quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Alberto Savarus (maio de 1842)

Personagens: Baronesa de Watteville (Clotilde), barão de Watteville, Abade de Grancey, Amadeu de Soulas, Babylas (criado de Amadeu), Rosália de Watteville, Alberto Savaron, Duquesa de Argaiolo, Jerônimo, Marieta, Leopoldo.

A história se passa entre 1834 e 1841.

Alberto Savarus é um romance um tanto confuso de Balzac. Contribui para a confusão, além das idas e vindas do enredo, a existência de um romance dentro do romance. O personagem Alberto Savaron é romancista e sua novela, Ambicioso por Amor, é transcrita na íntegra por Balzac.
Alberto Savaron chegou a Besançon, no Franco Condado, com o objetivo de eleger-se deputado. Há onze anos, ele está apaixonado pela Duquesa de Argaiolo, italiana casada, que aguarda a morte do duque para desposar Alberto. Resolveu tentar a deputação depois de diversas empresas malogradas. Alberto atraiu, então, a atenção de Rosália de Watteville. A senhorita de Watteville descobriu que Alberto publicara uma novela em uma revista e convenceu seu pai a assiná-la. Assim, leu Ambicioso por Amor, novela de A. S.

Ambicioso por amor.
Personagens: Leopoldo, Rodolfo, casal Safter, Fanny Lovelace- Francesca Colonna- princesa Gandolphini, pai de Fanny-esposo de Francesca-princípe Gandolphini, Tito, Gina..A história se passa entre 1823 e 1830.
Rodolfo, indo excursionar na Suíça com o amigo Leopoldo, apaixonou-se por uma desconhecida que assumiu três identidades, Fanny Lovelace, Francesca Colonna e princesa Gandolphini. No final, os namorados esperavam a morte do príncipe Gandolphini para se casarem.

Rosalia apaixonou-se perdidamente por Alberto e, aproveitando o namoro de sua criada com Jerônimo, criado de Alberto, passou a interceptar cartas de Alberto para a Duquesa Argaiolo e as respostas. A duquesa, ao ficar viúva, recebeu, então, uma falsa carta de Alberto (escrita por Rosália), na qual ele declarava que iria se casar com a senhorita Watteville. A duquesa, magoada, casou-se com o duque de Rethoré. Alberto, arrasado, tornou-se monge. Rosália se indispôs com a mãe ao recusar o casamento com Amadeu. A senhora de Watteville, ao ficar viúva, desposou Amadeu, com quem teve mais dois filhos. Rosália, em 1838, foi a Paris e revelou à duquesa de Rethoré a trama que destruiu seu romance com Alberto. Em 1841, sofreu um terrível acidente: estava em um vapor cuja caldeira explodiu e perdeu um braço e uma perna.
O resumo da história já é suficiente para que se perceba que não estamos diante do melhor de Balzac.
Aqui Balzac, sempre tão indiferente a qualquer tipo de maniqueísmo - vemos em seus romances os bons sofrerem e, muitas vezes, os maus prosperarem - pune Rosália no último parágrafo, com um acidente totalmente artificial. Seria tão mais balzaqueano ver Rosália casada com um Alberto feliz e ignorante da trama que o levou ao matrimônio!
Pois, a diferença, apontada por Paulo Rónai e perceptível por qualquer um que conhece um pouco a biografia de Balzac é que Alberto é um alter ego de Balzac. Advogado. Vários anos de empresas malogradas. Três anos perdidos em Paris. Romancista (contudo, tivemos uma amostra medíocre do seu talento como o enfadonho Ambicioso por Amor). “(...) o senhor Savaron apareceu de robe-de-chambre de merinó preto, com um cordão encarnado, chinelos encarnados, um colete de flanela encarnado (...)”. “(...) uma cabeça soberba; cabelos negros, já entremeados com fios brancos, cabelos como os de São Pedro e dos São Paulo dos nossos quadros, com caracóis bastos e luzídios, cabelos duros como crinas, pescoço branco e redondo como o de uma mulher, uma fronte magnífica dividida pelo sulco poderoso que os grandes projetos, os grandes pensamentos, as fortes meditações imprimem na fronte dos grandes homens (...)”. Como se não bastasse, Savaron namora uma estrangeira com quem troca cartas e aguarda a morte do seu marido para desposá-la. Alberto Savarus. mostra, de certa forma, o poder da ficção. Balzac cria um personagem totalmente insosso com as suas características. Em nenhum momento o consideramos interessante como o narrador nos diz que ele é. Em compensação, Rosália, sua criação, é uma das deliciosas vilãs de Balzac. É ela que mantém nosso interesse pelo romance.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Uma Estreia na Vida (fevereiro de 1842)

