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quarta-feira, 24 de junho de 2020

Pedro Grassou

Pedro Grassou (dezembro de 1839)
Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense



Personagens: Pedro Grassou (Fougères), Elias Magus, Servin (A Vendeta), Schinner (A BolsaModesta MignonA falsa amante) , Sommervieux (Ao "Chat-qui-pelote") José Bridau (Um conchego de solteirão), Leão de Lora (Um estreia na vida), François-Marius Granet (1775-1849), Pierre Duval Le Camus (1790-1854), Alexandre Gabriel Decamps (1803-1860), Cardot (Ao "chat-qui-pelote", Uma Estreia na Vida, A musa do departamento), Antenor Vervelle, senhora Vervelle e Virgínia Vervelle. 




A história começa em 1832, mas recua até 1819. 



Pedro Grassou é, nas palavras de Paulo Rónai, uma anedota. É interessante, contudo, pois é um dos textos no qual Balzac reflete a respeito da arte e do artista no seu tempo. 
O protagonista, também conhecido como Fougères, nome de sua cidade natal na Bretanha, é um pintor de quadros medíocre, que, embora tenha estudado com grandes nomes do seu tempo (alguns fictícios, como Servin, Schinner e Sommervieux, outros reais como Granet e Le Camus), não conseguia mais do que copiar o estilo de artistas consagrados. Foi inúmeras vezes desencorajado pelos seus pares, mas era humilde e persistente. Ao invés de buscar emprego em um escritório ou, ironia de Balzac, "experimentar a literatura", adotou um estilo modesto de vida e seguiu buscando o reconhecimento. Sobrevivia da venda de seus quadros a um comerciante de arte, usurário caricato, Elias Magus. Ele encomendava "interiores flamengos, uma lição de anatomia, uma paisagem" ao artista, e Grassou sobrevivia com renda minguada. Em 1829, dez anos após sua estreia na arte, seus amigos famosos, Schinner, Leão de Lora e Bridau, conseguiram que um quadro seu fosse admitido na exposição do grande Salão. Lá seu quadro, Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 , "embora medíocre, (...) teve um êxito extraordinário". Agradou  a Carlos X e a outros expoentes da realeza e lhe rendeu a cruz de cavaleiro da Legião de Honra. Foi sua consagração como artista. Passou a ter quadros aceitos no Salão. Mas seguiu vivendo com parcimônia e depositando suas economias no tabelião Cardot. 
Em dezembro de 1839, Magus traz a família Vervelle para que Fougerès lhe faça os retratos. O comerciante de garrafas Antenor Vervelle, sua esposa e filha, Virgínia, se afeiçoaram ao circunspecto e organizado artista. Descobrem ter em comum o mesmo Cardot como tabelião. Começam a considerará-lo um bom partido para a pouco atraente Virgínia. Grassou também pensa em casamento, julgando o dote e os bens do futuro sogro. 
Finalmente, Vervelle convida o artista para conhecer sua casa de campo, onde se gaba de ter uma galeria com quadros de grandes artistas, como Rubens, Rembrandt e Murilo. Ao ver a galeria, Fougerés descobre que metade das obras expostas eram suas, cópias por ele realizadas e compradas por pouco dinheiro por Magus, que as vendia caro para o burguês. Longe de ficar aborrecido, Vervelle reconheceu Grassou-Fougerès como um grande talento e deu a ele a mão de Virgínia. No final da história, ele mora com os sogros, ganha quinhentos francos por quadro e espera ingressar na Academia
O início do conto Pedro Grassou é ensaístico. Balzac critica a democratização do Salão de Pintura e Escultura ocorrida depois da Revolução de 1830:
"Uma experiência de dez anos demostrou a excelência da antiga instituição. Em vez de um torneio, tendes agora um motim; em vez de uma exposição gloriosa, um bazar tumultuoso; em vez do melhor, a totalidade . (...) Onde não há mais julgamento também não há mais coisa julgada". 
Grassou conseguiu colocar seu quadro Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801, em 1829,  por empenho de seus amigos famosos. Já depois da Revolução de Julho, "vinha apresentando a cada exposição uma dezena de quadros, dos quais o júri admitia quatro ou cinco". Essa crítica nos situa no tema que Balzac explora no texto: o aburguesamento do gosto artístico. Pedro Grassou é o artista burguês por excelência. A descrição do seu ateliê, organizado e limpo como um quarto de moça, já nos afasta do esteriótipo do artista atormentado e genial. São seus hábitos, especialmente os econômicos, que promovem a sua ascensão, mais que sua habilidade. Gastar pouco, comer pouco, colocar os ganhos na mão do tabelião, escolher temas que, ou combinavam com a política do momento (Os Preparativos na época de Carlos X) ou que não a confrontavam (retratos, paisagens e interiores na Monarquia de Julho), escolher a noiva pelo dote. Tudo isso fez com que Grassou não saísse "de um círculo burguês onde é considerado um dos melhores artistas da época". Não tem o reconhecimento dos pares, "os artistas zombam dele, seu nome é uma palavra de desprezo nos ateliês, os folhetins não se ocupam de sua obra", mas a classe ascendente o compra, pois com ele se identifica. 
Por que Pedro Grassou era um artista medíocre? Segundo Balzac, porque ele não conseguia imaginar, somente copiar; e porque não mostrava a natureza como era, mas de forma estereotipada (José Bridau, ao ver Grassou pintando Virgínia, comentou que a face com tons róseos era adequada para um anúncio de perfumista. Era preciso uma cor vermelha para pintar a moça ruiva). Ele deixava de copiar a natureza, mas copiava as imagens da natureza feitas por outros artistas. 
O interessante é que Grassou-Fougères sabia a diferença entre a obra medíocre e a de qualidade, ao contrário dos seus clientes. No final, sabemos que ele usava seu dinheiro para comprar quadros de pintores célebres que se encontravam em dificuldades para substituir as cópias da galeria de seu sogro, substituir as más telas por "verdadeiras obras primas, que não são dele". 
Paulo Rónai, na introdução do conto, nos diz que Balzac foi um dia Grassou, "produzindo obras inconfessáveis". Esse texto foi escrito entre 1944 e 1955, época da tradução da Comédia Humana no Brasil, da qual Rónai foi organizador. No texto do Jornal do Brasil de 2 de dezembro de 1972, Rónai nos dá notícia da leitura de Balzac et Le Mal du Siecle. Contribuition a une Phisyologie du Monde Moderne de Pierre Barbéris publicado em 1970. Nele, Barbéris analisa minuciosamente a obra de Balzac até 1833, após o primeiro sucesso balzaquiano. E o resultado muito se afasta do que Rónai denomina "a tese do milagre", ou seja, que uma mudança teria ocorrido com Balzac após seu trigésimo ano que o transformou de autor irresponsável e mercenário das obras da mocidade em historiador imparcial e perfeito de sua época. Havia muito mais qualidade naquela obra inicial do que se conhecia. Não houve milagre. Balzac imaginava e mostrava a natureza tal qual era, apesar da inexperiência da juventude.  Balzac nunca foi Pedro Grassou. 



Observação: na edição em português que tenho, da Editora Globo de 1990, a data do quadro de Grassou Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 está com a data errada de 1809. Os chouans eram monarquistas da região da Bretanha que se rebelaram contra a Revolução Francesa. Com o início das guerras napoleônicas, houve uma espécie de trégua desse tipo de revolta em 1801. Por isso, a data de 1809 me pareceu estranha. Foi um erro de tradução que pode ser verificado no texto original de Pierre Grassou

O quadro que ilustra a postagem é La femme hydropique (1663) do pintor holandês Gerit Dou (1613-1675). Foi o quadro que Pedro Grassou plagiou ao fazer Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 . O original, de Dou, está no Louvre. O de Pedro Grassou talvez esteja também. 


segunda-feira, 20 de julho de 2015

César Birotteau

A História da grandeza e da decadência de César Birotteau, perfumista, adjunto do Maire do segundo distrito de Paris, cavaleiro da Legião de Honra, etc (escrito em novembro de 1837)

Personagens: César Birotteau, Constança  Birotteau,  Cesarina, Alexandre Crotat (Xandrot), Cláudio José Pilleraut, Anselmo Popinot, sr. e sra. Ragon, Ferdinando Du Tillet, sr. e sra. Roguin, Sara Gobseck (A Bela Holandesa), Carlos Claparon, João Batista Molinaux, sr. Grindot (arquiteto), sra. Madou, sr. Vauquelin, Celestino, Gaudissart, Androche Finot, sr. Lourdois, Francisco  Birotteau, Cayron (comerciante de guarda chuvas), José Lesbas, Francisco Keller, Adolfo Keller, Padre Loraux. 

A história se passa entre 1819 e 1823.

