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sexta-feira, 13 de maio de 2011

Gobseck (1830)

Personagens: Viscondessa de Grandlieu, Camila, senhor de Restaud, Derville, João Ester van Gobseck, Fanny Malvaut, senhora de Restaud, Máximo de Trailles.

A história se passa entre 1829 e 1830.

Gobseck apresenta ao publico mais um grande personagem de Balzac e confirma o talento do escritor para criar personagens torpes e de moral duvidosa. A história da traição de Anastácia de Restaud é eclipsada por um personagem fascinante: o avarento Gobseck. Como afirma Paulo Rónai, Balzac cria um avarento que não é um tipo esquematizado, é uma personagem rica e cheia de individualidade.
O advogado Derville, ao ver que Camila estava interessada em Ernesto de Restaud, contou uma história a ela e sua mãe por ele presenciada. Anastácia de Restaud, mãe de Ernesto, pediu dinheiro e empenhou jóias ao agiota Gobseck para pagar dívidas de um amante, Máximo de Trailles. Seu marido descobriu, pagou a dívida para preservar seu nome, mas fez um acordo com o avarento: passou todos os seus bens para o nome de Gobseck que, quando chegasse a hora, os passaria para Ernesto.
A história de Anastácia está relacionada a outra história da Comédia Humana: Anastácia é uma das desalmadas filhas do Pai Goriot. Seu fim infeliz, provavelmente, deve-se mais à crueldade com que tratou o pai do que ao adultério.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Um homem de negócios

Um homem de negócios (Paris, 1845)

Volume XI: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense (lido entre 16 de fevereiro de 2021 e 26 de março de 2022)

Personagens principais: Margarida Turquet (Málaga), Cardot, Desroches, Bixiou, Nathan, Lousteau, La Palférine, Máximo de Trailles, Claparon, Cérizet, sra. Chocardelle (Antonia), Ida Bonamy, Croizeau, sr. Denisard (Cérizet), Hortênsia, Nuncingen. 

A história se passa em algum momento entre 1840 e 1845.

Maxime Dastugue. Retrato de Balzac (1886), Museu de Versalhes

Um homem de negócios é um conto ao estilo de história dentro da história, como Gobseck e Outro Estudo de Mulher. Um grupo de personagens conhecidos da Comédia Humana se encontra na casa da cortesã ou lourette Málaga, amante do tabelião Cardot. Desroches conta a disputa entre Máximo de Trailles e Cérizet, devedor e credor. Cérizet se faz passar por um diretor de aduana, Denisard, para cobrar uma dívida de Máximo de Trailles. O mulherengo, bon vivant e devedor inveterado, De Trailles, está na faixa dos cinquenta anos. Já o encontramos em Gobseck e O Pai Goriot, sempre explorando e arruinando mulheres.
 

Lembremos que Balzac vivia devendo dinheiro e conhecia todas as manhas do assunto. O tema desse pequeno texto, o dinheiro, é também uma dos temas da vida do nosso mestre. 


quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Os funcionários

Os funcionários (julho de 1836)

Volume XI: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Parisiense

Personagens: Xavier Rabourdin, Celestina Rabourdin (née Leprince), Clemente Chardin des Lupleaux, Atanásio João Francisco Miguel de La Billardière (barão Flamet de La Billardière) , sr. Saillard, sra. Saillard (née Bidaut), Isidoro Baudoyer, Isabel Baudoyer (née Saillard), sr. e sra. Badouyer (pais de Isisdoro), Padre Gaudron, Martinho Falleix, srta. Baudoyer, sr. Sorbier (tabelião, predecessor de Cardot), Gigonnet (agiota), Werbrust, Gobseck, sr. Mitral (tio de Isidoro, irmão da mãe dele), Sebastião de La Roche (extranumerário), sra. de La Roche (mãe de Sebastião), Du Bruel (autor teatral, também conhecido como Cursy, amante de Túlia que era também amante do duque de Rhétoré, subchefe), Benjamin de La Billardière, Ernesto de La Brière (secretário particular do ministro), Antônio (contínuo das repartições), Lourenço (contínuo dos dois chefes, sobrinho de Antônio), Gabriel (contínuo do diretor, sobrinho de Antônio), sr. Dutocq (oficial de gabinete da repartição de Rabourdin, sucessor do sr. Poiret). José Godard (subchefe de Rabourdin, primo de Mitral pelo lado materno, aspirante à mão da srta. Baudoyer,) Phellion (escriturário do gabinete de Rabourdin, dois filhos, uma filha e esposa leciona piano no internato das srtas. La Grave, ele também leciona história e geografia no internato), Adolfo Vimeaux (amanuense que gastava para se vestir bem), Bixiou (desenhista, da divisão Baudoyer), Augusto João Francisco Minard (amanuense), sra. Minard (Zélia Lorain), Colleville (primeiro oficial da repartição Baudoyer, primeiro clarinete da ópera cômica, fã de anagramas), Flávia Minoret (esposa de Colleville), Thuillier (primeiro oficial da repartição Rabourdin), srta. Thuillier (irmã de Thuillier), Chazelle, Paulmier, Poiret Jr. (irmão de Poiret sênior, organizava a coleção de jornais e escriturava livros em duas casas comerciais, tinha um diário), Fleury (ex capitão de regimento no período napoleônico, tinha opiniões de centro esquerda, fugia dos credores), Desroys (discreto, republicano em segredo), Marquesa d' Espard, ministro e esposa do ministro, um deputado, sr, Clergeau. 

