terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Um homem de negócios

Um homem de negócios (Paris, 1845)

Volume XI: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense (lido entre 16 de fevereiro de 2021 e 26 de março de 2022)

Personagens principais: Margarida Turquet (Málaga), Cardot, Desroches, Bixiou, Nathan, Lousteau, La Palférine, Máximo de Trailles, Claparon, Cérizet, sra. Chocardelle (Antonia), Ida Bonamy, Croizeau, sr. Denisard (Cérizet), Hortênsia, Nuncingen. 

A história se passa em algum momento entre 1840 e 1845.

Maxime Dastugue. Retrato de Balzac (1886), Museu de Versalhes

Um homem de negócios é um conto ao estilo de história dentro da história, como Gobseck e Outro Estudo de Mulher. Um grupo de personagens conhecidos da Comédia Humana se encontra na casa da cortesã ou lourette Málaga, amante do tabelião Cardot. Desroches conta a disputa entre Máximo de Trailles e Cérizet, devedor e credor. Cérizet se faz passar por um diretor de aduana, Denisard, para cobrar uma dívida de Máximo de Trailles. O mulherengo, bon vivant e devedor inveterado, De Trailles, está na faixa dos cinquenta anos. Já o encontramos em Gobseck e O Pai Goriot, sempre explorando e arruinando mulheres.
 

Lembremos que Balzac vivia devendo dinheiro e conhecia todas as manhas do assunto. O tema desse pequeno texto, o dinheiro, é também uma dos temas da vida do nosso mestre. 


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

O Primo Pons

O Primo Pons (julho de 1846-maio de 1847) - Os Parentes Pobres

Volume X: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense (lido entre 25 de junho de 2020 e 10 de fevereiro de 2021 )
 
Personagens principais: Silvano Pons, Schmucke, sra. Cibot, sr. Cibot, Gaudissart, sr. Camusot de Merville (presidente da Câmara na corte real de Paris) , sra. Camusot-Merville (presidenta), srta. Cecília Camusot, Madalena Vivet (criada da presidenta), Rémonencq, sra. Fontaine (cartomante), Wilhelm Schwab (flautista da orquestra), Heloísa Brisetout (bailarina), Fritz Brunner, Berthier (tabelião), dr. Poulain, Elias Magus, Fraisier, sr. Leboeuf, Trognon (tabelião), Leopoldo Hannequin (tabelião), sr. Tabareau (tabelião), vigário Duplanty, sra. Sauvage, sra. Cantinet, corretor da casa Sonet, Villemot (primeiro escrevente de Tabareau), Topinard, sra. Topinard (Lolotte), Vitel (juiz de paz).



A história se passa entre outubro de 1844 e 1846.

Imagem de Théophile Robaudi

Aqui vou ter a ousadia de discordar de Paulo Rónai. Ele prefere O Primo Pons. Eu prefiro A Prima Bete. Rónai destaca a conexão do segundo com o resto da Comédia Humana, considerando que "representa como que o fecho da abóbada de todo o edifício". De fato, há desfechos e entreatos para diversos personagens. Mas isso, em alguns momentos, deixa a história confusa. Sem falar que se confirma a falta de vocação de Balzac para criar a bondade. Pons e Schmucke são menos interessantes que a Cibot e Fraisier. 
Os músicos, Pons e Schmucke, trabalhavam juntos em um teatro popular, administrado por nosso já conhecido Gaudissart. Talentos medíocres e já na terceira idade, resolveram dividir a solidão morando juntos. Mas Pons, que chegou a ensaiar uma carreira promissora no período do Diretório, tinha duas paixões maiores que a música: a boa comida e as obras de arte. São elas que impulsionam a ação. 
Com seu modesto salário e com o hábito dispendioso de adquirir obras de arte, Pons fila jantares na casa de parentes melhor aquinhoados. Uma dessas casas é a da presidenta Camusot de Merville, sua prima distante. Com frequência é humilhado pelos empregados, pela parenta e por sua filha, mas releva para não abrir mão da boa mesa. Querendo agradar a família Camusot, arranja um bom partido para a jovem Cecília Camusot, o alemão Fritz Brunner. O casamento não se concretiza e Pons cai em desgraça, sendo afastado e difamado pelos parentes ricos. 
Aí entra a personagem mais importante da obra, que não está na lista do início: a coleção. Pons, ao longo da vida, acumulou um verdadeiro museu, que ficava em duas salas do seu apartamento. Quadros, esculturas, objetos decorativos, belas molduras. A vida discreta que levava fazia com que a maioria das pessoas desconhecesse a coleção e, principalmente, seu valor. Aqui, um dado biográfico. Balzac, em seus últimos anos, se entregou ao colecionismo como se entregava a tudo na vida, sem limites. Os resultados foram muitas dívidas e alguns logros, compra de peças falsas ou de objetos de pouco valor a ele empurrado como valiosos. Zwieg comenta que, quem lê as cartas de Balzac desse período, sem saber quem ele era, vai julgar tratar-se de um colecionador ou comerciante de artes, pois há mais referências a isso do que à literatura. Assim, na coleção de Pons, há muitos quadros que eram de Balzac. 
Pons adoece e incia a trama pérfida da porteira Cibot, do advogado picareta e desonesto Fraisier e da presidenta para roubar a herança do músico, que deveria ficar para Schmucke. Quem conhece Balzac pode adivinhar que o conluio deu certo. Pons morreu e a coleção ficou com Camusot-Merville. Fraisier obteve um cargo público e a Cibot, uma boa quantia em dinheiro. O pobre Schmucke teve que sair do apartamento e contou somente com a ajuda de Topinard, empregado do teatro, o único que se preocupava com os dois quebra-nozes, como os dois velhos amigos eram conhecidos. O pianista Schmucke não viveu muito mais do que o companheiro. 
Um dos pontos interessantes é a indústria da morte na Paris do século XIX. Todo um conjunto de pessoas, funcionários, tabeliães, advogados, marmoreiros, cocheiros, mestres de cerimônias, cujo sustento depende da morte e que infestam os primeiros momentos da perda de um ente querido. São tantos tabeliães que fiquei confusa e tive de fazer uma lista. 
Enfim, é um bom romance, é bem escrito, foi o último trabalho totalmente escrito por Balzac. Mas não tem a vibração da Prima Bete, que largamos tudo para não parar de ler. Questão de "gosto pessoal", como diz o mestre Paulo Rónai. 

