quarta-feira, 24 de junho de 2020

Pedro Grassou

Pedro Grassou (dezembro de 1839)
Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense



Personagens: Pedro Grassou (Fougères), Elias Magus, Servin (A Vendeta), Schinner (A BolsaModesta MignonA falsa amante) , Sommervieux (Ao "Chat-qui-pelote") José Bridau (Um conchego de solteirão), Leão de Lora (Um estreia na vida), François-Marius Granet (1775-1849), Pierre Duval Le Camus (1790-1854), Alexandre Gabriel Decamps (1803-1860), Cardot (Ao "chat-qui-pelote", Uma Estreia na Vida, A musa do departamento), Antenor Vervelle, senhora Vervelle e Virgínia Vervelle. 




A história começa em 1832, mas recua até 1819. 



Pedro Grassou é, nas palavras de Paulo Rónai, uma anedota. É interessante, contudo, pois é um dos textos no qual Balzac reflete a respeito da arte e do artista no seu tempo. 
O protagonista, também conhecido como Fougères, nome de sua cidade natal na Bretanha, é um pintor de quadros medíocre, que, embora tenha estudado com grandes nomes do seu tempo (alguns fictícios, como Servin, Schinner e Sommervieux, outros reais como Granet e Le Camus), não conseguia mais do que copiar o estilo de artistas consagrados. Foi inúmeras vezes desencorajado pelos seus pares, mas era humilde e persistente. Ao invés de buscar emprego em um escritório ou, ironia de Balzac, "experimentar a literatura", adotou um estilo modesto de vida e seguiu buscando o reconhecimento. Sobrevivia da venda de seus quadros a um comerciante de arte, usurário caricato, Elias Magus. Ele encomendava "interiores flamengos, uma lição de anatomia, uma paisagem" ao artista, e Grassou sobrevivia com renda minguada. Em 1829, dez anos após sua estreia na arte, seus amigos famosos, Schinner, Leão de Lora e Bridau, conseguiram que um quadro seu fosse admitido na exposição do grande Salão. Lá seu quadro, Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 , "embora medíocre, (...) teve um êxito extraordinário". Agradou  a Carlos X e a outros expoentes da realeza e lhe rendeu a cruz de cavaleiro da Legião de Honra. Foi sua consagração como artista. Passou a ter quadros aceitos no Salão. Mas seguiu vivendo com parcimônia e depositando suas economias no tabelião Cardot. 
Em dezembro de 1839, Magus traz a família Vervelle para que Fougerès lhe faça os retratos. O comerciante de garrafas Antenor Vervelle, sua esposa e filha, Virgínia, se afeiçoaram ao circunspecto e organizado artista. Descobrem ter em comum o mesmo Cardot como tabelião. Começam a considerará-lo um bom partido para a pouco atraente Virgínia. Grassou também pensa em casamento, julgando o dote e os bens do futuro sogro. 
Finalmente, Vervelle convida o artista para conhecer sua casa de campo, onde se gaba de ter uma galeria com quadros de grandes artistas, como Rubens, Rembrandt e Murilo. Ao ver a galeria, Fougerés descobre que metade das obras expostas eram suas, cópias por ele realizadas e compradas por pouco dinheiro por Magus, que as vendia caro para o burguês. Longe de ficar aborrecido, Vervelle reconheceu Grassou-Fougerès como um grande talento e deu a ele a mão de Virgínia. No final da história, ele mora com os sogros, ganha quinhentos francos por quadro e espera ingressar na Academia
O início do conto Pedro Grassou é ensaístico. Balzac critica a democratização do Salão de Pintura e Escultura ocorrida depois da Revolução de 1830:
"Uma experiência de dez anos demostrou a excelência da antiga instituição. Em vez de um torneio, tendes agora um motim; em vez de uma exposição gloriosa, um bazar tumultuoso; em vez do melhor, a totalidade . (...) Onde não há mais julgamento também não há mais coisa julgada". 
Grassou conseguiu colocar seu quadro Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801, em 1829,  por empenho de seus amigos famosos. Já depois da Revolução de Julho, "vinha apresentando a cada exposição uma dezena de quadros, dos quais o júri admitia quatro ou cinco". Essa crítica nos situa no tema que Balzac explora no texto: o aburguesamento do gosto artístico. Pedro Grassou é o artista burguês por excelência. A descrição do seu ateliê, organizado e limpo como um quarto de moça, já nos afasta do esteriótipo do artista atormentado e genial. São seus hábitos, especialmente os econômicos, que promovem a sua ascensão, mais que sua habilidade. Gastar pouco, comer pouco, colocar os ganhos na mão do tabelião, escolher temas que, ou combinavam com a política do momento (Os Preparativos na época de Carlos X) ou que não a confrontavam (retratos, paisagens e interiores na Monarquia de Julho), escolher a noiva pelo dote. Tudo isso fez com que Grassou não saísse "de um círculo burguês onde é considerado um dos melhores artistas da época". Não tem o reconhecimento dos pares, "os artistas zombam dele, seu nome é uma palavra de desprezo nos ateliês, os folhetins não se ocupam de sua obra", mas a classe ascendente o compra, pois com ele se identifica. 
Por que Pedro Grassou era um artista medíocre? Segundo Balzac, porque ele não conseguia imaginar, somente copiar; e porque não mostrava a natureza como era, mas de forma estereotipada (José Bridau, ao ver Grassou pintando Virgínia, comentou que a face com tons róseos era adequada para um anúncio de perfumista. Era preciso uma cor vermelha para pintar a moça ruiva). Ele deixava de copiar a natureza, mas copiava as imagens da natureza feitas por outros artistas. 
O interessante é que Grassou-Fougères sabia a diferença entre a obra medíocre e a de qualidade, ao contrário dos seus clientes. No final, sabemos que ele usava seu dinheiro para comprar quadros de pintores célebres que se encontravam em dificuldades para substituir as cópias da galeria de seu sogro, substituir as más telas por "verdadeiras obras primas, que não são dele". 
Paulo Rónai, na introdução do conto, nos diz que Balzac foi um dia Grassou, "produzindo obras inconfessáveis". Esse texto foi escrito entre 1944 e 1955, época da tradução da Comédia Humana no Brasil, da qual Rónai foi organizador. No texto do Jornal do Brasil de 2 de dezembro de 1972, Rónai nos dá notícia da leitura de Balzac et Le Mal du Siecle. Contribuition a une Phisyologie du Monde Moderne de Pierre Barbéris publicado em 1970. Nele, Barbéris analisa minuciosamente a obra de Balzac até 1833, após o primeiro sucesso balzaquiano. E o resultado muito se afasta do que Rónai denomina "a tese do milagre", ou seja, que uma mudança teria ocorrido com Balzac após seu trigésimo ano que o transformou de autor irresponsável e mercenário das obras da mocidade em historiador imparcial e perfeito de sua época. Havia muito mais qualidade naquela obra inicial do que se conhecia. Não houve milagre. Balzac imaginava e mostrava a natureza tal qual era, apesar da inexperiência da juventude.  Balzac nunca foi Pedro Grassou. 