Volume II: Estudos de Costumes – Cenas da Vida Privada (lido entre 5 e 27 de outubro de 2009)

Um Estreia na Vida (fevereiro de 1842)

Personagens: Pierrotin, sr. Moreau (intendente de Presles), sra. Moreau (Estela), conde de Sérisy, Léger (granjeiro), sr. Clapard, sra. Clapard, Oscar Clapard (Husson), Jorge Marset (ajudante do sra. Crottat - notário), José Bridau (falso Shinner), Mistigris (Leão de Lora), sr. e sra Raybert (novos intendentes), Grindot (arquiteto), Jacques Moreau (filho de Moreau), sr. Cardot (tio de Oscar), Camusot (genro de Cardot), sr. Desroches (advogado), Godeschal (aprendiz de Desroches), Marieta (irmã de Godeschal), F. Marset (irmão de Jorge).

A história se passa entre 1822 até “bem depois de 1835”.

Uma Estreia na Vida é uma pequena obra prima. Pequena porque curta. Obra prima, pois nela Balzac empregou toda a sua habilidade. Aqui ele é, como se denominava, um “historiador de costumes”, narrando, em 1842, para a posteridade a França das diligências que morrera com a chegada da estrada de ferro. E é também o hábil contador de histórias, quando extrai de um episódio cômico, que poderia se esgotar em si mesmo, toda a história de uma vida.
Em 1822, o conde de Sérisy, desconfiado de que seu intendente, Moreau, estava lhe roubando, apanhou, incógnito, o coucou de Pierrotin em Paris rumo a Presles. No carro, estavam os pintores José Bridau, que se fazia passar pelo famoso e já nosso conhecido Schinner; seu ajudante, Mistigris (que fazia trocadilhos o tempo inteiro); Jorge Marset, simples aprendiz de notário que se fazia passar por nobre militar cheio de honrarias; e nosso herói, Oscar Husson. Oscar, protegido de Moreau, sentindo-se inferiorizado pela aparente grandeza de seus companheiros de viagem, passou a revelar segredos do conde que conhecia pelas indiscrições de Moreau, que era amante de sua mãe, a senhora Clapard. As fofocas diziam respeito à relação do conde com a sua esposa. O nobre, furioso, despediu Moreau, e Oscar perdeu seu protetor. A senhora Clapard pediu, então, ajuda ao tio Cardot, ancião que aparentava austeridade, mas que, na verdade, era um pândego e amante de dançarinas. Cardot obteve posição para Oscar no escritório de Desroches e passou a custear-lhe a faculdade de Direito. Sob a proteção do sério Godeschal, tudo ia bem para o jovem Oscar. Até que ingressou no escritório o irmão de Jorge Marset, e Oscar o reencontrou. Depois de uma comemoração, Oscar perdeu dinheiro do patrão no jogo e, embriagado, adormeceu, deixando de cumprir um compromisso do escritório. Desroches não perdoou e Oscar foi despedido. Restou a ele o serviço militar. Moreau melhorou a situação de seu protegido, conseguindo que ele ficasse sob às ordens do filho do conde de Sérisy. Em uma batalha na África, Oscar salvou a vida do jovem de Sérisy e perdeu um braço.