A imagem é de Honoré de Balzac. Cousin Pons. Philadelphia: George Barrie & Son, 1897. 



sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

A Prima Bete

A Prima Bete (dezembro de 1846) - Os Parentes Pobres
Volume X: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense (lido entre 25 de junho de 2020 e 10 de fevereiro de 2021 )

Barão e baronesa de Hulot (Ágata) 
Personagens principais: Barão Heitor Hulot d´Ervy, baronesa Adelina Hulot, Hortênsia Hulot, Vitorino Hulot, Celestino Crevel, Celestina Hulot (neé Crevel),  general Hulot (conde de Forzheim), Lisbeth Fischer, Josefa Mirah, Jenny Cadine, André Fischer (pai de Adelina), Johann Fischer, Marechal Cottin (príncipe de Wissemburgo), Venceslau Steinbock, Valéria Marneffe, sr. João Paulo Stanislas Marneffe, duque d` Hérouville, sr. Remannivet, Stidmann, barão de Nuncingen, barão Henrique Montès de Montejanos. Cláudio Vignon, Ágata Piquetard . 


A história se passa entre o período napoleônico e fevereiro de 1846

Ler A Prima Bete suscita o espanto que nos causa os grandes romances de Balzac. Como ele conseguiu escrever uma história com tantos personagens, diversas tramas paralelas, em poucos meses, concomitantemente com outros textos? O livro foi escrito entre junho e novembro de 1846 e foi o primeiro texto totalmente original escrito por ele desde 1843. 
Eu tenho um ranking pessoal que categoriza os romances da Comédia segundo o meu gosto, à medida que vou lendo. A Prima Bete passou para o primeiro lugar. Minha impressão foi tão forte que pausei a minha leitura, terminada em julho de 2020, para ler simultaneamente duas biografias de Balzac: a de Graham Robb (Companhia das Letras, 1985) e a clássica, de Stefan Sweig (Editora Guanabara, 1951). Já lera a de Robb, mas estava então no começo do meu projeto de ler e escrever sobre toda a Comédia Humana, e não aproveitei a leitura como deveria. Em outro momento falarei mais das biografias. 
O romance tem três personagens principais: Lisbeth Fischer, a vingativa prima Bete; o barão Heitor de Hulot, o simpático ancião libertino; e Valéria Marneffe, a bela de classe média baixa, que se vende a quem der mais. A trama gira em torno da vingança de Bete -  prima de Adelina Hulot, a  baronesa -  da parenta, melhor aquinhoada com beleza e fortuna e, de sua família. A família Hulot prosperou no período do Império, mas se encontrava em decadência sob Luís Felipe, muito em função dos gastos do barão com suas conquistas amorosas. 
No início da trama, em uma abertura balzaquiana típica, o rico burguês Crevel, visita a pudica baronesa Adelina e propõe se casar com Hortênsia e salvar a família de ruína, se a baronesa se entregasse a ele. Aqui, mais uma vingança: Heitor roubara a amante de Crevel. Adelina, talvez a personagem menos interessante da trama, suas bondade e virtude excessivas são pouco críveis, o expulsa horrorizada. 
Logo, Bete conhece Venceslau Steinbock, escultor polonês, que, apesar da ascendência nobre vive na miséria. A diligente Bete se apaixona pela beleza e pela aura artística do rapaz e se propõe a financiá-lo e ajudá-lo na carreira, com futuras intenções. Mas o indolente Venceslau - sobre ele Balzac "formula as grandes leis do trabalho artístico" (Paulo Rónai) - conhece, se apaixona e se casa com Hortênsia. Diante desse revés, que se soma aos ressentimentos e humilhações de toda uma vida, Bete incia seu plano de vingança. Utilizando a vizinha, a terrível e sedutora Valéria Marneffe, e as fraquezas de suas vítimas, Bette se vinga da família Hulot em grande estilo. 
Valéria Marneffe
Não é possível reproduzir aqui a complexa trama. Destacarei dois aspectos.
Bete é uma das solteironas de Balzac e já sabemos que ele detestava solteirões. Ela termina mal, mas sua maldade não é descoberta pelos Hulots, que choram a sua morte. Mas Bete é filha de Balzac no sentido em que compartilha com ele a obstinação e a tenacidade. Essa mesma força levou Balzac a produzir o que produziu em sua carreira, a grandiosidade do plano da Comédia Humana, as noites em claro desenhando esse mundo de ficção. Em certo momento, a vingança de Bete parece não fazer mais sentido, mas mesmo assim ela persiste. Quantas vezes Balzac se prejudicou na vida por causa de sua perseverança em certas atitudes? Um traço que um psiquiatra hoje classificaria como obsessivo e que aparece em  outros personagens da Comédia, mas se destaca em Bete (e também nessa humilde leitora, talvez seja por isso a minha  "obsessão"pela a Comédia Humana). 

