segunda-feira, 30 de maio de 2011
O Pai Goriot (setembro de 1834) - 2ª parte
terça-feira, 24 de maio de 2011
O Pai Goriot (setembro de 1834) - 1ª parte
Personagens: senhora Vauquer, senhora Couture, Victorina Taillefer, senhorita Michonneau, pai Goriot, Vautrin (Jacques Collin), cozinheira Sílvia, Eugênio de Rastignac, criado Cristóvão, senhor Poitet, Horácio Bianchon, Conde de Restaud, Anastácia (condessa de Restaud, née Goriot), conde Máximo de Trailles (amante de Anastácia), senhora de Beauséant, Marquês d´Ajuda Pinto, senhorita de Rochefilde, Delfina (baronesa de Nuncigen, née Goriot), barão de Nuncigen, senhor de Marsay (ex-amante de Delfina).
A história se passa entre novembro de 1819 e 21 de fevereiro de 1820.
O Pai Goriot é a “joia da coroa”. Balzac começou a escrever bons romances por volta de 1830. Em 1833, teve seu primeiro sucesso de público e crítica com Eugênia Grandet. Um ano depois, apresentou, com O Pai Goriot, a grande inovação da Comédia Humana - a recorrência de personagens. É sobre ela que falaremos nesse primeiro post.
Existe uma espécie de lenda sobre a forma como Balzac teve a ideia de fazer seus personagens retornarem nos romances. Laure Surville, irmã de Balzac, escreveu uma biografia do escritor em 1858. Laure conta que em um ocasião Balzac chegou à sua casa no faubourg Poissonnière com o rosto iluminado e declarou: “Me dêem as boas vindas, pois estou prestes a me tornar um gênio”. Balzac teria tido uma epifania enquanto caminhava para a casa de Laure: “Por que não ligar os personagens entre si para formar uma sociedade completa?”. Segundo Stéphane Vachon, tal relato é pouco crível. A “trouvaille” ocorreu em 1833. E Balzac somente a utilizou em meados de 1834 em O Pai Goriot. Com tamanho entusiasmo, Balzac iria esperar um ano para impressionar seu público?
Vachon comenta que a ideia balzaquiana que consiste em fazer circular os personagens de um romance a outro de modo que a justaposição de narrativas constitua a história de uma sociedade inteira foi elaborada progressivamente, por aproximações sucessivas, por tentativas parciais, locais e isoladas, por tentativas pontuais e não premeditadas. “Foi verdadeiramente em O Pai Goriot que Balzac começa a aplicar sistematicamente o procedimento que faz reaparecerem os personagens dos romances anteriores. Essa “invenção” não foi uma simples epifania: ela acompanha uma concepção metódica, ambiciosa e nítida da obra ao mesmo tempo que uma visão global, lógica e precisa da sociedade. Momento decisivo, com efeito, na história e na gênese do grande empreendimento balzaquiano e na história de todo o gênero romanesco, O Pai Goriot une com força e autoridade uma experiência (do mundo), uma técnica (romanesca) e um pensamento (sobre a literatura e seus poderes)”.
São 48 personagens da Comédia Humana que aparecem e reaparecem em O Pai Goriot. A técnica não foi bem recebida pela crítica ao tempo da publicação. O crítico do L´Impartial em 8 de março de 1835 caracterizou a inovação como um “capricho de um homem convencido do valor de suas criações”. Em 21 de outubro de 1838, na Revue de Paris, Amédée Pichot declarou: “ Ah, se M. de Balzac soubesse a imensa chatice que é ver o tempo todo reaparecerem as mesmas figuras com as mesmas manias, os mesmos nomes próprios, seguidos dos mesmos sobrenomes, ele arrancaria de um só golpe a cabeça de todos esses personagens que, depois de sete anos, caminham sem cessar para chegar a lugar algum, discutem o tempo todo sem nada concluir”. Alguns anos depois foi Sainte-Beuve que criticou o achado balzaquiano: “Os personagens que retornam nos romances já figuraram pelo menos uma vez em outros textos de M de Balzac. Quando são personagens interessantes e verdadeiros, creio que reproduzi-los é uma ideia falsa e contrária ao mistério que sempre envolve um romance. (...) Graças a essa multidão de biografias secundárias que se prolongam, retornam e se intercruzam sem cessar, a série de Estudos de Costumes de M. de Balzac parece uma rede de corredores de certas minas ou catacumbas. Ou nos perdemos e não mais nos achamos, ou, se nos achamos, não reconhecemos mais nada”.