Em uma carta para a escritora Margarete Harkness, escrita em abril de 1888, Friedrich Engels declarou que aprendera mais com Balzac do com todos os historiadores, economistas e estatísticos a respeito do nascimento da sociedade burguesa. Essa observação parece digrida especialmente a César Birotteau, que Paulo Rónai qualifica como um dos romances balzaquianos mais perfeitos. A "burguesia" termo do qual nós, professores de história, abusamos nas aulas, caracteriza algo fluido no tempo e no espaço. Um burguês na França de Balzac não é o mesmo que um burguês no Brasil de hoje. Mas o uso do mesmo termo aproxima e confunde a percepção. Pois Balzac nós dá o burgês de carne e osso, com nome, sobrenome, gostos, conceitos e preconceitos. Assistimos a nova classe tomar conta das relações sociais da França da Restauração, enquanto as demais classes e grupos se acomodam como é possível. 
Nosso burguês se chama César Birotteau. De origem camponesa (é irmão de Francisco Birotteau, o nosso Cura de Tours), foi para Paris aos catorze anos trabalhar como caixeiro na casa dos senhores Ragon, comerciantes de perfumes. Trazia somente seus pobres pertences pessoais e a disposição para o trabalho duro. Apesar do temperamento pacato, envolveu-se na conspiração de 13 vendemiário contra a Convenção, tendo a honra de lutar com Napoleão nas escadarias da Igreja de São Roque. "Se o ajudante de campo de Barras (Napoleão), saiu da obscuridade, Birotteau foi salvo por ela". Acabou esquecido e não foi punido. 
Assumiu a perfumaria dos Ragon e desposou a bela Contança Pilleraut, primeira caixeira da loja Pequeno Marinheiro. Juntos foram fazer fortuna. 
Encontramos os Birotteau, em 1819, como comerciantes prósperos e estabelecidos no mercado. Graças a algumas invenções como a "Dupla Pomada das Sultanas" e a "Água Carminativa", não faltavam pedidos e clientes. Mas faltava um certo glamour, incompatível com a vida no comércio. Então, Birotteau foi condecorado como Cavaleiro da Legião de Honra, em agradecimento a seus serviços à causa realista. Ele resolveu reformar a casa para dar um baile em comemoração à desocupação da França. Para pagar a extravagância, César entrou em um negócio de especulação de terrenos com alguns sócios, dentre os quais Roguin, dono de um cartório. Ocorre que, por detrás de Roguin, estava um dos típicos vilões balzaquianos, Ferdinando Du Tillet. Du Tillet nutria um grande desejo de vingança contra César. Fora seu caixeiro e furtara três mil francos do caixa. Birotteau descobriu e o despediu, mas sem fazer publicidade do caso.  Além disso, cortejara Constança e fora repelido por ela. Pois Du Tillet aproximou-se de Roguin, descobriu-lhe a fraqueza (uma amante dissipadora) e armou um plano para levar César Birotteau à falência. Após o baile na casa de Birotteau, o perfumista enfrentou uma sucessão de quedas que o levaram à falência. Com a ajuda da família e dos amigos, Birotteau conseguiu se reabilitar completamente pagando todos os seus credores, algo tão raro que foi até assinalado em sessão no tribunal pelo procurador do Rei. 
Um resumo, todavia, não dá conta da magnífica construção do romance. O início com o sonho premonitório de Cosntança. O meio, com o acontecimento central, o baile, que marca o auge do perfumista e o início da sua ruína. E no final, o novo baile, esse quase fantasmagórico, ao qual nosso heroi não resistiu. 
Mas o que pode haver de genial na história da falência de uma casa burguesa? Segundo Paulo Rónai, Balzac é genial ao construir personagens em nada extraordinários (para não dizer medíocres) e captar neles a vida real: "Birotteau, repetindo vinte vezes as mesmas palavras para explicar sua distinção com a Cruz da Legião de Honra e julgando-se, mesmo do fundo de sua miséria, superior a Popinot, que foi seu aprendiz; a sra. Birotteau, heroica e amorosa companheira de César, resistindo virtuosamente à sedução de Du Tillet, e, no entanto, guardando-lhe as cartas no seu cofrezinho; (...) Molinaux, tipo monstruoso de proprietário, não tendo outro medo do que ser julgado insuficientemente esperto pelos proprietários do Café David; Cesarina e Anselmo Popinot, os jovens amantes, incapazes, embora solidários com o sofrimento de César, de se arrancarem ao egoísmo do seu amor - eis alguns rasgos de intuição genial que faria Balzac idear um caráter num só bloco e tirar dele tudo o que podia dar". 
Outro feito notável, já conhecido dos leitores da Comédia Humana, é o conhecimento de Balzac sobre os pormenores dos processos e técnicas narrados.Fala da especulação de imóveis como se fosse um corretor ou um especulador. Discorre sobre a falência como um advogado (aqui a sua experiência como auxiliar de tabelião), diz-se que os advogados consultavam César Birotteau quando tratavam de falências. Conhece detalhes da fabricação de produtos de perfumaria. Conhece o funcionamento dos tribunais de comércio. Opina sobre os anúncios de produtos em jornais, uma novidade da época que mudou o comércio no século XIX. Segundo Rónai, dez especialistas seriam necessários para escrever César Biroteau. "mas os dez especialistas e o escritor genial têm o mesmo nome: Balzac". 
Não sei se Engels comentou algo específico sobre César Birotteau, mas algo me diz que era um dos romances no qual ele pensava quando escreveu à senhora Harkness. Segundo Brunetière (citado por Paulo Rónai), em todo livro não se passa quase nada, mas nele cabe a Restauração inteira. 




quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Os funcionários

Os funcionários (julho de 1836)

Volume XI: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Parisiense

Personagens: Xavier Rabourdin, Celestina Rabourdin (née Leprince), Clemente Chardin des Lupleaux, Atanásio João Francisco Miguel de La Billardière (barão Flamet de La Billardière) , sr. Saillard, sra. Saillard (née Bidaut), Isidoro Baudoyer, Isabel Baudoyer (née Saillard), sr. e sra. Badouyer (pais de Isisdoro), Padre Gaudron, Martinho Falleix, srta. Baudoyer, sr. Sorbier (tabelião, predecessor de Cardot), Gigonnet (agiota), Werbrust, Gobseck, sr. Mitral (tio de Isidoro, irmão da mãe dele), Sebastião de La Roche (extranumerário), sra. de La Roche (mãe de Sebastião), Du Bruel (autor teatral, também conhecido como Cursy, amante de Túlia que era também amante do duque de Rhétoré, subchefe), Benjamin de La Billardière, Ernesto de La Brière (secretário particular do ministro), Antônio (contínuo das repartições), Lourenço (contínuo dos dois chefes, sobrinho de Antônio), Gabriel (contínuo do diretor, sobrinho de Antônio), sr. Dutocq (oficial de gabinete da repartição de Rabourdin, sucessor do sr. Poiret). José Godard (subchefe de Rabourdin, primo de Mitral pelo lado materno, aspirante à mão da srta. Baudoyer,) Phellion (escriturário do gabinete de Rabourdin, dois filhos, uma filha e esposa leciona piano no internato das srtas. La Grave, ele também leciona história e geografia no internato), Adolfo Vimeaux (amanuense que gastava para se vestir bem), Bixiou (desenhista, da divisão Baudoyer), Augusto João Francisco Minard (amanuense), sra. Minard (Zélia Lorain), Colleville (primeiro oficial da repartição Baudoyer, primeiro clarinete da ópera cômica, fã de anagramas), Flávia Minoret (esposa de Colleville), Thuillier (primeiro oficial da repartição Rabourdin), srta. Thuillier (irmã de Thuillier), Chazelle, Paulmier, Poiret Jr. (irmão de Poiret sênior, organizava a coleção de jornais e escriturava livros em duas casas comerciais, tinha um diário), Fleury (ex capitão de regimento no período napoleônico, tinha opiniões de centro esquerda, fugia dos credores), Desroys (discreto, republicano em segredo), Marquesa d' Espard, ministro e esposa do ministro, um deputado, sr, Clergeau. 

A história se passa entre  1820 e 1825. 

A enorme lista de personagens já mostra como esse romance, pouco conhecido e comentado, é desafiador para o leitor de Balzac. No início, já cito o meu "guia", Paulo Rónai, que na introdução de "Os Funcionários" repete, ao comentar a ausência do título em textos e críticas: "E no entanto, trata-se de autêntica obra-prima que por si só bastaria a gravar o nome do autor na história das letras francesas: Balzac é assim, muitas vezes prejudicado pela sua própria riqueza: alguns livros seus de uma perfeição poderosa relegam ao desconhecimento outros, talvez não isentos de defeitos mas decerto cheios de belezas" (RÓNAI, 1991, p. 99).  

