domingo, 3 de abril de 2022

Um episódio de terror

Um episódio de terror (janeiro de 1831)

Volume XII: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Política, Cenas da Vida Militar (lido entre 2 de abril de 2022 e 17 de junho de 2023)

Personagens: Padre Marolles, Irmã Martha (née Beauséant), Irmã Ágata (née Langeais), sr. e sra. Ragon, desconhecido (Charles-Henri Sanson).

A história se passa entre 22 de janeiro de 1793 e 25 de janeiro de 1794. 

Isidore Stanislas Helman (1743-1809). A morte de Luís XVI

As 15 páginas de Um episódio de terror fazem dele um dos mais breves da Comédia Humana. O texto fez parte da introdução de uma obra - Memórias de Sanson, o carrasco de Paris - escrita por Balzac em conjunto com Lhéritier de l´Ain, quando nosso mestre ainda assinava Lord R´Hoone. Somente em 1846 foi incorporado à Comédia Humana

A chave da novela, que começa com uma cena cinematográfica de suspense,  está na data. Naquele dia frio de inverno, uma mulher já com alguma idade foi a uma padaria, em torno de oito horas da noite. No caminho percebeu estar sendo seguida. No estabelecimento trocou uma moeda de ouro, um luís, por algo que estava dentro de uma caixa de papelão. Ela então retornou ao local onde morava, sendo ainda seguida pelo mesmo desconhecido de antes. Uma vez na na pobre casa, que dividia com outra senhora e com um padre, receberam a visita do perseguidor. Sabemos então que os três são a irmã Marta, a irmã Ágata e o padre Marolles, de famílias aristocratas, e perseguidos pelos revolucionários franceses. Inicialmente, julgaram que seriam presos, especialmente Marolles, que se recusara a jurar a Constituição civil em 1790. Mas eis que o visitante desejava encomendar um missa de réquiem pela "alma de uma pessoa sagrada, cujo corpo jamais repousará em terra santa". Duas horas mais tarde, ocorreu a missa e descobrimos que a caixa de papelão continha hóstias. O desconhecido deu ao padre, em pagamento, uma caixa "extremamente leve" dizendo ser uma relíquia. Prometeu retornar em uma ano para nova missa. Nesse período, os três religiosos passaram a receber lenha e comida , pois "apesar do Terror, uma poderosa mão se estendia sobre eles". Ao fim de um ano, o homem retornou e foi celebrada outra missa, mas ele parecia muito abalado. Quatro dias depois, o padre Marolles, na porta da loja dos Ragon percebeu um tumulto e soube que o carrasco de Luís XVI iria ser guilhotinado. Viu na carreta que se dirigia ao cadafalso o desconhecido. 

Na caixa "extremamente leve" havia um lenço marcado com a coroa real e manchado de suor e sangue. 

Paulo Rónai considera Um episódio de terror uma obra menor, da fase "clandestina" de Balzac. Eu raramente leio textos sobre A Comédia Humana. Não haveria tempo e, em geral, comento as minhas impressões pessoais. Mas dessa vez, procurando ilustrações para essa postagem, encontrei um artigo de Gabriel Moyal, Making the Revolution Private: Balzac's "Les Chouans and Un épisode sous la Terreur. Moyal apresenta esse texto curto de um ponto de vista bastante mais complexo. Não irei detalhar, o artigo está disponível no Jstor. Mas, entre outras coisas, ele discute a visão dinâmica de história contida na Comédia Humana, que não é percebida pelo leitor com sua natural tendência de reificar os fatos históricos. Comenta também o simbolismo das trocas na novela: o luís, com a efígie real, de ouro pelas hóstias, e o lenço pela missa ("Eu coraria se lhe oferecesse um salário qualquer pelo serviço funerário que o senhor acaba de celebrar pelo repouso da alma do rei e pelo descanso da minha consciência. Não se pode pagar uma coisa inestimável a não ser por uma oferenda que também o seja"). E destaca que os personagens e objetos aparecem mais pelo que eles defendem, ou representam do que pelos que  são ou aparecem, como na passagem: "Ali estava toda a monarquia, nas preces de um padre e de duas pobres mulheres; mas, talvez, também estivesse representada a revolução na pessoa daquele homem cujo o semblante traía remorsos bastantes para não se crer que ele satisfizesse os anseios de um imenso arrependimento". 