Observação: na edição em português que tenho, da Editora Globo de 1990, a data do quadro de Grassou Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 está com a data errada de 1809. Os chouans eram monarquistas da região da Bretanha que se rebelaram contra a Revolução Francesa. Com o início das guerras napoleônicas, houve uma espécie de trégua desse tipo de revolta em 1801. Por isso, a data de 1809 me pareceu estranha. Foi um erro de tradução que pode ser verificado no texto original de Pierre Grassou

O quadro que ilustra a postagem é La femme hydropique (1663) do pintor holandês Gerit Dou (1613-1675). Foi o quadro que Pedro Grassou plagiou ao fazer Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 . O original, de Dou, está no Louvre. O de Pedro Grassou talvez esteja também. 


sábado, 13 de junho de 2020

Sarrasine

Sarrasine (setembro de 1830)
Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense

Personagens: narrador, senhora de Rochefide (Beatriz), conde de Lanty, condessa de Lanty, Marianina, Filipo, Ernesto João Sarrasine, Edme Bouchardon (1698-1762), Zambinella, Vitgliani, cardeal Cicognara, príncipe Chigi. 
A história ocorre no período em que foi escrita, 1830, mas remete a outra história iniciada em 1758.


Sarrasine está longe de ser o melhor de Balzac. A novela ganhou notoriedade em 1970, quando o crítico literário Roland Barthes publicou o ensaio S/Z no qual faz uma análise pós-estruturalista de Sarrasine. 
Na história, encontramos o narrador, no período da Restauração (o ano não está identificado) em uma festa, observando uma desoladora paisagem de inverno através da janela. Ao voltar-se para o salão, percebe o contraste entre os dois ambientes: 
"Tinha, assim, à minha direita, a sombria e silenciosa imagem da morte; à esquerda, comedidas bacanais da vida; de um lado, a natureza fria, tristonha, de luto; do outro os homens em festa". Sabemos que será uma narrativa marcada pela ambiguidade. 
Descobrimos estar na casa dos Lanty, uma família sui generis. Muito ricos e de admirável cultura - "Todos os seus membros falavam italiano, francês, espanhol, inglês e alemão com tal perfeição que faziam supor se houvessem demorado longos anos entre esses diversos povos" - não  se conhecia a origem de tamanha prosperidade. 
A beleza das mulheres, a condessa de Lanty e sua filha adolescente Marianina, era partilhada pelo filho Filipo ("a imagem viva de Antinoo"), mas não pelo conde que "era baixo, feio e magro, sombrio como um espanhol e fastidioso como um banqueiro". E havia um homem, figura misteriosa, que  aparecera pela primeira vez no salão durante um concerto, atraído pela bela voz de Marianina. Ele era tratado com todo o carinho e deferência pela família, embora ninguém esclarecesse qual era a relação entre eles. 
Na noite em questão, o velho apareceu justamente quando Marianina cantava uma ária da ópera Tancredi. Estava vestido como os homens de posses do século XVIII: calções de seda, rendas, peruca e maquiagem. E seu físico era frágil e decrépito: "Sua magreza excessiva,  a delicadeza de seus membros provavam que suas proporções haviam sido sempre esbeltas". 
A figura assustou a senhora de Rochefide, beldade que acompanhava na festa o narrador. O casal se retirou para uma quarto contíguo ao salão e observou quando Marianina passou com o exótico parente e o encaminhou para o interior da casa. A menina, ao se despedir, recebeu do velho um dos anéis que ele trazia no dedo. No quarto havia uma pintura  de Joseph-Marie Vien representando Adônis estendido sobre uma pele de leão. Beatriz ficou fascinada pela perfeição da imagem e soube pelo narrador que o artista teve por modelo a estátua de uma mulher, talvez um parente da senhora de Lanty. Prometeu, então, contar a história misteriosa à sua acompanhante em sua casa, no dia seguinte, numa negociação que deixa implícita a troca da narrativa por uma noite de amor. 
No dia seguinte, ao pé da amada, o narrador contou a história de João Sarrasine, filho de uma advogado de Besançon, que decepcionou o pai se tornando escultor. Talentoso e discípulo de Edmé Bouchardon, aos 22 anos ganhou um prêmio e foi estudar em Roma. O ano era 1758. Lá, no Teatro Argentina, conheceu uma cantora lírica belíssima chamada Zambinella. Nela o narrador "via reunidas, bem vivas e delicadas, as raras proporções do corpo feminino tão ardentemente desejadas e das quais o escultor é , ao mesmo tempo, o juiz mais severo e mais apaixonado". Foi tomado de amores pela jovem, que passou a cortejar. Passou a desenhá-la e a esculpiu em argila. Dias depois, foi convidado pelo pessoal do teatro a finalmente conhecê-la pessoalmente. O encontro foi em uma alegre ceia com os artistas. O escultor estava confuso, pois a moça, embora estivesse em um ambiente bastante liberal quanto aos costumes, se comportava de forma recatada. No dia seguinte, o grupo foi fazer uma excursão aos arredores de Roma. Zambinella estava ainda mais arredia, e ao ouvir a declaração de amor de Sarrasine, disse não poder ser amada e que logo ela a odiaria. À reiteração do amor de Sarrasine, Zambinella retrucou: "E se eu não fosse mulher?".
No dia seguinte, o escultor preparou-se para raptar a amada que estaria em uma festa. Lá a encontrou cantando vestida de homem. Ao indagar a um ouvinte o motivo da indumentária, veio a verdade:
"De onde vem cavalheiro? Desde quando uma mulher subiu aos palcos em Roma? Não sabe, por acaso, por que criaturas são desempenhados os papéis femininos nos Estados Pontifícios?" 
Chocado, Sarrasine conseguiu que os amigos levassem Zambinella até ele. Com medo de ser morta (morto, Balzac passa a narrar agora no masculino), chorando, ele declara "Só consenti a enganá-lo para satisfazer aos camaradas, que desejavam rir". O escultor, furioso, foi interrompido por homens do cardeal Cicognara, protetor de Zambinella, que o mataram.
Ingenuamente, Beatriz perguntou o que tinha essa história a ver com os Lanty. Ora, Zambinella era o velho parente e sua carreira bem sucedida de cantora era a origem da fortuna da família. A estátua feita por Sarrasine foi modelo para o Adônis. Beatriz ficou desapontada e mandou o narrador embora. Ele não teve o esperado prêmio.
Ao pesquisar um pouco sobre Sarrasine, encontrei muito material em função do já mencionado ensaio de Roland Barthes. Encontrei uma parte inicial do ensaio. Achei chato e pouco elucidativo do texto. Me defendo aqui com a opinião de Paulo Rónai no texto introdutório ao conto de Balzac:
"O resultado de sua investigação [de Barthes] é uma construção mental em que utiliza os materiais mais heterogêneos, às vezes sem ligação nenhuma com a obra escolhida como pretexto. [É] um exemplo típico de certa espécie de crítica universitária extremamente arbitrária e vazada numa linguagem excessivamente artificial". 
No texto de introdução, Rónai nos diz  que o narrador é um personagem da Comédia Humana que Balzac esqueceu de nomear. Mas em um texto de 1972, o próprio Rónai aponta para a onisciência do autor. Como ele saberia o conteúdo das conversas de Zambinella com Sarrasine, que ele reproduz? Mas será que quem conta a história de Sarrasine à marquesa o mesmo que dialoga com ela? Não fica claro. 
Há também o fato do narrador não ser confiável. Ele diz, quando está na festa, que o velho/Zambinella é surdo. Mas diz também que ele foi à sala atraído pela voz de Marianina. Assim, ficamos em dúvida sobre a veracidade da história. 
De resto, a história é um tanto artificial. A riqueza e a beleza dos Lanty, o amor louco e descontrolado, à primeira vista, de Sarrasine por Zambinella, o fato de ele não perceber que ela não é uma mulher, depois de tantas indicações, a ideia do rapto, tudo classifica Sarrasine como uma obra menor. 
Deixo aqui um link sobre os castrati, os meninos que eram castrados para preservar a voz para o canto. A autora Yvonne Noble nos ensina que os castrati, que apareceram no ocidente no século XVI, estavam inseridos numa cultura na qual capacidade sexual não era algo tão valorizado. Afinal, era normal as famílias dedicarem os filhos e filhas à Igreja e ao, pelo menos oficialmente, celibato. E que os castrati vinham, via de regra, de famílias muito pobres. Com uma boa voz, um rapaz poderia ter e proporcionar à família uma vida melhor. E exatamente o caso de Zambinella. Noble também afirma que Balzac (ou seu narrador não confiável) estava pouco informado sobre o assunto. Havia castrati e papéis para eles na época em que Balzac escrevia. Somente em 1870 a castração foi proibida dos Estados Papais e havia um coral deles na Capela Sistina até 1898. 
O desconhecimento de Balzac ocorre, pois os castrati foram mais cedo banidos na França do que em outros países. 
Enfim, Sarrasine não é um grande Balzac, mas é Balzac.