Foi outro painelista da sociedade francesa, Marcel Proust, que respondeu à crítica de Sainte-Beuve. Para Proust o crítico não entendeu a “idéia de gênio” de Balzac. “Lançando sobre suas obras um olhar a um só tempo de um estrangeiro e de um pai, dando a esse a pureza de Rafael, a esse outro a simplicidade do Evangelho, Balzac projeta sobre eles uma iluminação retrospectiva de modo que eles estarão melhor representados em um ciclo no qual os mesmos personagens retornam.”.
Houve contemporaneamente a Balzac alguns entusiastas da sua ideia, como Félix Davin, que compreendeu a intenção de Balzac de criar um “afresco social”. É o próprio escritor, contudo, de dá sua explicação em um prefácio à primeira parte das Ilusões Perdidas escrito em fevereiro de 1837: “Cada romance não é nada mais do que um capítulo do grande romance da sociedade. Os personagens de cada história se movem em uma esfera que não possui outra circunspecção que não a da sociedade “.
Claro que isso não era mágico. Balzac, ao começar a por em prática a sua ideia, trocou personagens de seus romances iniciais por outros que figuravam em seus trabalhos mais recentes. Às vezes, bastava mudar o nome, em outras, alterava dados biográficos. Eugênio de Rastignac, por exemplo, era Eugênio de Massiac. Ficaram, naturalmente, incoerências nos textos
O resultado, como já comentamos em outros posts, é que, às vezes, conhecemos um personagem sem que conheçamos seu passado, que nós é apresentado posteriormente. Conhecemos por exemplo o destino de Anastácia de Restaud em Gobseck, mas só descobrimos seu passado em O Pai Goriot. Em A Mulher Abandonada acompanhamos a resistência de Clara de Beausant a Gastão de Nueil, mas é em O Pai Goriot que entendemos seu comportamento pela traição de d´Ajuda Pinto. Em Uma Filha de Eva assistimos a atitude compreensiva de Felix de Vandenesse para com a esposa Maria Angélica, prestes a o trair. A explicação virá em Lírio do Vale. Por sua vez a imaturidade de Maria Angélica é em parte explicada pela história de seus pais em Uma Dupla Família. Há, naturalmente falhas, como o caso de Lady Brandon, de O Romeiral, cujo infeliz destino ficou sem explicação. Mas é digno de nota que os erros e imprecisões temporais sejam muito poucos para um escritor que escrevia freneticamente, não tinha ajudantes e dispunha apenas de sua pena.
As citações foram retiradas do dossiê de Stéphane Vachon da edição de Le Père Goriot da Librairie Générale Française - Le Livre de Poche de 1995 com tradução minha.
sábado, 18 de junho de 2011
O Coronel Chabert (fevereiro/março de 1832)
quinta-feira, 31 de março de 2011
A mulher abandonada (novembro de 1832)
domingo, 11 de fevereiro de 2018
Esplendores e Misérias das Cortesãs
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Eugênia Grandet (setembro de 1833)
A história começa em 1819 e termina por volta de 1829.
Paulo Rónai nos conta que Eugênia Grandet foi o primeiro sucesso de público e crítica de Balzac. Foi escrito em um período especial: entre o primeiro encontro com Eveline Hanska em Lausanne, quando se conheceram pessoalmente, e o segundo, em Genebra, quando se tornaram amantes. Foi, portanto, um apaixonado Balzac que escreveu a história do amor fiel e exaltado da provinciana Eugênia Grandet.