O nome de Charles-Henri Sanson (1739-1806), carrasco de Luís XVI, não é citado em Um episódio de terror. Rónai nos conta que a irmã de Balzac, Laure, afirmava que o escritor havia entrevistado Sanson. Contudo, seria impossível pela data de falecimento do carrasco. É provável que o entrevistado tenha sido o filho de Sanson que, aliás, herdou seu ofício. 

Já sabemos que Rónai reviu, depois da organização da Comédia Humana"a tese do milagre". Para mim Um episódio de terror já a desmente. 

E. Lampsonius (1822-1871): Charles-Henri Sanson

Moyal, Gabriel. “Making the Revolution Private: Balzac’s ‘Les Chouans’ and ‘Un Épisode Sous La Terreur.’” Studies in Romanticism 28, no. 4 (1989): 601–22. https://doi.org/10.2307/25600809.

sábado, 26 de março de 2022

O avesso da história contemporânea

O avesso da história contemporânea (agosto de 1848)

Volume XI: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Parisiense

Personagens: Godofredo, sra. de La Chanterie (Barbe Philiberte de Champignelles), sr. Millet, Manon (criada), Frederico Mongenod, Luís Mongenod, sra. Mongenod (mãe de Frederico e Luís), padre de Vèze, sr. Alain, Nicolau (Marquês de Montauran), sr. José ( Lecamus, Barão de Tresnes), Henrique (marido de La Chanterie), Henriqueta Bryond des Tours-Miniere (filha de La Chanterie), Bernardo Bryond (marido de Henriqueta, também conhecido como Contenson), Rifoel du Vissard, Bordin (advogado), Dr. Berton, sr. Bernardo (Barão de Bourlac), Nepomuceno, sr. Barbet, Felicidade, sra. Vauthier, Augusto, Dr. Moisés Halpersohn, sr. Cartier, Vanda, 

A história inicia em 1836

O segundo episódio de O avesso da história contemporânea, O iniciado,  é o último texto escrito por Balzac. Ele foi escrito em dezembro de  castelo de Wierzchownia (Verkhivnia) na Ucrânia, propriedade de Eveline Hanska. Isso explica os personagens poloneses. O Barão de Bourlac era casado com uma polonesa com quem teve uma filha que usa um nome polonês, Vanda. O médico judeu polonês, Moisés Halpersohn, foi provavelmente inspirado no médico de Eveline, o dr. Knothe. 

Aqui nosso historiador dos costumes entra em um terreno no qual tem mais dificuldade: falar da virtude, no caso, a caridade cristã. A pena de Balzac é soberba para narrar os vícios de Paris. Em O avesso da história contemporânea - o título já é alusivo, está se contando o contrário do que se espera - descobrimos a existência de uma confraria de pessoas que, mesmo tendo sofrido terríveis injustiças, se dedicam a fazer o bem sem esperar contrapartida. No mesmo espírito da História dos Treze, mas aqui de forma mais organizada. 

O personagem principal é Godofredo, jovem de origem humilde, mas com pretensões burguesas que, após uma série de atitudes equivocadas, se vê sem perspectiva de futuro. Acabou encontrando uma moradia peculiar onde vivia a sra. de La Chanterie e seus companheiros. Apoiados pelos banqueiros Mongenod eles se ocupavam em procurar pessoas que precisavam de ajuda e ajudá-las financeiramente e com outros meios. Esperavam que essas pessoas, tendo melhorado de vida, restituiriam à confraria o dinheiro utilizado. A  sra. de La Chanterie revelou a Godofredo que somente metade do dinheiro era recuperada. 