Anos depois, os mesmos personagens se encontraram em um carro rumo a Presles. José Bridau, já pintor famoso; Pierrotin, empresário rico; Léger, também rico; Jorge Marset, decadente; e Oscar, um circunspecto burguês que acabou casando com a senhorita Pierrotin. Descobrimos também que o senhor de Canalis, pretendente de Modesta Mignon, desposou a filha de Moreau.
O que faz de Uma Estreia na Vida uma história tão deliciosa? Muitas coisas, mas julgo que a principal é o toque de vida real dos persongens. Oscar é um herói que, a princípio, não provoca nenhuma empatia. A gafe que compromete seu futuro é fruto de sua vaidade e mediocridade. Tempos depois, cai na armadilha de Jorge e, novamente, desperdiça uma oportunidade. O que se espera, a partir daí, é a decadência. Contudo, ele se torna um ótimo militar, com caráter suficiente para arriscar a vida e salvar o filho do homem que o prejudicou. E assim são as pessoas reais, capazes do tolo e do sublime, capazes de cometerem erros e de os corrigirem. No princípio, estranhamos um herói tão infantil e antipático. Contudo, eis nós leitores, algumas páginas depois, lamentando as suas desventuras e torcendo por ele.
Os outros personagens também são deliciosamente reais. Moreau, que rouba descaradamente o patrão, não mede esforços para ajudar o filho da amante. A senhora Clapard cega, como todas as mães, à nulidade do filho. Desroches, justo e reto advogado, que acaba sendo injusto com o jovem herói. O tio Cardot, que salva Oscar por amor à sua dançarina. Como diz Rónai, “em cada um deles encontraremos essa incoerência orgânica que é a prova mais inequívoca da vida real”.
Em Uma Estreia na Vida Balzac utilizou uma experiência pessoal que irá aparecer em outros romances: sua vivência forense. A partir de novembro de 1816, Balzac passou a frequentar aulas de direito na Sorbonne. Porém, naquela época, não era na faculdade que se aprendia ciência jurídica, mas na posição de aprendiz em um escritório de advocacia ou tabelionato. Entre 1816 e abril de 1818, ele trabalhou no escritório de Guillonet-Merville, que ele viria a homenagear com o personagem Derville. Entre 1818 e meados de 1819, Balzac trabalhou para o tabelião Victor Passez. É esse o ambiente que ele descreve no escritório de Desroches. A vida de um aprendiz forense era muito diferente da dos estagiários de hoje em dia. Era uma vida monástica. Eles moravam no emprego, onde também se alimentavam e eram vigiados pelo patrão. Havia uma rígida hierarquia - primeiro, segundo, terceiro ajudante, primeiro, segundo, terceiro escriturário - e ascender nela era uma questão de mérito. Também há relatos das pilhérias e brincadeiras, como os jantares consignados em ata, em um dos quais nosso herói se perdeu. Aqui, mais um oportunidade para conhecer Balzac “historiador de costumes”.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Modesta Mignon (julho de 1844)