A história se passa entre  1820 e 1825. 

A enorme lista de personagens já mostra como esse romance, pouco conhecido e comentado, é desafiador para o leitor de Balzac. No início, já cito o meu "guia", Paulo Rónai, que na introdução de "Os Funcionários" repete, ao comentar a ausência do título em textos e críticas: "E no entanto, trata-se de autêntica obra-prima que por si só bastaria a gravar o nome do autor na história das letras francesas: Balzac é assim, muitas vezes prejudicado pela sua própria riqueza: alguns livros seus de uma perfeição poderosa relegam ao desconhecimento outros, talvez não isentos de defeitos mas decerto cheios de belezas" (RÓNAI, 1991, p. 99).  

Conta-se a história e Xavier Rabourdin, chefe de gabinete em um importante ministério, que teve sua promoção a chefe de divisão preterida pelo sr. de La Billardière, "homem incapaz". Rabourdin, raríssimo homem de Estado, dedicou-se a planejar uma reforma do sistema administrativo francês. Reforma detalhada por Balzac, que envolvia a redução dos ministérios a três, e a diminuição do número de funcionários para cinco mil, com o aumento de seus salários. Entendemos que a burocracia é filha do governo constitucional pois os ministros "obrigados a obedecer aos príncipes ou às Câmaras, que lhe impõem a admissão de novos empregados, e forçados a conservar os que têm, (...) diminuíam os salários e aumentavam o número de empregos, pensando que, quanto mais gente fosse empregada pelo governo, mais este seria forte" (BALZAC, 1991, p. 114). Balzac chama esse sistema de ministerialismo, com o funcionário se comportando com o governo "como uma cortesã com um amante velho. Dava-lhe trabalho correspondente ao dinheiro que recebia" (BALZAC, 1991, p. 114). 

O funcionário público "ocupado unicamente em se manter, em receber seus ordenados e alcançar sua aposentadoria, (...) achava que tudo era permitido para alcançar esse resultado. Esse estado de coisas acarretava o servilismo do funcionário, engendrava intrigas perpétuas no seio dos ministérios, onde os empregados pobres lutavam contra uma aristocracia degenerada que vinha pastar nas terras comunais da burguesia, exigindo postos para seus filhos arruinados. (...) Não restavam ou não vinham senão preguiçosos, incapazes ou tolos. Assim, se estabelecia lentamente a mediocridade da administração francesa" (p. 116). Rabourdin foi além, planejando também uma reforma das finanças, com a taxação do consumo em massa em vez da propriedade, com a receita do imposto vindo de uma única lista composta de diversos artigos. 

Discordo muito do romancista inglês, Arnold Bennett, citado na Introdução por Rónai  quando diz que "o começo de Os Funcionários é terrível" e "aí a gente vê que Balzac não entendia do assunto." Talvez por ser historiadora, achei o começo do romance muito interessante (lembremos que Balzac se dizia "historiador de costumes"). Ele expõe o fortalecimento da burocracia no contexto da formação de uma democracia liberal. Ao lado da nascente soberania nacional persiste a soberania monárquica, e  a aristocracia decadente disputa espaço e dinheiro com a nova burguesia. Mas além de historiadora, sou servidora pública. E é grande a atualidade das discussões de Balzac sobre o dia a dia do serviço público. Nos "funcionários" apresentados na segunda parte do romance (do elenco de funcionários poderiam sair inúmeras obras, incrível a prolificidade de Balzac!), reconhecemos muitas figuras das nossas repartições: o preguiçoso, o apadrinhado, o fofoqueiro, o certinho, o piadista, estão todos lá. 

A trama ocorre a partir da morte de La Billardière e a vacância de seu cargo. Rabourdin era o candidato natural. Mas no seu caminho se encontra o medíocre Isidoro Baudoyer, o outro chefe de gabinete. Ao lado de Baudoyer, está o clero, com poder restaurado pela ascensão de Carlos X, os agiotas, que manipulam as dívidas do secretário-geral Des Lupleaux, e vários funcionários desejosos de um chefe que mantivesse tudo como estava. A "fritura" de Rabourdin ocorreu a partir da divulgação de seu relatório para a reforma, no qual, além do número de funcionários que seriam demitidos, havia apreciação do desempenho de vários, inclusive de Des Lupleaux.  Mas havia ainda uma esperança para a promoção de Rabourdin: a paixão do secretário-geral, "remanescente de um homem bonito", por Celestina Rabourdin. "Os primeiros cabelos brancos trazem consigo as últimas paixões, as mais violentas, por estarem a cavaleiro de uma potência que se vai e de uma fraqueza que se inicia" (BALZAC, 1991, p. 148). Mas Celestina, mulher superior (o primeiro título  de "Os Funcionários" era "A mulher superior") e ambiciosa, por quem o responsável marido gastava mais do que ganhava, se manteve virtuosa, não concedendo seus favores a Des Lupleaux, o que selou o destino de Rabourdin. 