A história de La Chanterie é baseada nos episódios dos chauffeurs na época da Revolução Francesa. Chauffeurs eram bandos organizados que assaltavam casas e queimavam os pés das vítimas para que elas revelassem onde estavam seus bens escondidos. A senhora teria se envolvido com o grupo através da sua filha, Henriqueta, e não sabia de seus propósitos criminosos. Henriqueta foi condenada à morte e guilhotinada e a mãe, apesar de inocente, passou vinte anos na prisão, tendo sido libertada por Luís XVIII. Passou então a presidir o grupo de benfeitores para praticar a caridade.

Godofredo se uniu ao grupo e recebeu sua primeira missão: ajudar um pai, sr. Bernardo,  cuja filha, Vanda, sofria de uma doença desconhecida e incapacitante. Ele o o neto viviam em grande pobreza, ainda que proporcionassem à moça uma série de luxos. Godofredo conseguiu que o médico Halpersohn tratasse à jovem. E estava em vias de conseguir que uma obra escrita por Bernardo, Espírito das Leis Modernas, fosse publicada. É quando Godofredo descobriu que Bernardo era o Barão Bourlac, o procurador-geral de Rouen, que condenara a sra. de La Chanterie e a filha. No final, o Barão, com a filha curada e a vida refeita, implorou o perdão da senhora, que o perdoou. 

Não gostei. A história dos crimes que condenaram La Chanterie é confusa, com personagens que possuem mais de um nome e uma série de reviravoltas. O personagem Godofredo não convence. É um jovem ressentido e ambicioso e se torna, rapidamente, um homem piedoso e devotado a La Chanterie. Ela é uma verdadeira santa, sendo modelo de todas as virtudes. A doença de Vanda é totalmente bizarra, parece mais uma espécie de possessão demoníaca. Como nos diz Paulo Rónai, na Introdução, no romance "o leitor facilmente surpreende os defeitos das primeiras obras - grandes concessões aos romantismo, caracteres excessivamente simplificados, estrutura fragmentada - agravados pela presença constante da tendência moralizadora" (BALZAC, 1991, p. 528). O perdão final da sra. La Chanterie não economiza na pieguice: "Por Luís XVI e Maria Antonieta, aos quais vejo no cadafalso, pela sra. Elizabeth, por minha filha, pela sua, por Jesus, perdoo-lhe" (BALZAC, 1991, p. 5).

Mas Balzac é Balzac. Sempre encontramos trechos interessantes. Veja-se esse: "A solidão tem seduções comparáveis à vida selvagem, que nenhum europeu abandonou depois de a ter provado. Isso poderá parecer estranho numa época em que cada um vive tão bem para os outros que todos se preocupam com cada um, e em que a vida privada em breve não existirá mais, de tal forma os olhos do jornal, Argos moderno, se avantajam em ousadia, em avidez" (BALZAC, 1991, p. 558). Eis nosso historiador de costumes antecipando as redes sociais! 


BALZAC, Honore de. A Comédia Humana. vol. XI. São Paulo: Globo, 1991. 

Imagem de Adrien Moreau em Honoré de Balzac, The Other Side of Contemporaneous History. Philadelphia: George Barrie & Son, 1897. Não havia identificação, mas eu vejo a sra. de La Chanterie, e Godofredo se curvando na frente dela. 

sábado, 5 de março de 2022

Os pequenos burgueses

Os Pequenos Burgueses 

Volume XI: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Parisiense

Personagens: Maria Joana Brígida Thullier,  Luís Jerônimo Thuillier (irmão de Maria Joana),  Métiver Sobrinho (vizinho do lado esquerdo dos Thullier, comerciante de papel), Barbet (vizinho do lado direito dos Thullier, livreiro), Dutocq (escrivão da Justiça de Paz), Colleville, Poiret, Celeste Lemrpun (sra. Thuillier), sra. Lemrpun (mãe de Celeste), Flávia Colleville, Carlos de Grondeville, Keller, Celeste Luísa Carolina Brígida Colleville, Des Lupleaux, Carlos Colleville, Teodoro Colleville, Phellion, Félix Phellion, sra. Barniol (filha de Phellion), Mário Teodoro Phellion (filho de Phellion), Genoveva (cozinheira de Phellion), Dutocq, Minard, Zélia Minard, jovem Minard (advogado), Prudência Minard, mestre Godeschal, Olivério Vinet (substituto do procurador do rei), Teodódio de La Peyrade, Cérizet, Cadenet, sra.Cardinal, Olímpia Cardinal, sr. Poulillier, sr. du Portail, Lídia de La Peyrade. 