Conta-se a história e Xavier Rabourdin, chefe de gabinete em um importante ministério, que teve sua promoção a chefe de divisão preterida pelo sr. de La Billardière, "homem incapaz". Rabourdin, raríssimo homem de Estado, dedicou-se a planejar uma reforma do sistema administrativo francês. Reforma detalhada por Balzac, que envolvia a redução dos ministérios a três, e a diminuição do número de funcionários para cinco mil, com o aumento de seus salários. Entendemos que a burocracia é filha do governo constitucional pois os ministros "obrigados a obedecer aos príncipes ou às Câmaras, que lhe impõem a admissão de novos empregados, e forçados a conservar os que têm, (...) diminuíam os salários e aumentavam o número de empregos, pensando que, quanto mais gente fosse empregada pelo governo, mais este seria forte" (BALZAC, 1991, p. 114). Balzac chama esse sistema de ministerialismo, com o funcionário se comportando com o governo "como uma cortesã com um amante velho. Dava-lhe trabalho correspondente ao dinheiro que recebia" (BALZAC, 1991, p. 114). 

O funcionário público "ocupado unicamente em se manter, em receber seus ordenados e alcançar sua aposentadoria, (...) achava que tudo era permitido para alcançar esse resultado. Esse estado de coisas acarretava o servilismo do funcionário, engendrava intrigas perpétuas no seio dos ministérios, onde os empregados pobres lutavam contra uma aristocracia degenerada que vinha pastar nas terras comunais da burguesia, exigindo postos para seus filhos arruinados. (...) Não restavam ou não vinham senão preguiçosos, incapazes ou tolos. Assim, se estabelecia lentamente a mediocridade da administração francesa" (p. 116). Rabourdin foi além, planejando também uma reforma das finanças, com a taxação do consumo em massa em vez da propriedade, com a receita do imposto vindo de uma única lista composta de diversos artigos. 

Discordo muito do romancista inglês, Arnold Bennett, citado na Introdução por Rónai  quando diz que "o começo de Os Funcionários é terrível" e "aí a gente vê que Balzac não entendia do assunto." Talvez por ser historiadora, achei o começo do romance muito interessante (lembremos que Balzac se dizia "historiador de costumes"). Ele expõe o fortalecimento da burocracia no contexto da formação de uma democracia liberal. Ao lado da nascente soberania nacional persiste a soberania monárquica, e  a aristocracia decadente disputa espaço e dinheiro com a nova burguesia. Mas além de historiadora, sou servidora pública. E é grande a atualidade das discussões de Balzac sobre o dia a dia do serviço público. Nos "funcionários" apresentados na segunda parte do romance (do elenco de funcionários poderiam sair inúmeras obras, incrível a prolificidade de Balzac!), reconhecemos muitas figuras das nossas repartições: o preguiçoso, o apadrinhado, o fofoqueiro, o certinho, o piadista, estão todos lá. 

A trama ocorre a partir da morte de La Billardière e a vacância de seu cargo. Rabourdin era o candidato natural. Mas no seu caminho se encontra o medíocre Isidoro Baudoyer, o outro chefe de gabinete. Ao lado de Baudoyer, está o clero, com poder restaurado pela ascensão de Carlos X, os agiotas, que manipulam as dívidas do secretário-geral Des Lupleaux, e vários funcionários desejosos de um chefe que mantivesse tudo como estava. A "fritura" de Rabourdin ocorreu a partir da divulgação de seu relatório para a reforma, no qual, além do número de funcionários que seriam demitidos, havia apreciação do desempenho de vários, inclusive de Des Lupleaux.  Mas havia ainda uma esperança para a promoção de Rabourdin: a paixão do secretário-geral, "remanescente de um homem bonito", por Celestina Rabourdin. "Os primeiros cabelos brancos trazem consigo as últimas paixões, as mais violentas, por estarem a cavaleiro de uma potência que se vai e de uma fraqueza que se inicia" (BALZAC, 1991, p. 148). Mas Celestina, mulher superior (o primeiro título  de "Os Funcionários" era "A mulher superior") e ambiciosa, por quem o responsável marido gastava mais do que ganhava, se manteve virtuosa, não concedendo seus favores a Des Lupleaux, o que selou o destino de Rabourdin. 

O final infeliz, tipicamente balzaquiano, ocorre com a promoção de Baudoyer a chefe de divisão e a demissão voluntária de Rabourdin. 

Impressionantes os diálogos da parte do romance que se passa na repartição, que é toda dialogada. Rónai nos diz que são superiores a todos os diálogos das peças que Balzac escreveu e que não deram certo. Dariam um bela e engraçada peça de teatro, no estilo de "O Inspetor Geral" de Gogol. 

Em "Os funcionários" Balzac nos presenteia com o quadro de nascimento da burocracia estatal contemporânea e dos ajustes sociais feitos pela chegada do capitalismo no final do século XVIII. Mas, para além da análise histórica, é um livro divertido. Torcemos por Rabourdin, mesmo sabendo que ele perderá no final, como quase todos os "bons" do mundo balzaquiano. 


Imagem retirada de: Alcide Théophile Robaudi. Honoré de Balzac, The Civil Service. Philadelphia: Gebbie Publishing Co., 1899. 
https://fr.wikipedia.org/wiki/Les_Employ%C3%A9s_ou_la_Femme_sup%C3%A9rieure. Acesso em 14 de dezembro de 2021. 




domingo, 3 de abril de 2022

Um episódio de terror

Um episódio de terror (janeiro de 1831)

Volume XII: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Política, Cenas da Vida Militar (lido entre 2 de abril de 2022 e 17 de junho de 2023)

Personagens: Padre Marolles, Irmã Martha (née Beauséant), Irmã Ágata (née Langeais), sr. e sra. Ragon, desconhecido (Charles-Henri Sanson).

A história se passa entre 22 de janeiro de 1793 e 25 de janeiro de 1794. 

Isidore Stanislas Helman (1743-1809). A morte de Luís XVI

As 15 páginas de Um episódio de terror fazem dele um dos mais breves da Comédia Humana. O texto fez parte da introdução de uma obra - Memórias de Sanson, o carrasco de Paris - escrita por Balzac em conjunto com Lhéritier de l´Ain, quando nosso mestre ainda assinava Lord R´Hoone. Somente em 1846 foi incorporado à Comédia Humana

A chave da novela, que começa com uma cena cinematográfica de suspense,  está na data. Naquele dia frio de inverno, uma mulher já com alguma idade foi a uma padaria, em torno de oito horas da noite. No caminho percebeu estar sendo seguida. No estabelecimento trocou uma moeda de ouro, um luís, por algo que estava dentro de uma caixa de papelão. Ela então retornou ao local onde morava, sendo ainda seguida pelo mesmo desconhecido de antes. Uma vez na na pobre casa, que dividia com outra senhora e com um padre, receberam a visita do perseguidor. Sabemos então que os três são a irmã Marta, a irmã Ágata e o padre Marolles, de famílias aristocratas, e perseguidos pelos revolucionários franceses. Inicialmente, julgaram que seriam presos, especialmente Marolles, que se recusara a jurar a Constituição civil em 1790. Mas eis que o visitante desejava encomendar um missa de réquiem pela "alma de uma pessoa sagrada, cujo corpo jamais repousará em terra santa". Duas horas mais tarde, ocorreu a missa e descobrimos que a caixa de papelão continha hóstias. O desconhecido deu ao padre, em pagamento, uma caixa "extremamente leve" dizendo ser uma relíquia. Prometeu retornar em uma ano para nova missa. Nesse período, os três religiosos passaram a receber lenha e comida , pois "apesar do Terror, uma poderosa mão se estendia sobre eles". Ao fim de um ano, o homem retornou e foi celebrada outra missa, mas ele parecia muito abalado. Quatro dias depois, o padre Marolles, na porta da loja dos Ragon percebeu um tumulto e soube que o carrasco de Luís XVI iria ser guilhotinado. Viu na carreta que se dirigia ao cadafalso o desconhecido. 

Na caixa "extremamente leve" havia um lenço marcado com a coroa real e manchado de suor e sangue. 

Paulo Rónai considera Um episódio de terror uma obra menor, da fase "clandestina" de Balzac. Eu raramente leio textos sobre A Comédia Humana. Não haveria tempo e, em geral, comento as minhas impressões pessoais. Mas dessa vez, procurando ilustrações para essa postagem, encontrei um artigo de Gabriel Moyal, Making the Revolution Private: Balzac's "Les Chouans and Un épisode sous la Terreur. Moyal apresenta esse texto curto de um ponto de vista bastante mais complexo. Não irei detalhar, o artigo está disponível no Jstor. Mas, entre outras coisas, ele discute a visão dinâmica de história contida na Comédia Humana, que não é percebida pelo leitor com sua natural tendência de reificar os fatos históricos. Comenta também o simbolismo das trocas na novela: o luís, com a efígie real, de ouro pelas hóstias, e o lenço pela missa ("Eu coraria se lhe oferecesse um salário qualquer pelo serviço funerário que o senhor acaba de celebrar pelo repouso da alma do rei e pelo descanso da minha consciência. Não se pode pagar uma coisa inestimável a não ser por uma oferenda que também o seja"). E destaca que os personagens e objetos aparecem mais pelo que eles defendem, ou representam do que pelos que  são ou aparecem, como na passagem: "Ali estava toda a monarquia, nas preces de um padre e de duas pobres mulheres; mas, talvez, também estivesse representada a revolução na pessoa daquele homem cujo o semblante traía remorsos bastantes para não se crer que ele satisfizesse os anseios de um imenso arrependimento". 

