina foi inspirado na primeira esposa de Dostoiévski, Maria Dmitrieva e seu primeiro marido, Issáiev. 
Na galeria de personagens principais (há muitos, mais de 80), há ainda Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov e Porfiri Pietróvitch. 
Svidrigáilov aparece pela primeira vez na longa carta de Pulkhéria para Raskólnikov. Ele era o patrão da casa onde Dúnia trabalhava. Foi literalmente comprado pela mulher, uma solteirona endinheirada, Marfa Pietróvna, e com ela fez um acordo: viveria com ela na província e não teria casos amorosos sérios. Marfa tolerava, no máximo, casos com criadas de quarto. Svidrigáilov se apaixonou por Dúnia e provocou uma incidente que levou à difamação da moça. O mal entendido foi desfeito e Dúnia reabilitada, momento em Lúdjin apareceu para resgatá-la. Svidrigáilov é pedófilo, o que é retratado com realismo pelo autor. Ele vai para a cidade após a morte de Marfa, que, não fica claro, poderia ter sido provocada por ele. Apesar do mau caráter, Svidrigáilov pratica uma série de boas ações. Entre elas, paga o enterro de Catierina e providencia para que os órfãos fiquem em um bom internato. Também dá dinheiro à Sonia e à família de uma menina de 16 anos com quem ele iria se casar (na verdade iria comprá-la dos pais). Tem-se a impressão de que desde que foi para São Petersburgo ele estava pensando em se suicidar, o que, finalmente, ele faz com um tiro na cabeça. 
Porfiri Pietróvitch é o juiz de instrução que, através do estudo das atitudes de Raskólnikov, descobre que ele cometeu o crime. Faz um jogo psicológico com o protagonista e o incentiva a se entregar, já que teria uma série de atenuantes: sua doença, o fato de não ter usado o dinheiro que roubou da velha e a porta aberta quando cometia o crime. Raskólnikov acaba se entregando, mas não a Porfiri, a Ilia Pórokh. 
No final, Raskólnikov é condenado a sete anos na Sibéria. Vai para lá acompanhado por Sônia. Pulkhéria falece. Dúnia, que rompera o noivado com Lúdjin, casa com Razumíkhin . 
A última cena da narrativa ocorre um ano e meio depois do crime (o crime ocorreu em julho de 1865), quando Raskólnikov reconhece seu amor por Sônia e encontra nesse amor a redenção que até então não encontrara. 
Muita tinta já foi gasta para falar desse livro sob os mais diversos aspectos: jurídicos, psicológicos, históricos, filosóficos. 
Um dos ponto mais debatidos é o motivo do crime. O protagonista apresenta vários motivos, mas o mais plausível se relaciona a uma teoria segundo a qual existem homens ordinários, a maioria, e homens extraordinários, como Napoleão ou César, que são capazes de ultrapassar os limites para conquistar o que desejam. Esses últimos poderiam fazer o que quisessem e apenas colheriam a glória. Raskólnikov diz:
"A velha vai ver que foi mesmo um erro, mas não é nela que está a questão! A velha foi apenas um doença...eu queria ultrapassar o limite o quanto antes...eu não matei uma pessoa, eu matei um princípio!  Foi o princípio que eu matei, mas além eu não fui, permaneci do lado de cá... O único que eu soube fazer foi matar. Demais, nem isso eu soube, como se está verificando." 
Assim, o erro de Raskólnikov segundo ele mesmo não foi ter matado, mas não ter conseguido seguir com a vida após o crime, utilizar o produto do roubo para voltar para a universidade e fazer grandes coisas, como um grande homem teria feito no seu lugar. 
Ele não se arrepende do crime nem no final. O que traz a paz a Raskólnikov na última cena, não é o arrependimento, mas a redenção pelo amor de Sônia e pela perspectiva de uma vida com ela. 
Eis a sombra de Napoleão Bonaparte sobre os jovens do século XIX. Eugênio de Rastignhac, Luciano de Rubempré, Julien Sorel, Rodion Raskólnikov, todos atingidos, de forma diversa, pela perspectiva de atingir a grandeza. 
Raskólnikov é um dos personagens mais desagradáveis da literatura de todos os tempos. O leitor não desenvolve nenhuma empatia com ele, coisa que o mau caráter Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov, com todos os seus defeitos: jogador, agressor de mulheres, pedófilo, consegue logo que aparece no quarto do protagonista. Rodion desenvolve um certo fascínio, que é o que explica, por exemplo, amizade de Razumíkhin e o desvelo da empregada Nastácia. Mas Razumíkhin bem o define: "Ele não gosta de ninguém, talvez nunca venha a gostar". É o  gênio de Dostoiévski que nos faz acompanhar essa criatura insuportável com o maior dos interesses por quase seiscentas páginas. 

sábado, 27 de julho de 2013

Uma Luz em meu Ouvido

Uma Luz em meu ouvido. Elias Canetti. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Tradução Kurt Jahn.

Lido entre 19 de fevereiro e 6 de março de 2013.