A fórmula do início é tipicamente balzaquiana e nossa conhecida: um retrato da família Grandet na cidade de Samur. A descrição da sala da casa Grandet nos conta quase tudo sobre a família que a habita. E aí aparece o personagem que ofusca a heroína: o tanoeiro Grandet. Ele passava os dias fazendo negócios lucrativos e as noites encerrado no quarto contando seus milhões. E apesar das vultosas quantias entesouradas, submetia esposa e filha a uma vida no limite da sobrevivência: “Durante quinze anos, todos os dias da mãe e da filha haviam decorrido placidamente naquele lugar, em constante trabalho, desde abril até novembro. No dia 1º deste último mês elas se transferiam para junto da lareira, a fim de passar o inverno. Somente nesse dia Grandet permitia que se acendesse o fogo na sala. E o fazia apagar a 31 de março, indiferente ao frio dos primeiros dias da primavera e do outono”.
A austera casa Grandet era frequentada por dois grupos: os Cruchots e os Grassins. O sobrinho do senhor Cruchot, presidente do tribunal de primeira instância de Samur, o o jovem Adolfo de Grassins aspiravam à mão da rica Eugênia. Grandet, que não pretendia dar a filha a nenhum dos dois, jogava com esses interesses para obter favores e aumentar sua fortuna.
O equilíbrio foi rompido pela chegada de Paris do sobrinho de Grandet, o belo Carlos. O rapaz, um típico dândi parisiense, vestido na última moda e já dotado de uma amante casada, chegou a Samur, enviado pelo pai, irmão do velho avarento. Carlos trouxe uma carta fechada na qual o pai contava a Grandet a sua falência, a desgraça de seu nome na praça em Paris e anunciava o seu suicídio. Pedia a Grandet que ajudasse o sobrinho. Grandet conseguiu, utilizando os serviços de des Grassins, suspender a falência do irmão. E preparou a viagem de Carlos para as Índias. Nesse meio tempo, o romance. Eugênia e Carlos se apaixonaram: juraram amor eterno e a moça emprestou ao amado grande quantia de dinheiro que guardava. Carlos partiu. Grandet, ao descobrir o sumiço do tesouro da filha, ficou fora de si. Trancou-a no quarto a pão e água. O desentendimento entre pai e filha agravou a enfermidade da senhora Grandet, que veio a falecer. No final de 1827, aos oitenta e três anos, foi a vez do velho Grandet. Antes, iniciou Eugênia nos mistérios da enorme fortuna. Eugênia, já nas casa dos trinta, esperava por Carlos. Seus pretendentes continuavam a frequentar a casa, mas cada vez mais desanimados. Em 1828, Carlos retornou. Refizera a sua fortuna, mas esquecera a prima. Logo arranjou um casamento de conveniência com a senhorita d’ Aubrion, uma jovem sem fortuna e atrativos, mas com pais bem relacionados e com a partícula. Ao ser interpelado por des Grassins para pagar as dívidas do pai e reabilitar seu nome, recusou-se a fazer dizendo que adotaria o nome do sogro. Eugênia, ao saber de tudo, fez um acordo com o juiz Cruchot: se casaria com ele, mas seria um casamento de fachada. Em troca ele deveria procurar o primo, devolver seus pertences e quitar a dívida do tio. Carlos descobriu tarde demais o quão rica era a prima. E Cruchot, que utilizou seus conhecimentos jurídicos para fazer um acordo matrimonial desvantajoso para Eugênia, foi apanhado pela fortuna: faleceu pouco tempo depois do matrimônio. Eugênia, ao final, estava sozinha.
Entende-se o sucesso de Eugênia Grandet. Mesmo sem o toque de gênio de Pai Goriot, o romance tem tudo o que Balzac sabe de melhor fazer. Em primeiro lugar, os personagens. Grandet é um dos grandes avarentos da literatura. Balzac conseguiu criar um avarento humano, bem menos caricatural que Gobsek. Ele distribuía pela manhã os víveres para o dia, obrigando a criada, a mulher e a filha a contrabandear comida. Mas seu amor pela filha e sua devoção pela esposa eram reais e o faziam, muitas vezes, fraquejar.