O nome de Charles-Henri Sanson (1739-1806), carrasco de Luís XVI, não é citado em Um episódio de terror. Rónai nos conta que a irmã de Balzac, Laure, afirmava que o escritor havia entrevistado Sanson. Contudo, seria impossível pela data de falecimento do carrasco. É provável que o entrevistado tenha sido o filho de Sanson que, aliás, herdou seu ofício. 

Já sabemos que Rónai reviu, depois da organização da Comédia Humana"a tese do milagre". Para mim Um episódio de terror já a desmente. 

E. Lampsonius (1822-1871): Charles-Henri Sanson

Moyal, Gabriel. “Making the Revolution Private: Balzac’s ‘Les Chouans’ and ‘Un Épisode Sous La Terreur.’” Studies in Romanticism 28, no. 4 (1989): 601–22. https://doi.org/10.2307/25600809.

sábado, 13 de junho de 2020

Sarrasine

Sarrasine (setembro de 1830)
Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense

Personagens: narrador, senhora de Rochefide (Beatriz), conde de Lanty, condessa de Lanty, Marianina, Filipo, Ernesto João Sarrasine, Edme Bouchardon (1698-1762), Zambinella, Vitgliani, cardeal Cicognara, príncipe Chigi. 
A história ocorre no período em que foi escrita, 1830, mas remete a outra história iniciada em 1758.


Sarrasine está longe de ser o melhor de Balzac. A novela ganhou notoriedade em 1970, quando o crítico literário Roland Barthes publicou o ensaio S/Z no qual faz uma análise pós-estruturalista de Sarrasine. 
Na história, encontramos o narrador, no período da Restauração (o ano não está identificado) em uma festa, observando uma desoladora paisagem de inverno através da janela. Ao voltar-se para o salão, percebe o contraste entre os dois ambientes: 
"Tinha, assim, à minha direita, a sombria e silenciosa imagem da morte; à esquerda, comedidas bacanais da vida; de um lado, a natureza fria, tristonha, de luto; do outro os homens em festa". Sabemos que será uma narrativa marcada pela ambiguidade. 
Descobrimos estar na casa dos Lanty, uma família sui generis. Muito ricos e de admirável cultura - "Todos os seus membros falavam italiano, francês, espanhol, inglês e alemão com tal perfeição que faziam supor se houvessem demorado longos anos entre esses diversos povos" - não  se conhecia a origem de tamanha prosperidade. 
A beleza das mulheres, a condessa de Lanty e sua filha adolescente Marianina, era partilhada pelo filho Filipo ("a imagem viva de Antinoo"), mas não pelo conde que "era baixo, feio e magro, sombrio como um espanhol e fastidioso como um banqueiro". E havia um homem, figura misteriosa, que  aparecera pela primeira vez no salão durante um concerto, atraído pela bela voz de Marianina. Ele era tratado com todo o carinho e deferência pela família, embora ninguém esclarecesse qual era a relação entre eles. 
Na noite em questão, o velho apareceu justamente quando Marianina cantava uma ária da ópera Tancredi. Estava vestido como os homens de posses do século XVIII: calções de seda, rendas, peruca e maquiagem. E seu físico era frágil e decrépito: "Sua magreza excessiva,  a delicadeza de seus membros provavam que suas proporções haviam sido sempre esbeltas". 
A figura assustou a senhora de Rochefide, beldade que acompanhava na festa o narrador. O casal se retirou para uma quarto contíguo ao salão e observou quando Marianina passou com o exótico parente e o encaminhou para o interior da casa. A menina, ao se despedir, recebeu do velho um dos anéis que ele trazia no dedo. No quarto havia uma pintura  de Joseph-Marie Vien representando Adônis estendido sobre uma pele de leão. Beatriz ficou fascinada pela perfeição da imagem e soube pelo narrador que o artista teve por modelo a estátua de uma mulher, talvez um parente da senhora de Lanty. Prometeu, então, contar a história misteriosa à sua acompanhante em sua casa, no dia seguinte, numa negociação que deixa implícita a troca da narrativa por uma noite de amor. 
No dia seguinte, ao pé da amada, o narrador contou a história de João Sarrasine, filho de uma advogado de Besançon, que decepcionou o pai se tornando escultor. Talentoso e discípulo de Edmé Bouchardon, aos 22 anos ganhou um prêmio e foi estudar em Roma. O ano era 1758. Lá, no Teatro Argentina, conheceu uma cantora lírica belíssima chamada Zambinella. Nela o narrador "via reunidas, bem vivas e delicadas, as raras proporções do corpo feminino tão ardentemente desejadas e das quais o escultor é , ao mesmo tempo, o juiz mais severo e mais apaixonado". Foi tomado de amores pela jovem, que passou a cortejar. Passou a desenhá-la e a esculpiu em argila. Dias depois, foi convidado pelo pessoal do teatro a finalmente conhecê-la pessoalmente. O encontro foi em uma alegre ceia com os artistas. O escultor estava confuso, pois a moça, embora estivesse em um ambiente bastante liberal quanto aos costumes, se comportava de forma recatada. No dia seguinte, o grupo foi fazer uma excursão aos arredores de Roma. Zambinella estava ainda mais arredia, e ao ouvir a declaração de amor de Sarrasine, disse não poder ser amada e que logo ela a odiaria. À reiteração do amor de Sarrasine, Zambinella retrucou: "E se eu não fosse mulher?".
No dia seguinte, o escultor preparou-se para raptar a amada que estaria em uma festa. Lá a encontrou cantando vestida de homem. Ao indagar a um ouvinte o motivo da indumentária, veio a verdade:
"De onde vem cavalheiro? Desde quando uma mulher subiu aos palcos em Roma? Não sabe, por acaso, por que criaturas são desempenhados os papéis femininos nos Estados Pontifícios?" 
Chocado, Sarrasine conseguiu que os amigos levassem Zambinella até ele. Com medo de ser morta (morto, Balzac passa a narrar agora no masculino), chorando, ele declara "Só consenti a enganá-lo para satisfazer aos camaradas, que desejavam rir". O escultor, furioso, foi interrompido por homens do cardeal Cicognara, protetor de Zambinella, que o mataram.
Ingenuamente, Beatriz perguntou o que tinha essa história a ver com os Lanty. Ora, Zambinella era o velho parente e sua carreira bem sucedida de cantora era a origem da fortuna da família. A estátua feita por Sarrasine foi modelo para o Adônis. Beatriz ficou desapontada e mandou o narrador embora. Ele não teve o esperado prêmio.
Ao pesquisar um pouco sobre Sarrasine, encontrei muito material em função do já mencionado ensaio de Roland Barthes. Encontrei uma parte inicial do ensaio. Achei chato e pouco elucidativo do texto. Me defendo aqui com a opinião de Paulo Rónai no texto introdutório ao conto de Balzac:
"O resultado de sua investigação [de Barthes] é uma construção mental em que utiliza os materiais mais heterogêneos, às vezes sem ligação nenhuma com a obra escolhida como pretexto. [É] um exemplo típico de certa espécie de crítica universitária extremamente arbitrária e vazada numa linguagem excessivamente artificial". 
No texto de introdução, Rónai nos diz  que o narrador é um personagem da Comédia Humana que Balzac esqueceu de nomear. Mas em um texto de 1972, o próprio Rónai aponta para a onisciência do autor. Como ele saberia o conteúdo das conversas de Zambinella com Sarrasine, que ele reproduz? Mas será que quem conta a história de Sarrasine à marquesa o mesmo que dialoga com ela? Não fica claro. 
Há também o fato do narrador não ser confiável. Ele diz, quando está na festa, que o velho/Zambinella é surdo. Mas diz também que ele foi à sala atraído pela voz de Marianina. Assim, ficamos em dúvida sobre a veracidade da história. 
De resto, a história é um tanto artificial. A riqueza e a beleza dos Lanty, o amor louco e descontrolado, à primeira vista, de Sarrasine por Zambinella, o fato de ele não perceber que ela não é uma mulher, depois de tantas indicações, a ideia do rapto, tudo classifica Sarrasine como uma obra menor. 
Deixo aqui um link sobre os castrati, os meninos que eram castrados para preservar a voz para o canto. A autora Yvonne Noble nos ensina que os castrati, que apareceram no ocidente no século XVI, estavam inseridos numa cultura na qual capacidade sexual não era algo tão valorizado. Afinal, era normal as famílias dedicarem os filhos e filhas à Igreja e ao, pelo menos oficialmente, celibato. E que os castrati vinham, via de regra, de famílias muito pobres. Com uma boa voz, um rapaz poderia ter e proporcionar à família uma vida melhor. E exatamente o caso de Zambinella. Noble também afirma que Balzac (ou seu narrador não confiável) estava pouco informado sobre o assunto. Havia castrati e papéis para eles na época em que Balzac escrevia. Somente em 1870 a castração foi proibida dos Estados Papais e havia um coral deles na Capela Sistina até 1898. 
O desconhecimento de Balzac ocorre, pois os castrati foram mais cedo banidos na França do que em outros países. 
Enfim, Sarrasine não é um grande Balzac, mas é Balzac.