Trata-se da continuação da biografia de Elias Cannetti, A Língua Absolvida. Uma Luz em meu Ouvido cobre o período entre 1921 e 1931, ao fim do qual Canetti tornou-se escritor.
O livro inicia com a chegada de Elias, aos 16 anos a Frankfurt em 1921. Lá, a família, mãe e três filhos, em dificuldades financeiras foi residir na pensão Charlotte. Na pensão, Elias teve contato com uma fauna variada. Alguns eram pessoas de aparência respeitável, mas com uma vida dupla. O autor conheceu o período de crise e inflação que se abateu sobre a Alemanha dos anos 1920. Ele relata o impacto que teve sobre ele ter presenciado na rua uma mulher desmaiar de fome.
Em 1924, Elias foi para Viena com o irmão Georg. Tendo desistido da medicina, optou, sem muita convicção, por estudar química. Ele tinha 19 anos.
Por intermédio da família Asriel, Canetti conheceu, no mesmo dia, duas das pessoas mais importantes de sua vida: Karl Kraus e Veza. 
Karl Kraus (1874-1936) não é muito conhecido hoje em dia, mas era uma celebridade na Viena dos anos 1920. Ensaísta, dramaturgo, polemista, escrevia um jornal, Die Fackel (A Tocha), onde atacava o belicismo e a corrupção das elites da época. Escreveu um drama de mais de oitocentas páginas, Os último dias da humanidade, "no qual aparece tudo o que aconteceu na guerra. Quando Karl Kraus fazia leituras de partes do mesmo, ficava-se como que aniquilado. Nada se movia no auditório, mal se ousava respirar. Ele mesmo lia os papéis de todos os personagens, dos aproveitadores e dos generais, dos velhacos e dos pobres-diabos que eram vítimas da guerra. Todos pareciam tão genuínos em sua interpretação como se estivessem à nossa frente. Quem o ouvisse, nunca mais desejaria frequentar um teatro, pois o teatro era enfadonho em comparação a Karl Kraus. Ele sozinho era um teatro inteiro, porém melhor, e este milagre da humanidade, esse monstro, este gênio tinha um nome tão comum como Karl Kraus". 
Pois na primeira vez que teve essa incrível experiência, Elias conheceu Veza Taubner-Calderon (1897-1963) com quem se casaria em 1934. Elias e Veza tiveram uma parceria intelectual poderosa que iniciou nessa época, apesar do posterior casamento conturbado - Canetti teve muitas amantes e Veza, uma intensa paixão por Georg, o irmão médico do escritor. 
Mas o tom desse período é o mesmo da parte final de A Língua Absolvida: os embates do jovem com a forte personalidade da mãe, Mathilde. Elias data um momento de ruptura, ocorrido em 24 de julho de 1925, quando a mãe o proibiu de fazer uma excursão para as montanhas com um amigo. Ocorreu uma grande crise que marcou o afastamento entre mãe e filho. Mathilde também se opunha ao relacionamento do filho com Veza. É muito engraçado o trecho em que Canetti conta que inventava para a mãe relacionamentos com outras mulheres para desviá-la da seriedade do seu romance com Veza. 
Também é desse período a narrativa do trabalho no laboratório de química, de onde saíram alguns modelos para os personagens de Auto de Fé.
Um acontecimento que mudou a vida de Canetti e o levou a dedicar anos ao estudo das massas e à publicação do ensaio Massa e Poder em 1960 ocorreu em 15 de julho de 1927. Tudo começou com um tiroteio alguns dias antes, quando seis operários foram mortos. A corte de justiça inocentou os assassinos, o que provocou uma grande revolta nos trabalhadores de Viena que marcharam para o Palácio da Justiça e o queimaram. Elias Canetti se integrou na massa manifestante, e estudar os movimentos de massa, de turba, a partir daí, passou a ser sua obsessão. Dessa experiência surgiu um dos modelos de Kien, o homem dos livros de Auto de Fé: "Numa rua lateral, não longe do Palácio da Justiça em chamas, logo ao lado, destacando-se nitidamente da massa, estava um homem de braços erguidos, que juntava as mãos por cima da cabeça, em desespero, e bradava em tom lamentoso, uma vez após a outra ´Os arquivos estão queimando!`, ´Todos os arquivos!`, ´Antes os arquivos do que as pessoas!`, disse-lhe eu, mas isso não o interessou, só tinha os arquivos na cabeça". 
Elias terminou sua graduação em química, já muito ciente de que jamais trabalharia como químico. Dois períodos em Berlim entre 1928 e 1929 foram fundamentais para sua carreira de escritor e para Auto de Fé. 
George Grosz - Berlin Strasse 1931
As maiores influências do período berlinense foram o pintor e desenhista George Grosz (1893-1959) e o escritor russo Isaak Babel (1894-1940). Canetti considera que o trabalho de Grosz teve o mesmo impacto para ele do que o texto de Karl Kraus, mas que por ser uma pessoa verbal e sem talento para o desenho, o admirava mas não o tinha como paradigma. Canetti considera que Babel significou mais para ele do que qualquer outra pessoa que conheceu na época. 
Outra figura dos anos 1920 com quem Canetti travou conhecimento foi Bertold Brecht (1898-1956). Elias não esconde sua antipatia por ele, considerado artificial e afetado. 
A última parte da narrativa, entre 1929 e 1931, trata da gestação de Auto de Fé. É muito interessante (para mim o mais interessante do livro) ver como um conjunto tão variável de influências resultou nesse romance sui generis. Coisas tão diversas como um quadro de Rembrandt, a Capela Sistina, a senhoria de uma das casas onde Elias morou, Cervantes, o homem que lamentava a queima dos arquivos, A Comédia Humana, a fragmentação das noites berlinenses, os desenhos de Grosz se amalgamaram para a dar origem a Die Blendung - o cegamento, que é o título original de Auto de Fé. Mas Auto de Fé, apesar de ser um capítulo da Comédia Humana dos loucos, como o próprio Elias o definiu, é também uma elegia aos livros, é o amor extremo aos livros, algo que Canetti trazia dentro de si. E eu, modestamente, também. Mas isso já é assunto para outro post. 


Rembrandt - Sansão cegado pelos filisteus 1636