Outro ponto é a nostalgia do mundo perdido do Império. A Comédia Humana retrata o mundo da Restauração. Balzac era, politicamente, um conservador monarquista. Mas em A Prima Bete, a integridade se localiza nos valores republicanos do período napoleônico. O general Hulot e o príncipe de Wissemburgo são a reserva de caráter nesse romance cheio de vícios. Até o barão, que comete até crimes, não o faz pela mesquinharia do dinheiro, mas pela paixão incontrolável por mulheres jovens e bonitas. 
Balzac sabia que escreveu "uma grande obra-prima, que se destaca entre os meus melhores trabalhos". Zweig considera A Prima Bete, juntamente com O Primo Pons, as maiores produções de Balzac. 
"No auge de sua vida atinge Balzac nelas o nível mais alto de sua arte. Nunca a sua visão foi mais clara, a sua mão mais criadora, mais firme e mais irreverente. (...) Foram escritos por um homem a quem nada mais fascina, a quem nada mais impressiona, para quem nem os êxitos exteriores, para quem nem o luxo, nem a elegância significam alguma coisa. (...) Nesses últimos romances foi alcançado um realismo, uma veracidade do sentimentos, uma dissecação das paixões, que nunca mais foram ultrapassados na literatura francesa" (Zweig, 1951, p. 404-405). 
Exageros à parte, pois ainda teremos Proust. A Prima Bete é uma leitura vibrante e apaixonante. Tem um ritmo teatral e algumas cenas muito engraçadas, como a em que cinco homens diferentes - o barão, Crevel, Vensceslau, João Paulo Marneffe e o barão de Montejamos - à mesa de um  jantar, creem, todos vaidosos, serem pais do filho que Valéria espera. E termina com uma nota de amargura, quando a boa Adelina, depois de perdoar o marido e resgatá-lo da desgraça social, vê uma luz no quarto da empregada: era o barão com a nova ajudante de cozinha, Ágata. Adelina houve a conversa: "Minha mulher não viverá mais muito tempo, e, se quiseres, poderá ser baronesa.". Adelina morreu três dias depois e Hulot casou-se com Ágata Piquetard em 1º de fevereiro de 1846. 
Pois vamos ao Primo Pons. 

A prima Bete cuidando de Venceslau


As duas primeiras imagens são de: 

Oeuvres Completes de Honore de Balzac Vol. 17: Etudes de Moeurs: Scenes de la Vie Parisienne, V: Les Parents Pauvres: 1. La Cousine Bette. New York: Brentano's Libraries, 1914. p. 497. 

A terceira imagem é de: 

Georges Cain - Honoré de Balzac, Cousin Bette. Philadelphia: George Barrie & Son, 1897.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Pedro Grassou

Pedro Grassou (dezembro de 1839)
Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense



Personagens: Pedro Grassou (Fougères), Elias Magus, Servin (A Vendeta), Schinner (A BolsaModesta MignonA falsa amante) , Sommervieux (Ao "Chat-qui-pelote") José Bridau (Um conchego de solteirão), Leão de Lora (Um estreia na vida), François-Marius Granet (1775-1849), Pierre Duval Le Camus (1790-1854), Alexandre Gabriel Decamps (1803-1860), Cardot (Ao "chat-qui-pelote", Uma Estreia na Vida, A musa do departamento), Antenor Vervelle, senhora Vervelle e Virgínia Vervelle. 




A história começa em 1832, mas recua até 1819. 