A imagem é o famoso castrato Carlo Scalzi em quadro de Joseph Filipart (1737).
A matéria citada de Paulo Rónai é do Jornal do Brasil. Dossier. Balzac Pretexto e Texto. 2 de dezembro de 1972. Tem digitalizada na hemeroteca da Biblioteca Nacional. 



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

O Primo Pons

O Primo Pons (julho de 1846-maio de 1847) - Os Parentes Pobres

Volume X: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense (lido entre 25 de junho de 2020 e 10 de fevereiro de 2021 )
 
Personagens principais: Silvano Pons, Schmucke, sra. Cibot, sr. Cibot, Gaudissart, sr. Camusot de Merville (presidente da Câmara na corte real de Paris) , sra. Camusot-Merville (presidenta), srta. Cecília Camusot, Madalena Vivet (criada da presidenta), Rémonencq, sra. Fontaine (cartomante), Wilhelm Schwab (flautista da orquestra), Heloísa Brisetout (bailarina), Fritz Brunner, Berthier (tabelião), dr. Poulain, Elias Magus, Fraisier, sr. Leboeuf, Trognon (tabelião), Leopoldo Hannequin (tabelião), sr. Tabareau (tabelião), vigário Duplanty, sra. Sauvage, sra. Cantinet, corretor da casa Sonet, Villemot (primeiro escrevente de Tabareau), Topinard, sra. Topinard (Lolotte), Vitel (juiz de paz).



A história se passa entre outubro de 1844 e 1846.

Imagem de Théophile Robaudi

Aqui vou ter a ousadia de discordar de Paulo Rónai. Ele prefere O Primo Pons. Eu prefiro A Prima Bete. Rónai destaca a conexão do segundo com o resto da Comédia Humana, considerando que "representa como que o fecho da abóbada de todo o edifício". De fato, há desfechos e entreatos para diversos personagens. Mas isso, em alguns momentos, deixa a história confusa. Sem falar que se confirma a falta de vocação de Balzac para criar a bondade. Pons e Schmucke são menos interessantes que a Cibot e Fraisier. 
Os músicos, Pons e Schmucke, trabalhavam juntos em um teatro popular, administrado por nosso já conhecido Gaudissart. Talentos medíocres e já na terceira idade, resolveram dividir a solidão morando juntos. Mas Pons, que chegou a ensaiar uma carreira promissora no período do Diretório, tinha duas paixões maiores que a música: a boa comida e as obras de arte. São elas que impulsionam a ação. 
Com seu modesto salário e com o hábito dispendioso de adquirir obras de arte, Pons fila jantares na casa de parentes melhor aquinhoados. Uma dessas casas é a da presidenta Camusot de Merville, sua prima distante. Com frequência é humilhado pelos empregados, pela parenta e por sua filha, mas releva para não abrir mão da boa mesa. Querendo agradar a família Camusot, arranja um bom partido para a jovem Cecília Camusot, o alemão Fritz Brunner. O casamento não se concretiza e Pons cai em desgraça, sendo afastado e difamado pelos parentes ricos. 
Aí entra a personagem mais importante da obra, que não está na lista do início: a coleção. Pons, ao longo da vida, acumulou um verdadeiro museu, que ficava em duas salas do seu apartamento. Quadros, esculturas, objetos decorativos, belas molduras. A vida discreta que levava fazia com que a maioria das pessoas desconhecesse a coleção e, principalmente, seu valor. Aqui, um dado biográfico. Balzac, em seus últimos anos, se entregou ao colecionismo como se entregava a tudo na vida, sem limites. Os resultados foram muitas dívidas e alguns logros, compra de peças falsas ou de objetos de pouco valor a ele empurrado como valiosos. Zwieg comenta que, quem lê as cartas de Balzac desse período, sem saber quem ele era, vai julgar tratar-se de um colecionador ou comerciante de artes, pois há mais referências a isso do que à literatura. Assim, na coleção de Pons, há muitos quadros que eram de Balzac. 
Pons adoece e incia a trama pérfida da porteira Cibot, do advogado picareta e desonesto Fraisier e da presidenta para roubar a herança do músico, que deveria ficar para Schmucke. Quem conhece Balzac pode adivinhar que o conluio deu certo. Pons morreu e a coleção ficou com Camusot-Merville. Fraisier obteve um cargo público e a Cibot, uma boa quantia em dinheiro. O pobre Schmucke teve que sair do apartamento e contou somente com a ajuda de Topinard, empregado do teatro, o único que se preocupava com os dois quebra-nozes, como os dois velhos amigos eram conhecidos. O pianista Schmucke não viveu muito mais do que o companheiro. 
Um dos pontos interessantes é a indústria da morte na Paris do século XIX. Todo um conjunto de pessoas, funcionários, tabeliães, advogados, marmoreiros, cocheiros, mestres de cerimônias, cujo sustento depende da morte e que infestam os primeiros momentos da perda de um ente querido. São tantos tabeliães que fiquei confusa e tive de fazer uma lista. 
Enfim, é um bom romance, é bem escrito, foi o último trabalho totalmente escrito por Balzac. Mas não tem a vibração da Prima Bete, que largamos tudo para não parar de ler. Questão de "gosto pessoal", como diz o mestre Paulo Rónai. 

A imagem é de Honoré de Balzac. Cousin Pons. Philadelphia: George Barrie & Son, 1897. 



sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Os Camponeses

Os Camponeses  (1855 - póstumo)

Volume XIII; Estudos de Costumes: Cenas da Vida Rural (lido entre 18 de junho de 2023 e 22 de novembro de 2025)

Personagens: srta. Laguerre, Conde de Montcornet, Virgínia de Montcornet (née de Troisville), Emílio Blondet, Francisco (criado de quarto), tio Fourchon (sitiante de Ronquerolles), Mosquito, subprefeito de La-Ville-aux-Fayes, Dr, Gourdon (médico), Francisco Gaubertin (administrador das Aigues no tempo da srta. Laguerre, filho de ex-bailio de Soulanges, foi maire de Blangy), Isaura Gaubertin (née Mouchon), Carlos (escudeiro), padre Brossette, Francisco Tonsard (dono do Grand-I-Vert), srta. Couchet/Soudry (criada de quarto da srta. Laguerre, casou com Soudry ), Soudry (cabo de gendarmetia, furriel de artilharia), Vermiguel (rabequista de Soulanges, porteiro de prefeitura), filha do sitiante de Ronquerolles (que casou com Tonsard), Catarina e Maria Tonsard, velha mãe de Tonsard, Brunet (oficial de justiça de Soulanges), Bonnébaulf, Justino Michaud (guarda geral), Olímpia Michaud, Vatel, dr. Guerbert (juiz de instrução), Adolfo Sibilet (administrator das Aigues, filho mais velho do escrivão do tribunal de La-Ville-aux-Fayes, primo de Gaubertin), Niseron (avô de Genoveva/Pechina), Lupin (tabelião, filho  de intendente de Soulanges), Geni (filha mais velha de Gaubertin), Leclerc (banqueiro, pretendente de Geni), Elisa Gaubertin (filha mais nova de Gaubertin), Claudio Gaubertin (filho de Galbertin, substituto do procurador régio na sede do departamento), Gendrin (cunhado de Gaubertin, presidente do tribunal de La-Ville-aux-Fayes), conde de Soulanges, Sarcus (juiz de paz de Soulanges), sr. Vermut (farmacêutico de Soulanges, irmão mais velho da srta. Sarcus), Adelina Sibiliet (filha dos Sarcus), Courtcuisse (guarda das Aigues), sr. Gourdon (irmão do médico), Guerbet (coletor de Soulanges), Gravelot (comerciantes de madeira de Paris), Groison (suboficial da guarda imperial, guarda campestre em Blangy), Valdoyer (guarda campestre demitido), Langlumé (locatário do moinho do conde), Steingel, Vatel e Galhardo (guardas), Mouchon mais velho (administrador dos Ronquerolles, pai de duas filhas, uma casou com Gendrin e outra com Gaubertin filho), Mouchon segundo (posteiro de Couches, filha casou com granjeiro Guebert), Mouchon mais jovem (padre), Filha mais velha de Sibilet (casou com o professor Hervé), sr. Vigor (posteiro de La-Ville-aux-Fayes), Plisssoud (oficial de justiça), Urbano (antigo soldado empregado de Soudry), Amaury Lupin (filho de Lupin), sra. Lupin, Gregório (antigo beneditino, maire de Blangy), sra. Rigou, Anita (criada de Rigou), João  Tonsard (criado de Rigou e filho mais novo de Tonsar)

A história se passa entre 1823 e 1837. 