Colleville e Flávia Colleville

A história começa em 1839

Só a seriedade do meu projeto de ler toda a Comédia Humana me animou para concluir a leitura de Os Pequenos Burgueses. Trata-se de uma obra inacabada, e que possui uma triste história ligada à Condessa Hanska. Paulo Rónai nos conta na introdução como a viúva de Balzac passou o que ficara escrito a Charles Rabou para que ele concluísse a obra. Afirmava que Balzac assim desejava. Ocorre que Rabou escreveu cinco oitavos da obra final. Balzac deixou uma frase inconclusa. "Cérizet tomou uma...". No final da edição da Globo, que utiliza  a edição da Pléiade, Rónai apresenta um resumo, absolutamente bizarro, do escrito de Rabou. 

Mas em 1843, Balzac escreveu à noiva sobre o plano de Os Pequenos Burgueses, com o exagero habitual, "é dessa obras que deixam tudo pequeno a seu lado". Comenta sobre o projeto em várias cartas e deixa de mencioná-lo em 1844. 

Trata-se  da história de Teodósio de La Peyrade, mencionado como "um jovem, morto de fome de cansaço" no final de Esplendor e Misérias das Cortesãs. Balzac indica nas cartas que La Peyrade é o "Tartufo moderno" que deseja, empregando vigarice a astúcia, obter a mão e o dinheiro da jovem Celeste Colleville. Quase todos os personagens são Os Funcionários que, passados quinze anos, se aburguesaram. A novidade é Brígida Tullier, uma solteirona típica de Balzac, que dirige o irmão, a cunhada e o destino de Celeste, sua protegida. 

Presentes as descrições balzaquianas que são interessantes quando demostram o seu propósito. Aqui, com a obra inconclusa, ficam enfadonhas e repetitivas. Presentes também as negociatas com dinheiro e com juros, capitaneadas aqui pelo usurário Cérizet. 

Creio que o maior problema de Os Pequenos Burgueses é que Balzac, no deslumbre em ter "trazido uma sociedade inteira na cabeça", deixa aparente, com o excesso de personagens e com ligações artificiais entre eles, a urdidura da Comédia Humana. É como se víssemos os bastidores de um espetáculo. Além disso, La Peyrade não é convincente. São muitas tramas e maquinações aceitas com muita ingenuidade por pessoas que, como Brígida, é naturalmente desconfiada, ou como Flávia Colleville, é uma mulher experiente e calculista que já teve muitos amantes.

Enfim, a leitura vale para que quer saber tudo de Balzac. Ou para quem, como eu, tem uma missão. 

Imagem retirada de: Honoré de Balzac, The Petty Bourgeois. Philadelphia: George Barrie & Son, 1897. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:BalzacPettyBourgeois01.jpg Acesso em 5 de março de 2022. 


domingo, 19 de dezembro de 2021

Os comediantes sem o saberem

Os comediantes sem o saberem (novembro de 1845)

Volume XI: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Parisiense

Personagens: Léon de Lora (Mistigris de Uma estreia na vida), Silvestre Palfox-Castel-Gazonal, Bixiou, Claúdio Vignon, Massol, Carabina (Serafina Sinet), Teodoro Gaillard (gerente de jornal), Suzana Gaillard, Fromenteau (cobrador de dívidas), Vital (fabricante de chapéus, sucessor de Finot, sra. Nourrison (espécie de "banco" para mulheres, Jacqueline Collin de  Esplendores e Misérias das Cortesãs),, sra. Mahuchet (sapateira de mulheres), Revenouillet (porteiro), Vavinet (usurário), Ridal, Jenny Cadine, Marius V (Mougin, cabeleireiro), Régulo (auxiliar de Marius), Dubourdieu (pintor, fourierista), sra. Fontaine (cartomante), Publícola Masson (pedicuro, republicano radical), Conde de Rastignac, Máximo de Trailles, Canalis, Giraud. Du Tillet, Nuncigen, Du Bruel, Málaga. 
Vital e Gazonal

A história se passa em 1845. 