Eugênia é mais uma versão da virgem francesa de Balzac, a jovem que passa a viver quando descobre o amor. Surpreende, contudo, ao casar com Cruchot e humilhar o primo, pagando suas dívidas. E é encantador ver como ela trazia o velho Grandet dentro de si. Depois da morte do pai, ela manteve os mesmos hábitos avarentos. Ela só não era considerada avara na comunidade por seus trabalhos e doações para caridade.
A criada Nanon é uma forte personagem de apoio. Humilde e orgulhosa, comparsa e opositora das rabugices de Grandet. Acabou casada, como uma boa burguesa, após a morte do patrão. São muitos exemplos da incoerência orgânica que é a prova inequívoca da vida real.
Um segundo ponto, são as intrigas que Balzac consegue articular tão bem, sobretudo na província. As visitas do cruchonistas e grassinistas à casa Grandet atrás do ouro de Eugênia garantem os momentos cômicos do romance. Só que aqui as tramoias não roubam a cena, como em Úrsula Mirouët. Elas fazem um bom pano de fundo para ação que começa com a chegada de Carlos.
Finalmente, o amor segundo Balzac. O amor de Eugênia é totalmente idealizado. Ela se apaixonou pelo primo, à primeira vista, e devotou sua vida a esperá-lo praticamente sem conhecê-lo. O Carlos que aparece em 1828, é bem diferente do rapaz que chorou por dias a morte do pai. Em duas deliciosas páginas que Rónai denomina de “educação sentimental” de Carlos, surge um homem frio, calculista, envolvido em negócios nada morais, como tráfico de escravos. Ele era, afinal, um Grandet. A solução de Balzac poderia ter sido um casamento infeliz com Carlos, como o de Augustina Guillaume. Um final feliz com Carlos, como o de Adelaide, em A Bolsa. Um casamento feliz com Cruchot, como o de Modesta Mignon (que se apaixonou por Canalis, mas escolheu la Brière). Balzac escolheu um fim pragmático. Um casamento de fachada com Cruchot, para contentar a comunidade, e a viuvez precoce. Balzac apaixonado parecia pensar que se ama somente uma vez na vida. Mas no final, ele diz que Eugênia ainda poderia vir a se casar.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
A Casa Nuncingen
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Gobseck (1830)
A história se passa entre 1829 e 1830.
Gobseck apresenta ao publico mais um grande personagem de Balzac e confirma o talento do escritor para criar personagens torpes e de moral duvidosa. A história da traição de Anastácia de Restaud é eclipsada por um personagem fascinante: o avarento Gobseck. Como afirma Paulo Rónai, Balzac cria um avarento que não é um tipo esquematizado, é uma personagem rica e cheia de individualidade.
O advogado Derville, ao ver que Camila estava interessada em Ernesto de Restaud, contou uma história a ela e sua mãe por ele presenciada. Anastácia de Restaud, mãe de Ernesto, pediu dinheiro e empenhou jóias ao agiota Gobseck para pagar dívidas de um amante, Máximo de Trailles. Seu marido descobriu, pagou a dívida para preservar seu nome, mas fez um acordo com o avarento: passou todos os seus bens para o nome de Gobseck que, quando chegasse a hora, os passaria para Ernesto.
A história de Anastácia está relacionada a outra história da Comédia Humana: Anastácia é uma das desalmadas filhas do Pai Goriot. Seu fim infeliz, provavelmente, deve-se mais à crueldade com que tratou o pai do que ao adultério.
sexta-feira, 18 de março de 2011
O Romeiral (agosto de 1832)
A história se passa em um ano indefinido no período da Restauração.
O Romeiral é um conto que denuncia a incompletude da Comédia Humana. Desconhecemos as causas dos acontecimentos narrados na obra e elas não aparecem em outras partes da Comédia Humana, exceto vagas alusões em O Lírio do Vale e um trecho cortado em O Pai Goriot.
O Romeiral narra os últimos meses da vida de Augusta, Lady Brandon, em uma propriedade chamada Romeiral (Le Grenadière) em Tours. Lá ela, doente, prepara os filhos Luís-Gastão e Maria-Gastão para uma vida de privações após a sua morte. Lady Brandon cometeu um erro, mas não se sabe qual. Após a sua morte, Maria-Gastão foi para o colégio e Luís tornou-se marinheiro.