A imagem é o famoso castrato Carlo Scalzi em quadro de Joseph Filipart (1737).
A matéria citada de Paulo Rónai é do Jornal do Brasil. Dossier. Balzac Pretexto e Texto. 2 de dezembro de 1972. Tem digitalizada na hemeroteca da Biblioteca Nacional. 



sexta-feira, 29 de maio de 2020

Facino Cane

Facino Cane (março de 1836)

Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense

Personagens: narrador (estudante, Balzac?), Facino Cane (Marco Facino Cane, Príncipe de Varese)

Em  17 de março de 1836, a revista Chronique de Paris publicou o conto, que, de acordo com a narrativa de Balzac à Eveline Hanska, ele escreveu em uma noite. Que noite para a história da literatura! Facino Cane traz, em onze folhas, o melhor de Balzac. É quase uma síntese de sua obra.
É a história de um jovem, que pode ser o escritor, que vive modestamente e cujo o passatempo é observar a vida dos outros, especialmente dos membros das classes populares de Paris.
"Deixar seus hábitos, tornar-se um outro pela embriaguez das faculdades morais e fazer esse brinquedo à vontade, tal era o meu divertimento. A que devo eu esse dom? Será o da vidência? Será uma dessas qualidades cujo abuso pode levar à loucura? Nunca pesquisei as causas desse poder; possuo-o, e dele me sirvo, eis tudo".
Em uma ocasião, ele aceita o convite da sua criada para comparecer ao casamento de uma de suas irmãs, festa popular na casa de um negociante de vinhos. Lá chamou a sua atenção, um componente de uma orquestra com três cegos do asilo Quinze-Vingts (criado por São Luís em 1260, seu nome refere-se aos 300 leitos, 15 X 20, no sistema vigesimal. Em 1779, foi transferido para a rue de Charenton, onde ocorre a festa relatada pelo narrador, e onde se localiza até hoje).
"(...) quando me aproximei, não sei por quê, todo o resto acabou para mim, o casamento e sua música desapareceram, minha curiosidade se viu excitada ao mais alto grau: minha alma penetrou no corpo do tocador de clarinete."
O narrador comparou-o a Dante, adivinhando sua nacionalidade:
"(...) era um italiano. Havia algo de grande e despótico nesse velho Homero, que guardava em si mesmo uma odisseia condenada ao olvido". Não resistindo ao interesse, foi conversar com o velho. Descobriu que ele tinha 82 anos, era veneziano e seu nome era Marco Facino Cane, Príncipe de Varese. Era descendente de um condottiere homônimo, figura histórica, que viveu entre 1360 e 1412. O jovem foi convidado pelo ancião a acompanhá-lo. Ao saírem da festa, a proposta:
"Quer levar-me a Veneza, guiar-me, ter fé em mim? Ficará mais rico do que as dez mais ricas casas de Amsterdam ou de Londres, mais rico que os Rotschild, enfim, rico como As Mil e Uma Noites".
A história narrada pelo clarinetista era das mais fantasiosas e improváveis. Era rico e poderoso em sua juventude,  e apaixonou-se perdidamente, "como não se ama mais", por uma mulher casada. Por isso, envolveu-se em uma disputa e foi preso. Planejou uma fuga e, através dos muros da prisão, encontrou o tesouro da república de Veneza, milhões em ouro, prata e pedras preciosas. Conseguiu levar uma pequena parte e emplacou mais um capítulo de aventuras. Morou em várias cidades da Europa e acabou perdendo sua fortuna para outra mulher, de família poderosa, com quem pretendia se casar. Perdeu a visão, em função talvez dos anos no cárcere. Terminou pobre e cego no asilo de Quinze-Vignts. Mas, lembrava exatamente como chegar ao local do tesouro. E convidava nosso narrador a levá-lo a Veneza para dele se apoderarem e enriquecerem. O jovem, tocado pela história e pela emoção da narrativa, concordou. "Iremos a Veneza. (...). Assim que tivermos algum dinheiro". O conto termina com a notícia da morte de Facino Cane no inverno seguinte em Quinze-Vignts.
O texto permite uma série de reflexões, especialmente para quem já leu outros textos de Balzac. Vou me fixar em duas questões: quem é o narrador e as duas narrativas em uma em Facino Cane.
Paulo Rónai, no texto de introdução ao conto, afirma que, em Facino Cane, "o eu é verdadeiro e refere-se ao próprio escritor". Balzac, de fato, morou na rue Lesdiguières, como o narrador, quando, aos vinte anos, fez uma espécie de "estágio probatório" para a vida de escritor a pedido da família. Também Balzac teve uma criada, a mãe Vaillant, nessa época, que aparece na história. Foi ela que convidou o narrador para o casamento. Mas principalmente, é o talento de observador dos homens, de historiador de costumes, que o narrador descreve nas primeiras páginas, quando diz que penetrava na existência das pessoas como um dervixe de As Mil e Uma Noites.
Não creio, porém, que o narrador seja, de fato, Balzac. No início do conto, ele diz que "o amor da ciência atirara-me numa mansarda onde eu trabalhava durante a noite, e passava o dia numa biblioteca vizinha, a de Monsieur". É, portanto, um estudante de ciências, não um escritor. Não creio que isso tenha grande importância, mas é a primeira vez que não concordo com Paulo Rónai, conhecedor enciclopédico da Comédia Humana.
Há claramente duas narrativas em Facino Cane: a do narrador e a de Facino Cane. O narrador, sendo ou não Balzac, é nosso conhecido historiador dos costumes que acompanha a vida comezinha do casal de proletários, que sai do teatro, em sua batalha diária pela sobrevivência. O ancião cego chama a sua atenção justamente por ser diferente dos indivíduos populares que o cercavam. Balzac o compara a Dante e Homero. E sua [de Facino Cane] fantástica e inverossímil narrativa é totalmente destoante do que faz Balzac de melhor na Comédia Humana, construir personagens nada extraordinários e captar a vida real. Facino Cane é extraordinário e sua vida não se parece nada real. Talvez seja louco, como insinuam seus colegas de orquestra, quando o chamam de pai Canard, ou um mentiroso.
Embora Balzac julgasse ter um estilo eclético, é considerado um autor realista. Elementos românticos e fantásticos aparecem em sua obra, veja-se Ferragus, A menina dos olhos de ouro, e o personagem Vautrin, por exemplo. Mas o que temos em Facino Cane é um duelo de narrativas, uma balzaquiana ou realista, outra fantástica, romântica. E o autor deixa o leitor curioso para saber qual das duas irá predominar. Quando o trecho final nos revela a morte do velho, é impossível não ter uma sensação de perda. Somos jogados de volta à realidade. Ao frustrar a nossa expectativa, Balzac nos faz antes sentir do que entender por que a literatura é importante. A janela que se abre quando começamos a ler uma história é abruptamente fechada aqui. É o final esperado para o leitor de Balzac. Uma absurda caça ao tesouro faria de Facino Cane uma obra menor. Sua possibilidade, contudo, confirma nossa necessidade de ficção.
Sobre Balzac e caça ao tesouro falarei em outro post.

A imagem é uma ilustração de 1911 que mostra o condottiere Facino Cane, em 1409, convencendo os nobres genoveses a resistirem à dominação francesa durante as guerras italianas.  Esse ilustração é da coleção de figurinhas adesivas da marca Liebig, que produzia extrato de carne. Eram temáticas, colecionáveis e foram produzidas em vários países entre 1872 e 1975. 






segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Os segredos da Princesa de Cadignan

Os segredos da Princesa de Cadignan (junho de 1833- maio de 1839)


Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense


Personagens principais: Princesa de Cadignan ( Diana de Mafrigneuse, Uxelles), Marquesa d´Espard, Toby, Marquesa de Cinc-Cygne, De Marsay, Miguel Chrestien, Daniel D´Arthez, Emílio Blondet, sra. de Montcornet, Rastignac, Marquês d´Estrignon, Máximo de Trailles, barão de Nuncingen, Blondet, Nathan. 

A história inicia em 1829. 