O final infeliz, tipicamente balzaquiano, ocorre com a promoção de Baudoyer a chefe de divisão e a demissão voluntária de Rabourdin. 

Impressionantes os diálogos da parte do romance que se passa na repartição, que é toda dialogada. Rónai nos diz que são superiores a todos os diálogos das peças que Balzac escreveu e que não deram certo. Dariam um bela e engraçada peça de teatro, no estilo de "O Inspetor Geral" de Gogol. 

Em "Os funcionários" Balzac nos presenteia com o quadro de nascimento da burocracia estatal contemporânea e dos ajustes sociais feitos pela chegada do capitalismo no final do século XVIII. Mas, para além da análise histórica, é um livro divertido. Torcemos por Rabourdin, mesmo sabendo que ele perderá no final, como quase todos os "bons" do mundo balzaquiano. 


Imagem retirada de: Alcide Théophile Robaudi. Honoré de Balzac, The Civil Service. Philadelphia: Gebbie Publishing Co., 1899. 
https://fr.wikipedia.org/wiki/Les_Employ%C3%A9s_ou_la_Femme_sup%C3%A9rieure. Acesso em 14 de dezembro de 2021. 




segunda-feira, 20 de julho de 2015

César Birotteau

A História da grandeza e da decadência de César Birotteau, perfumista, adjunto do Maire do segundo distrito de Paris, cavaleiro da Legião de Honra, etc (escrito em novembro de 1837)

Personagens: César Birotteau, Constança  Birotteau,  Cesarina, Alexandre Crotat (Xandrot), Cláudio José Pilleraut, Anselmo Popinot, sr. e sra. Ragon, Ferdinando Du Tillet, sr. e sra. Roguin, Sara Gobseck (A Bela Holandesa), Carlos Claparon, João Batista Molinaux, sr. Grindot (arquiteto), sra. Madou, sr. Vauquelin, Celestino, Gaudissart, Androche Finot, sr. Lourdois, Francisco  Birotteau, Cayron (comerciante de guarda chuvas), José Lesbas, Francisco Keller, Adolfo Keller, Padre Loraux. 

A história se passa entre 1819 e 1823.