Pedro Grassou é, nas palavras de Paulo Rónai, uma anedota. É interessante, contudo, pois é um dos textos no qual Balzac reflete a respeito da arte e do artista no seu tempo. 
O protagonista, também conhecido como Fougères, nome de sua cidade natal na Bretanha, é um pintor de quadros medíocre, que, embora tenha estudado com grandes nomes do seu tempo (alguns fictícios, como Servin, Schinner e Sommervieux, outros reais como Granet e Le Camus), não conseguia mais do que copiar o estilo de artistas consagrados. Foi inúmeras vezes desencorajado pelos seus pares, mas era humilde e persistente. Ao invés de buscar emprego em um escritório ou, ironia de Balzac, "experimentar a literatura", adotou um estilo modesto de vida e seguiu buscando o reconhecimento. Sobrevivia da venda de seus quadros a um comerciante de arte, usurário caricato, Elias Magus. Ele encomendava "interiores flamengos, uma lição de anatomia, uma paisagem" ao artista, e Grassou sobrevivia com renda minguada. Em 1829, dez anos após sua estreia na arte, seus amigos famosos, Schinner, Leão de Lora e Bridau, conseguiram que um quadro seu fosse admitido na exposição do grande Salão. Lá seu quadro, Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 , "embora medíocre, (...) teve um êxito extraordinário". Agradou  a Carlos X e a outros expoentes da realeza e lhe rendeu a cruz de cavaleiro da Legião de Honra. Foi sua consagração como artista. Passou a ter quadros aceitos no Salão. Mas seguiu vivendo com parcimônia e depositando suas economias no tabelião Cardot. 
Em dezembro de 1839, Magus traz a família Vervelle para que Fougerès lhe faça os retratos. O comerciante de garrafas Antenor Vervelle, sua esposa e filha, Virgínia, se afeiçoaram ao circunspecto e organizado artista. Descobrem ter em comum o mesmo Cardot como tabelião. Começam a considerará-lo um bom partido para a pouco atraente Virgínia. Grassou também pensa em casamento, julgando o dote e os bens do futuro sogro. 
Finalmente, Vervelle convida o artista para conhecer sua casa de campo, onde se gaba de ter uma galeria com quadros de grandes artistas, como Rubens, Rembrandt e Murilo. Ao ver a galeria, Fougerés descobre que metade das obras expostas eram suas, cópias por ele realizadas e compradas por pouco dinheiro por Magus, que as vendia caro para o burguês. Longe de ficar aborrecido, Vervelle reconheceu Grassou-Fougerès como um grande talento e deu a ele a mão de Virgínia. No final da história, ele mora com os sogros, ganha quinhentos francos por quadro e espera ingressar na Academia
O início do conto Pedro Grassou é ensaístico. Balzac critica a democratização do Salão de Pintura e Escultura ocorrida depois da Revolução de 1830:
"Uma experiência de dez anos demostrou a excelência da antiga instituição. Em vez de um torneio, tendes agora um motim; em vez de uma exposição gloriosa, um bazar tumultuoso; em vez do melhor, a totalidade . (...) Onde não há mais julgamento também não há mais coisa julgada". 
Grassou conseguiu colocar seu quadro Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801, em 1829,  por empenho de seus amigos famosos. Já depois da Revolução de Julho, "vinha apresentando a cada exposição uma dezena de quadros, dos quais o júri admitia quatro ou cinco". Essa crítica nos situa no tema que Balzac explora no texto: o aburguesamento do gosto artístico. Pedro Grassou é o artista burguês por excelência. A descrição do seu ateliê, organizado e limpo como um quarto de moça, já nos afasta do esteriótipo do artista atormentado e genial. São seus hábitos, especialmente os econômicos, que promovem a sua ascensão, mais que sua habilidade. Gastar pouco, comer pouco, colocar os ganhos na mão do tabelião, escolher temas que, ou combinavam com a política do momento (Os Preparativos na época de Carlos X) ou que não a confrontavam (retratos, paisagens e interiores na Monarquia de Julho), escolher a noiva pelo dote. Tudo isso fez com que Grassou não saísse "de um círculo burguês onde é considerado um dos melhores artistas da época". Não tem o reconhecimento dos pares, "os artistas zombam dele, seu nome é uma palavra de desprezo nos ateliês, os folhetins não se ocupam de sua obra", mas a classe ascendente o compra, pois com ele se identifica. 
Por que Pedro Grassou era um artista medíocre? Segundo Balzac, porque ele não conseguia imaginar, somente copiar; e porque não mostrava a natureza como era, mas de forma estereotipada (José Bridau, ao ver Grassou pintando Virgínia, comentou que a face com tons róseos era adequada para um anúncio de perfumista. Era preciso uma cor vermelha para pintar a moça ruiva). Ele deixava de copiar a natureza, mas copiava as imagens da natureza feitas por outros artistas. 
O interessante é que Grassou-Fougères sabia a diferença entre a obra medíocre e a de qualidade, ao contrário dos seus clientes. No final, sabemos que ele usava seu dinheiro para comprar quadros de pintores célebres que se encontravam em dificuldades para substituir as cópias da galeria de seu sogro, substituir as más telas por "verdadeiras obras primas, que não são dele". 
Paulo Rónai, na introdução do conto, nos diz que Balzac foi um dia Grassou, "produzindo obras inconfessáveis". Esse texto foi escrito entre 1944 e 1955, época da tradução da Comédia Humana no Brasil, da qual Rónai foi organizador. No texto do Jornal do Brasil de 2 de dezembro de 1972, Rónai nos dá notícia da leitura de Balzac et Le Mal du Siecle. Contribuition a une Phisyologie du Monde Moderne de Pierre Barbéris publicado em 1970. Nele, Barbéris analisa minuciosamente a obra de Balzac até 1833, após o primeiro sucesso balzaquiano. E o resultado muito se afasta do que Rónai denomina "a tese do milagre", ou seja, que uma mudança teria ocorrido com Balzac após seu trigésimo ano que o transformou de autor irresponsável e mercenário das obras da mocidade em historiador imparcial e perfeito de sua época. Havia muito mais qualidade naquela obra inicial do que se conhecia. Não houve milagre. Balzac imaginava e mostrava a natureza tal qual era, apesar da inexperiência da juventude.  Balzac nunca foi Pedro Grassou. 