Personagens: Simão Babylas Latournelle (notário), senhora Latournelle, Exupério Latournelle, João Butscha, Dumay, senhora Dumay, Carlos Mignon (duque de La Bastie), sra. Mignon (Betina Wallenrod), Modesta Mignon, Betina Carolina Mignon (falecida em 1827), Jorge d´Estourny (sedutor de Betina), Vilquin, Gobenheim (banqueiro), Canalis (Constante Ciro Melchior), Ernesto de la Brière, Duque d´ Herouville.
A história se passa em 1829.
Modesta Mignon encerra o volume I da Comédia Humana. Aqui somos apresentados a uma das especialidades de Balzac: fazer retratos minuciosos da vida provinciana. Balzac ambientava suas histórias em diferentes locais da França para cultivar leitores em toda parte. Modesta Mignon se passa no Havre na região da Bretanha.
Antes de comentar a história, é preciso conhecer o aporte autobiográfico do romance. Balzac recebia centenas de cartas de seus leitores e, especialmente, de suas leitoras. No início de 1832, o escritor recebeu uma carta postada em Odessa e assinada por "Estrangeira". Assim, iniciou a sua correspondência com a condessa polonesa Eveline Hanska que se tornaria sua amante e, depois, sua esposa. Em 1844, Eveline, já viúva e noiva de Balzac, escreveu de Wierzchownia na Ucrânia uma carta em que sugeria ao noivo a ideia para a historia de Modesta Mignon. Uma jovem envia cartas ao seu poeta favorito. Todavia, quem responde é seu secretário e a moça se apaixona pelo secretário julgando ser ele o célebre artista. Detalhe: as primeiras cartas de Eveline foram respondidas por Zulma Carraud, amiga de Balzac. Ele só passou a escrever para Hanska após a terceira carta. E, não por acaso, Modesta Mignon, era um pouco estrangeira: sua mãe era alemã.
Já no início, Balzac põe o leitor a prova com uma descrição longa e minuciosa. Estamos em 1829 e Carlos Mignon, rico comerciante do Havre que perdera a fortuna, estava em viagem procurando reconstruir seu patrimônio. Deixou no Havre a esposa, alemã, e as duas filhas, Betina e Modesta. Betina fora seduzida por um corsário e abandonada, tendo falecido logo após. Modesta, filha preferida de Carlos, era, portanto, vigiada e guardada com a vida pelo fiel amigo de seu pai, Dumay. A vigilância, contudo, era física e não intelectual. Modesta lia avidamente literatura inglesa, francesa e alemã. Balzac, lido principalmente por mulheres, julgava a literatura perigosa para moças. Lembram-se de Augustina Guillaume? Foram as leituras às escondidas que a guiaram à paixão desastrada. Um dia, Modesta resolveu escrever uma carta ao seu poeta preferido, o senhor de Canalis. Quem recebeu e respondeu a missiva foi seu secretário, Ernesto de La Brière. Passaram a trocar cartas. Assim, Modesta se apaixonou por La Brière julgando ser ele Canalis. Nesse meio tempo, Carlos Mignon retornou com fortuna maior do que antes possuía. Modesta tornou-se uma rica herdeira. A impostura de Ernesto foi descoberta pelo dedicado pai. Canalis, por seu lado, ao saber que sua admiradora era muito rica, ficou interessado. Carlos Mignon resolveu então que Modesta deveria conviver com Canalis e La Brière para ver qual dos dois mais lhe agradava. O Duque d´Herouville também participaria da corte. Após um começo no qual Canalis levou a melhor, ficou evidente para Modesta as diferenças de caráter entre os pretendentes. La Brière era um jovem inteligente, esforçado e estava muito apaixonado, ao passo que Canalis era um dândi, um tanto pedante, em busca de uma esposa rica que sustentasse seus luxos em Paris. Modesta fez, então, a escolha certa.
O desfecho de Modesta Mignon contrasta com o de Ao Chat-qui-Pelote e Memórias de Duas Jovens Esposas. Por que Balzac não fez Modesta casar com Canalis e amargar a infelicidade como Augustina e Luísa de Chaulieu? Segundo Paulo Rónai, porque Modesta é, de certa forma, Eveline Hanska. Mas julgo que haveria contradição se Modesta casasse com Canalis e fosse feliz com ele. Modesta apaixonou-se pela poesia de Canalis, mas escolheu racionalmente La Brière. Talvez Balzac não fosse exatamente contra o amor romântico, mas favorável a escolhas racionais para a vida a dois.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A Bolsa (maio de 1832)

Personagens: Hipólito Schinner, Adelaide de Leisegneur, Baronesa de Rouville, cavaleiro Du Halga, conde de Kergaroüet, Francisco Souchet.

A história se passa no reinado de Luís XVIII, ou seja, entre 1815 e 1824.

A Bolsa é um conto mal acabado de Balzac. Longas descrições, uma situação de suspense e um final feliz muito forçado.