A novela conta a conquista pela experiente Diana de Mafrigneuse, a Princesa de Cadignan do título, do ingênuo e circunspecto escritor Daniel D´Arthez. A bela Diana, que já fora amante de parte considerável do elenco masculino da Comédia Humana, encontrava-se, após a Revolução de Julho, em Paris, com seu filho já adulto enquanto seu marido acompanhara a família real no exílio. 
Diana "ao ver chegar a terrível falência do amor, essa idade dos quarenta anos, para além da qual tão pouca coisa resta à mulher, a princesa lançara-se no reino da filosofia (...) A literatura e a política são hoje para as mulheres o que outrora era a devoção, o último asilo de suas pretensões". 
Mas em maio de 1833, em uma conversa com sua amiga-rival, a sra. d´Espard, Diana fala sobre um rapaz que foi por ela apaixonado e morreu nas revoltas de junho de 1832, Miguel Chrestien. A sra. d´Espard comentou que conhecia um grande amigo de Miguel e que o apresentaria à princesa: era o conhecido escritor Daniel D´Arthez. 
Assim começou a convivência que resultou no romance. Para justificar sua vida dissoluta ao honesto Daniel (lembremos que  Daniel D´Arthez é uma das "encarnações positivas" do próprio Balzac, o modelo de escritor que Balzac gostaria de ser), Diana contou como, quando ainda era uma menina, foi dada em casamento ao Duque de Mafrigneuse, muito mais velho, que era amante de sua mãe. E que seus erros se justificavam por esse fato, um tanto sórdido, mas não tão incomum no mundo da nobreza da época. Tudo indica que ela mentia, mas mentia por amá-lo. E o desfecho sugere que Daniel sabia da verdade. E ainda assim, quis ficar com ela. 
Paulo Rónai, na introdução, cita Anne-Marie Meininger que afirmou que a história se baseou na história da amor da Condessa Cordélia de Castellane com o Conde de Molé. 
Não é, nem de longe, o melhor da Comédia Humana. Mas é impossível parar de ler para conhecer o desfecho. 

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Esplendores e Misérias das Cortesãs

Esplendores e Misérias das Cortesãs (1838-1847)

Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense (lido entre dezembro de 2017 e 14 de junho de 2020).

Personagens principais: Luciano Chardon de Rubempré, Ester van Gobsek (Torpedo), Carlos Herrera (Jacques Collin, Vautrin, Engana-Morte), Europa (Eugênia, Prudência Servien), Ásia (Sra. Saint-Estève, Jacqueline Collin), Paccard, Diana de Maufrigneuse (duquesa), Leontina de Sérisy (condessa) marquesa d´Espard, Clotilde de Grandlieu, barão de Nuncingen, Peyrade (tio Canquoelle, Samuel Jonhson), Contenson, Corentin, juiz Camusot, Amélia Camusot (esposa do juiz), Susana du Val-Noble, Eva Séchard (irmã de Luciano), Bibi-Lupin, Conde Granville (procurador geral), Teodoro Calvi (Madalena), La Pouraille (Dannepont), Riganson (Biffon).

A história inicia em 1824 e termina em 1830.