Observação: na edição em português que tenho, da Editora Globo de 1990, a data do quadro de Grassou Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 está com a data errada de 1809. Os chouans eram monarquistas da região da Bretanha que se rebelaram contra a Revolução Francesa. Com o início das guerras napoleônicas, houve uma espécie de trégua desse tipo de revolta em 1801. Por isso, a data de 1809 me pareceu estranha. Foi um erro de tradução que pode ser verificado no texto original de Pierre Grassou

O quadro que ilustra a postagem é La femme hydropique (1663) do pintor holandês Gerit Dou (1613-1675). Foi o quadro que Pedro Grassou plagiou ao fazer Os Preparativos de um chouan condenado à morte em 1801 . O original, de Dou, está no Louvre. O de Pedro Grassou talvez esteja também. 


sábado, 13 de junho de 2020

Sarrasine

Sarrasine (setembro de 1830)
Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense

Personagens: narrador, senhora de Rochefide (Beatriz), conde de Lanty, condessa de Lanty, Marianina, Filipo, Ernesto João Sarrasine, Edme Bouchardon (1698-1762), Zambinella, Vitgliani, cardeal Cicognara, príncipe Chigi. 
A história ocorre no período em que foi escrita, 1830, mas remete a outra história iniciada em 1758.


Sarrasine está longe de ser o melhor de Balzac. A novela ganhou notoriedade em 1970, quando o crítico literário Roland Barthes publicou o ensaio S/Z no qual faz uma análise pós-estruturalista de Sarrasine. 
Na história, encontramos o narrador, no período da Restauração (o ano não está identificado) em uma festa, observando uma desoladora paisagem de inverno através da janela. Ao voltar-se para o salão, percebe o contraste entre os dois ambientes: 
"Tinha, assim, à minha direita, a sombria e silenciosa imagem da morte; à esquerda, comedidas bacanais da vida; de um lado, a natureza fria, tristonha, de luto; do outro os homens em festa". Sabemos que será uma narrativa marcada pela ambiguidade. 
Descobrimos estar na casa dos Lanty, uma família sui generis. Muito ricos e de admirável cultura - "Todos os seus membros falavam italiano, francês, espanhol, inglês e alemão com tal perfeição que faziam supor se houvessem demorado longos anos entre esses diversos povos" - não  se conhecia a origem de tamanha prosperidade. 
A beleza das mulheres, a condessa de Lanty e sua filha adolescente Marianina, era partilhada pelo filho Filipo ("a imagem viva de Antinoo"), mas não pelo conde que "era baixo, feio e magro, sombrio como um espanhol e fastidioso como um banqueiro". E havia um homem, figura misteriosa, que  aparecera pela primeira vez no salão durante um concerto, atraído pela bela voz de Marianina. Ele era tratado com todo o carinho e deferência pela família, embora ninguém esclarecesse qual era a relação entre eles. 
Na noite em questão, o velho apareceu justamente quando Marianina cantava uma ária da ópera Tancredi. Estava vestido como os homens de posses do século XVIII: calções de seda, rendas, peruca e maquiagem. E seu físico era frágil e decrépito: "Sua magreza excessiva,  a delicadeza de seus membros provavam que suas proporções haviam sido sempre esbeltas". 
A figura assustou a senhora de Rochefide, beldade que acompanhava na festa o narrador. O casal se retirou para uma quarto contíguo ao salão e observou quando Marianina passou com o exótico parente e o encaminhou para o interior da casa. A menina, ao se despedir, recebeu do velho um dos anéis que ele trazia no dedo. No quarto havia uma pintura  de Joseph-Marie Vien representando Adônis estendido sobre uma pele de leão. Beatriz ficou fascinada pela perfeição da imagem e soube pelo narrador que o artista teve por modelo a estátua de uma mulher, talvez um parente da senhora de Lanty. Prometeu, então, contar a história misteriosa à sua acompanhante em sua casa, no dia seguinte, numa negociação que deixa implícita a troca da narrativa por uma noite de amor. 