Os Comediantes sem os saberem é uma viagem de descoberta a Paris, na qual o pintor León de Lora e cartunista Bixiou apresentam à cidade ao primo de Lora, Gazonal. O primo, da região dos Pirineus orientais, dirige uma manufatura de tecido na província. Está em Paris em razão de um processo contra a prefeitura de sua cidade que foi transferido à jurisdição do Conselho de Estado. Está desesperançado quando procura Léon. 

Pois León de Lora e Bixiou, sabendo que quem preside a sessão onde se encontra o processo é Massol e o que o relator é Cláudio Vignon, prometem que a decisão será favorável a Gazonal, desde que eles compareçam a uma festa logo mais à noite na casa da cortesã Carabina. Mas até lá, eles querem apresentar Parais a Gazonal. 

Então desfilam pelas páginas da Comédia Humana vários tipos pitorescos: Fromenteau, que cobra dívidas de todas as formas possíveis, Vital, fabricante de chapéus, a sra. Nourrison, que socorre com dinheiro as mulheres necessitadas,  Revenouillet, o porteiro que agencia dinheiro, Vavinet, o usurário elegante, Marius, o cabeleireiro empreendedor, Dubourdieu, o artista fourierista, a sinistra cartomante Fontaine, com sua galinha preta e seu sapo Astarot, o pedicuro Masson, defensor do terror revolucionário. 

No final, utilizando caminhos não administrativos ou judicias, Gazonal ganha seu processo. 

É um texto rápido, uma espécie de galeria de personagens. Repetindo Paulo Rónai na Introdução, é em Os Comediantes sem o Saberem que Balzac dá, na voz de Bixiou, sua famosa definição de Paris: "um instrumento que é preciso saber tocar". Os cicerones dão uma lição de como "tocar" Paris a Gazonal. Nós que nos divertimos. 


Sra, de Nourrison

Imagens: Oeuvres illustrées de Balzac, 1851-1853. https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k116911k/f232.item Acesso em 19 de dezembro de 2021. 

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Os funcionários

Os funcionários (julho de 1836)

Volume XI: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Parisiense

Personagens: Xavier Rabourdin, Celestina Rabourdin (née Leprince), Clemente Chardin des Lupleaux, Atanásio João Francisco Miguel de La Billardière (barão Flamet de La Billardière) , sr. Saillard, sra. Saillard (née Bidaut), Isidoro Baudoyer, Isabel Baudoyer (née Saillard), sr. e sra. Badouyer (pais de Isisdoro), Padre Gaudron, Martinho Falleix, srta. Baudoyer, sr. Sorbier (tabelião, predecessor de Cardot), Gigonnet (agiota), Werbrust, Gobseck, sr. Mitral (tio de Isidoro, irmão da mãe dele), Sebastião de La Roche (extranumerário), sra. de La Roche (mãe de Sebastião), Du Bruel (autor teatral, também conhecido como Cursy, amante de Túlia que era também amante do duque de Rhétoré, subchefe), Benjamin de La Billardière, Ernesto de La Brière (secretário particular do ministro), Antônio (contínuo das repartições), Lourenço (contínuo dos dois chefes, sobrinho de Antônio), Gabriel (contínuo do diretor, sobrinho de Antônio), sr. Dutocq (oficial de gabinete da repartição de Rabourdin, sucessor do sr. Poiret). José Godard (subchefe de Rabourdin, primo de Mitral pelo lado materno, aspirante à mão da srta. Baudoyer,) Phellion (escriturário do gabinete de Rabourdin, dois filhos, uma filha e esposa leciona piano no internato das srtas. La Grave, ele também leciona história e geografia no internato), Adolfo Vimeaux (amanuense que gastava para se vestir bem), Bixiou (desenhista, da divisão Baudoyer), Augusto João Francisco Minard (amanuense), sra. Minard (Zélia Lorain), Colleville (primeiro oficial da repartição Baudoyer, primeiro clarinete da ópera cômica, fã de anagramas), Flávia Minoret (esposa de Colleville), Thuillier (primeiro oficial da repartição Rabourdin), srta. Thuillier (irmã de Thuillier), Chazelle, Paulmier, Poiret Jr. (irmão de Poiret sênior, organizava a coleção de jornais e escriturava livros em duas casas comerciais, tinha um diário), Fleury (ex capitão de regimento no período napoleônico, tinha opiniões de centro esquerda, fugia dos credores), Desroys (discreto, republicano em segredo), Marquesa d' Espard, ministro e esposa do ministro, um deputado, sr, Clergeau. 