O jovem e promissor pintor de quadros Hipólito Schinner instala seu ateliê no último andar de um velho prédio. Distraído, caí de uma escada e desmaia. Ao acordar, está na presença de suas vizinhas que, ao ouvir o barulho da queda, o socorrem. Trata-se de uma bela jovem, Adelaide de Leisegneur, e de sua mãe, a baronesa de Rouville. No dia seguinte, Schinner vai ao apartamento das vizinhas agradecer pela ajuda. Eis o ponto alto do livro, a descrição do apartamento: "Para um observador, havia um não sei quê de desolador no espetáculo daquela miséria, que se assemelhava a maquilagem duma mulher velha que ainda quer se dar ares de moça". É a descrição que lança a ambiguidade sobre a vida de Adelaide e de sua mãe: eram elas simples mulheres que viviam em uma pobreza decente após um passado de riquezas? Ou eram mulheres de caráter duvidoso? Balzac aponta o tempo todo para a segunda hipótese. O nome da filha diferente do da mãe. Os cavalheiros idosos, Du Halga e conde de Kergaroüet, que frequentavam o apartamento, e as liberdades que tomavam com Adelaide que para Hipólito ora pareciam as de um pai, ora não. A avidez da baronesa pelo jogo. E, finalmente, o desaparecimento da bolsa de Hipólito com quantia considerável de dinheiro. O desfecho é decepcionante. Após alguns dias de dúvidas e sofrimento, Schinner descobre que Adelaide subtraíra sua bolsa para substituí-la por outra feita por ela. E o pintor é informado de que o conde de Kergaroüet, apiedado da difícil situação financeira da baronesa, perdia voluntariamente no jogo para ajudá-la, já que ela se recusava a aceitar dinheiro.

Balzac poderia ter deixado alguma ambiguidade no conto. Paulo Rónai chama a atenção, na introdução, para o alinhavo da história do jogo. O autor lança tantas sombras sobre o caráter da heroína, que o desenlace é totalmente insatisfatório. No início da história ele diz: "Nenhum pintor de costumes se animou, talvez por pudor, a nos iniciar na intimidade de certas existências parisienses, no segredo dessas moradias de onde saem tão frescas, tão elegantes toilletes, mulheres tão brilhantes que, exteriormente ricas, deixam em tudo os sinais de uma fortuna equívoca". Eis uma tema que Balzac trabalharia com maestria. Mas em A Bolsa ficamos só com a expectativa.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Revolução de 1989 – A queda do Império Soviético


Lido entre 4 e 21 de setembro de 2010

Existe uma enorme diferença entre estudar episódios históricos dos quais temos lembranças e, dos quais não temos. Explico: Victor Sebestyen, jornalista húngaro que escreveu A Revolução de 1989 – A queda do Império Soviético, situou o seu relato entre 1978 e 1989. Assim, tenho memórias relacionadas aos personagens ou fatos dessa história. Ter a história relacionada a nossa memória pessoal faz muita diferença.

Como quase a totalidade das crianças da minha geração, cresci com medo de uma guerra nuclear. Quando tinha sete ou oito anos e estudava numa escola católica, pedia nas minhas orações antes de dormir que os presidentes dos Estados Unidos e da União Soviética não apertassem o botão. O mundo comunista, ou o pouco que chegava dele para nós, era objeto de medo e fascínio. Lembro das Olimpíadas de Moscou em 1980. Víamos pela televisão as ginastas perfeitas dos países comunistas. Os adultos nos diziam que aqueles jovem vencedores eram separados dos pais ao nascerem e o Estado definia o que eles deveriam fazer. O que poderia ser mais aterrorizante para uma criança do que a perspectiva de ser separada dos pais? Nós morríamos de medo. Lembro do funeral de Leonid Brejnev em 1982. Da beleza sinistra dos soldados marchando em passo de ganso.

Victor Sebestyen faz uma reportagem histórica, ou seja, ele não analisamuito os fatos: narrou em ordem cronológica os acontecimentos mais importantes. E se ate maos países da famosa cortina de ferro: Polônia, Hungria, Tchecoeslováquia, Romênia, Bulgária, Alemanha Oriental e, naturalmente, a União Soviética. Ele sublinhou as diferenças entre o comunismo implantado nos países e como essas diferenças se refletiram na sua queda.