Maria-Gastão já é nosso conhecido. Ele foi o segundo marido de Luísa de Chaulieu em Memórias de Duas Jovens Esposas. Luísa desconfiou de sua fidelidade ao surpreendê-lo com outra mulher. Descobriu, após, que a moça, que tinha um filho, era sua cunhada viúva. Sabemos então que Luís falecera deixando a esposa e um filho e que Maria sustentava a família do irmão. Em O Romeiral encontramos Maria-Gastão na infância. Vemos o afeto e carinho com que era tratado por Luís, o que explica sua devoção à família do irmão. E conhecendo a perda precoce da mãe, a ausência do pai e a vida dura que se seguiu à morte da genitora, entendemos a sensibilidade de Maria-Gastão que conquistou a apaixonada Luísa.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Pierrete - primeira história de Os Celibatários (novembro de 1839)
A história se passa entre 1827 e 1830.
Pierrete é, assim como Pai Goriot, uma análise do mal. Nessa história, Balzac usou sua experiência na advocacia e em um tabelionato. Ele relatou em cartas a enorme quantidade de injustiças que presenciou em contato com o sistema legal. Há um processo na história. E Pierrete reflete também, pois foi escrita na mesma época, o envolvimento de Balzac na defesa de um advogado conhecido seu, Sébastien Peytel, que fora acusado de assassinar a esposa e um criado. Apesar dos esforços de Balzac, que chegou a escrever a Lettre sur le procés de Peytel, o acusado foi condenado e executado. É um Balzac sombrio, portanto, que escreveu a história, caracterizada por ele, em carta para a condessa Hanska como “uma pérola suada no meio das minhas dores”.
Pierrete Lorrain era uma órfã bretã que após a morte precoce dos pais ficou aos cuidados dos avós em um asilo. Seus únicos parentes eram os primos Rogron, filhos de um hoteleiro de Provins, que, ainda bem jovens, foram enviados a Paris para trabalhar no comércio. Depois de alguns anos de trabalho, Sílvia e Rogron receberam a herança do pai e resolveram retornar a Provins e viver como burgueses. Nesse meio tempo, receberam uma carta questionando se não queriam ficar com Pierrete, já que a prima não tinha meios e estava vivendo com os avós em situação precária. Os Rogron, ao chegarem em Provins, reformaram a casa e fizeram esforços no sentido de integração com a sociedade local, dominada pelos Tiphaines. Considerados pouco refinados e desagradáveis, foram repelidos pelas famílias mais importantes. Isolados e levando uma vida vazia, resolveram “adotar” a prima. O coronel Gouraud e Vinet, liberais interessados no dinheiro dos Rogron, se aproximaram dos irmãos. Conseguiram convencer Rogron a financiar um jornal liberal para fazer oposição aos Tiphaine, que apoiavam os Bourbon. Pierrete chegou e logo percebeu que o motivo de sua adoção não fora afetivo. Os irmãos, e especialmente a solteirona Sílvia, a tratavam com frieza. A frieza logo se transformou em crueldade. A criada Adélia foi despedida e Pierrete passou a fazer todo o serviço da casa. A menina já não era muito saudável e, aos poucos, ficava mais doente. A certa altura, Sílvia, que estava pretendendo casar com o coronel Gouraud, começou a desconfiar que ele estava interessado em Pierrete. Numa ocasião, surpreendeu um homem tentando se comunicar com Pierrete pela janela. Era o jovem Brigaut, companheiro de infância de Pierrete que viera da Bretanha. Mas a solteirona julgou que era o coronel e passou a perseguir e maltratar ainda mais a menina. A doença de Pierrete já era notada por todos. Mas Sílvia se recusava a chamar o médico. Vinet, querendo dominar os Rogron, arranjou o casamento de Bathilde de Chargeboeuf, prima de sua mulher, com o solteirão.