A história se passa entre  1820 e 1825. 

A enorme lista de personagens já mostra como esse romance, pouco conhecido e comentado, é desafiador para o leitor de Balzac. No início, já cito o meu "guia", Paulo Rónai, que na introdução de "Os Funcionários" repete, ao comentar a ausência do título em textos e críticas: "E no entanto, trata-se de autêntica obra-prima que por si só bastaria a gravar o nome do autor na história das letras francesas: Balzac é assim, muitas vezes prejudicado pela sua própria riqueza: alguns livros seus de uma perfeição poderosa relegam ao desconhecimento outros, talvez não isentos de defeitos mas decerto cheios de belezas" (RÓNAI, 1991, p. 99).  

Conta-se a história e Xavier Rabourdin, chefe de gabinete em um importante ministério, que teve sua promoção a chefe de divisão preterida pelo sr. de La Billardière, "homem incapaz". Rabourdin, raríssimo homem de Estado, dedicou-se a planejar uma reforma do sistema administrativo francês. Reforma detalhada por Balzac, que envolvia a redução dos ministérios a três, e a diminuição do número de funcionários para cinco mil, com o aumento de seus salários. Entendemos que a burocracia é filha do governo constitucional pois os ministros "obrigados a obedecer aos príncipes ou às Câmaras, que lhe impõem a admissão de novos empregados, e forçados a conservar os que têm, (...) diminuíam os salários e aumentavam o número de empregos, pensando que, quanto mais gente fosse empregada pelo governo, mais este seria forte" (BALZAC, 1991, p. 114). Balzac chama esse sistema de ministerialismo, com o funcionário se comportando com o governo "como uma cortesã com um amante velho. Dava-lhe trabalho correspondente ao dinheiro que recebia" (BALZAC, 1991, p. 114). 

O funcionário público "ocupado unicamente em se manter, em receber seus ordenados e alcançar sua aposentadoria, (...) achava que tudo era permitido para alcançar esse resultado. Esse estado de coisas acarretava o servilismo do funcionário, engendrava intrigas perpétuas no seio dos ministérios, onde os empregados pobres lutavam contra uma aristocracia degenerada que vinha pastar nas terras comunais da burguesia, exigindo postos para seus filhos arruinados. (...) Não restavam ou não vinham senão preguiçosos, incapazes ou tolos. Assim, se estabelecia lentamente a mediocridade da administração francesa" (p. 116). Rabourdin foi além, planejando também uma reforma das finanças, com a taxação do consumo em massa em vez da propriedade, com a receita do imposto vindo de uma única lista composta de diversos artigos. 