Também há uma ênfase nas biografias. O Papa Joâo Paulo II, Ronald Reagan, Lech Walesa, Mikhail Gorbachev, Nicolai Ceuscescu, Vaclav Havel são protagonistas, com uma queda explícita do autor por Reagan e Gorbachev. Reagan é apresentado como um idealista, um homem cujo maior desejo era acabar com a guerra fria. Sebestyen diz que ele não revelava o que realmente pensava e que tinha ferrenhos embates com seus assessores linha-dura. Chega a dizer que Reagan não revidaria em caso de ataque soviético, o que é muito difícil de acreditar. Gorbachev é apresentado como um inteligente soldado do comunismo que ocultou por muito tempo suas ideias liberalizantes para colocá-las em prática ao chegar ao poder. Não queria, de forma alguma, acabar com o comunismo, mas reformá-lo. Por outro lado, não pretendia manter mais a zona de influência soviética, de modo que nem cogitou intervir em nenhuma das revoluções de 1989. Aparece como uma personalidade cativante, inspirada, mas um pouco inseguro e nada organizado. Selbestyen revelou algo que pode ser adivinhado por aqueles que conhecem o que aconteceu com a União Soviética após 1989: Perstroika e Glasnost eram só palavras, não havia um plano por trás.

O ano de 1989 é narrado praticamente mês a mês. Um dos destaques é para a queda do muro de Berlim em 9 de novembro de 1989 que foi motivada por um erro de Günter Schabowski em uma entrevista coletiva. O funcionário do partido comunista foi anunciar uma lei que permitia a saída dos alemães orientais pelos postos de fronteira. Era uma medida de urgência para solucionar o êxodo de alemães pela Hungria e Techecoeslováquia que vinha ocorrendo. Peguntado por um jornalista americano quando a regra passaria a valer, Schabowski respondeu "imediatamente". Isso gerou a enorme aglomeração nos postos junto ao muro que provocou a sua queda no início da madrugada.

Os eventos na Romênia dão o tom dramático. Lá, praticamente não havia oposição organizada. O ditador Nicolai Ceuscescu era temido e reverenciado, embora odiado pela maioria da população. A revolução foi desencadeada por incidentes na cidade de Timisoara, na Transilvânia. A repressão e os boatos espalhados levaram o ditador a organizar um comício em Bucareste para mostrar que estava no poder e que nada iria mudar. Quando discursava, as vaias começaram e Ceuscescu saiu dali praticamente em fuga. Foi formada uma frente de Salvação Nacional. Em todo país, oficiais da Securitate, polícia secreta do regime, passaram a atacar: foram 1104 mortes em toda a Romênia. A solução foi o julgamento e a condenação a morte de Ceuscescu e de sua esposa, Elena. Em 25 de dezembro de 1989, o casal mais temido do país foi julgado, de forma totalmente irregular, e enfrentou o pelotão de fuzilamento.

Victor Sebestyen não esconde seu profundo ódio ao comunismo. Sua análise das personalidades é um tanto maniqueísta: comunistas maus/anti-comunistas bons. Figuras como Vaclav Havel e Lech Walesa aparecem somente com qualidades. Ele chega a dizer que as acusações de infidelidade conjugal contra Walesa eram fofocas, que ele era fiel a sua esposa Danuta! Como Sebestyen sabe?

Mas o autor consegue, com um relato cronológico, prender a atenção do leitor do início ao fim. É uma leitura obrigatória para quem gosta de história recente ou quer testar sua memória afetiva.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Memórias de Duas Jovens Esposas (1841)