A lista de personagens não é exaustiva. Em um certo ponto me perdi com filhos que casam com outros filhos, que são primos de outros personagens... 


                                                Gaubertin, Rigou e Soudry: a "mediocracia" de La-Ville-aux-Fayes 

Os camponeses é um romance incompleto. A primeira parte foi publicada em folhetim em 1844 e foi republicada em 1855, juntamente com a segunda parte, cinco anos após a morte de Balzac. Como o romance estava adiantado, a publicação ficou coerente, ao contrário de Os Pequenos Burgueses e O Deputado de Arcis. Mas Paulo Rónai nos conta que o livro, de acordo com o plano de Balzac, deveria ter o dobro da extensão atual. 

Rónai nos fala da diferença de ritmo entre as duas partes do romance: "enquanto a primeira é uma vagarosa exposição épica, fazendo prever uma narrativa complexa e cheia de episódios, a segunda é um rápido suceder-se de incidentes bruscos, apenas esboçados e, ás vezes, surpreendentes". Ele caracteriza a primeira parte como um romance social no sentido mais amplo da palavra, e a segunda como uma narrativa romanesca do tipo tradicional (BALZAC, 1992, p. 17). 

Um ex-general, filho de um tapeceiro parisiense, que ficou famoso por suas façanhas na Batalha de Essling, feito conde de Montcornet por Napoleão, adquiriu o Château des Aigues e as terras que o cercavam na Borgonha, perto da pequena (imaginária) subprefeitura de La Ville-aux-Fayes. Apaixonado pela velha aristocracia (casou-se com uma "de Troisville" e sonhava ser par da França), o conde gostaria, para agradar a sua esposa, de se reconectar com os esplendores de antes da Revolução, reinando sobre um grande e  próspero domínio com sua autoridade militar.

Montcornet verá toda a sociedade rural unir-se secretamente contra ele, desde os burgueses rurais que são ainda mais vorazes que os burgueses das grandes cidades, até aos arrendatários mais miseráveis, que nunca param de lhe roubar descaradamente. Ao final, o Conde foi derrotado. O guarda Michaud, o único fiel a ele, foi assassinado. O assassino estava protegido pela lei do silêncio. O próprio conde foi ameaçado de morte. Ele vendeu Les Aigues, que seria dividida e o castelo, demolido.

Adaptei esse resumo da Wikipedia em francês de Les Paysans. Os vilões, pelo lado dos camponeses são os Tonsard, a burguesia rural é representada por Gaubertin e pelo avarento Rigou, com todos que os cercam. 

Balzac nos diz no começo da narrativa: 

"Não, o drama aqui não é restrito à vida privada, agita-se mais alto ou mais baixo do que ela. Não esperem paixão; nem por isso a verdade será menos dramática. De resto, o historiador jamais deve esquecer que a sua missão consiste em dar a cada um a sua parte: o rico e o desgraçado são iguais perante a sua pena; para ele o camponês tem a grandeza de suas misérias, como o rico, a pequenez de seus ridículos. Enfim, o rico tem paixões e o camponês, apenas necessidades: esse é, pois, duplamente pobre; e, se do ponto de vista político suas agressões devem ser reprimidas implacavelmente, do ponto de vista humano e religioso ele é sagrado" (BALZAC, 1992, p. 38). 

Balzac nos apresenta uma luta de classes, razão pela qual era um dos escritores favoritos de Engels e Marx. Aliás, Rónai nos diz que talvez seja a primeira obra literária na qual aparece, em 1844, o termo "comunismo": "a audácia com que o Comunismo, essa lógica viva da Democracia, ataca a Sociedade na ordem moral anuncia que a partir de agora o Sansão popular, tornando-se prudente, solapa as colunas sociais no porão em vez de sacudi-las no festim" (BALZAC, 1992, p. 104). Há muitas citações como essa. E interessantíssimas análises da Revolução Francesa, como as padre Brossette ( "A Revolução Francesa foi a vingança dos derrotados", p. 91). 

Os vencedores dessa luta, contudo, não são os mais pobres, são os seus exploradores imediatos: camponeses enriquecidos, taverneiros, usurários rurais, burgueses rurais, funcionários públicos corruptos. 

Todavia, é uma leitura muito complexa. O excesso de personagens, que muitas vezes aparecem e, somente várias páginas depois, são caracterizados, as ligações familiares entre eles, torna a história de difícil compreensão. Já li Guerra e Paz e Vida e Destino, não me assusto com obras com muitos personagens. Mas aqui, me perdi. Balzac exagerou. Creio que o plano da Comédia Humana exigia dele uma apreensão da realidade que, muitas vezes, resultava em confusão. 


A  imagem foi retirada de https://www.cosmovisions.com/textPaysans.htm 

 Acesso em 3 de novembro de 2023

BALZAC, Honore de. A Comédia Humana. Vol. XIII. São Paulo: Globo, 1992. 


domingo, 15 de maio de 2022

Um caso tenebroso

Um caso tenebroso (janeiro de 1841)

Volume XII: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Política, Cenas da Vida Militar

Personagens: Michu, Marta Michu, mãe de Marta, Francisco Michu, Gaucher (criado de Michu), Mariana (criada de Michu), Marion, Malin (conselheiro de Estado, Conde de Gondreville), Grévin (tabelião em Arcis), Corentin, Peyrade, Violette (granjeiro), Lourença de Cinq-Cygne, Paulo Maria e Maria Paulo Simeuse, sr. e sra. d´Hauteserre, Catarina, Gontardo, padre Goujet, srta. Goujet, Durieu (cozinheiro), Goulard (maire), Roberto d´Hauteserre, Adriano d´Hauteserre (Marquês de Cinq-Cygne), José Fouché, Marquês de Chargeboeuf, Beauvisage (granjeiro de Bellache), juiz Lechesneau, Pigoult  (juiz de paz), Bordin (procurador), sr. de Grandville (advogado), príncipe Talleyrand, Marcehal Duroc, Napoleão Bonaparte, Berta de Cinq-Cygne, Paulo de Cinq-Cygne, Princesa de Cadigan, Marquesa d´Espard, De Marsay, De Rastignac, Jorge de Maufrigneuse.

A história se passa entre 1803 e 1833. 

No Castelo de Cinq-Cygne

Neste romance, que Paulo Rónai acertadamente caracteriza como magnífico e opulento, temos uma amostra do que Balzac teria feito se tivesse vivido mais. Um caso tenebroso é uma história que se passa no período do Consulado (10 de novembro de 1799 a 18 de maio de 1804). Não por acaso, ele está, na Comédia Humana, após Um episódio do Terror ambientado na época da Revolução. Balzac nos deixou títulos não escritos como Os soldados da República, Os Franceses no Egito e Moscou. Sofrimento para o leitor balzaquiano não poder ler essas histórias!

Um caso tenebroso compõe a pré-história da Restauração e da Monarquia de Julho. Segundo Rónai, a história interessava a Balzac como repositório dos germes da época em que ele vivia. Lá ele buscava explicações para o que via e o que retratava.

Em setembro de 1800, o senador Dominique Clément de Ris foi raptado em seu castelo em Beauvais por um bando de ladrões. Dezenove dias depois foi libertado sem ter sofrido nenhum dano. José Fouché, Talleyrand e Clément de Ris haviam tramado um golpe contra Bonaparte, caso ele não fosse bem-sucedido na Itália. Com a vitória de Marengo, Fouché mandou seus homens resgatarem documentos comprometedores no castelo de Beauvais, que, por cautela, raptaram o senador. Porém, Napoleão ordenou a investigação e a punição dos culpados. Fouché fez com que um grupo de jovens realistas, desafetos seus, fossem acusados e executados. Balzac conhecia bem a história, pois o senador fora protetor de seu pai, Bernard-François Balssa.

No romance o senador Clément de Ris é Malin. Os acusados são os gêmeos Simeuse, os irmãos Roberto e Adriano d´Hautserre, e o empregado Michu. Eles, de fato, haviam conspirado contra Napoleão, mas, com o perdão do Cônsul, retornaram à França e, juntamente com o sr. e a sra, d´Hautserre e Lourença de Cinq-Cygne, torciam contra o futuro imperador, mas sem agir. A trama, que contou com a participação dos nossos conhecidos Corentin e Peyrade foi muito bem executada, de modo que os acusados, mesmo com a excelente defesa do advogado Grandville, foram condenados. Os nobres tiveram a pena convertida em ingresso no serviço militar e Michu foi condenado à guilhotina. Paulo Maria, noivo de Lourença, Maria Paulo e Roberto D´Hautserre morreram nas guerras napoleônicas. Uma melancólica Lourença casou com Adriano e teve dois filhos, Paulo e Berta. 