Discordo muito do romancista inglês, Arnold Bennett, citado na Introdução por Rónai  quando diz que "o começo de Os Funcionários é terrível" e "aí a gente vê que Balzac não entendia do assunto." Talvez por ser historiadora, achei o começo do romance muito interessante (lembremos que Balzac se dizia "historiador de costumes"). Ele expõe o fortalecimento da burocracia no contexto da formação de uma democracia liberal. Ao lado da nascente soberania nacional persiste a soberania monárquica, e  a aristocracia decadente disputa espaço e dinheiro com a nova burguesia. Mas além de historiadora, sou servidora pública. E é grande a atualidade das discussões de Balzac sobre o dia a dia do serviço público. Nos "funcionários" apresentados na segunda parte do romance (do elenco de funcionários poderiam sair inúmeras obras, incrível a prolificidade de Balzac!), reconhecemos muitas figuras das nossas repartições: o preguiçoso, o apadrinhado, o fofoqueiro, o certinho, o piadista, estão todos lá. 

A trama ocorre a partir da morte de La Billardière e a vacância de seu cargo. Rabourdin era o candidato natural. Mas no seu caminho se encontra o medíocre Isidoro Baudoyer, o outro chefe de gabinete. Ao lado de Baudoyer, está o clero, com poder restaurado pela ascensão de Carlos X, os agiotas, que manipulam as dívidas do secretário-geral Des Lupleaux, e vários funcionários desejosos de um chefe que mantivesse tudo como estava. A "fritura" de Rabourdin ocorreu a partir da divulgação de seu relatório para a reforma, no qual, além do número de funcionários que seriam demitidos, havia apreciação do desempenho de vários, inclusive de Des Lupleaux.  Mas havia ainda uma esperança para a promoção de Rabourdin: a paixão do secretário-geral, "remanescente de um homem bonito", por Celestina Rabourdin. "Os primeiros cabelos brancos trazem consigo as últimas paixões, as mais violentas, por estarem a cavaleiro de uma potência que se vai e de uma fraqueza que se inicia" (BALZAC, 1991, p. 148). Mas Celestina, mulher superior (o primeiro título  de "Os Funcionários" era "A mulher superior") e ambiciosa, por quem o responsável marido gastava mais do que ganhava, se manteve virtuosa, não concedendo seus favores a Des Lupleaux, o que selou o destino de Rabourdin. 

O final infeliz, tipicamente balzaquiano, ocorre com a promoção de Baudoyer a chefe de divisão e a demissão voluntária de Rabourdin. 

Impressionantes os diálogos da parte do romance que se passa na repartição, que é toda dialogada. Rónai nos diz que são superiores a todos os diálogos das peças que Balzac escreveu e que não deram certo. Dariam um bela e engraçada peça de teatro, no estilo de "O Inspetor Geral" de Gogol. 

Em "Os funcionários" Balzac nos presenteia com o quadro de nascimento da burocracia estatal contemporânea e dos ajustes sociais feitos pela chegada do capitalismo no final do século XVIII. Mas, para além da análise histórica, é um livro divertido. Torcemos por Rabourdin, mesmo sabendo que ele perderá no final, como quase todos os "bons" do mundo balzaquiano. 


Imagem retirada de: Alcide Théophile Robaudi. Honoré de Balzac, The Civil Service. Philadelphia: Gebbie Publishing Co., 1899. 
https://fr.wikipedia.org/wiki/Les_Employ%C3%A9s_ou_la_Femme_sup%C3%A9rieure. Acesso em 14 de dezembro de 2021. 




terça-feira, 30 de março de 2021

Gaudissart II

 Gaudissart II (novembro de 1844)


Volume XI: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Parisiense

Personagens: gerente de loja (Gaudissart II), Du Ronceret, Bixiou, uma inglesa.

Quando comecei a escrever esse post, cometi um ato falho que resume esse curtíssimo texto (Balzac o chama de "pequeno vaudeville") . Em vez de "estudos de costumes", escrevi "estudos de consumo". Gaudissard II é sobre isso: a sociedade de consumo que se estabeleceu na França no século XIX com centro em Paris. 

O texto mostra as manobras dos caixeiros e vendedores, alguns donos de lojas muito ricos, para vender seus produtos a uma clientela variada, predominantemente de mulheres (embora muitos homens, Balzac inclusive, sejam muito consumistas). Eles são sucessores do nosso já conhecido Ilustre Gaudissart. Portanto, todos são Gaudissart II. 