Optei, dessa vez, por elencar os personagens principais, uma vez que figuram nesse romance quase todos os personagens da Comédia Humana. É um dos textos mais longos de Balzac e aqui nos surpreendemos mais uma vez com a capacidade do escritor para trabalhar com tantos personagens e alusões a outras histórias (algumas incrivelmente escritas após).
Esplendores conta com quatro partes escritas e publicadas em épocas diferentes: Como Amam as Cortesãs, Por Quanto o Amor Fica aos Velhos, Aonde os Maus Caminhos Vão Dar e A Última Encarnação de Vautrin. Elas foram publicadas juntas somente em 1869, depois da morte do escritor.
Ajuda ao leitor saber que Esplendores é a continuação de Ilusões Perdidas que, por sua vez, é a continuação de O Pai Goriot.
A história começa com o romance entre a prostituta Ester e Luciano de Rubempré sob a vigilância do padre Carlos Herrera. O padre, enviado do rei da Espanha, tomou Luciano sob sua proteção no final de Ilusões Perdidas. Herrera pretendia fazer de Luciano um grande homem, obtendo para ele um bom casamento. Para isso era preciso de um nome, obtido com a recuperação do "de Rubempré" da família da mãe do jovem com a intercessão do rei. E era preciso uma propriedade no campo. O padre via o relacionamento de Luciano com Ester como uma ameaça ao futuro do rapaz. Ao invés de proibir, ele controlou o romance. Escondeu Ester, de modo que os encontros fossem secretos, enquanto Luciano fazia seu nome junto à grande sociedade. O idílio durou quatro anos. Em 1829, Luciano tinha um bom casamento a vista, com Clotilde de Grandlieu, segunda filha do duque de Grandlieu. Ao mesmo tempo, era amante da condessa de Sérisy. A compra das terras era premente. Quando o barão de Nuncingen viu em um parque, durante a noite, Ester e por ela ficou obcecado, Herrera viu a chance de obter os milhões necessários ao casamento de Luciano. Nuncingen "comprou" Ester através de uma série de tramoias desenvolvidas pelo padre e seus ajudantes, Prudência Servien, Paccard e Jacqueline Collin. Tudo estava encaminhado para o desfecho positivo. Mas Ester, após se entregar ao barão, se suicidou. Nesse meio tempo, Peyrade, Contenson e Corentin, agentes da polícia política, investigavam a vida de Luciano e suas relações com o misterioso padre. Com o suicídio da cortesã, Luciano e o padre Herrera foram presos. Luciano, mantido sem comunicação, confessou sua ligação com o sacerdote e revelou que ele era na verdade o evadido das galés, Jacques Collin, morador da pensão Vauquer em O Pai Goriot sob o nome de Vautrin. A ex e atual amante do jovem, Diana de Maufrigneuse e Leontina de Sérisy, tentaram salvá-lo. Mas Luciano se suicidou na prisão.
Na última parte encontramos Jacques Collin, devastado pela perda de Luciano, tentando dar novo rumo à sua vida. Através de uma série de manobras ele conseguiu salvar da forca um antigo protegido, o jovem Teodoro Calvi, também fugido das galés. E finalmente se tornou agente da polícia política, função que exerceu por quinze anos até se aposentar por volta de 1845.
O resumo é confuso, porque a história é confusa. São, na verdade, quatro histórias diferentes que estão interligadas. Como bem aponta Paulo Rónai: "os dois ambientes principais do livro, o da prostituição e o dos galés, comunicam-se por meio de canais secretos, cujos mistérios Balzac revela, com os meios da alta finança e da aristocracia, ideia esta que o romancista já aproveitou em outros romances, mas do qual tira aqui o melhor partido". Aqui percebemos a coesão do mundo criado por Balzac, um mundo no qual o dinheiro faz as distâncias entre o Faubourg Saint Germain e a Conciergerie mais aparentes que reais.
O ponto fraco de Esplendores é a fraca verossimilhança de certas passagens. O envio de Ester para uma escola de moças e sua transformação, seu relacionamento secreto com Luciano em Paris por quatro anos, as absurdas tramas de Jacques Collin com suas comparsas que sempre dão certo, a facilidade com que um espertalhão como Nuncingen foi enganado, tudo isso compromete a história. Mesmo assim o ritmo é "vertiginoso e avassalador". Mesmo que partes da história sejam pouco críveis, não conseguimos parar de ler.
Os dois grandes personagens do livro são Luciano e Jacques Collin. A morte de Luciano é chocante e recebida com pesar pelo leitor da Balzac. Em passagem conhecida, Oscar Wilde declarou que "umas das maiores tragédias da minha vida é a morte de Luciano de Rubempré. É uma mágoa da qual nunca pude me livrar completamente". O Luciano que aqui aparece é diferente do de Ilusões Perdidas. Aqui Balzac utiliza sua "invenção", o reaparecimento das personagens em diferentes romances, para dar nuances às suas personalidades. (Marcel Proust, admirador de Balzac, faz o mesmo em Em Busca do Tempo Perdido). O jovem que, inspirado por Napoleão, desejava conquistar Paris com a sua literatura (ainda que com dramas de consciência) em Ilusões, aqui aparece como o equivalente masculino da cortesã, sustentado por mulheres em função da sua beleza física. 