Lourença e Napoleão

Fazia algum tempo que não lia Balzac com tanta ansiedade, sem conseguir parar! Muito interessante os matizes que o autor apresenta dentro do espectro político pós-revolucionário. Temos realistas que se disfarçaram de jacobinos para sobreviver e prosperar, radicais que se acomodaram, realistas que aguardavam a volta do Antigo Regime, conspiradores, conformados, indiferentes - os nossos isentões - enfim - e em um quadro móvel. Com respeito ao Império, vários matizes de atitudes, especialmente da nobreza, da luta armada até a colaboração. Dá para entender por que Balzac recuou no tempo para melhor entender a Restauração.  

Temos uma amostra da justiça durante o Consulado, um sistema inquisitorial no qual "o diretor do júri era, ao mesmo atempo agente da polícia judiciária, procurador do Rei, juiz de instrução e corte real" (BALZAC, 1991, p. 155). Balzac critica o júri com o mesmo argumento que já vi membros do Ministério Público utilizarem: "Por isso, é bem possível que os juízes ofereçam aos acusados mais garantias que os jurados. O magistrado não se fia senão nas leis da razão, ao passo que o jurado se deixa impelir pelas vagas do sentimento" (BALZAC, 1991, p. 155). "A inocência nada mais tem por si do que o raciocínio; e o raciocínio que pode impressionar os juízes é muitas vezes impotente sobre o espírito prevenido dos jurados" (BALZAC, 1991 ,p. 172). 

Então, o próprio Napoleão Bonaparte entra na Comédia Humana. É uma cena curta, mas magnífica. Em 13 de outubro de 1806, no vale do rio Saale, em Jena na Prússia, Lourença consegue alcançar o Imperador para pedir clemência, na véspera de uma das maiores vitórias do Imperador. Lembremos que Balzac dizia que queria "conseguir com a pena o que ele [Napoleão] realizou com a espada", admiração que não impede que nosso autor o retrate de forma complexa. 
Mas "uma vez conhecido o julgamento, acontecimentos políticos da mais alta importância abafaram a lembrança desse processo em que não mais se falou. A sociedade é como o oceano, após um desastre retoma o seu nível e seu ritmo e apaga os vestígios pelo movimento de seus devoradores interesses" (BALZAC, 1991, p. 195). 

É no capítulo final, contudo, que Balzac se revela genial. Aqui, escrevendo ficção, ele nos dá uma lição do que é fazer história. História é uma versão do passado baseada em testemunhos que podem ser escritos, orais ou materiais. O passado não existe por si e é impossível apreendê-lo, pois os testemunhos, por mais numerosos que sejam (veja-se tudo que as redes sociais deixarão para os historiadores do futuro), são limitados. Em 1833, no salão da Princesa de Cadigan, De Marsay ao ver a Marquesa de Cinq-Cygne, Lourença, deixar o salão com a chegada do Conde de Gondreville, Malin, que também se retira, desvenda o mistério, revelando a conspiração de Fouché, Talleyrand e Malin. A narração, todavia, não é exata, "mesmo depois de todas as explicações, permanecem uns cantos obscuros, recurso engenhoso do romancista para fazer sentir a inextricabilidade da história, cujos acontecimentos nunca podem ser integralmente esclarecidos" (RÓNAI, 1991, p. 38). 
É um final que produz um efeito de real assombroso, com um recurso bem diferente do descrito por Roland Barthes. Leiam, por favor!

Fontes da imagens: 

Pierre Vidal — Honoré de Balzac, A Dark Affair. Philadelphia: George Barrie & Son, 1897. 

BALZAC, Honoré. A comédia humana. Volume XII. São Paulo: Globo, 1991. 
RÒNAI, Paulo. Introdução - um caso tenebroso. In: A comédia humana. Volume XII. São Paulo: Globo, 1991. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Ilusões Perdidas


Ilusões Perdidas (1835-1853)

Volume VII: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Provinciana (Lido entre 16 de julho de 2011 e 19 de dezembro de 2012)

Personagens: Jerônimo Nicolau Séchard, David Séchard, Luciano Chardon ou Luciano de Rubempré, senhora Chardon, Eva Chardon, senhora de Bargeton (Maria Luísa Anais de Negrepelisse), senhor de Bargeton, Padre Niollant, barão Sixto du Châtelet, senhor Postel, Amélia de Chandour, Estanislau de Chandour, Astolfo de Saintot, Elisa de Saintot, Adriano de Bartas, Josefina de Bartas, Alexandre de Brebain, Carlota de Brebian, Conde Jaques de Sénoches, senhora Zefirina de Sénoches, Francis de Hautoy Francisca, Marquês de Pimentel, Marquesa de Pimentel, Barão e Baronesa de Rastingnac (pais de Eugênio de Rastignac), senhora du Brossard, senhorita du Brossard, Gentil, Albertina, senhora d´Espard, senhor de Marsay, Felix de Vandenesse, general Montriveau, Canalis, Eugênio de Rastignac, Estevão Losteau, Florina, Finot, Feliciano Vernout, Emílio Blondet, Nathan, Dauriat, Camusot, Corália, D´Arthez, Bianchon, Leão Giraut, Miguel Chrestien, Girondeau, Cláudio Vignon, Condessa du Montcornet, senhorita des Touches (Camilo Maupin), Fendant, Cavalier, Courtois, senhora Courtois, Cérizet, irmãos Cointet, Kolb, Marion, Pedro Petit-Claud, Vitor Doublon, reverendo Carlos Herrera. 

A história se passa entre 1819 e 1842.