No dia seguinte, ao pé da amada, o narrador contou a história de João Sarrasine, filho de uma advogado de Besançon, que decepcionou o pai se tornando escultor. Talentoso e discípulo de Edmé Bouchardon, aos 22 anos ganhou um prêmio e foi estudar em Roma. O ano era 1758. Lá, no Teatro Argentina, conheceu uma cantora lírica belíssima chamada Zambinella. Nela o narrador "via reunidas, bem vivas e delicadas, as raras proporções do corpo feminino tão ardentemente desejadas e das quais o escultor é , ao mesmo tempo, o juiz mais severo e mais apaixonado". Foi tomado de amores pela jovem, que passou a cortejar. Passou a desenhá-la e a esculpiu em argila. Dias depois, foi convidado pelo pessoal do teatro a finalmente conhecê-la pessoalmente. O encontro foi em uma alegre ceia com os artistas. O escultor estava confuso, pois a moça, embora estivesse em um ambiente bastante liberal quanto aos costumes, se comportava de forma recatada. No dia seguinte, o grupo foi fazer uma excursão aos arredores de Roma. Zambinella estava ainda mais arredia, e ao ouvir a declaração de amor de Sarrasine, disse não poder ser amada e que logo ela a odiaria. À reiteração do amor de Sarrasine, Zambinella retrucou: "E se eu não fosse mulher?".
No dia seguinte, o escultor preparou-se para raptar a amada que estaria em uma festa. Lá a encontrou cantando vestida de homem. Ao indagar a um ouvinte o motivo da indumentária, veio a verdade:
"De onde vem cavalheiro? Desde quando uma mulher subiu aos palcos em Roma? Não sabe, por acaso, por que criaturas são desempenhados os papéis femininos nos Estados Pontifícios?" 
Chocado, Sarrasine conseguiu que os amigos levassem Zambinella até ele. Com medo de ser morta (morto, Balzac passa a narrar agora no masculino), chorando, ele declara "Só consenti a enganá-lo para satisfazer aos camaradas, que desejavam rir". O escultor, furioso, foi interrompido por homens do cardeal Cicognara, protetor de Zambinella, que o mataram.
Ingenuamente, Beatriz perguntou o que tinha essa história a ver com os Lanty. Ora, Zambinella era o velho parente e sua carreira bem sucedida de cantora era a origem da fortuna da família. A estátua feita por Sarrasine foi modelo para o Adônis. Beatriz ficou desapontada e mandou o narrador embora. Ele não teve o esperado prêmio.
Ao pesquisar um pouco sobre Sarrasine, encontrei muito material em função do já mencionado ensaio de Roland Barthes. Encontrei uma parte inicial do ensaio. Achei chato e pouco elucidativo do texto. Me defendo aqui com a opinião de Paulo Rónai no texto introdutório ao conto de Balzac:
"O resultado de sua investigação [de Barthes] é uma construção mental em que utiliza os materiais mais heterogêneos, às vezes sem ligação nenhuma com a obra escolhida como pretexto. [É] um exemplo típico de certa espécie de crítica universitária extremamente arbitrária e vazada numa linguagem excessivamente artificial". 
No texto de introdução, Rónai nos diz  que o narrador é um personagem da Comédia Humana que Balzac esqueceu de nomear. Mas em um texto de 1972, o próprio Rónai aponta para a onisciência do autor. Como ele saberia o conteúdo das conversas de Zambinella com Sarrasine, que ele reproduz? Mas será que quem conta a história de Sarrasine à marquesa o mesmo que dialoga com ela? Não fica claro. 
Há também o fato do narrador não ser confiável. Ele diz, quando está na festa, que o velho/Zambinella é surdo. Mas diz também que ele foi à sala atraído pela voz de Marianina. Assim, ficamos em dúvida sobre a veracidade da história. 
De resto, a história é um tanto artificial. A riqueza e a beleza dos Lanty, o amor louco e descontrolado, à primeira vista, de Sarrasine por Zambinella, o fato de ele não perceber que ela não é uma mulher, depois de tantas indicações, a ideia do rapto, tudo classifica Sarrasine como uma obra menor. 
Deixo aqui um link sobre os castrati, os meninos que eram castrados para preservar a voz para o canto. A autora Yvonne Noble nos ensina que os castrati, que apareceram no ocidente no século XVI, estavam inseridos numa cultura na qual capacidade sexual não era algo tão valorizado. Afinal, era normal as famílias dedicarem os filhos e filhas à Igreja e ao, pelo menos oficialmente, celibato. E que os castrati vinham, via de regra, de famílias muito pobres. Com uma boa voz, um rapaz poderia ter e proporcionar à família uma vida melhor. E exatamente o caso de Zambinella. Noble também afirma que Balzac (ou seu narrador não confiável) estava pouco informado sobre o assunto. Havia castrati e papéis para eles na época em que Balzac escrevia. Somente em 1870 a castração foi proibida dos Estados Papais e havia um coral deles na Capela Sistina até 1898. 
O desconhecimento de Balzac ocorre, pois os castrati foram mais cedo banidos na França do que em outros países. 
Enfim, Sarrasine não é um grande Balzac, mas é Balzac.