Em uma carta para a escritora Margarete Harkness, escrita em abril de 1888, Friedrich Engels declarou que aprendera mais com Balzac do com todos os historiadores, economistas e estatísticos a respeito do nascimento da sociedade burguesa. Essa observação parece digrida especialmente a César Birotteau, que Paulo Rónai qualifica como um dos romances balzaquianos mais perfeitos. A "burguesia" termo do qual nós, professores de história, abusamos nas aulas, caracteriza algo fluido no tempo e no espaço. Um burguês na França de Balzac não é o mesmo que um burguês no Brasil de hoje. Mas o uso do mesmo termo aproxima e confunde a percepção. Pois Balzac nós dá o burgês de carne e osso, com nome, sobrenome, gostos, conceitos e preconceitos. Assistimos a nova classe tomar conta das relações sociais da França da Restauração, enquanto as demais classes e grupos se acomodam como é possível. 
Nosso burguês se chama César Birotteau. De origem camponesa (é irmão de Francisco Birotteau, o nosso Cura de Tours), foi para Paris aos catorze anos trabalhar como caixeiro na casa dos senhores Ragon, comerciantes de perfumes. Trazia somente seus pobres pertences pessoais e a disposição para o trabalho duro. Apesar do temperamento pacato, envolveu-se na conspiração de 13 vendemiário contra a Convenção, tendo a honra de lutar com Napoleão nas escadarias da Igreja de São Roque. "Se o ajudante de campo de Barras (Napoleão), saiu da obscuridade, Birotteau foi salvo por ela". Acabou esquecido e não foi punido. 
Assumiu a perfumaria dos Ragon e desposou a bela Contança Pilleraut, primeira caixeira da loja Pequeno Marinheiro. Juntos foram fazer fortuna. 
Encontramos os Birotteau, em 1819, como comerciantes prósperos e estabelecidos no mercado. Graças a algumas invenções como a "Dupla Pomada das Sultanas" e a "Água Carminativa", não faltavam pedidos e clientes. Mas faltava um certo glamour, incompatível com a vida no comércio. Então, Birotteau foi condecorado como Cavaleiro da Legião de Honra, em agradecimento a seus serviços à causa realista. Ele resolveu reformar a casa para dar um baile em comemoração à desocupação da França. Para pagar a extravagância, César entrou em um negócio de especulação de terrenos com alguns sócios, dentre os quais Roguin, dono de um cartório. Ocorre que, por detrás de Roguin, estava um dos típicos vilões balzaquianos, Ferdinando Du Tillet. Du Tillet nutria um grande desejo de vingança contra César. Fora seu caixeiro e furtara três mil francos do caixa. Birotteau descobriu e o despediu, mas sem fazer publicidade do caso.  Além disso, cortejara Constança e fora repelido por ela. Pois Du Tillet aproximou-se de Roguin, descobriu-lhe a fraqueza (uma amante dissipadora) e armou um plano para levar César Birotteau à falência. Após o baile na casa de Birotteau, o perfumista enfrentou uma sucessão de quedas que o levaram à falência. Com a ajuda da família e dos amigos, Birotteau conseguiu se reabilitar completamente pagando todos os seus credores, algo tão raro que foi até assinalado em sessão no tribunal pelo procurador do Rei. 
Um resumo, todavia, não dá conta da magnífica construção do romance. O início com o sonho premonitório de Cosntança. O meio, com o acontecimento central, o baile, que marca o auge do perfumista e o início da sua ruína. E no final, o novo baile, esse quase fantasmagórico, ao qual nosso heroi não resistiu. 
Mas o que pode haver de genial na história da falência de uma casa burguesa? Segundo Paulo Rónai, Balzac é genial ao construir personagens em nada extraordinários (para não dizer medíocres) e captar neles a vida real: "Birotteau, repetindo vinte vezes as mesmas palavras para explicar sua distinção com a Cruz da Legião de Honra e julgando-se, mesmo do fundo de sua miséria, superior a Popinot, que foi seu aprendiz; a sra. Birotteau, heroica e amorosa companheira de César, resistindo virtuosamente à sedução de Du Tillet, e, no entanto, guardando-lhe as cartas no seu cofrezinho; (...) Molinaux, tipo monstruoso de proprietário, não tendo outro medo do que ser julgado insuficientemente esperto pelos proprietários do Café David; Cesarina e Anselmo Popinot, os jovens amantes, incapazes, embora solidários com o sofrimento de César, de se arrancarem ao egoísmo do seu amor - eis alguns rasgos de intuição genial que faria Balzac idear um caráter num só bloco e tirar dele tudo o que podia dar". 
Outro feito notável, já conhecido dos leitores da Comédia Humana, é o conhecimento de Balzac sobre os pormenores dos processos e técnicas narrados.Fala da especulação de imóveis como se fosse um corretor ou um especulador. Discorre sobre a falência como um advogado (aqui a sua experiência como auxiliar de tabelião), diz-se que os advogados consultavam César Birotteau quando tratavam de falências. Conhece detalhes da fabricação de produtos de perfumaria. Conhece o funcionamento dos tribunais de comércio. Opina sobre os anúncios de produtos em jornais, uma novidade da época que mudou o comércio no século XIX. Segundo Rónai, dez especialistas seriam necessários para escrever César Biroteau. "mas os dez especialistas e o escritor genial têm o mesmo nome: Balzac". 
Não sei se Engels comentou algo específico sobre César Birotteau, mas algo me diz que era um dos romances no qual ele pensava quando escreveu à senhora Harkness. Segundo Brunetière (citado por Paulo Rónai), em todo livro não se passa quase nada, mas nele cabe a Restauração inteira. 




segunda-feira, 30 de maio de 2011

O Pai Goriot (setembro de 1834) - 2ª parte

Personagens: senhora Vauquer, senhora Couture, Victorina Taillefer, senhorita Michonneau, pai Goriot, Vautrin (Jacques Collin), cozinheira Sílvia, Eugênio de Rastignac, criado Cristóvão, senhor Poitet, Horácio Bianchon, Conde de Restaud, Anastácia (condessa de Restaud, née Goriot), conde Máximo de Trailles (amante de Anastácia), senhora de Beauséant, Marquês d´Ajuda Pinto, senhorita de Rochefilde, Delfina (baronesa de Nuncigen, née Goriot), barão de Nuncigen, senhor de Marsay (ex-amante de Delfina).