Personagens: Luísa de Chaulieu, Renata de Maucombe, Miss Griffith (governanta de Luísa), Filipe (criado de Luísa), duque e duquesa de Chaulieu, senhor de l´Estorade, Luís de l´Estorade, Barão de Macumer (Felipe Henarez), senhor de Canalis, duque de Rethore (Afonso, irmão de Luísa), dançarina Túlia, Duque de Sória, Maria Herédia, duquesa de Mafrigneuse, Henrique de Marsay, Maria-Gastão, Daniel D´Arthez, José Bridau.
A história inicia-se em 1822 e termina em 1839
Em Memórias de Duas Jovens Esposas, Balzac utiliza a forma espistolar para narrar a evolução da amizade de Luísa de Chaulieu e e Renata de Maucombe depois que elas saem do convento. Após uma adolescência de sonhos compartilhados, cada amiga seguirá seu caminho. E Balzac usa esses caminhos, totalmente distintos, para trabalhar um tema que já havia aparecido em Ao "Chat-qui-pelote": o casamento por amor versus o casamento de conveniência, com o segundo levando a melhor.
Renata sai do convento diretamente para o casamento com Luís de l´Estorade, um ex-prisioneiro das guerras napoleônicas, precocemente envelhecido e muito circunspecto. Luísa vai brilhar na sociedade de Paris. Lá conhece Felipe Henarez, professor de espanhol, por quem sei apaixona. Após um namoro cavalheiresco, quase medieval, ela descobre que Felipe é uma exilado político e Barão de Macumer. Se casam em estado de profunda paixão. Enquanto isso, Renata tem três filhos com Luís: Armando, Atenais e Renato. Luís torna-se nobre e, com a ajuda de Renata, obtém bons cargos no governo. Luísa não engravida e, após alguns anos de felicidade, Macumer morre. Cinco anos depois, Luísa, viúva, casa-se com o jovem e pobre poeta Maria-Gastão. Para proteger seu amor excessivo e ciumento, isola-se com Gastão em um chalé fora de Paris. Depois de um tempo, desconfia da fidelidade do marido que surpreende com uma mulher em Paris. Antes de saber por Renata que a mulher era a cunhada viúva que Gastão ajudava em segredo, Luísa, desesperada, provoca uma tuberculose e morre.
Há aqui dois contrastes: a vida escolhida por Renata e a vida escolhida por Luísa, e o primeiro e o segundo casamento de Luísa. Assim como Virgínia foi melhor sucedida que Augustina em Ao"Chat-qui-pelote", Renata, que parece vítima no início da história, termina feliz, mãe de três lindas crianças e ao lado de um homem de quem se orgulha. Luísa, após um romance de livro, com um homem belo e rico, termina, como sugere Balzac, "causando" a morte do marido pelo enfado produzido pelo amor. Em uma carta, escreve-lhe Renata: "(...) tu não o amas. Antes de dois anos te cansarás dessa adoração. Nunca verás em Felipe um marido, e sim um amante, do qual sem a menor preocupação farás teu brinquedo (...). Não, ele não se impõe a ti, não lhe tens esse profundo respeito, esta ternura cheia de temor, que uma verdadeira amante dedica àquele que vê como um Deus". É, nas palavras de Paulo Rónai, um amor inspirado. E Balzac, ao acrescentar o segundo casamento de Luísa, o contrasta com o amor sentido. Luísa ama Maria-Gastão muito mais do que ele a ama. Ela está aqui no lugar de Felipe de Macumer. Mas o romance é igualmente mal sucedido. É a tese muito repetida por Balzac de que o casamento exclui o amor e a paixão destrói o casamento.
Outro ponto interessante de Memórias de Duas Jovens Esposas são as descrições minuciosas das situações relacionadas à maternidade: o parto, a amamentação, as doenças dos filhos. Aqui Balzac utilizou sua vasta correspondência e longas estadas em casa de Zulma Carraud, que foi uma espécie de modelo de Renata. É impressionante que um homem do século XIX, que não teve filhos (ao que tudo indica, teve uma filha, mas não acompanhou seu crescimento), soubesse de tudo aquilo! Balzac, definitivamente, entendia de mulheres.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Na pior em Paris e Londres


Lido entre 28 de agosto de 3 de setembro de 2010.

Nunca mais vou entrar em um restaurante sem pensar em George Orwell.

Na Pior em Pais e Londres enquadra-se hoje na categoria jornalismo literário. Todavia, na época em que foi publicado, 1933, não se enquadrava em coisa nenhuma. Tanto que seu autor, Eric Arthur Blair, após ver seu manuscrito rejeitado por duas vezes, mandou que uma amiga o jogasse fora. Essa sábia mulher, a brasileira Mabel Sinclair Fierz, enviou o material a um agente literário e salvou Na Pior em Pais e Londres para a posteridade.