Ilusões Perdidas foi a primeira obra de Balzac que li, aos 22 anos. Não sabia quase nada sobre o autor, tampouco sobre a Comédia Humana. Gostei muito do livro e foi a partir daí que nasceu a ideia de ler toda a Comédia Humana
Ilusões Perdidas é uma espécie de síntese da Comédia Humana. É só ver a galeria de personagens acima que não é exaustiva. Além disso, Balzac transita da província para Paris e de Paris para a província, com aquelas caracterizações ambientais tão tipicamente balzaquianas. 
Apesar do imenso número de personagens, Ilusões Perdidas conta a história de um único: Luciano de Rubempré. Paulo Rónai considera Luciano uma das criações mais completas de Balzac, não tanto pelo personagem  mas por representar um tipo característico de uma época: os jovens que entre 1820 e 1840 foram inspirados pelo exemplo de Napoleão Bonaparte. Datam dessa época diversas narrativas de ascensão e queda, com as de Luciano e Rastiganc ou Julien Sorel, de Stendhal. 
A obra está dividida em três partes: Os dois poetas, Um grande homem da província em Paris e Os sofrimentos do Inventor.
Em Os dois poetas conhecemos o nosso herói em seu meio, a cidade de Angoulême. Filho de um boticário falecido, Luciano sonha com a glória literária. O outro poeta é David Séchard, também personagem notável. Com tendências à invenção, David herda uma tipografia de seu pai, o avarento Jerônimo Séchard, que praticamente vende a empresa ao filho, deixando-o em sérias dificuldades. Aqui Balzac nos apresenta o mundo das tipografias, que ele conhecia muito bem, com todos os seus costumes, vocabulário e problemas. David é o melhor amigo de Luciano e ao longo do romance se casará com sua irmã, Eva. David, Eva e a senhora Chardon, mãe de Luciano, nee de Rubempré, julgam o rapaz um grande talento literário e estão dispostos a fazer sacrifícios para que ele tenha sucesso em Paris. 
Mas o primeiro sucesso de Luciano é no salão da senhora de Bargeton. Maria Luísa Anais de Negrepelisse é quase uma "irmã" de Diná Piédefer, a Musa do Departamento. Culta, educada e casada com um homem bem mais velho, ela brilha na sociedade provinciana de Angoulême. E apaixona-se pelo poeta, "belo como um deus grego". Atento à relação dos dois, está o Barão Sixto du Châtelet, há muito interessado em Luísa. 
Luísa arrisca seu casamento levando seu protegido a Paris, onde pretende introduzi-lo à sociedade através de sua parente, a Marquesa d´Espard. Inicia-se a parte mais importante da história, Um grande homem da província em Paris
Uma das melhores passagens é quando Luciano, comparando Luísa com as parisienses, dá-se conta que ela é uma provinciana, e Luísa, comparando seu amado com os dândis de Paris, percebe que ele parece mesmo o filho de um boticário de província. Logo, Luísa, incentivada pela Marquesa, percebe o equívoco e passa a ignorar Luciano. É esse desprezo que motiva Luciano a vencer na cidade grande. Nesse ponto, ele encontra nosso já conhecido Estevão Lousteau (de Beatriz, Um Conchego de Solteirão e Musa do Departamento), jornalista em Paris. Aqui Balzac nos apresenta aos primórdios do jornalismo, nas palavras de Rónai "o escritor pegou in statu nascendi uma das instituições essenciais do século XIX, quando ninguém lhe percebia ainda a importância transcendental". Balzac era um crítico feroz da imprensa e se gabava de não dever favores a jornalistas. E a crítica que faz ao jornalismo em Ilusões Perdidas é deliberada.
"Os costumes do Jornal constituem um desses assuntos imensos que exigem mais de um livro e de um prefácio. Aqui o autor pintou os começos da doença que atingiu nos dias de hoje o seu completo desenvolvimento. Em 1821, o Jornal encontrava-se em suas vestes de inocência comparado com o que é em 1839. Se, porém, o autor não pode abraçar a chaga em toda a extensão, tê-la-á, pelo menos, enfrentado sem medo" (Balzac no prefácio da primeira edição de Um grande homem da província em Paris). 
Luciano mergulha, então, no mundo dos jornalistas, que negociam artigos, entradas para os teatros, atrizes. Aqui o mundo do jornal encontra-se com o mundo das editoras, dos teatros, enfim, "do dinheiro agindo desavergonhada e impiedosamente". O poeta torna-se amante de uma jovem atriz, Corália, passa a escrever artigos sob encomenda, consegue publicar seus livros, As boninas e O archeiro de Carlos IX, passa a se vestir na última moda parisiense e andar em companhia  de Emílio Blondet, de Nathan, de  Felix de Vandenesse, enfim, dos homens da moda. 
A advertência vem de Daniel D´Arthez, o escritor devotado ao seu ideal, que recusa a vender sua pena em troca de glória. Segundo Stefan Zweig, Luciano e D´Arthez formam um par que encerra a dupla natureza de Balzac: "Nessa obra Balzac apresenta em duas personagens o que será ou poderá ser um escritor se este persistir rigorosa e fielmente em si e em sua obra ou se ceder à tentação de uma celebridade rápida e indigna. Luciano de Rubempré é seu perigo mais íntimo, e Daniel D´Arthez, o seu mais íntimo ideal. Balzac conhece a duplicidade de sua natureza, sabe que nele existe latente um escritor que inviolavelmente aspira ao máximo, recusa a si toda a concessão, repele todo o acordo e está inteiramente só no meio da sociedade. Mas igualmente reconhece a sua segunda natureza, reconhece em si o folgazão, o pródigo, o aristocrata,  o escravo do dinheiro, o indivíduo que constantemente incorre nas seduções do luxo". 
Mas Luciano prossegue e consegue chamar a atenção de Luísa, que promete conseguir junto ao rei que Luciano possa adotar o nome nobre de sua mãe. Mas tudo dá errado. Luciano faz uma aposta política equivocada, Corália cai em desgraça no teatro, adoece a acaba morrendo, os pretensos amigos jornalistas o abandonam e ele se vê obrigado a voltar incógnito para a província. 
Na terceira parte, Os sofrimentos do Inventor, é David Séchard o personagem principal. Aqui Balzac explora mais um aspecto de sua personalidade, a de inventor desastrado. David lutava com dificuldades para manter a sua tipografia, antiquada em comparação com as outras da época, e tentava descobrir uma fórmula para fabricar papel branco mais barato. Balzac explica em detalhes as suas experiências. Ao mesmo tempo, os inescrupulosos irmãos Cointet, tipógrafos concorrentes de David, fazem de tudo para roubar suas descobertas e para dificultar a sua vida. Balzac aqui envereda para o direito comercial, narrando com minúcias o protesto de uma letra. 
Luciano, derrotado, é ainda assim homenageado pelos seus conterrâneos. Volta e encontrar Luísa, agora casada com Sixto du Châtelet, que tornou-se prefeito de Charente. Mas, acaba, por um golpe do traidor Cérizet, empregado de David, sendo responsável pela prisão do cunhado. 
No final, David é libertado, abandona as invenções, e com a herança recebida do pai, passa a ter uma vida tranquila com Eva a os filhos. 
Luciano vai embora arrasado de Angoulême e encontra em seu caminho o misterioso reverendo espanhol Carlos Herrera.
Paulo Rónai considera Ilusões Perdidas o mais balzaquiano dos romances da Comédia Humana e aponta que ele foi subestimado  pelos contemporâneos do escritor, pelo fato de Balzac ter, como era seu costume, apresentado várias versões da obra: "Aparecem, pois, nesse livro imenso, quase todos os ambientes de Balzac, e não é pouco. Quase todos os assuntos também: a ambição; a monomania; o amor sob várias formas (o da mulher madura ao adolescente, o da cortesã ao rapaz bonito, o da esposa ao marido); as lutas do gênio com o ambiente; a conspiração da sociedade contra o indivíduo saído de sua esfera; as alegrias e as misérias da glória; a luta de gerações; a vingança do amor-próprio ferido; o grande tema de Paris; a chaga enorme devorando a França...". 



sábado, 17 de junho de 2023

A Bretanha em 1799

A Bretanha em 1799 (agosto de 1827 ou 1829?)

Volume XII: Estudos de Costumes: Cenas da Vida Política, Cenas da Vida Militar. 

Personagens: Comandante Hulot, Gérard (ajudante), Capitão Merle, Pé de Poeira (Pedro), Subtenente Lebrun, Pé Bonito (João Falcon), padre Gudin, Gars-Maruqês de Montauran, Furta Pão (Cibot), Coupiou (condutor), Jacques Pinaud (Orgemont de Fougères), Francine, Maria Natália de Verneuil, Corentin, Sra. do Gua, Barão de Guénic, major Brigaut, Conde de Bauvan, Furta Pão, Barbette, Galopa  Caneca, Cavaleiro do Vissard (Rifoel).

A história se passa em 1799. É o primeiro livro de Cenas da Vida Militar. 


Maria conhece o Gars e Sra. de Gua
A Bretanha em 1799 ou Les Chouans foi o primeiro livro assinado por Balzac. Segundo Paulo Rónai foi quando, pela primeira vez se manifestaram as características do escritor Balzacc como o cuidado em corrigir o livro e a superioridade com que tratou seu editor, Henri de Latouche. É um romance histórico à moda de Walter Scott, em voga na época com o acréscimo de uma intriga amorosa. 
A história diz respeito à denominada Chouannerie, uma revolta de camponeses ocorrida na região da Bretanha contra a Revolução Francesa. Eles usavam táticas de guerrilha e imitavam o grito da coruja (chouin no dialeto bretão). De acordo com a Enciclopédia Britânica, a motivação era menos a devoção à monarquia do que o ressentimento pela interferência da república com o modo de vida dos Chouans, como o fim do contrabando em função da abolição da gabela (imposto sobre o sal), medidas contra o clero e a conscrição obrigatória . 
Acompanhamos um grupo de conscritos bretões escoltados pelo comandante Hulot, conhecido nosso de A Prima Bete. Eles são atacados pelos Chouans. Um líder vendeano, um jovem nobre alcunhado de Gars, o Marquês de Montauran, vem do exterior para unir a Vendeia e a Bretanha. Para detê-lo, José Fouché (1759-1810), que já aparecera em Um Caso Tenebroso , através do nosso já conhecido Corentin (Um Caso Tenebroso, Esplendores e Misérias das Cortesãs) envia uma bela sedutora, Maria de Verneuil. O Gars e Maria se apaixonam no primeiro encontro. Um armadilha de Corentin, porém, faz com que Maria denuncie seu amado. Ela descobre a trama, mas é tarde demais. Eles se casam e morrem juntos na manhã seguinte. 
Como bem destaca Rónai, há muito da primeira fase de Balzac, a qual ele renegou, nesse romance. A história de amor é um tanto mirabolante, há fugas, esconderijos, tesouros. Os personagens são fracos e esquemáticos (segundo críticos, isso pode ser em função de alterações posteriores do romance para se encaixar na Comédia Humana). Mas há também muito de Balzac aí. A história não é real, mas o escritor pesquisou, de modo a nos dar incríveis descrições da paisagem da Bretanha, das casas e do modo de vida dos Chouans. A missa rezada pelo padre Gudin no bosque e o assassinato de Galopa Caneca pelos seus companheiros por uma suposta traição são momentos superiores da obra. 
Aliás, a traição perpassa toda a história. Azuis (republicanos) e Brancos (contrarrevolucionários) se acusam mutualmente de traidores, do rei, no primeiro caso, e da pátria, no segundo. E Maria e Montauran passam por várias possibilidades de traírem um ao outro. No final, acreditando que Montauran a trai com De Gua, Maria o trai, entregando-o aos Azuis. 
Eu confesso que esperava mais, muito em função da fama de A Bretanha em 1799. Minha leitura foi demorada, sem aquela pressa que tenho, aquele não conseguir largar o livro. Sinal de que estou mal acostumada com o meu historiador de costumes!
 


A imagem é de E. Toudouze — Honoré de Balzac, The Chouans. Philadelphia: George Barrie & Son, 1897