Jacques Collin, como já mencionado, teve sua inspiração em François-Eugène Vidcoq (1775-1857), evadido das galés que trabalhou para a polícia. As passagens que o envolvem são as mais inverossímeis. Mesmo assim, é um grande personagem. Sua astúcia e sua força física são humanizadas pelo amor que nutre por Luciano. Colllin, sabendo que não seria possível viver em sociedade, transformou Luciano em seu projeto de vida, dedicando o seu dinheiro (roubado dos galés, a quem ele servia como uma espécie de banqueiro) e seus talentos para ver o rapaz vencer na vida. Mas, ainda que arrasado pelo suicídio do seu "filho", Collin logo articulou uma outra encarnação, "a última encarnação de Vautrin". 
Muito se discute sobre a homossexualidade de Jacques Collin. Ao longo da Comédia ele tem ligação com três jovens, todos fisicamente atraentes: Luciano, Eugênio de Rastignac e Teodoro Calvi. E atribui parte de sua força moral à indiferença às mulheres. Quando foi à casa da condessa de Sérisy com a carta de Luciano para retirá-la da loucura que a morte do amante causara e viu o conde "escapar um gesto de alegria" (mesmo com a consciência de que era traído pela condessa com Luciano) ele pensou:
"Aí estão, pois, esses homens que decidem dos nossos destinos e dos destinos dos povos! (...) Basta o suspiro de uma fêmea para lhes virar a inteligência do avesso. Por um olhar perdem a cabeça! Por causa de uma saia mais arregaçada ou menos arregaçada percorrem Paris desesperados! As fantasias de uma mulher reagem sobre todos os negócios de Estado! Ah! Que força adquire um homem quando se subtrai, como eu, a esta tirania infantil, a estas probidades derrubadas pela paixão, a essas maldades cheias de candura, a estes estratagemas de selvagem! A mulher com o seu gênio de algoz, com o seu talento para a tortura, é e será sempre a desgraça do homem. Procurador-Geral, ministro, ei-los todos obcecados, torcendo tudo por cartas de duquesa ou de menina solteira, ou por causa de uma mulher que será mais maluca com o seu juízo do que o era sem ele". 
Encontrei alguns estudos com discussões bizantinas a respeito de ter ou não sido a relação de Collin com Luciano consumada. Discussão sem sentido, uma vez que o caráter da relação, platônica ou não, não modifica em nada o amor e devoção do bandido pelo jovem . Balzac era delicado ao tratar do tema, veja-se A menina dos olhos de ouro. Aqui não seria diferente. 
Para terminar, algo que me chamou muito a atenção. O conhecimento de Balzac do interior da Conciergerie, prisão na época da Comédia e palácio real entre os séculos X e XIV. Para descrever todos os corredores, as passagens secretas, as entradas e saídas, o pátio, as vistas das janelas, o material do qual eram feitas as grades das janelas (!), ele dever ter ido lá muitas vezes. E não só isso. Ele descreve o palácio real, ou seja, como era a Conciergerie antes de ser uma prisão. Da próxima vez que for a Paris (que seja logo!), vou levar comigo essa descrição. 



quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A Casa Nuncingen

A Casa Nuncingen (escrito em novembro de 1837)

Personagens: Androche Finot, Emílio Blondet, Couture, Bixiou Rastignac, Nuncingen, Delfina, o narrador, a acompanhante do narrador. 

A história se passa em 1836. 

A Casa Nuncingen é uma novela curta na qual Balzac utiliza um artifício um pouco inverossímil, mas interessante. O narrador, acompanhado por uma dama, ocupa um espaço reservado em um restaurante de Paris, de onde escuta, sem ser notado, a conversa de quatro amigos que jantam no espaço ao lado. Os faladores são Androche Finot, Emílio Blondet, Couture e Bixiou. O tema da conversa eram as fortunas de Rastignac e Nuncingen. 
Descobrimos aqui o enorme conhecimento que Balzac possuía da especulação financeira. Nuncigen, na verdade, enriquecera através de manobras especulativas nas bolsas de valores. Não hesitava em arruinar famílias. E Eugênio de Rastignac, que conhecemos pobre em O Pai Goriot, enriqueceu ajudando e tomando informações para Nuncigen. Com o detalhe de que Rastignac era amante de Delfina, esposa de Nuncigen e née Goriot. 
Segundo Paulo Rónai, Nuncigen era, na verdade, o alter ego do Barão James Rotschild. 
Eu, particularmente, achei a novela um pouco enfadonha. O estilo, que Rónai caracteriza como "nervoso", deixou, na verdade, a narrativa um tanto confusa. 


terça-feira, 1 de setembro de 2015

Émilie, Émilie - a ambição feminina no século XVIII

Émilie, Émilie: a ambição feminina no século XVIII. Elisabeth Badinter. São Paulo: Discurso Editorial, Duna Dueto, Paz e Terra, 2003. 