A história se passa entre novembro de 1819 e 21 de fevereiro de 1820.
A abertura de O Pai Goriot é a típica descrição balzaquina. Estamos na pensão Vauquer, um verdadeiro laboratório do mundo, lócus onde se cruzam os que desceram e os que irão subir. Na hora da refeição, em novembro de 1819, se reunem os três personagens que conduzirão a história.
O senhor Goriot era um ancião de 69 anos. Fora comerciante de massas e enriquecera durante a Revolução. Em 1813, abandonou os negócios e foi morar na Casa Vauquer - Pensão Burguesa para os dois sexos e outros. Inicialmente bem aquinhoado atraiu o interesse da senhora Vauquer, que achava-se ainda interessante para atrair um marido. Mas logo sua roupa fina, suas pratas, seus pertences caros começaram a desaparecer. Ele foi então rebaixado na pensão, em todos os sentidos, e passou a ser chamado o Pai Goriot. Uma das teorias que circulava a respeito do velho era a de que gastava seu dinheiro sustentando mulheres jovens, já que damas muito bem vestidas foram vistas algumas vezes em seus aposentos. Era verdade: ele mantinha mulheres muito jovens - eram suas filhas Anastácia e Delfina. Goriot investiu toda a sua fortuna nas filhas, pelas quais tinha uma paixão quase carnal. Providenciou bons dotes para que casassem com homens ricos: Anastácia casou-se com o Conde de Restaud, e Delfina, com o barão de Nuncigen.
Eugênio de Rastignac era um jovem do interior de uma família nobre empobrecida que foi a Paris estudar direito. Queria desesperadamente ingressar na alta sociedade. Para isso, obteve a proteção da senhora de Beauséant, sua prima. Esta descobriu que seu amante, o senhor d´Ajuda Pinto, por quem deixara o marido, estava de casamento marcado com a senhorita de Rochefilde.
Vautrin era o falso nome de Jacques Collin, condenado às galés que escapara e trabalhava como uma espécie de banqueiro dos condenados. Vautrin empenhou-se em “arranjar” as coisas para que a jovem Victorina Taillefer, moradora da pensão que fora renegada pelo pai, fosse reconsiderada tornando-se uma herdeira rica. Vautrin percebeu que Victorina estava apaixonada por Eugênio e incentivou o estudante a investir na moça para enriquecer. O irmão de Victorina foi então morto em um duelo e a jovem tornou-se única herdeira do pai, muito abastado.
Anástacia de Restaud era amante do dandy e jogador Máximo de Trailles. Além de pegar jóias da família para pagar dívidas de jogo de Máximo - episódio narrado em Gobseck - Anastácia recorria ao Pai Goriot.
A senhora de Beausénant, antes de ir se enterrar na província, para esquecer a traição de d´Ajuda Pinto, apresentou Eugênio a Delfina de Nuncigen. Eles se tornaram amantes e o Pai Goriot emprestou dinheiro para que a filha alugasse e mobiliasse um apartamento para o rapaz.
Vautrin foi preso na pensão Vauquer, tendo sido denunciado pela solteirona Michonneau.
Goriot adoeceu seriamente e nenhuma das duas filhas foi sequer vê-lo. Morreu na miséria e foi cuidado e enterrado por Rastignanc e pelo estudante de medicina Horácio Bianchon.
Em poucos dias, a pensão Vauquer se esvaziou completamente. Vautrin foi preso; Poiret e a senhorita Michonneau foram expulsos, depois de denunciar o fugitivo; Victorina e a mãe partiram para uma vida mais folgada; Rastignac foi morar no apartamento pago por Delfina; e Goriot faleceu.
No primeiro parágrafo de O Pai Goriot, Balzac escreve que “é tudo verdade”. De fato, anotações de Balzac fazem supor que ele ouviu alguma história de filhas que depois de ganhar de tudo, abandonaram o pai. Há outras narrativas no mesmo sentido, mas a referência natural é Rei Lear, sendo que Goriot não possuía uma Cordélia para consolá-lo. O crítico Bellessort, citado por Paulo Rónai, comentou que Goriot não inspira a mesma piedade que Lear, uma vez que não respeita o pai em si mesmo sendo cúmplice do adultério de Delfina.
Vautrin teve também um modelo real, um galeriano chamado Vidcoq que publicou suas memórias em 1828. Vautrin é um Mefistófoles cínico e pragmático, capaz de operar nas sombras e atuar como um deus corrigindo as desigualdades e realizando desejos. Ele lê Rastignac com perfeição, percebe que bastará pouco para que o estudante abandone os escrúpulos e apanhe com as duas mãos o que quer. Balzac insinua uma atração homossexual de Vautrin por Rastignac, algo extremamente sutil e velado, mas que muito humaniza essa notável figura.
Por fim, o puro Eugênio que se angustia em ter que sujar de lama seu único par de botas. O Pai Goriot é o romance de formação de Eugênio de Rastignac. Ele chegou a Paris decidido a estudar e vencer na vida. Mas percebeu que os vencedores não frequentam a cátedra, mas os salões elegantes. Para tanto precisa de uma amante rica e bem relacionada. Ao mesmo tempo, observa os destinos de Goriot, de Victorina, da senhora de Beauséant. “Em Rastignac há muitos traços de Balzac, de muito daquilo que Balzac desejava ser. As lutas de Rastignac com a pobreza e suas transigências com a consciência constituem um quadro da mocidade do próprio escritor. Não fosse sua identificação com Rastignac, e não poderíamos compreender essa insistência - quase irritante - com que pretende dá-lo como puro, quando o sabemos mantido pela amante e cúmplice taciturno de um assassínio”. O dilema de Eugênio é escolher um lado. Quando, após o enterro de Goriot, Rastignac contempla Paris do alto da colina do Père-Lachaise e diz a sua frase: “A nous deux maintenant!”, sabemos o que ele escolheu.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Ferragus ou o Chefe dos Devoradores

Ferragus ou o Chefe dos Devoradores (fevereiro de 1833) - primeira história da História dos Treze

Volume VIII: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense (lido entre 12 de fevereiro de 2013 e setembro de 2015)

Personagens: Augusto de Malincourt, vidama de Pamiers, baronesa de Malincourt, Clemência Desmarets, Júlio Desmarets, Justino, Ida Gruget, Viúva Gruget, Ferragus (Henrique), Jacquet.