Brigaut, ao notar o estado lastimável de Pierrete, foi atrás de sua avó. A viúva Lorrain havia recebido um dinheiro que havia sido furtado de seu marido. Foi para Provins e retirou Pierrete da casa dos Rogrons. O caso se transformou numa disputa política. Os Tiphaine promoveram um processo contra Sílvia. Vinet, atuando como advogado, utilizava todos os subterfúgios do mundo jurídico (diligências, adiamentos, consignações, tudo bem conhecido de Balzac) para tornar o processo inútil. Pierrete morreu, apesar da vinda de Paris do nosso conhecido doutor Horácio Bianchon.
Em 1830, Vinet foi eleito deputado e os Tiphaine aderiram a Luís Felipe, passando então a frequentar o mesmo grupo. O processo não resultou em nada. O caso Pierrete foi esquecido e a história deturpada. Somente o Major Jacques Brigaut e o doutor Martener, que cuidou da menina, ainda lembravam da órfã.
Balzac mostrou em Pierrete novamente o seu talento de desenhar o caráter pela descrição. A descrição da decoração da casa dos Rogron em Provins evidencia a sua estupidez, a sua falta de personalidade e o vazio de sua existência. Igualmente se destacam na obra as intrincadas intrigas provincianas que Balzac conhecia tão bem.
O autor utiliza, além de sua experiência no mundo jurídico, uma dolorosa experiência pessoal. Os burgueses, nos séculos XVIII e XIX, enviavam seus filhos recém-nascidos para serem amamentados por camponesas. As crianças ficavam por vários anos morando nas casas de suas amas, algumas em outras cidades. Balzac explica isso como uma hábito das mulheres durante o Império: “As mulheres disputavam os heróis do império, e 99% da mães entregavam os filhos às amas-de-leite”. Balzac passou os primeiros anos da infância no povoado de Saint-Cyr, do outro lado do rio Loire, na cidade de Tours. Retornou à casa dos pais com quatro anos. Ele escreve sobre os Rogron: “Amamentados no campo mediante baixa remuneração, as infelizes crianças voltaram para casa com a terrível educação aldeã: habituadas a gritar demoradamente, muitas vezes pelo seio da ama, que saía para o campo e os deixava encerrados num desses quartos escuros, úmidos e baixos que servem de moradia ao camponês francês”. Ele estava familiarizado com esses quartos.
Ao que tudo indica, Pierrete deveria ter um final feliz. A recuperação da fortuna pela avó encaminhava um desfecho favorável com a órfã vivendo ao lado dela e futuramente desposando Brigaut. Além disso, a história era um presente de Balzac para a menina Anna Hanska, filha de Eveline. Foi a morte de Peytel na guilhotina em 28 de outubro de 1839 que conferiu ao romance o acento pessimista.
Todavia, não esqueçamos que o pessimismo é uma característica de Balzac. Os bons e inocentes sofrendo e os maus e interesseiros triunfando aparecem em toda a Comédia Humana. É a justiça maniqueísta, como em Alberto Savarus, que parece sempre forçada vindo da pena de Balzac.
sexta-feira, 8 de julho de 2022
O deputado de Arcis
O deputado de Arcis (1847)
Volume XII: Estudo de Costumes: Cenas da Vida Política, Cenas da Vida Militar
Personagens: sra. Marion, coronel Giguet, Simão Guiget, Grévin (tabelião), Philéas Beauvisage (genro de Grévin), Severina Beauvisage (née Grévin), Varlet filho (médico), Cecília Beauvisage, Francisco Keller (genro do Conde de Gondreville, Malin), Carlos Keller (filho de Francisco), Marechala de Carigliano (filha de Malin), Aquiles Pigoult (tabelião, sucessor de Grévin), Poupard (hospedeiro), João Violette, Antonino Goulard (subprefeito), Olivério Vinet (procurador substituto), Frederico Marest (procurador do Rei), sr. Martener (juiz), sr. Mollot (escrivão), sra. Mollot, srta. Ernestina Mollot, Juliano, Gontardo, Anniette, Paraíso, Marquesa d´Espard, Cavaleiro d`Espard, De Rastignac, Condessa de Rastignac (filha de Delfina de Nuncingen), Máximo de Trailles.