O que tantos livros sobre mulheres fazem na minha cabeceira, na minha bolsa, no meu leitor Kobo? Quando estava na graduação em História tinha uma certa rejeição por história das mulheres. Não queria fazer parte de uma história categorizada, separada do resto. Ingenuidade da juventude. Era como se diluir a história das mulheres na história da humanidade fosse garantir a igualdade de direitos entre mulheres e homens. Era como acreditar na concretude do caput do artigo 5º da Constituição brasileira. 
Minha busca por conhecer mais sobre a história das mulheres é totalmente pessoal. Preciso entender as opções e escolhas da minha mãe, das minhas três avós (sim, tive três avós). Como essas opções e escolhas me atingiram e atingem a minha filha. Não basta saber a história delas, Teresa, Genny, Haidee, Orfila. Preciso saber o que veio antes. 
Estava pensando em tudo isso, quando conheci Elisabeth Badinter. Filósofa e historiadora francesa é uma das mulheres mais influentes da França (e também mais ricas). Dedica-se à história das mulheres,  do feminismo e da maternidade. Comecei pelo seu livro mais conhecido, Um amor conquistado: o mito do amor materno, sobre o qual ainda vou escrever. Me apaixonei pela clareza e racionalidade do texto. Busquei outros títulos na Estante Virtual. Comprei tudo o que encontrei. Assim, cheguei a Émilie, Émilie
Trata-se da biografia comparada de duas mulheres do século XVIII, Gabrielle Émilie Le Tonnelier de Breteuil, marquesa de Châtelet-Laumont (1706-1749) e Louise Florence Pétronille Tardieu d´ Esclavelles d´Épinay, Madame d´Épinay (1726-1783). Elas foram contemporâneas por vinte e três anos, mas nunca se encontraram. São mais conhecidas como tendo sido amantes de Voltaire (1694-1778) e de Friedrich Melchior von Grimm (1723-1807), respectivamente. Mas foram muito mais do que isso. São suas histórias que Badinter enfrenta em 460 páginas.
As duas pertenciam a classes privilegiadas, mas eram de meios diferentes e incompatíveis na época. Émilie pertencia à alta aristocracia. Louise, à burguesia financeira. Tiveram gostos, caráter e trajetórias diversas. O que tinham em comum, todavia, prevalecia sobre as diferenças, segundo Badinter. E está no título do seu livro: a ambição. "Mulheres em um mundo que reserva a glória apenas aos homens, são estimuladas a uma mesma ambição. Uma e outra escolheram um objetivo preciso para suas vidas, desenvolveram toda a energia de que eram capazes, utilizada até suas últimas forças. Mesmo que os resultados nem sempre tenham estado à altura de suas esperanças, nunca cederam ao desânimo nem depuseram as armas. A não ser o tempo necessário para qualquer ser humano se recobrar. Se o sacrifício e a perseverança são os sinais da ambição, então Madame du Châtelet e Madame d´Épinay foram autênticas ambiciosas. E quase irmãs".
Émilie nasceu em 17 de dezembro de 1706 em Paris, em uma família privilegiada em todos os sentidos, "rica, unida e nobre". Filha de um alto magistrado de Luís XIV, que tinha 58 anos quando ela nasceu, e tinha para com ela "todas a fraquezas de um avô e a ternura de um pai". Ao contrário da maioria das crianças nobres da época, passou quase toda a juventude na casa da família.
Louise nasceu em 11 de março de 1726 na fortaleza de Valenciennes, da qual seu pai era governador. Filha única de pai quase sexagenário e de uma mãe devota, recebeu as maiores atenções dos pais, o que, segundo Badinter, lhe armaram para que sempre tivesse confiança em si mesma.
Émilie foi privilegiada em termos de educação. "Nenhum conhecimento lhe foi proibido, nenhum constrangimento pesou sobre ela por causa do seu sexo". Interessada por línguas, aprendeu latim, italiano e inglês. Aos 17 anos, lia Locke no original. Contudo, original mesmo, era seu gosto por física e matemática. "Fato raríssimo na história da educação de meninas, seu pai a fez tomar aulas dessas duas disciplinas". E foi aí que ela encontrou o foco para a sua ambição.
Louise, segundo Badinter, se assemelhava a Émilie aos dez anos, em disciplina e vontade de saber. Todavia, foi nessa época que faleceu seu pai. Sua mãe tinha uma visão tradicional sobre a educação de meninas: bastava aprender a ler e a escrever. Louise foi confiada a uma tia rica rica, na casa da qual sofreu as humilhações habituais da prima pobre. Conseguiu acompanhar as aulas que a prima tomava com uma governanta, o que logo foi proibido pela tia, que julgava que uma mulher erudita era naturalmente pedante.
"Do século XVII até o fim do século XIX, a mulher erudita é constantemente ridicularizada e tudo se faz para que ela não exista. Quando, no fim do século XIX, as mulheres adquiriram progressivamente o direito de acesso às universidades, são solicitadas a utilizar seu saber para fins altruístas e não egoístas. Para agradar a seus maridos, para serem melhores professoras dos seus filhos, mas nunca para fins pessoais. Uma mulher que ame os estudos por si mesmos comete uma heresia".
Louise voltou a morar com a mãe e, entre 1737 e 1739, foi enviada a um convento,  onde prevalecia a educação religiosa e habilidades como costura e dança. Isso foi tudo o que Madame d´Épinay teve em termos de educação. Aos treze anos, ainda tinha dificuldade para escrever.
Ambas passaram por todas as etapas da vida de uma mulher da época: casaram, tiveram filhos e tiveram amantes. "Entretanto, o século XVIII constitui uma espécie de paradoxo na história das mulheres privilegiadas. Ao mesmo tempo que mantinham para estas a obrigação de casar e de ter filhos, a ideologia dominante lhes concedia direito à negligência. A inconstância conjugal não era um vício. Pode-se mesmo dizer que a fidelidade era considerada um valor fora de moda, quase ridículo, e os cuidados da maternidade não eram considerados dignos das preocupações de uma mulher da alta sociedade".