A história se passa na década de 1820 do século XIX. 

Ferragus é o primeiro de três episódios de História dos Treze. O que essas histórias têm em comum são "os treze", ou seja, treze indivíduos que participavam de uma espécie de confraria, estando associados para ajudar uns aos outros. No prefácio, extremamente enfadonho, Balzac menciona que esses treze homens tinham posições diferentes na sociedade, mas se encontravam unidos por uma espécie de juramento que obrigava os outros doze a auxiliar, de qualquer forma, o irmão que se encontrava com algum problema.
A época que precedeu as revoluções liberais de 1830 e 1848 foi o período áureo das sociedades secretas. Há, na Comédia Humana, referência a diversos grupos desse tipo, como os usurários em Gobseck ou os Cavalheiros da Malandragem em Um Conchego de Solteirão
Pois Ferragus é um dos membros dessa sociedade dos treze, os Devoradores. Segundo Balzac, no prefácio, Devoradores era o nome de uma das tribos de "Companheiros" oriundas da grande associação mística formada entre os obreiros da cristandade para reconstruir o Templo de Jerusalém. 
Sabemos pouco sobre ele. É idoso, já esteve nas galés e tem um filha, por quem está disposto a tudo. Quando a história começa, Ferragus está prestes a obter uma falsa identidade, a do senhor de Funcal, conde português, para poder aparecer na sociedade com a moça. Ela, Clemência Desmarets, era casada com Júlio, corretor de câmbio que enriquecera, mas que desconhecia a origem de sua esposa. 
Todavia, o barão Augusto de Malincourt, jovem aristocrata, apaixona-se por Clemência e passa a segui-la. Uma tarde a surpreende entrando numa casa suspeita e passa a investigar. Descobre então sua relações com Ferragus, que julga serem adulterinas. A partir desse momento, Augusto sofre duas tentativas de assassinato. Acaba alertando Júlio, que passa a suspeitar da esposa. 
No final, quando tudo se esclarece - Júlio descobre que Ferragus é pai de Clemência - é tarde demais. Clemência adoece e morre. E Augusto morre envenenado. Júlio, desesperado, abandona os negócios e passa a viver recluso, assim como Ferragus.
É espantoso saber, por Paulo Rónai, que essa história fez um enorme sucesso. É tediosa  e cheia artifícios que a fazem irrealista como a carta que Ferragus derruba no chão e é encontrada por Augusto, os atentados contra o barão, o casamento de Júlio com Clemência, de uma felicidade que não se encontra nem nos contos de fada (isso quando conhecemos os juízos de Balzac sobre o casamento burguês). Segundo Rónai, as fontes de Balzac aqui são o romance negro inglês e o romance popular francês, que ele utilizou como modelos na sua estreia. 
A alusão ao romantismo é explícita: Balzac dedica as três novelas da História dos Treze a Hector Berlioz, Franz Liszt e Eugène Delacroix, três expoentes do romantismo. 
Mas, apesar de não ser o melhor de Balzac, ele está lá. Veja-se essa passagem em que ele compara Paris com um ser vivo:
"Monstro completo, aliás. Suas águas-furtadas são-lhe a cabeça cheia de ciência e gênio; os primeiros andares, estômagos felizes; suas lojas, verdadeiros pés; deles saem todos os transeuntes e todos os ocupados. E que vida ativa tem o monstro! Apenas o último rodar das últimas carruagens de baile lhe cessa o coração, já os braços se agitam nas barreiras e ele se espreguiça lentamente. Todas as portas bocejam, giram sobre os gonzos, como as membranas de uma imensa lagosta, invisivelmente manobradas por trinta mil homens ou mulheres, cada um dos quais vive num espaço de seis pés quadrados, onde tem uma cozinha, um ateliê, um leito, filhos e um jardim, onde não vê claro e onde tudo deve ver." 

Na foto, vemos a nova edição da Comédia Humana que está sendo publicada desde o final de 2012 pela Biblioteca Azul, um divisão da editora Globo. Uma inciativa louvável já que a obra se encontrava esgotada dede o final da década de 1980. 










segunda-feira, 25 de julho de 2011

O Contrato de Casamento (setembro-outubro de 1835)

Personagens: Paulo de Manerville, Henrique de Marsay, senhora Evangelista, Natália, senhor Mathias, senhor Solonet, Felix de Vandenesse.

A história se passa entre 1821 e 1827.