A história se passa em 1839
O deputado de Arcis é um livro inacabado. Tem somente a primeira parte, A Eleição. Mas, ao contrário de Os pequenos burgueses, lamentamos muito não ter a continuação da história. É o mesmo ambiente e personagens de Um caso tenebroso, 33 anos depois do caso judicial dos Cinq-Cygne. Paulo Rónai nos diz na introdução que que O deputado de Arcis alarga a complexa perspectiva de Um caso tenebroso e "aprofunda em nós a sensação do histórico".
| Philléas Beauvisage |
Na parte que conhecemos o protagonista é Simão Giguet, sobrinho da sra. Marion, viúva de Marion, recebedor geral, irmão do Marion que foi testa de ferro de Malin no passado. Simão decide apresentar-se como candidato de oposição nas eleições à Câmara nacional. O posto era, desde 1816, de Francisco Keller, genro do Conde de Gondreville, nosso conhecido Malin. Keller, nomeado par de França, desejava transmitir ao filho Carlos, sua sucessão eleitoral. Mas "eleger o jovem comandante Keller, em 1839, depois de ter eleito o pai durante vinte anos, revelava uma verdadeira servidão eleitoral, contra a qual se revoltava o orgulho de vários burgueses enriquecidos, que julgavam valer tanto como um sr. Malin, Conde de Gondreville, e como os banqueiros Keller irmãos, e os Cinq-Cygne, e até mesmo o rei dos franceses!" (BALZAC, 1991, p. 230). Esse foi o contexto da candidatura de Simão Giguet.
Há inclusive a insinuação de que Gondreville, aqui com 80 anos, proporia um "filho da terra" como candidato, que cederia seu lugar à Carlos Keller. Há a insinuação de que esse candidato laranja poderia ser Philéas Beauvisage, genro do tabelião Grévin, e filho do granjeiro de Bellache, de Um caso tenebroso. Simão desejava também a mão de Cecília Beauvisage, filha de Philéas (ou filha de um Visconde de Chargeboeuf que era subprefeito em Arcis na época do seu nascimento). Herdeira rica, faria o sonho da mãe, Severina, de morar em Paris e frequentar à alta sociedade. Mas a jovem, ou melhor, sua família, tinha em vista Carlos Keller para noivo.
Mas eis que chegou a notícia de que Carlos Keller morreu em guerra na África. Aparentemente o caminho estava livre para Simão. Mas eis que chegou à cidade um nobre desconhecido. "Não há cidade pequena na França na qual, num momento dado, não se represente o drama ou a comédia do forasteiro. Muitas vezes este é um aventureiro que faz vítimas e se vai, levando a reputação de uma mulher ou o dinheiro de uma família" (BALZAC, 1991, p. 276). Não há como não recordar de O Inspetor Geral de Gógol...
O desconhecido não era ninguém menos do que Máximo de Trailles, conhecido dândi, colecionador de mulheres e financeiramente arruinado. Ele vai para Arcis para se candidatar a deputado e garantir a candidatura para a Monarquia de Julho. A decisão foi tomada em Paris, no salão da Marquesa d´Espard, dois meses antes da reunião que abre o romance, que lançou a candidatura de Simão. Sabemos que Máximo manteve conversas com Gondreville e com os Cinq-Cygne, arqui-inimigos em função do caso judicial do passado. E que seus modos finos e a sua equipagem despertaram o interesse de Cecília. Contudo, Balzac parou aqui.
A trama é tipicamente balzaquiana, com as descrições de ambientes e dos aspectos físicos e psicológicos. O diferencial de O Deputado de Arcis é o proveito que Balzac tira da sua "invenção", de mostrar o passado ou o futuro das sua personagens. O recurso que, em alguns romances, fica um pouco artificial, aqui é utilizado de forma brilhante. Os desfechos iluminam as histórias pregressas. A amizade de Grévin e Malin, a ascensão do filho do granjeiro Beauvisage, o ministro De Rastignac, o jovem que olhou Paris do alto da colina do Père-Lachaise no enterro do Pai Goriot.