A imagem é o famoso castrato Carlo Scalzi em quadro de Joseph Filipart (1737).
A matéria citada de Paulo Rónai é do Jornal do Brasil. Dossier. Balzac Pretexto e Texto. 2 de dezembro de 1972. Tem digitalizada na hemeroteca da Biblioteca Nacional. 



sexta-feira, 29 de maio de 2020

Facino Cane

Facino Cane (março de 1836)

Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense

Personagens: narrador (estudante, Balzac?), Facino Cane (Marco Facino Cane, Príncipe de Varese)

Em  17 de março de 1836, a revista Chronique de Paris publicou o conto, que, de acordo com a narrativa de Balzac à Eveline Hanska, ele escreveu em uma noite. Que noite para a história da literatura! Facino Cane traz, em onze folhas, o melhor de Balzac. É quase uma síntese de sua obra.
É a história de um jovem, que pode ser o escritor, que vive modestamente e cujo o passatempo é observar a vida dos outros, especialmente dos membros das classes populares de Paris.
"Deixar seus hábitos, tornar-se um outro pela embriaguez das faculdades morais e fazer esse brinquedo à vontade, tal era o meu divertimento. A que devo eu esse dom? Será o da vidência? Será uma dessas qualidades cujo abuso pode levar à loucura? Nunca pesquisei as causas desse poder; possuo-o, e dele me sirvo, eis tudo".
Em uma ocasião, ele aceita o convite da sua criada para comparecer ao casamento de uma de suas irmãs, festa popular na casa de um negociante de vinhos. Lá chamou a sua atenção, um componente de uma orquestra com três cegos do asilo Quinze-Vingts (criado por São Luís em 1260, seu nome refere-se aos 300 leitos, 15 X 20, no sistema vigesimal. Em 1779, foi transferido para a rue de Charenton, onde ocorre a festa relatada pelo narrador, e onde se localiza até hoje).
"(...) quando me aproximei, não sei por quê, todo o resto acabou para mim, o casamento e sua música desapareceram, minha curiosidade se viu excitada ao mais alto grau: minha alma penetrou no corpo do tocador de clarinete."
O narrador comparou-o a Dante, adivinhando sua nacionalidade:
"(...) era um italiano. Havia algo de grande e despótico nesse velho Homero, que guardava em si mesmo uma odisseia condenada ao olvido". Não resistindo ao interesse, foi conversar com o velho. Descobriu que ele tinha 82 anos, era veneziano e seu nome era Marco Facino Cane, Príncipe de Varese. Era descendente de um condottiere homônimo, figura histórica, que viveu entre 1360 e 1412. O jovem foi convidado pelo ancião a acompanhá-lo. Ao saírem da festa, a proposta:
"Quer levar-me a Veneza, guiar-me, ter fé em mim? Ficará mais rico do que as dez mais ricas casas de Amsterdam ou de Londres, mais rico que os Rotschild, enfim, rico como As Mil e Uma Noites".
A história narrada pelo clarinetista era das mais fantasiosas e improváveis. Era rico e poderoso em sua juventude,  e apaixonou-se perdidamente, "como não se ama mais", por uma mulher casada. Por isso, envolveu-se em uma disputa e foi preso. Planejou uma fuga e, através dos muros da prisão, encontrou o tesouro da república de Veneza, milhões em ouro, prata e pedras preciosas. Conseguiu levar uma pequena parte e emplacou mais um capítulo de aventuras. Morou em várias cidades da Europa e acabou perdendo sua fortuna para outra mulher, de família poderosa, com quem pretendia se casar. Perdeu a visão, em função talvez dos anos no cárcere. Terminou pobre e cego no asilo de Quinze-Vignts. Mas, lembrava exatamente como chegar ao local do tesouro. E convidava nosso narrador a levá-lo a Veneza para dele se apoderarem e enriquecerem. O jovem, tocado pela história e pela emoção da narrativa, concordou. "Iremos a Veneza. (...). Assim que tivermos algum dinheiro". O conto termina com a notícia da morte de Facino Cane no inverno seguinte em Quinze-Vignts.
O texto permite uma série de reflexões, especialmente para quem já leu outros textos de Balzac. Vou me fixar em duas questões: quem é o narrador e as duas narrativas em uma em Facino Cane.
Paulo Rónai, no texto de introdução ao conto, afirma que, em Facino Cane, "o eu é verdadeiro e refere-se ao próprio escritor". Balzac, de fato, morou na rue Lesdiguières, como o narrador, quando, aos vinte anos, fez uma espécie de "estágio probatório" para a vida de escritor a pedido da família. Também Balzac teve uma criada, a mãe Vaillant, nessa época, que aparece na história. Foi ela que convidou o narrador para o casamento. Mas principalmente, é o talento de observador dos homens, de historiador de costumes, que o narrador descreve nas primeiras páginas, quando diz que penetrava na existência das pessoas como um dervixe de As Mil e Uma Noites.
Não creio, porém, que o narrador seja, de fato, Balzac. No início do conto, ele diz que "o amor da ciência atirara-me numa mansarda onde eu trabalhava durante a noite, e passava o dia numa biblioteca vizinha, a de Monsieur". É, portanto, um estudante de ciências, não um escritor. Não creio que isso tenha grande importância, mas é a primeira vez que não concordo com Paulo Rónai, conhecedor enciclopédico da Comédia Humana.
Há claramente duas narrativas em Facino Cane: a do narrador e a de Facino Cane. O narrador, sendo ou não Balzac, é nosso conhecido historiador dos costumes que acompanha a vida comezinha do casal de proletários, que sai do teatro, em sua batalha diária pela sobrevivência. O ancião cego chama a sua atenção justamente por ser diferente dos indivíduos populares que o cercavam. Balzac o compara a Dante e Homero. E sua [de Facino Cane] fantástica e inverossímil narrativa é totalmente destoante do que faz Balzac de melhor na Comédia Humana, construir personagens nada extraordinários e captar a vida real. Facino Cane é extraordinário e sua vida não se parece nada real. Talvez seja louco, como insinuam seus colegas de orquestra, quando o chamam de pai Canard, ou um mentiroso.
Embora Balzac julgasse ter um estilo eclético, é considerado um autor realista. Elementos românticos e fantásticos aparecem em sua obra, veja-se Ferragus, A menina dos olhos de ouro, e o personagem Vautrin, por exemplo. Mas o que temos em Facino Cane é um duelo de narrativas, uma balzaquiana ou realista, outra fantástica, romântica. E o autor deixa o leitor curioso para saber qual das duas irá predominar. Quando o trecho final nos revela a morte do velho, é impossível não ter uma sensação de perda. Somos jogados de volta à realidade. Ao frustrar a nossa expectativa, Balzac nos faz antes sentir do que entender por que a literatura é importante. A janela que se abre quando começamos a ler uma história é abruptamente fechada aqui. É o final esperado para o leitor de Balzac. Uma absurda caça ao tesouro faria de Facino Cane uma obra menor. Sua possibilidade, contudo, confirma nossa necessidade de ficção.
Sobre Balzac e caça ao tesouro falarei em outro post.