O Contrato de Casamento é mais uma história cínica e impiedosa de Balzac. Aqui ele contradiz várias outras obras, apresentando um verdadeiro libelo contra o casamento. Lembremos que Balzac objeta o casamento por amor, defendendo sempre o casamento racional: quando existe estima e um projeto comum de vida entre os cônjuges. Em O Contrato de Casamento ele ataca a instituição em si. Defende a ideia de de Marsay: casar-se sem nenhuma inclinação para obter dinheiro e liberdade.
Paulo de Mannerville, rico herdeiro de Bordéus, resolveu desposar a bela Natália Evangelista (Casa-Real), apesar das objeções de seu amigo bon vivant Henrique de Marsay. Ocorre que a mãe de Natália, a senhora Evangelista ( segundo o cínico de Marsay “comparado à senhora Evangelista, o papá Gobseck é uma flanela, um veludo, um poção calmante, um merengue com baunilha, um tio de fim de romance”), gastara todo o dinheiro do dote da moça e desejava casá-la sem nada. Cada uma das partes contratou então um tabelião para redigir o contrato de casamento. Paulo contratou mestre Mathias, um tabelião experiente de 69 anos; as Evangelista contrataram o jovem Solonet.
Ao final de um cansativo embate, o experiente Mathias conseguiu constituir um morgado a favor de Paulo. Mas nos cinco anos em que ficaram casados, Paulo gastou toda a sua fortuna com o luxo de Natália. Ao final, arruinado, embarcou em um navio para Calcutá para tentar refazer sua fortuna. Julgava a sua esposa virtuosa e por ele apaixonada. Quando já estava a bordo, recebeu carta de de Marsay que revelava que Natália era há muito amante de Félix de Vandenesse.
O subtítulo desse volume 4 da Comédia Humana é “cenas da vida privada”. Temos que ter isso em conta, uma vez que era ambição de Balzac cobrir todos os aspectos da sociedade francesa de seu tempo. A cena aqui é justamente os atos oficiais que antecedem o casamento e seu caráter de primeira batalha em uma guerra: “Esse dia foi para Paulo a primeira escaramuça dessa longa e fatigante guerra denominada casamento. É necessário, portanto, ficar as forças de cada partido, a situação dos corpos beligerantes e o terreno sobre o qual deviam manobrar.” O ponto alto, e Balzac sabia disso, tanto que o escreveu em uma carta à irmã, é o embate entre o velho e o novo notariado da França na época: “Penso ter conseguido fazer o que quis. A cena do contrato, por si só, faz compreender o que será o futuro dos dois esposos. Encontrarás aí uma cena que julgo profundamente cômica, o combate do jovem e do velho notariado. Consegui interessar o leitor pela discussão desse ato, assim como ela se verificou. Eis uma das grandes cenas da vida privada escrita". 

terça-feira, 24 de maio de 2011

O Pai Goriot (setembro de 1834) - 1ª parte

Volume IV: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Privada (lido entre 4 de abril e 22 de julho de 2010).

Personagens: senhora Vauquer, senhora Couture, Victorina Taillefer, senhorita Michonneau, pai Goriot, Vautrin (Jacques Collin), cozinheira Sílvia, Eugênio de Rastignac, criado Cristóvão, senhor Poitet, Horácio Bianchon, Conde de Restaud, Anastácia (condessa de Restaud, née Goriot), conde Máximo de Trailles (amante de Anastácia), senhora de Beauséant, Marquês d´Ajuda Pinto, senhorita de Rochefilde, Delfina (baronesa de Nuncigen, née Goriot), barão de Nuncigen, senhor de Marsay (ex-amante de Delfina).

A história se passa entre novembro de 1819 e 21 de fevereiro de 1820.