Um desses Gaudissart consegue vender um xale, que vale muito menos do que o cobrado,  a uma reclacitrante inglesa, utilizando a psicologia típica dos vendedores. 

Referência da ilustração. Honoré de Balzac. Gaudissart II. Philadelphia: Gebbie Publishing Co., 1899.

Um príncipe da boêmia

Um príncipe da boêmia (1839-1845)

Volume XI: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense

Personagens principais: sra. de Baudraye (Diná Piédefer), Marquesa de Rochefide (Beatriz), Nathan, Carlos Eduardo Rusticoli (Conde de la Palférine), Claudina du Bruel  (Túlia),  Du Bruel (De Cursy), Bianchon, Lousteau. 

A história se passa entre 1834 e 1837. 

Paulo Rónai nos diz, na introdução de Um príncipe da boêmia, que a história é confusa e a leitura, árdua. Pois, discordo. Achei a leitura muito agradável. Se sabemos que se trata da história do romance do Conde de la Palférine com Claudina/Túlia contada por Nathan à Marquesa de Rochefide e escrita pela sra. de Baudraye, não há confusão (!). 

Lembremos que  a sra. de Baudraye é Diná Piédefer, a Musa do Departamento. Ela está em Paris vivendo com Estevão Lousteau em dificuldades financeiras. E pede a Nathan que lhe dê algum trabalho literário. O resultado é Um Príncipe da boêmia. E a amante de Nathan, Marquesa de Rochefide, é Beatriz

Conhecemos a história de amor não correspondido de Claudina pelo nobre empobrecido Carlos Eduardo Rusticoli, De la Palférine. Famoso pelos chistes e por não pagar dívidas, Carlos Eduardo torna-se amante de Claudina. Ela é a mais dedicada das mulheres: faz todas as vontades do amante, aparece nos horários por ele determinados, escreve longas cartas de amor. Tudo o que ela houve do amado é "És uma boa rapariga". Então sabemos que Claudina é a dançarina Túlia, que se aposentou dos palcos em 1829 para tornar-se a senhora Du Bruel. Du Bruel é o nome verdadeiro do dramaturgo De Cursy. Depois de vários anos trabalhando com Túlia no teatro, a desposou. O casamento não foi anunciado. Túlia rompeu sua ligações mundanas e se reinventou como uma burguesa casada e respeitável. Então, Túlia/Claudina apaixonou-se pelo frívolo Carlos Eduardo De la Palférine. Cansado da amante, apesar dela se submeter a todos os seus caprichos, o rapaz colocou uma condição: "Deves ter uma carruagem, lacaios, uma libré". Pois a obstinada Claudina cumpriu as condições em três anos. No final, ela se apresenta a Carlos Eduardo com tudo o que ele demandou. O desenlace: o interesse da Marquesa de Rochefide pelo frívolo nobre. 

Não é um grande texto literário, mas é uma leitura agradável. 

Dois pontos interessantes. A obstinação de Claudina com o amor não correspondido que Paulo Rónai considera um estudo de psicologia. Persistir em algo tão penoso se transforma em uma verdadeira missão de vida. Podemos, inclusive, imaginar que, caso o rapaz cedesse e se mostrasse apaixonado, o interesse de Claudina declinaria. 

Mais instigantes são os sinais trocados nas relações Carlos Eduardo/Claudina e Du Bruel/Claudina. No casamento, ela está no comando e submete o atordoado marido aos seus caprichos. Não somente isso. Ela manobra a carreira de Du Bruel, que se torna par de França e conde. Um homem que teria de contentado em permanecer como autor de vaudevilles de qualidade duvidosa e frequentador da boêmia parisiense. Ou seja, há aspectos psicológicos nessa novela que recomendam muito  a sua leitura. 

Referência da ilustração. Honoré de Balzac. A prince of Bohemia and other stories. Philadelphia: Gebbie Publishing Co. 1899.