O desfecho seria o sucesso de Máximo de Trailles nas eleições e no coração de Cecília? É o que parece. Mas não esqueçamos que, muitas vezes, Balzac nos surpreende no final.
BALZAC, Honore de. A Comédia Humana. vol. XII. São Paulo: Globo, 1991.
Não encontrei a fonte da imagem. O texto é da parte III do romance: "Ele vivia sorrindo a todos. (...) Seus lábios abonecados triam sorrido em um enterro" (BALZAC, 1991, p. 236).
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
A Comédia Humana
Balzac é conhecido por um de seus piores romances, A Mulher de Trinta Anos. Mas foi um dos escritores mais fecundos de todos os tempos. São centenas de romances. E, com exceção dos trabalhos dos anos de juventude. de pouca qualidade, quase todos estão agrupados nesse monumento literário que é a Comédia Humana.
Em 1833, Balzac, já então um escritor prolífico, teve uma ideia brilhante que mudou a história da literatura ocidental: perpetrar o retorno das mesmas personagens em diversos romances. Segundo Paulo Rónai, no excelente ensaio que serve de introdução à Comédia Humana publicada pela Editora Globo, Balzac pretendeu eliminar a maior imperfeição inerente ao romance, a incapacidade de dar uma ilusão completa de realidade. "o romance, efetivamente, está rigidamente delimitado nos planos de uma construção que não se observa na vida. Mas os romances de Balzac não começam e não acabam; cada um traz sementes que vão germinar além do fim e por sua vez apresenta o desenvolvimento dos germes lançados em um ou mais romances anteriores". Assim, uma coadjuvante numa história aparece como personagem principal em outra. Alguém retratado na velhice aparece criança em outra história. As personagens envelhecem e seu problemas mudam. Questões não resolvidas se resolvem em outro romance. Além disso, personagens reais da França da Restauração participam também como personagens nas histórias. São mais de dois mil personagens, cada um com as suas características e histórias. E o mais espantoso é que, sem contar com computador, máquina de escrever ou sequer um secretário, Balzac tenha cometidos pouquíssimos erros.
Do ponto de vista histórico, A Comédia Humana é um retrato fiel e pormenorizado da França da Restauração. Friedrich Engels confessou que aprendeu mais sobre a sociedade francesa, inclusive pormenores econômicos, lendo Balzac do que em todos os livros de historiadores, economistas e estatísticos. E a descarnada "ascensão da burguesia" que vemos explicada nos textos dos historiadores marxistas, vive na nossa frente quando lemos a história de uma jovem dama de família aristocrática empobrecida que tem seu casamento arranjado com o filho de um grosseiro comerciante.
Em termos literários, há desde longos romances até pequenos contos. A qualidade não é homogêna. Há obras-primas como O Pai Goriot e As Ilusões Perdidas, pequenas pérolas como A Missa do Ateu e Uma Estréia na Vida e colchas de retalhos como o superestimado A Mulher de Trinta Anos e Outro Estudo de Mulher.
Nos posts seguintes vou falar um pouco de cada romance e, eventualmente, de aspectos da vida de Balzac.
A nous maintenant!
terça-feira, 16 de fevereiro de 2021
Um homem de negócios
Um homem de negócios (Paris, 1845)
Volume XI: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense (lido entre 16 de fevereiro de 2021 e 26 de março de 2022)
Personagens principais: Margarida Turquet (Málaga), Cardot, Desroches, Bixiou, Nathan, Lousteau, La Palférine, Máximo de Trailles, Claparon, Cérizet, sra. Chocardelle (Antonia), Ida Bonamy, Croizeau, sr. Denisard (Cérizet), Hortênsia, Nuncingen.
A história se passa em algum momento entre 1840 e 1845.
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| Maxime Dastugue. Retrato de Balzac (1886), Museu de Versalhes |
Lembremos que Balzac vivia devendo dinheiro e conhecia todas as manhas do assunto. O tema desse pequeno texto, o dinheiro, é também uma dos temas da vida do nosso mestre.