O Pai Goriot é a “joia da coroa”. Balzac começou a escrever bons romances por volta de 1830. Em 1833, teve seu primeiro sucesso de público e crítica com Eugênia Grandet. Um ano depois, apresentou, com O Pai Goriot, a grande inovação da Comédia Humana - a recorrência de personagens. É sobre ela que falaremos nesse primeiro post.
Existe uma espécie de lenda sobre a forma como Balzac teve a ideia de fazer seus personagens retornarem nos romances. Laure Surville, irmã de Balzac, escreveu uma biografia do escritor em 1858. Laure conta que em um ocasião Balzac chegou à sua casa no faubourg Poissonnière com o rosto iluminado e declarou: “Me dêem as boas vindas, pois estou prestes a me tornar um gênio”. Balzac teria tido uma epifania enquanto caminhava para a casa de Laure: “Por que não ligar os personagens entre si para formar uma sociedade completa?”. Segundo Stéphane Vachon, tal relato é pouco crível. A “trouvaille” ocorreu em 1833. E Balzac somente a utilizou em meados de 1834 em O Pai Goriot. Com tamanho entusiasmo, Balzac iria esperar um ano para impressionar seu público?
Vachon comenta que a ideia balzaquiana que consiste em fazer circular os personagens de um romance a outro de modo que a justaposição de narrativas constitua a história de uma sociedade inteira foi elaborada progressivamente, por aproximações sucessivas, por tentativas parciais, locais e isoladas, por tentativas pontuais e não premeditadas. “Foi verdadeiramente em O Pai Goriot que Balzac começa a aplicar sistematicamente o procedimento que faz reaparecerem os personagens dos romances anteriores. Essa “invenção” não foi uma simples epifania: ela acompanha uma concepção metódica, ambiciosa e nítida da obra ao mesmo tempo que uma visão global, lógica e precisa da sociedade. Momento decisivo, com efeito, na história e na gênese do grande empreendimento balzaquiano e na história de todo o gênero romanesco, O Pai Goriot une com força e autoridade uma experiência (do mundo), uma técnica (romanesca) e um pensamento (sobre a literatura e seus poderes)”.
São 48 personagens da Comédia Humana que aparecem e reaparecem em O Pai Goriot. A técnica não foi bem recebida pela crítica ao tempo da publicação. O crítico do L´Impartial em 8 de março de 1835 caracterizou a inovação como um “capricho de um homem convencido do valor de suas criações”. Em 21 de outubro de 1838, na Revue de Paris, Amédée Pichot declarou: “ Ah, se M. de Balzac soubesse a imensa chatice que é ver o tempo todo reaparecerem as mesmas figuras com as mesmas manias, os mesmos nomes próprios, seguidos dos mesmos sobrenomes, ele arrancaria de um só golpe a cabeça de todos esses personagens que, depois de sete anos, caminham sem cessar para chegar a lugar algum, discutem o tempo todo sem nada concluir”. Alguns anos depois foi Sainte-Beuve que criticou o achado balzaquiano: “Os personagens que retornam nos romances já figuraram pelo menos uma vez em outros textos de M de Balzac. Quando são personagens interessantes e verdadeiros, creio que reproduzi-los é uma ideia falsa e contrária ao mistério que sempre envolve um romance. (...) Graças a essa multidão de biografias secundárias que se prolongam, retornam e se intercruzam sem cessar, a série de Estudos de Costumes de M. de Balzac parece uma rede de corredores de certas minas ou catacumbas. Ou nos perdemos e não mais nos achamos, ou, se nos achamos, não reconhecemos mais nada”.
Foi outro painelista da sociedade francesa, Marcel Proust, que respondeu à crítica de Sainte-Beuve. Para Proust o crítico não entendeu a “idéia de gênio” de Balzac. “Lançando sobre suas obras um olhar a um só tempo de um estrangeiro e de um pai, dando a esse a pureza de Rafael, a esse outro a simplicidade do Evangelho, Balzac projeta sobre eles uma iluminação retrospectiva de modo que eles estarão melhor representados em um ciclo no qual os mesmos personagens retornam.”.
Houve contemporaneamente a Balzac alguns entusiastas da sua ideia, como Félix Davin, que compreendeu a intenção de Balzac de criar um “afresco social”. É o próprio escritor, contudo, de dá sua explicação em um prefácio à primeira parte das Ilusões Perdidas escrito em fevereiro de 1837: “Cada romance não é nada mais do que um capítulo do grande romance da sociedade. Os personagens de cada história se movem em uma esfera que não possui outra circunspecção que não a da sociedade “.
Claro que isso não era mágico. Balzac, ao começar a por em prática a sua ideia, trocou personagens de seus romances iniciais por outros que figuravam em seus trabalhos mais recentes. Às vezes, bastava mudar o nome, em outras, alterava dados biográficos. Eugênio de Rastignac, por exemplo, era Eugênio de Massiac. Ficaram, naturalmente, incoerências nos textos
O resultado, como já comentamos em outros posts, é que, às vezes, conhecemos um personagem sem que conheçamos seu passado, que nós é apresentado posteriormente. Conhecemos por exemplo o destino de Anastácia de Restaud em Gobseck, mas só descobrimos seu passado em O Pai Goriot. Em A Mulher Abandonada acompanhamos a resistência de Clara de Beausant a Gastão de Nueil, mas é em O Pai Goriot que entendemos seu comportamento pela traição de d´Ajuda Pinto. Em Uma Filha de Eva assistimos a atitude compreensiva de Felix de Vandenesse para com a esposa Maria Angélica, prestes a o trair. A explicação virá em Lírio do Vale. Por sua vez a imaturidade de Maria Angélica é em parte explicada pela história de seus pais em Uma Dupla Família. Há, naturalmente falhas, como o caso de Lady Brandon, de O Romeiral, cujo infeliz destino ficou sem explicação. Mas é digno de nota que os erros e imprecisões temporais sejam muito poucos para um escritor que escrevia freneticamente, não tinha ajudantes e dispunha apenas de sua pena.

As citações foram retiradas do dossiê de Stéphane Vachon da edição de Le Père Goriot da Librairie Générale Française - Le Livre de Poche de 1995 com tradução minha.