Para remediar a insignificância da vida feminina, muitas mulheres das classes privilegiadas investiriam na vida social e mundana. "Outras, principalmente depois de 1750, tentaram voltar a dar vida e interesse às preocupações familiares". Madame du Châtelet pertenceu ao primeiro grupo. Madame d´Épinay, ao segundo.
Émilie fez um casamento de conveniência. Louise casou por amor com um primo irmão. "A mais satisfeita das duas foi, no entanto, a primeira. O Sr. du Châtelet revelou-se um marido muito gentil, discreto, cortês e amigo, enquanto o Sr. d´´Epinay foi uma caricatura de esposo execrável. Mas, ambos, não puderam, ou não quiseram, satisfazer suas esposas." Quem o fez foram Voltaire e Grimm, com quem elas formaram pares ligados por sentimentos e interesses. "É incontestável que esses dois homens deram às duas Émilies os trunfos necessários, mas não suficientes, para a realização da ambição delas: a estabilidade afetiva e o respeito do homem admirado, o que lhes dava confiança em si mesmas".
Badinter não foge da questão que nos ocorre nessa altura do texto. Não estamos aqui fazendo o mesmo de sempre, valorizando Émilie e Louise pela sua ligação com homens célebres? "Se fosse preciso expor a ambição masculina no século XVIII e particularmente a de Grimm e de Voltaire, deveríamos evocar suas relações afetivas e delas fazer a condição necessária à sua ambição?". A resposta é não. Voltaire e Grimm já eram conhecidos antes de se ligarem a elas. Não tiveram necessidade de admiração e reconhecimento das companheiras para investir em suas ambições. Já Émilie e Louise nasceram para desempenhar o papel tradicional de esposa, mãe e presença mundana nos salões da elite da época. "O amor, longe de ser uma fonte de alienação, foi a condição de emancipação e autonomia delas. Desde de que se sentiram amadas e respeitadas, elas cessaram de sentir a necessidade de correr atrás do reconhecimento dos outros". Podiam ser elas mesmas e se dedicar a sua ambição.
Émilie foi amante de Voltaire entre 1733 e 1741. Louise foi amante de Grimm entre 1754 e 1773. Ambas foram muito apaixonadas e foram correspondidas. Viveram com seus amantes uma comunhão intelectual, com estudo, leituras e trabalhos conjuntos. Deixaram de ser correspondidas em função de outras paixões, no caso de Voltaire, e, da ambição, no caso de Grimm. Mas nunca romperam a relação de amizade e companheirismo com eles. Ambos sobreviveram a elas.
Mas o que essas mulheres fizeram de extraordinário?
Émilie du Châtelet foi uma das primeiras, senão da primeira mulher Física de história. Escreveu Instituições da Física em 1740, no qual difunde a física newtoniana, pouco conhecida na França da época. E se distingue dos seus pares do século das luzes ao tentar conciliar Newton (1643-1727) com Descartes (1596-1650) e com a metafísica de Leibniz (1646-1716). A partir de 1744, ela se dedicou a traduzir os Principia de Newton para o francês em uma edição comentada. Sua  morte precoce em 1749 a impediu de terminar o trabalho, que foi concluído pelo amigo Alexis Claude de Clairaut (1713-1765). Até hoje é a tradução de Newton que os franceses leem. Voltaire escreveu no prefácio:
"Essa tradução, que os mais talentosos homens da França deveriam ter feito e que os outros devem estudar, um mulher a empreendeu e terminou, para o espanto e a glória do seu país. Gabrielle-Émilie (...) é a autora desta tradução que se tornou necessária a todos que queiram adquirir os profundos conhecimentos que o mundo deve ao grande Newton. (...). Tem-se aí dois prodígios: o primeiro, que Newton tenha escrito estas obra; o outro, que uma mulher a tenha traduzido e esclarecido".
Louise, que foi anfitriã de Rouseeau (1712-1778), se dedicou a escrever sobre educação. Sua obra, Conversações com Émilie de 1774, escrita para a educação de sua neta, Émilie, subverte as instruções de Rousseau no seu Émile. Jean-Jacques, um dos grandes responsáveis pela submissão da mulher na era burguesa, recomendava à Sophie, companheira de Émile:
"Todos os estudos ociosos não levam a nada de bom (...). Que necessidade tem um menina de aprender a ler e escrever tão cedo? Terá ela logo uma casa para administrar? Muito poucas há que, ao invés de apenas abusar, fazem um bom uso dessa ciência fatal (...). ".
Pois nas suas Conversações, Louise construiu uma anti-Sophie: "Quando vós vos empenhais em cultivar a vossa razão, em orná-la com conhecimentos úteis e sólidos, estais abrindo para vós mesmas tantas novas fontes de prazer e de satisfação, tantos meios de embelezar vossa vida, de ter recurso contra o tédio e consolo durante a adversidade, quando conhecimentos e talentos. São bens que ninguém pode roubar-vos, que vos livram da dependência dos outros (...) que, ao contrário, tornam os outros dependentes de vós; pois quanto mais talentos e luzes temos, mais nos tornamos úteis e necessárias à sociedade.". Nas palavras de Badinter: "Rousseau pode prender as mulheres no lar quanto quiser, Madame d´Épinay lhes dá a receita para escapar". Louise escreveu outras obras, mas foram as Conversações que a tornaram célebre. Em 1783, foi premiada pela Academia Francesa.
Hoje as mulheres seguem os caminhos abertos por Émilie e Louise. São cientistas, pedagogas, políticas, intelectuais. Escolhem ter filhos ou não. Mas o baixo número de mulheres que escolhem carreiras científicas e a sombra dos ensinamentos de Jean-Jacques sobre a educação das meninas indicam que as Émilies ainda tem muito o que ensinar. 
Madame du Châtelet

Madame d´Épinay

Tradução francesa do Principia