A imagem é uma ilustração de 1911 que mostra o condottiere Facino Cane, em 1409, convencendo os nobres genoveses a resistirem à dominação francesa durante as guerras italianas.  Esse ilustração é da coleção de figurinhas adesivas da marca Liebig, que produzia extrato de carne. Eram temáticas, colecionáveis e foram produzidas em vários países entre 1872 e 1975. 






segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Os segredos da Princesa de Cadignan

Os segredos da Princesa de Cadignan (junho de 1833- maio de 1839)


Volume IX: Estudos de Costumes - Cenas da Vida Parisiense


Personagens principais: Princesa de Cadignan ( Diana de Mafrigneuse, Uxelles), Marquesa d´Espard, Toby, Marquesa de Cinc-Cygne, De Marsay, Miguel Chrestien, Daniel D´Arthez, Emílio Blondet, sra. de Montcornet, Rastignac, Marquês d´Estrignon, Máximo de Trailles, barão de Nuncingen, Blondet, Nathan. 

A história inicia em 1829. 


A novela conta a conquista pela experiente Diana de Mafrigneuse, a Princesa de Cadignan do título, do ingênuo e circunspecto escritor Daniel D´Arthez. A bela Diana, que já fora amante de parte considerável do elenco masculino da Comédia Humana, encontrava-se, após a Revolução de Julho, em Paris, com seu filho já adulto enquanto seu marido acompanhara a família real no exílio. 
Diana "ao ver chegar a terrível falência do amor, essa idade dos quarenta anos, para além da qual tão pouca coisa resta à mulher, a princesa lançara-se no reino da filosofia (...) A literatura e a política são hoje para as mulheres o que outrora era a devoção, o último asilo de suas pretensões". 
Mas em maio de 1833, em uma conversa com sua amiga-rival, a sra. d´Espard, Diana fala sobre um rapaz que foi por ela apaixonado e morreu nas revoltas de junho de 1832, Miguel Chrestien. A sra. d´Espard comentou que conhecia um grande amigo de Miguel e que o apresentaria à princesa: era o conhecido escritor Daniel D´Arthez. 
Assim começou a convivência que resultou no romance. Para justificar sua vida dissoluta ao honesto Daniel (lembremos que  Daniel D´Arthez é uma das "encarnações positivas" do próprio Balzac, o modelo de escritor que Balzac gostaria de ser), Diana contou como, quando ainda era uma menina, foi dada em casamento ao Duque de Mafrigneuse, muito mais velho, que era amante de sua mãe. E que seus erros se justificavam por esse fato, um tanto sórdido, mas não tão incomum no mundo da nobreza da época. Tudo indica que ela mentia, mas mentia por amá-lo. E o desfecho sugere que Daniel sabia da verdade. E ainda assim, quis ficar com ela. 
Paulo Rónai, na introdução, cita Anne-Marie Meininger que afirmou que a história se baseou na história da amor da Condessa Cordélia de Castellane com o Conde de Molé. 
Não é, nem de longe, o melhor da Comédia Humana. Mas é impossível parar de ler para conhecer o desfecho.