O jovem Blair, filho de um funcionário do império britânico na Índia, apesar de não ser rico, foi educado nos melhores colégios da Inglaterra. Aos 19 anos, ingressou na polícia colonial britânica na Birmânia. Tomado de ódio ao imperialismo, abandonou o emprego e resolveu conhecer a pobreza de perto. Viveu quase dois anos em Paris trabalhando como plongeur, lavador de pratos, em um hotel de alto padrão e, após, em um restaurante. Depois, rumou para Londres onde viveu como mendigo nas ruas e em albergues públicos.

É essa experiência que está relatada em Na Pior em Pais e Londres. Blair poderia somente contar suas desventuras e o livro já seria interessante. Mas ele é um analista, um pensador. Reflete sobre o que observa, busca o que está por trás da miséria, da fome, do desespero que vivenciou.

Para mim, o ponto alto do livro é a descrição do trabalho no Hotel X. Blair foi lavador de pratos lá e descreveu como um antropólogo o ambiente e as relações de trabalho. Havia uma hiererquia rígida entre os funcionários e um código não escrito seguido estritamente por todos. Da mesma forma, Blair identificou a dignidade ligada ao trabalho, mesmo aos pior remunerados e mais vis. " Não obstante, por mais que estejam por baixo, os plongeurs também demonstram um tipo de orgulho. É o orgulho do burro de carga – o homem que suporta qualquer quantidade de trabalho. Nesse nível, o mero poder de trabalhar como um boi é a única virtude alcançável".

A parte engraçada (e para quem vai a restaurantes, de humor negro) é a descrição da sujeira da cozinha e da falta de higiene com que as caras refeições servidas aos fidalgos no salão eram preparadas. Algumas passagens são nauseantes. "Por exemplo, quando um bife é levado para a inspeção do cozinheiro-chefe, ele não o manuseia com um garfo. Ele pega a carne com os dedos e joga-a de volta no prato, passa o polegar ao redor do prato e o lambe para experimentar o molho (...), depois o empurra carinhosamente para o lugar com seus dedos gordos e rosados, os quais já lambeu cem vezes naquela manhã. Quando se dá por satisfeito, pega um pano e limpa as suas digitais do prato e o passa para o garçom. E o garçom, claro, mergulha os seus dedos no molho – os dedos asquerosos e engordurados que está sempre passando pelos seus cabelos cheios de brilhantina. Sempre que alguém paga mais do que, digamos dez francos por um prato de carne em Paris, pode ter certeza de que ele foi manuseado dessa maneira". E há coisa piores. Blair diz que a sujeira é inerente aos hotéis e restaurantes, pois a comida saudável é sacrificada em nome da pontualidade e apresentação.

Na parte referente a Londres, é bastante interessante a descrição sobre a rotina dos mendigos que circulavam nos albergues públicos. As leis contra a vadiagem impediam que se pernoitasse dois dias seguidos no mesmo local, o que obrigava os indigentes a caminharem quilômetros em busca de outro local para dormir e receber uma reação que mal garantia a sobrevivência. E a óbvia observação sobre o desperdício de energia e dinheiro que a circulação de um exército de mendigos pelo país representava.

Há também no livro uma deliciosa galeria de tipos: o garçom russo, o culto grafiteiro inglês, o mendigo Paddy e muitos outros.

Ao final, diz Blair: "Ainda assim, posso apontar duas ou três coisas que definitivamente aprendi vivendo duro. Nunca mais vou pensar que todos os vagabundos são patifes bêbados, nem esperar que um mendigo se mostre agradecido quando eu lhe der uma esmola, nem ficar suspreso se homens desempregados carecem de energia, nem contribuir para o Exército da Salvação, nem empenhar minhas roupas, nem recusar um folheto de propaganda, nem me deleitar com uma refeição em um restaurante chique. Já é um começo."

Quando foi acertada a publicação do livro, Blair resolveu escolher um pseudônimo: "Não tenho uma reputação a zelar, e se o livro fizer sucesso, poderei usar o pseudônimo novamente". Eric Arthur Blair escolheu George Orwell.